Bullying carnavalesco
fev 27

No carnaval, cada ônibus é um bloco intimista
Eu tento não falar muito mal do carnaval, primeiro porque ele é um preço que eu pago para não precisar trabalhar por uns dias (embora eu ache o preço muito caro) e porque não quero parecer um velho ranheta que espinafra a vida com os próprios joanetes. Só que às vezes o carnaval implora para ser esculhambado, mesmo que você faça o possível para evitá-lo. O carnaval é aquele playboy que quer briga contigo mesmo quando você engole o orgulho e o trata tranquilamente.
Se o gênio da lâmpada chegasse e me dissesse que, graças a algumas manifestações do sindicato de gênios encantados, ele só poderia realizar desejos esquisitos, eu teria um na ponta da língua: fazer com que a Prefeitura passasse todos os blocos da cidade para Pedra de Guaratiba. Todos. Nada contra a Pedra Guaratiba, mas seria muito a favor da nossa distância se ela me separasse de qualquer resquício de carnaval. Ah, o transporte seria grátis para os blocos, mas um a cada quatro ônibus explodiria aleatoriamente. Bem, eu precisava deixar o desejo esquisito, senão o sindicato não liberaria.
Só fico puto com carnaval quando ele encosta em mim, chuta a porta da minha vida com um coturno de aço e escrotiza a porra toda. Eu odeio ter que andar quilômetros porque é impossível pegar algum táxi ou ônibus; é ridículo ter que deixar os documentos em casa porque a qualquer momento você pode ser assaltado (que tipo de diversão coletiva é essa que te toma os pertences ao som de “Olha a cabeleira do Zezé”? Não é surreal?); é péssimo quando um bloco inteiro entra no seu ônibus fazendo com que você simplesmente não possa ficar em paz. Como ficaria em todas as outras semanas do ano.
E foi exatamente isso que me aconteceu no último domingo. Passei por uma osmose carnavalesca na marra, sofri bullying pelo motivo mais “é, esse é o nosso Brasil” que já vi na vida: estava lendo um livro enquanto eles gritavam, mas eles não se conformaram com isso. Ou seja, eu, que tinha por volta de 112 milhões de motivos para reclamar do barulho, causei estranheza neles justamente pelo meu silêncio.
Estava voltando de um lugar secreto, que nem no DOI-CODI revelaria qual era (a menos que houvesse um arame fervendo apontado para a minha uretra), no meu ônibus com ar condicionado, ouvindo rádio (sim, eu ouço rádio, e, sim, eu ouço uma rádio chamada “Rádio do verão”, o que me faz torcer cada dia mais para o outono começar só para saber o que eles vão fazer com o nome da estação).
Uma profusão de pessoas foi entupindo o ônibus aos poucos, e o carnaval começou lá mesmo. Absolutamente as mesmas músicas de sempre, as mesmas piadas de sempre, as mesmas roupas de sempre e as mesmas caras de sempre, o que me fez pensar um monte de coisas:
- É por isso que um canal de TV como o Viva faz sucesso. Nego adora uma reprise.
- Eles todos vão descer no Monobloco, eu desço antes, preciso sair discretamente.
- Bésameee, bésame muuucho, como si fuera esta noche lá última veeez. Que música poderosa… eu fico impressionado.
- Eu sou burro ou esse livro é realmente cheio de pegadinhas?
- Jesus, que pessoa feia, no dia que ela morrer, o cemitério vai fingir que é um gêiser só para cuspi-la pra fora.
- Ihhh, ferrou…
Esse pensamento veio quando uma mulher, incomodada com a minha paz, falou alto:
- IH, O RUSSINHO QUER LER, VAMO FAZER SILÊNCIO!
O ônibus todo fez “shhhhhhhhhhhhh”, o “shhh” mais doloroso da minha vida, um “shhh” que entrava em mim como um taco de beisebol pelo orifício mais revelador da minha anatomia, um “shhh” que me deu saudades da minha mãe (um sinal, que vem desde o jardim de infância, de que estava em apuros).
Tentei ejacular da minha alma intimidada o mínimo de espirituosidade, fingi agradecer aos céus por eles terem feito silêncio e falei “pô, galera, valeu, vou poder ler em paz”. Isso tudo esboçando um sorriso tão falso que perigava sair dele alguns dardos com ebola.
Aí começou a sabatina:
- Que livro você tá lendo? O que você está aprendendo com esse livro?
A chefe do grupo fingiu que estava com um microfone na mão e me perguntou o que eu estava achando do livro. Cometi o sacrilégio de esculachá-lo pelo bem da minha sobrevivência:
- Tá chato pra caralho, ainda bem que vocês vieram falar comigo.
