Archive for the 'Corra Mary' Category

Corra Mary

(…)

- E aí, linda, ta aonde?
- Ah, to numa festa com as meninas…
- Ta bom por aí?
- Ah, sim, ta ótimo. Excelente. Melhor impossível.
- Que pena. Ia te chamar pra dar uma volta.
- Eu já tava de saída mesmo.
- Ué, mas a festa não está boa?
- É que me deu uma dor de cabeça, sabe, e resolvi ir pra casa.
- Pra casa?
- Errr… Quer dizer, pra casa não. Apenas sair daqui.
- Vai pra porta que to passando em 10 minutos.

Você percebe claramente que está pagando o papel de maior idiota do mundo. E ele, muito inteligentemente, se aproveitando disso.
Babaca
(Só não sabe quem é mais: Você ou ele.)

Você corre pro banheiro, retoca a maquiagem, ajeita os peitos no decote, penteia o cabelo, passa perfume, escova os dentes, e promete a si mesma que se antes de chegar na portaria, ninguém te cantar ferozmente, você volta ao banheiro e faz tudo de novo (o porteiro não vale).

40 minutos depois…

- Nossa, ta lindona, hein? Tudo isso é pra mim?
- Ah, que isso, maior cara de fim de festa.
- Mas e então, me conte. Como estava lá?
- Ah, tava legal. As meninas que me convidaram. Te contei delas já. A Rê, a Má, a Le, a Pá, a Lu, a Cá e a Andressa.
- Andressa? Porque é a única que não tem apelido?
- Não dá, vai contra a política dos apelidos. Chamar de que? “An”?
E por falar nelas, elas tão me ligando. Devem ter estranhado eu sair correndo da festa.

Num impulso besta, para mostrar que é muito amada pelas amigas, não pensa duas vezes antes de ligar o viva-voz.

- PORRRAAAA, CARALHOOOOO. ONDE VOCÊ TÁ? TÁ TODO MUNDO AQUI PREOCUPADO COM VOCÊ.
- Oi gente. Fui embora com o…
- AHHH, SAFADINHA. VAI DAR! HOJE TEM! DEIXA EU CONTAR ISSO PRAS MENINAS:
PODEM FICAR TRANQUILAS, ELA TÁ DANDO!
- Errr… Hmmm… Posso te ligar quando chegar em casa?
- CLARO, VOCÊ É MINHA GAROTA, LEMBRE-SE SEMPRE DISSO. TE AMO, AMIGA! ALIÁS, NÃO SE ESQUECE DO QUE TE FALEI: VOCÊ NÃO PRECISA FICAR INSEGURA, A SUA INFECÇÃO URINARIA JÁ ACABOU. DERMACYD FAZ MESMO MILAGRES, NÉ?
AI, ACHO QUE TO PASSANDO MAL… ME LIGA DEPOIS, AMIGA.

Você desliga o celular, passa a mão no rosto enquanto pensa na melhor maneira de uma morte rápida e não dolorosa. Aqueles infernais segundos demoravam uma eternidade para passar. E você nunca odiou tanto suas amigas bêbadas, como naquela hora.
Ele corta o silêncio:

- Espirituosas suas amigas.
- Elas são assim mesmo.
- Mas então, preciso conversar com você.
- Sobre…?
- Nós.

Ahhh,é agora que ele vai te pedir em namoro.Você sabe disso. Não há outro motivo para ele sexta a noite sair da casinha dele, onde dormia tranqüilo, para encontrar com você. Mas… Pera lá. Que cheiro é esse?
É perfume de mulher, e se não é seu, ou ele trabalha como transexual de boate brega, ou não estava tão tranqüilo em casa assim.
Filho da puta.
E então você começa a rezar seriamente para seu quase-futuro-nem-tanto-assim-namorado ser Kelly Christine a noite.

- Fala logo e não faz rodeio.
- Minha ex me ligou hoje à tarde pedindo pra me ver.
- O que ela queria?
- Voltar comigo.
- E você disse o que?
- Tudo bem.
- Tudo bem o que? Tudo bem, você vai conversar e dizer que não, ou tudo bem, você vai voltar?
- Tudo bem, eu vou voltar.

Boa, garota. Você acabou de sair de uma festa falida, levou uma vomitada na sandália nova, suas amigas te fizeram passar por bichada na frente do boy. Que por sua vez, está te dando um pé na bunda, acabou de voltar com a namorada, você está apaixonada. E a poha do fds só está começando.

Você respira fundo, e tenta manter a calma.

