Carta para Giulia

jun 15

“Apesar de o Brasil também sofrer com suicídios, os problemas por aqui são outros: para cada pessoa que se suicida, 6 são assassinadas e 4 morrem em acidentes com veículos motorizados. Ou seja, as condições de vida no nosso país ainda têm de melhorar para que as pessoas sobrevivam tempo suficiente para pensar em se matar.”
(Revista Super Interessante)


Oi, Giu. Sei que estou mandando essa carta um pouco atrasada, que eu prometi que responderia a sua assim que chegasse, mas está difícil. Não digo isso como desculpa que todos usam quando estão com preguiça ou sem vontade de escrever, mas é porque o tempo ultimamente não está sobrando como na época em que nos conhecemos.

Esses dias passei perto da rua em que vendia o brinco igual ao meu que prometi te comprar. Não gosto mais de entrar naquela rua não. Um amigo meu, (amigão mesmo você deveria conhece-lo) viu uma mulher se jogar do 10 andar, e sempre que passo por lá, lembro dele interpretando o barulho que ela fez quando bateu no chão. Isso me arrepia.
Sabe, fico imaginando quantas outras ruas que eu passo com histórias parecidas, mas não dá em nada, porque ali eu sei, ALI ele me contou que a moça morreu, e não em outro canto. Por isso deixei para comprar seu brinco em Nova Iorque. Espero que as pessoa se suicidem menos por lá.

Gostei de ver aquelas suas últimas fotos que você me mandou. Você fica bem de preto, sabia? Tenho um certo preconceito com roupa preta, apesar de todos acharem que preto fica bem em todo mundo, eu acho que fica bem em todos, menos em mim. Minha mãe discorda, sempre diz que “preto emagrece” e que eu deveria usar mais, mas pra mim isso é conversa. Preto só me deixa feia. E eu continuo não-magra.

Sobre a sua carta, fiquei meio chateada com tudo aquilo que você me contou. Histórias que começam mal, normalmente terminam mal. E isso de as pessoas não prestarem… Sei lá, viu? Eu presto, você também… E somos pessoas!
Algumas não prestam para nós, e provavelmente alguma vez em nossas vidas também deixamos de prestar para alguém, isso é normal. A felicidade de uns, é a tristeza de outros. Só sinto muito, de verdade, por ser a sua tristeza, pq eu sei que você “presta”.

Não sei como andam as coisas por aí, espero que tenha passado naquele maldito exame prático, e que você tenha tirado essa idéia de Hell da cabeça.
Já pensei em tudo isso também. Já achei que não existiam pessoas que “prestassem” e que todo mundo omitisse tudo dos outros, e talvez até seja verdade, mas prefiro não pensar, não agora, não quando as coisas parecem finalmente estarem dando certo.
Vai ver elas só estão dando certo agora por tudo que eu passei antes, e pelo que fiz passarem também. Talvez seja um tipo de plano do destino, karma, ou não sei.
Ah, Giu, só sei que entupir minha cabeça de merda agora só me faria não prestar de tanta paranóia.

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