Aí, moldando seu piru metafórico no formato de um cone, ela me arreganhou mais ainda:
- Ahhh, então para de ler e vem dançar! Eu quero tchuuu, eu quero tchaaa, eu quero…
Levantei agarrado, todo mundo cantando e eu com vontade de ser o árabe maluco e o prisioneiro americano ao mesmo tempo só para arrancar a minha própria cabeça com uma faca. Se a luta pela sobrevivência te obriga até a comer seres humanos no gelo, eu resolvi tomar a lata de cerveja de uma das comparsas, só para demonstrar que eu – mesmo com bronzeado uns 12 tons abaixo dos praieiros – fazia parte do grupo.
Mas como Deus sabe que sou ateu, a cerveja estava pelando e eu quase engasguei. Nesse momento, as mulheres más já estavam gostando de mim, mas os caras lá atrás não perdoaram:
- Ahhhh, galegooo, já tá bêbado, é? A mamãe não pode saber! Uhhh…
Aí a chefe das acossadoras repreendeu o cara dizendo que eu era “parceiro” e mais do que um rostinho bonito, um verdadeiro intelectual (ganhei pra night). Olhei pra ele e fiz cara de “tsssss, levou moraaal” e essa atitude infantojuvenil representou a culminância da minha malandragem na selva carnavalesca. Ele me encarou e pela primeira vez o clima de tensão de um faroeste do Clint Eastwood tomou conta da cena. Infelizmente o cara não está mais entre nós para confirmar essa história… Mentira, eu voltei para o meu lugar e esperei o meu ponto, o vilão do filme permaneceu existindo.
Os cinco minutos seguintes serviram para acreditar que eu havia sido esquecido, mas tive que descer do ônibus. Acho que o calor da despedida tornou tudo mais forte, todos gritando “ÊÊÊ, o galego vai descer!”, senti algumas mãos, mas não percebi se era carinho, maldade ou crime, e desci para desejar nunca mais estar perto da cidade durante o carnaval.




Também odeio carnaval. Pelo menos moro no interior de SP e consigo me manter a uma distância considerável destes foliões.
“Tentei ejacular da minha alma intimidada o mínimo de espirituosidade” – Excelente, kkkkk.
Acho que o tio zi que comandou a malandragem, ele que te chamava de russinho!!
Muito surreal essa historia, que bom que nao paguei nenhum pecado no carnaval!
HAHAHAHAHAHAHAHAHA…coitadinho de você! É por isso que tem q entrar no clima! Muito bom o texto!
HAHAHAHAHAHAHH!!!!!!!! o melhor texto que eu li no último biênio, parabéns pedro.
Pensei que até deus soubesse que vc era um entusiasta do carnaval de rua rs Brincadeiras à parte, parabéns pelo texto, e principalmente pelo trecho: “como Deus sabe que sou ateu”. Não sabia que deus era tão onisciente assim hehehe
Hahaha, só Deus sabe o que Deus sabe, sinistro.
Tenso!!!!
“senti algumas mãos, mas não percebi se era carinho, maldade ou crime”
HAUAHAUHAUAHAUH RI MUITO
texto sensacional
“mesmo com bronzeado uns 12 tons abaixo dos praieiros” ahuahuauhauhahuahuahuahua
muito foda o texto mas fiquei com dó rs
pelo menos serviu pra alguma coisa né
O truque para você gostar do carnaval é você incomodar o mundo mais do que o mundo te incomoda. Quer “pular” carnaval (puta expressão ridícula) é melhor que você seja o bêbado sem noção que fica incomodando os outros, arranjando briga e dando em cima de mina acompanhada.
Quer ficar de boa? FOGE da folia. Minha sorte é que eu moro no túmulo do samba, então carnaval a cidade tava vazia. Coisa mais linda de deus.
Também odeio carnaval, faço de tudo pra fugir. Aquele bando de gente que vc nunca viu na vida cisma que como é carnaval vocês tem que ser amigos, se abraçar, beber com eles.
Nunca te vi mais gordo, cara pálida!
É… TenÇo. Assim mesmo. Tchu… Tchá…
Não gostei apenas do lance da pedra de Guaratiba. Um fenômeno geográfico não pode ser movito do seu ódio visceral. Acho que seria melhor que eles fossem encaminhados a Auchiwitz. Lá, os poloneses ainda odeiam tudo e todos, os alemães estão loucos para que os fornos voltem a funciionar . Então, em dois anos todos, no país , teríamos paz, silêncio, total ausência daquele fenômeno televisivo denominado carnaval com aquelas barriguas feias, aquelas jacas hororosas, aqudelas músicas intangíveis, aquele aroma que nem o Djavam explicaria. Ficaria tudo em Cracóvia !
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHA (delay de algumas semanas pós Carnaval, mas tá valendo) ótimo texto, Pedro! Essa é bem a realidade, pelo menos as pessoas tentaram ser suas amigas ahahahaha