- Ah, ta. Que legal.
- Não ta chateada comigo não, né?
- Claro que não. Porque eu estaria? Só porque você, o cara que eu estou saindo há meses voltou com a falecida ex, que eu nem sabia da existência, e me conta isso sem a menor cerimônia? Isso lá é motivo preu ficar chateada?  AHh, me dá um abraço aqui, moleque!
- Ta, calma. Deixa a ironia pra depois. Fiquei até assustado.
- Ei, porque essa é a terceira vez que a gente passa por aqui? Minha casa fica pra lá.
- Eu sei, é só pra ter mais tempo com você.
- Comigo? Não to te entendendo…
- Você sabe que eu sou apaixonado por você, né?
- Garoto, você acabou de voltar com a sua ex. Do que você ta falando?
- Lindona, você se prende muito aos detalhes.
- Para o carro que eu vou descer.
- Ah, não. Sem ataque de pelancas. Você não é disso, Gatinha.
- Não sou disso? Eu só quero ir pra casa e dormir. E você, deveria fazer o mesmo.
- Ta bom, ta bom. Te deixo em casa.

Filho da puta. Filho da puta. Filho da puta. No caminho todo, você só consegue pensar em uma coisa: Como uma mãe tem coragem de pôr um babaca desses no mundo?
Filho da puta…

- Pronto, entregue!
- Obrigada.
- Boa noite, e desculpa qualquer coisa, viu?
- Posso te fazer uma última pergunta?
- Claro.
- Ela é coelhinha da Playboy?

Corra Mary

Trecho 1
- Acorda, Anna. Acorda!
Pare de se lamentar pelo que não tem jeito.
Levante-se. Tanta beleza te espera, tantas pessoas, tanto de tanto, e você aqui, implorando permanência do seu desespero próprio, se enterrando cada vez mais fundo. E não me digas que sou seu salvador. Ninguém poderá te salvar agora, porque a salvação te seria uma desgraça. A poesia da sua vida é a sua tristeza, os dias em que sofre, chora e se joga no chão achando que não mais suportará; enquanto os dias de sol forte lhe são puro pavor.
Não te consumas, não consumas a mim, e não exijas o que não posso te dar.
Eu não posso te dar; mil vezes não posso, e convivo com isso a cada noite que deito na cama e nossas memórias são tão fortes, que quase sinto sua respiração. Mas por mais que machuque, ainda assim, eu vivo.
Nunca esperei felicidade de você, e se ao seu lado, minhas lembranças são felizes, fora porque eu as fiz assim.
Você quer viver eternamente em Romeu e Julieta, e qual clichê maior do que esse, para te lembrar que eles morrem?
Anna, bota na sua cabeça: Não se pode tomar veneno e esperar que se acorde como de uma noite de sono.
Qualquer dia, tanto amor te matará…

Trecho 2
E essa história poderia acabar com a morte de um ou de outro, e teríamos a vida inteira para pensar no que seria de nós, “caso se”.
Mas na vida real, não somos presenteados com um fim irredutível, ela é cruel e nos obriga a continuar, observando por trás da árvore, promessas destinadas a outra pessoa.

E quem seria eu, para chamá-la de pessoa errada? Não havia sido essa, a criação que minha mãe me deu.
Ela me criara para ser uma mulher como ela; infeliz, mas forte; ferida até a alma, mas nunca patética.

E desculpa, mãe, desculpa por não ser sua cópia mais exemplar, desculpa por te tirar o sono, pensando no que fizeram comigo, no que eu fiz a mim mesma, tão já sem esperanças e entregue a minha primeira decepção, que a fazia envelhecer 5 anos, enquanto eu envelhecia 10.
Não me fale em dia de amanhã, não me leia poemas, nem me dê conselhos; dê-me tempo, dê-me espaço para reconstruir tudo outra vez. Reaprender a engatinhar, a andar, a falar, a me alimentar, a evitar o fogo, a conhecer as pessoas, e a correr para a mamãe.

Sei que é isso que preciso fazer, mas é que dói, mãe, dói tanto que por mais que o tempo passe, eu ainda me vejo no mesmo lugar, na casa de Tia Helena, com Pipoca no colo, esperando Catharina dormir, para ele bater na porta, me chamando para “andar por aí”, porque era assim que ele falava.
Ele erguia as sobrancelhas, falava pausadamente, esticava a mão e era impossível de não segura-la.

Ainda o espero, penso que é só uma fase, mas dentro de mim, lá no fundo, sei que por mais que queira negar, nunca mais verei D. novamente. Ele era de Catharina, a Catharina pertencia, e com Catharina ficaria.
E ela teria que nascer de novo, para conseguir em uma vida inteira amá-lo o que eu amava a cada segundo.

