Céu
jun 10
“É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” (Caio Fernando Abreu)
Sinto sua falta. Falta do que na verdade, nunca passamos. Das tardes juntas que nunca tivemos e das memórias que eu inventei, e saudades reais de um diazinho na cafeteria, um dia de beijos na testa e olhares de longe, eu dizia “Ta tudo bem” e você me respondia “Sempre”, mas sem falar. Não falamos nada além do necessário e ríamos muito. Riamos por uma vida toda, e sabíamos que seria possível para pessoas como nós, chorar na mesma proporção. E dias incontáveis depois, fizemos. E voltamos a fazer tantas vezes que me esqueci de contar.
Mas os risos eu contei. Um por um. Seu, meu, seu e meu… Nessa ordem, e assim continuou depois do sorvete de manga, do café da outra mesa e da troca de jaquetas dos nossos amigos.
Naquele dia, sentadas no banheiro, eu me via pelo espelho que tomava conta da parede inteira, e percebi então que esses mesmos amigos, me deixam mais jovem, menos suicida, e um pouco nostálgica.
Mas depois do dia acabar, eu ainda desejava que você estivesse lá, que toda a essência que eu amo em você estivesse lá, todas suas dores e alegrias também. Porque você sorria pra mim, mas eu não queria aquele sorriso. Era uma pessoa que escondia tanta coisa, que quando eu sorria de volta, você também não queria o meu.
Os cantos da sua boca, faziam uma força quase que desagradável para sorrir. Você não queria estar ali, queria?
Tanta gente, tanta luz, tanto chão, que desespero.
Preciso te contar, te entupir com minhas historias, como se você não tivesse as suas, você nunca as fala, você nunca as renova, e lá no fundo, acho que as minhas te deprimem.
Escrevi bem grande num caderno que achei na gaveta: “Desejos violentos tem fins violentos”, a letra ta horrorosa e foi a lápis. Acho que vi essa frase na TV, ou coisa parecida. Sei que você a tem dentro de algum caderno também, ou pelo menos, deveria ter. Escreva ela na madeira, no cimento, na pele, no osso, mas escreva. E leia todos os dias. Leia até que faça parte de você.
Sabe, acho que me desliguei da vida. Isso é possível? Ultimamente tudo tem parecido um boteco sujo, com pessoas sofridas e feias em cadeiras de plástico, que não param de falar todas juntas algo incompreensível, que não deu a menor motivação para tentar entender.
Elas são todas umas fingidas, Céu. Fingem até a comida que comem e a água que bebem. E por mais podres que possam ser, são elas que desde muito tempo venho tentado exorcizar, com seus murmurinhos ensurdecedores em tudo que vejo, faço e sou, e conforme o tempo passa, como chiclete no cabelo, mais elas grudam.




cafeteria, sorvete de manga, sentadas no banheiro com espelho q ocupa a parede inteira? soa familiar… tenho uma foto na minha frente com 5 mocinhas elegantes num dia muito especial
Eu não sei porque raios fui futucar teu blog e reli a carta que me desse.
Hoje eu podia ter lido qualquer coisa de qualquer pessoa, mas a carta, aquela carta me deixou em prantos.
Porque aquelas palavras me trouxeram uma lembrança que na verdade vive em mim, jamais saiu, de uma época tão turbulenta, que eu vivia com plenitude e agora, depois de fingir que eu consigo “viver” sufocando isso, eu achei a carta.
E em fraçoes de segundos tudo voltou. Na mesma intensidade. As mesmas dores. Aquele mesmo amor que nunca se foi, mas eu me contei uma historinha pra boi dormir e fingi acreditar que eu seguiria em frente “apesar de”…
Céus, neste exato momento, aqueles dias me doeram com tanta verdade que eu podia até sentir meus cabelos caindo novamente…
Eu tenho cada conversa nossa susurrando no meu ouvido. Cada choro meu e teu que dividiamos nao por sermos apenas amigas, mas por partilharmos do mesmo sentimento. Porque tu sabia na pele o quanto doía em mim e a dor que te causaram era toda minha.
Meu cabelo cresceu, eu vi meu corpo fisico se livrar de todas aquelas chagas, mas agora eu li a carta e eu vi que minha alma continua lá, naquele instante, gritando pelos meus poros o quanto eu ainda o amo e sempre vou amar. Se eu pudesse vomitar em palavras tudo que eu sinto por aquela criatura eu faria um novo aurelio, um pequeno dicionario amoroso so com palavras sem definição, um dialeto vasto de ternura e angústias, brincando numa contradição avassaladora. E eu usaria cada palavra intensamente. Como tudo em mim que vem dele. Como o que dele em mim que nao tem fim.
Eu daria tudo agora pra voltar numa tarde daquelas em que eu fui feliz, no tom exato da palavra. Sem sorrisos disfarçados. Sem abraços que na verdade são atalhos perigosos pra abafar uma carência sem fim. Sem beijos na testa que me faziam chorar porque eu queria aquilo, não necessariamente daquela boca. Sem me dar conta do que me tornei, das direções que não tomei, das escolhas que não fiz, do destino que eu aceitei.
Eu pediria aos céus apenas pra olhar naqueles olhos de novo, aqueles olhos de onde um dia eu vi sair tanto amor, colocar a mão dele na minha e sentir so mais uma vez meu verdadeiro abrigo.
Eu sei que tu entende o quanto ainda é, como sempre foi, imensa a saudade e o amor. E o quanto eu finjo, que não doi ser amigo. Apenas isso.
“eu desistiria da eternidade pra toca-lo, porque eu sei que de alguma maneira ele ainda me sente…”
[Para Márina - carta resposta]