Carta para John
jun 10
“Quando é que você vai se convencer que não está mais do outro lado do espelho, até encontrar Billie Holiday em pé na escada entre paredes demolidas, com Billie no topo decepada, solta no espaço de escombros repetindo e repetindo ´you’ve changed, baby oh baby, you’ve changed so much´”
(Caio Fernando Abreu)
John,
acabei de chegar em casa. O trânsito não estava ajudando nem um pouco, por isso demorei por volta de 40 min só naquela ponte que costumávamos apostar corrida feito crianças retardadas (isso quando já tínhamos passado dos 16).
Sabe, cheguei em casa me sentindo como um grande saco de mercado cheio de cocô. Semana que vem faço 20 anos.
Você vai conseguir olhar pra minha cara igual sempre olhou sabendo que eu terei 20 anos?
Tenho poucos dias ainda de Teen, e isso me faz lembrar de quando eu lia Capricho e ficava chocada com aquele clássico exemplar mais lido, mais comentado e mais vendido do ano: O que ensinava a colocar camisinha.
As menininhas todas se reuniam no banheiro da escola, abríamos a revista e ficávamos dizendo como seria nossa primeira vez. O piru da revista era de massinha, claro, mas aquilo era o mais próximo que já tínhamos chegado.
E depois de pensar sobre isso parada no meio da ponte, eu fiquei com uma dúvida: Porque uma revista onde seus leitores em sua maioria tem menos de 15 anos, ensinam a colocar camisinha? Ainda mais que na própria embalagem da mesma, tem as instruções. E os desenhos não são de massinha!
Isso faz de mim velha, não faz? Só velha lembra da infância..
Eu ainda nem tirei meu ciso e será que já vou ter que me juntar a velharada na luta contra a idade? Isso é tão triste, John..
Vou te confessar uma coisa: Antigamente quando eu dizia a idade, todos se surpeendiam, diziam frases do tipo “Nossa, sua mãe botava fermento na mamadeira?”, e eu me sentia tão bem. Mas há uns meses atrás quando conheci um casal gringo lá na Rua das Pedras, eles foram chutar a minha idade e… ACERTARAM.
Você pode não estar entendendo muito toda essa preocupação, mas é tudo questão de como se lida com a sua nostalgia, e você sabe como é minha relação com ela.
Não sei sentir saudades boas. Só sinto aquela que machuca da forma que meu escritor favorito uma vez escreveu: Uma dor fisica, que faz querer voltar para um alguém, um momento, ou no meu caso, uma idade.
Não sei ao certo qual idade eu gostaria de voltar, mas acho que na verdade a minha preocupação nem é a dos 20 anos, mas sim que eu sei que depois dos 20, os anos correm.
E isso sim me assusta.
Tenho medo de qualquer dia desses acordar com 30, com uma vida que não escolhi pra mim, fazendo coisas que não foram as que eu escolhi, e sendo algo que eu nem tenha percebido direito quando e como eu fui me transformar.
Isso não assusta?
E todo esse pensamento que quase me levou a loucura, por causa de um trânsito fudido, e você não vai nem acreditar no motivo:
Uma mulher queria se jogar da ponte.
Tinha mais repórter e curiosos (que parecem brotarem da terra de tão rápido que chegam) do que policial para impedir a infeliz, e ela se agarrava na pilastra, chorava e ficava gritando: Eu vou me jogar, eu vou me jogar!
“Se joga logo então, filha da puta!”
Eu lá tinha culpa de seja qual sacanagem a vida tenha feito com a mulher pra ela atrasar a MINHA vida, que já não anda lá essas mil maravilhas?
O fim você pode imaginar como foi né? Ela fingiu um desmaio (só não entendi que vento foi esse que a empurrou para a ponte, e não para fora dela), e a levaram para o hospital.
Isso depois de 40 malditos minutos de “morre ou não morre”!
Mas que filha da puta!!!!!
Se não era pra se matar, porque foi fuder com o trânsito? Garanto que se fosse em São Paulo, se ela não morresse por conta própria, a teriam matado de um jeito bem feio.
Estou caindo de sono, e amanhã já marquei consulta com uma lista interminável de médicos. É isso que velho faz né? Pelo menos minha vó sim. E muito aliás.
Parece que depois dos 70 a única coisa que da prazer e alegria é ir em médico (e quanto mais, melhor).
Se amanhã eu sentir alguma felicidade enquanto volto pra casa cheia de receitas ilegíveis de remédios que eu não preciso na bolsa, me encontre na ponte. Vou me matar.
Ou pelo menos só atrasar o trânsito.
Para Fernando
Corra Mary




depois dos 20 os anos passam voando mesmo snif snif … esse ano ja faço bodas de prata
li uma revista capricho essa semana hahahahahaha
passei em uma banca e me deu vontade de lembrar os tempos antigos (ou seria vontade de voltar no tempo???)
Se fosse em Sampa com certeza a desgraçada tinha sido jogada da ponte , é que paulista gosta muito de ajudar o próximo e já que ela quer se matar a gente ia dar uma forcinha rsrsrs
bjokinhas