Meu maior castigo era viver sem D.

Corra Mary

Corra Mary

“Uma pessoa olhando para um celular que não toca - não há cena mais idiota. Os celulares foram justamente inventados para que ninguém precise mais ficar aguardando uma ligação ao lado do telefone.”
(Fernanda Young)

Sexta-feira à noite. Você não estava lá muito animada para sair, mas por insistência das amigas, toma uma chuveirada e vai à luta.
Elas te levam numa festinha “da galera da faculdade”.
Da faculdade delas, é claro.
V
ocê não conhece ninguém. Chega, senta num canto e vira melhor amiga da garrafa de Tequila.

Lá pelas tantas, saca o telefone da bolsa, coisa típica de quando você não tem absolutamente nada pra fazer, e resolve então ligar para o boy.

O boy:
Um carinha boa-pinta, primo da sua amiga, que você sempre encontrava quando dormia na casa dela. Ele quase nunca ia lá, mas sempre resolvia dar um oi pra tia quando você se encontrava de pijama, cabelo preso e creme no rosto.
Mas apesar de tudo, ele ainda se interessou por você, e vocês começaram então a se ver.
Um rapaz que definitivamente possuía todas as qualidades para ser seu.
É, pois é, mas aí que se encontrava o problema: Ele não era seu.
Mas como mulher forte que você sempre foi, estufava o peito e dizia: Ainda não!

O telefone tocou… Tocou… Tocou… Tocou… Toc.. Puta que pariu, não vai atender não, bosta?
E você desliga o telefone e faz cara de empadinha:
É, ele não atendeu… De novo!
Ele não quer falar com você.
Óbvio que não. Deve ter conhecido uma guria lindíssima esses dias. Tipo coelhinha da Playboy, se apaixonou por ela e se mandaram para Bora Bora.
Ela é rica, tem a bunda do tamanho do Brasil, peitos siliconados e é burra feito uma porta.
Pronto, ele não larga dela, nunca mais.

Mas cadê a consideração? Ta certo que se ele te ligasse e falasse tudo isso, você o chamaria de tudo, menos de bonito. Mas na situação em que você se encontrava, qualquer coisa era melhor do que ser rejeitada.
Você se encontrava bêbada, numa festa cheia de faculdandinhos estúpidos, com suas amigas perdidas e um celular na mão que irritantemente não emitia nenhum sinal de vida.

Ta, mas e se ele estiver no banho?
É uma hipótese, né? As pessoas tomam banho (pelo menos, espera-se que sim, ainda mais quando a pessoa em questão é o cara com quem você está saindo), então é normal que não tenha ouvido, e vai que quando ele voltar, se esqueça de olhar o celular… Pode não ver que você ligou.
Quanto tempo já se passou?
15 minutos…  Hmmm… Ah, vai, homem não tem nem que depilar a perna, já deu tempo de sobra desse banho acabar. É bom você ligar de novo.

E o telefone tocou… Tocou… Tocou… Tocou… Tocou… Tocou… E dessa vez tocou tanto que caiu na caixa postal.

Esse é o ponto alto da sua humilhação. Ouvir aquela voz de máquina irritante que na sua mente deturpada não parava de te dizer:
Otária, você ligou para o cara que nunca vai te atender. Após o sinal, tome vergonha na cara e apague-o do seu celular… biiiip.

É… Ele com certeza não estava no banho. Ou se estava, deve ter se afogado nos 10 cm de água.
Bem feito. Tomara que morra. E bem feio e nojento ainda por cima. Inchado e roxo.
Pronto, é isso o que ele merece.
Num impulso repentino e raivoso, você apaga o número dele, as mensagens e qualquer rastro dessa praga na sua vida.
Definitivamente não quer mais saber. E ai dele se passar na sua frente pelos próximos… Hmmm… 60 anos. Vai ouvir um bocado. Você é linda, tá certo que não é nenhuma coelhinha da playboy, mas ele também não ía conseguir coisa melhor mesmo…

TRIIIMMM… TRIMMMMM…

- Oi lindona, me ligou?
- Ooooooooooooooooiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, Xuxu… Liguei simm!!!!

[continua...]

Corra Mary

Corra Mary

“Men see things in a box, and women see them in a round room.”

