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Casinha da lareira

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Publicado em 10 de junho de 2008 por Corra Mary
jun 10

“Eu adoraria ter tido fé.
Mas eu acho que Deus escolhe as pessoas para quem Ele vai dar fé, e eu simplesmente não fui escolhido.”
(Pedro Almodóvar)

Feel The Element
Creative Commons License photo credit: darkpatator

Lembra daquela casinha com a lareira? Aquela em que você me abandonou? Sabia que eu consegui sair de lá sem você? Lembra como eu batia nas paredes de raiva?

Mas eu tinha o péssimo hábito de voltar lá. Mesmo sem realmente querer, mesmo sem sentir falta, eu sempre voltava e sentava na varanda pra ver o tempo passar.

Na última vez que eu fui, tinha um homem lá dentro. Um estranho, nunca o tinha visto, e nem ele a mim, e ele não dizia uma palavra se quer, mas seu corpo era todo tatuado. Era a sua história, ou pelo menos eu queria que fosse. Era triste e em algumas partes eu podia me ver, e torcia para que não fosse apenas um conto. Eu me encontrava nas palavras e me perguntava quem tinha feito de uma profissão, tatuar cada cm daquele corpo.

Eu pensava tanto em você. Algumas horas mais do que outras, mas o pensamento em você era constante. A minha parte preferida eram as pernas. ”(…)E então eu pude perceber que eu não queria morrer nem matar. Eu queria um motivo maior, muito maior, algo que realmente valesse a pena, e eu sabia que não era você, mas depois daquele dia em Veneza nada mais me era grande, nada mais me valia a pena. Que ironia.Veneza, o símbolo do amor, cheirava a merda de gato.

Levei o resto do dia para conseguir ler tudo, e depois que sentei na cadeira e olhei pra ele inteiro, sentia mais pena de mim do que dele. Às vezes tinha uns acessos de sanidade e achava aquilo tudo ridículo, e num desses acessos, sai pela porta de trás, e botei fogo naquele lugar. Com o homem dentro e tudo que me lembrava você. Ele não quis sair, e em algumas horas eu pensei em me juntar a ele, mas não fui. Permaneci parada, vendo tudo que era você ir embora. Por muito tempo achei que ele havia gritado, até me dar conta de que ele não emitiu uma palavra se quer, na verdade quem havia gritado o tempo todo tinha sido eu.

Corra Mary

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