Coisa de vó

jul 20

Dona Ormezinda se chama assim mesmo. Ormezinda. Analisando etimologicamente, podemos reparar com facilidade que esse nome significa águia (órmee) besuntada (zynda), em hebreu. Minha tataravó, que surpreendetemente não era judia, ao ver sair de seu ventre uma linda criança imunda e com olhos aguçados, resolveu dar esse nome para a filha (que acabou dando para neta também. Tataravó é mãe de bisavó que é mãe de vó, certo? Minha vó seria uma Ormezinda Júnior se fosse homem, entendeu?).

Esse parágrafo inteiro é uma imensa mentira. Tirando os nomes, é claro. Resolvi começar logo com uma lorota porque as informações que trarei provavelmente possuem enormes imprecisões históricas. Então, para que você não se apegue a possíveis mentiras (coisa que todo mundo faz sem perceber na vida), leia com dois metros de distanciamento.

Pelo que consta nos arquivos confidenciais do Faustão e da minha família, a minha avó foi filha de uma vendedora de rosas. O meu bisavô, de cujo nome não me lembrarei jamais, era barão na Itália e tinha o estranho hábito de guardar todo o dinheiro debaixo do colchão. Ele temia que o Fernando Collor confiscasse a poupança dele. Tudo bem que esse medo era meio precoce, afinal, estamos em 1910 ainda. Mas medos são medos, acontece. Vai que ele era vidente?

Essa fortuna guardada no colchão era uma partilha entre ele e o sócio. Vocês já podem imaginar que, seguindo a etimologia “sócio” = “filho da puta”, na relação entre eles um iria se fuder, certo? Na verdade quem se fudeu de verde e amarelo foi a minha bisavó. Quando meu biso foi para o céu, a pobre vendedora foi recorrer à salvaguarda monetária que havia no colchão, afinal, a menos que você venda rosa para o Elton John, é difícil levar uma família só com esse ofício. A surpresa é que o desgraçado do sócio surrupiara tudo assim que meu bisavô tinha morrido. Ou seja, é aí que começa a desgraça financeira da família Staite. Bem, na verdade essa é a minha desculpa, pois falar que as gerações da minha família foram incompetentes e nada acumularam dói demais em mim. Ah! Agora eu reparei que se meu bisavô fosse vidente, ele veria que o sócio era um ladrãozinho mequetrefe. Ele era burro mesmo… Ou apaixonado pelo sócio. São detalhes que nunca saberemos.

Estou escrevendo sobre a minha avó primeiro porque não tenho maturidade para escrever sobre temas consistentes, de alguma valia para a sociedade, segundo, porque o dia da avó está aí e seria uma afronta familiar não escrever sobre a simpática velhinha.

A minha avó tem algumas manias que a sua provavelmente tem também. Ela dificilmente me chama pelo nome, porque se o fizesse, todos os meus parentes atenderiam primeiro. Por que nossos avós listam a família inteira antes de te chamar?

- Ô Dulce, Raphael, Jaqueline… Ô Pedro!

No “Jaqueline” eu já sei que é comigo. Isso quando ela não me chama de “garoto”. Eu até entendo, porque “garoto” não tem erro, seja lá com que idade, afinal, como ela é a grande matriarca, todos os homens da família – que não passam de 55 anos – são garotos no fim das contas.

Outro vício de dona Zinda é a preocupação alimentar. Sempre quando a comida está na mesa, ela diz “Tá na mesa… Vai esfriar!”. Se ela fala somente o “tá na mesa”, eu espero aqueles quatro segundinhos rotineiros, porque eu sei que o “Vai esfriar” está chegando. E é engraçado porque a aflição dela quando não estou na mesa é tanta, que parece eu vou morrer de fome se a comida esfriar um grau. Só que não é só isso, parece que a nossa ligação gastro-sentimental vai matá-la de fome também. Acredite, é aflição (e amor, por que não?) demais.

Minha avó tem 87 anos, xinga, cozinha e vive dizendo que já me deu tanto banho que não entende porque eu tenho vergonha de mostrar minhas partes íntimas para ela (calma, não que ela peça para ver. É tipo quando estou saindo do banho, sei lá, você entende, né? Não vá pensar que a minha vozinha é uma maníaca tarada. Ela é só tarada… Maníaca não. É mentira!!!). Ela tem que entender que eu cresci, e essa é a tarefa mais difícil para avós aprenderem – que os netos crescem.

Fui criado por vó. Tenho vários amigos que sacam todas as brincadeirinhas de rua, que, sei lá, tiveram aquela infância de moleque, sabe? Que quebraram já todos os ossos, se rasgaram com cerol, jogaram bola no paralelepípedo quente e cheio de vidro moído… Eles costumam me zoar falando que eu sou menininho de apartamento, que jogava bola no carpete e soltava pipa no ventilador. Vou fazer o quê? Voltar no tempo, matar a minha avó, entregar o apartamento, alugar uma casa com crianças e paralelepípedos e ir ao Xota Quente (o puteiro da rua) aos 12 anos? Ué, foi a vida. Mas, apesar de não ter desenvolvido esse lado malandro, vovó me ensinou a ler quando eu tinha quatro anos. Tudo tem seu lado bom.

E vovó idem, só que com a habiliadade de ter um lado bom enorme e um ruim pequenino como o meu pintinho na época em que ela me dava banho.


5 Comentários

  1. Na minha família, a pressa para que todos cheguem à mesa antes da comida “esfriar” parece ser hereditária. Todos os meus ascendentes e irmãos deles parecem ter o costume de alertar aos filhos sobre isso. Até me imagino daqui a algumas décadas chamando as crianças antes que a comida esfrie.

  2. Rayssa T. /

    É… pensava que o negócio dos 300 nomes antes do meu só acontecia comigo. É… tem tudo a ver. Vó é um tipo de padrão, com uma pitadinha de autenticidade a mais para dar ênfase àquela característica que a diferencia das outras. É, viajei, eu sei. Mas só porque me emocionei profundamente com esse texto. Lembrei de vovó. Aaahhh… aquela adorável velhinha com cheiro de Alfazema que cozinha, xinga e troca seu nome, mas você ama mesmo assim. Parabéns, texto ótimo. :D

  3. Eu esqueci o dia da avó! =O
    Eu sou muito malvada e cretina!

  4. Eu também esqueci esse dia, putz…vovó, mega importante na minha vida.
    Pedro, sempre que começo a ler seus textos começo sério, e geralmente não consigo terminar de uma só vez, pois como quem me conhece sabe, rir e fazer qualquer outra coisa, por mais idiota que seja, é impossivel…
    Abraços

  5. Putz, encontrei por acaso este blog, agora, em fevereiro de 2010. Foi um achado arqueológico. De qualquer forma valeu pois o texto é bom e pude mostrar pros meus netos que essa coisa de trocar os nomes não é exclusividade minha. Agora, passar a manhã na cozinha, dizer que tá na mesa e ninguem levantar o bumbum do sofá, já é demais. O problema é que inventaram essa história que avó não bate nunca. Mas que dá vontade dá. Aí que é que eu faço. Eu digo: criançada (todos tem menos de 55 anos), vou contar até 3. Quem não tiver na mesa com as maos lavadas fica sem tv, video, mp3, 4 e 5 , radio, tambor, etc. esta noite. E não é que funciona!!!

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