Eu tinha um amigo que dizia que “ser feliz” era um momento, era isso mesmo que ele falava: “A felicidade é um momento”. Mas acho que ele não passava muito por esses momentos, vivia deprimido e não soube acompanhar o resto. Foi ficando pra trás, cada vez mais, até que numa das melhores festas que eu já fui com o pessoal da escola, alguém olhou pros lados e perguntou “Cadê ele? Cadê?” e percebi que não fazia idéia de onde ele estava, do que estava fazendo, e nem do que tinha virado. Preciso te confessar isso, me incomoda a maneira como os outros vão embora das nossas vidas. É tão natural que parece certo demais para você lutar contra.

Eles simplesmente se vão, desaparecem e um dia enquanto você toma um copão de café com creme, vê essa mesma pessoa com 5 kgs a mais e uma aliança no dedo sentando na mesa ao lado, e você se dá conta que não conhece mais aquela pessoa. Ele poderia ter morrido sem você ter jogado flores no caixão. Ele poderia ter sido preso sem você botar a mão na boca e dizer “Meu Deus do céu”, ele poderia ter chorado tantas vezes sem nem pensar que a sua presença fosse talvez uma salvação ou maldição. Então você simplesmente se levanta da mesa, deixa uma gorjeta miserável para o garçom e vai embora. E no momento em que sai, aquilo tudo não existe mais.
Aquela pessoa é mais uma pessoa no mundo, e não importa muito quais seus sonhos e suas felicidades. Porque de certa forma ela não existe mais. Não para você.

Mas, nós, pessoas, temos a (in)feliz capacidade de substituir. Sei que você vai gritar comigo quando ler esse trecho, mas sabe que é bem verdade? Esse meu amigo por exemplo, ele era um baita amigão. Engraçado, fazia massagem sempre que eu pedia, e naquele dia que eu torci o pé, me levou nos braços até a enfermaria, mas um dia o telefone dele foi apagado, e não vou dizer que “foi a vida que o apagou”.
Não! Porque quem o apagou fui eu. Tenho consciência disso. O dele foi apagado da memória 27 e quando pego o celular, vejo que outra pessoa entrou na memória 27. Ele foi substituído, assim como eu também fui na vida e na agenda dele. E deveria me sentir triste por isso? Acho que nem está no meu direito.
Só espero que quem tenha me substituído seja… Hmm… Bem… Seja alguém que faça valer a pena.

Porque no final, é só isso que importa, né? Ter valido a pena ou não. Se no dia que tudo acabar, nada tenha valido a pena, eu não quero mais gastar meu tempo pensando nisso. Você me entende? Não quero me matar pelo que não posso mudar, e nem fazer um novo depois (que não é mais meu). Quero ter isso como sonho então. Agora mesmo!

Corra Mary

Corra Mary

‘Não quero ter esperança de mais nada. nao quero rezar para que Max esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner.
Porque o mundo nao os merece.

(A menina que roubava livros)

Porque não podíamos ser como os amigos? Os felizes amigos que dentre as milhões de ligações, queixavam-se de tamanha felicidade, de sua sorte surreal do mesmo caminho que percorri, mas não passei da linha que separava a luta da condecoração. Era isso o que eu queria, era tudo o que eu mais queria, mas sabia que nunca se tornaria real. Pensava nas vezes que quase cheguei lá, cheguei, chegamos, perto, pertíssimo, tão perto que tocávamos todas as arestas existentes, e antes de ser jogada para fora com toda a raiva de quem me odeia, eu disse a mim mesma “É o fim”, e essa certeza já trazia o fim consigo.

Embora já não exista mais qualquer rastro disso tudo que eu falo, eu ainda sigo e vivo de um nome que não continuou. Não há verdade em não existir desde quando me lembro de estar padecendo no que eu amei como uma mãe ama seu filho, e seja lá qual for a solução, eu a afasto e nego veemente enquanto saboto dias de livre escolha, optando pelas noites na cama, sentindo tudo de ruim que desejo igualmente a você.

Já não vejo mais necessidade em buscas cansativas pela esperança. Esperança da qual na verdade, eu nunca soube traduzir em palavras exatas. Era mais como um sonho de criança, ter o que se podia ver, mas se expressar se tornava tão difícil quanto buscar. Seguia com a cabeça cheia, e os olhos cegos, por horas que se tornavam dias, e aqueles minutos sobre manchas frias, passavam correndo, quando eu pouco me importava com o que passasse, queria mais que o mundo explodisse, e o depois, a gente arrumaria.

Não te sataneio. Por mais que meu ódio seja inegável e minhas palavras duras, não te quero na lama da pior tempestade que eu posso imaginar, mas é impossível não desejar que comas da mesma fruta podre que me sirvo nesse banquete eterno ao qual você me pôs sentada com a mesma obediência de um animal de estimação com seu dono.

Corra Mary