Bruna

jun 10

“Quero averiguar a minha inveja, olhar de perto o meu rancor, cheirar as minhas feridas. Sentir de novo as cicatrizes de um masoquismo de uma vida inteira. Seja adorando outra vez aqueles que não me quiseram, ou rastejando em agradecimento àqueles que ainda querem comer meu cu.” (Fernanda Young)

 

Quando tudo começou a incomodar de maneira que não conseguia mais pensar em outra coisa, sentei na cama com a minha pior cara, cruzei as pernas e pensei “e agora?” sem a menor esperança de um “agora”.

Liguei a televisão e vi desenho o resto da tarde toda. Não que eu esperasse que fosse solucionar o que não tinha solução. Não ajudou em nada, mas pelo menos também não piorou. E na hora, isso me era lucro.

 

Precisava falar com a Bruna.

Bateu uma enorme e incontrolável vontade de fazer com que ela soubesse tudo o que estava acontecendo.

Não era uma situação de ajuda, conselho, ou respostas que mudariam o meu mundo, era uma situação de Bruna, e só queria que mesmo sem poder ajudar, ela ouvisse. Mesmo perto, ela fizesse algo com o longe e mesmo sendo só a Bruna, ela fosse tudo o que Bruna é.

 

Sempre adorei minhas unhas enormes e vermelhas, mas não conseguia achar Bruna em casa, e com o celular ainda chamando por Bruna, roí todas as unhas da mão esquerda. E segundos depois, todas as da direita.

Funcionava mais ou menos assim: Escolhia um dedo qualquer, de preferência o que estivesse com o esmalte mais intacto, arrancava com os dentes o máximo que conseguisse, e cuspia o resto no chão do quarto. Ardia, eu não queria e sabia que ia me arrepender, mas a sensação de arrancar devagar aquilo que eu sabia que depois ia crescer de novo, me fez achar que talvez valesse a pena doer por alguns dias a mais.

 

Não foi da minha vontade, mas acabei deixando um recado qualquer: “Oi Bruna, sou eu, me liga. To precisando de qualquer coisa.”

Mas que tipo de mensagem era essa? Como se ela tivesse que saber só pela voz quem era aquela pessoa que resolveu ligar só porque as coisas não foram como o esperando.

Bruna tinha outras amigas. Bruna sempre teve muitas amigas, e poderia pensar que eu não era eu, porque eu sempre era quem não deixava recado na máquina pedindo ajuda.

E se Bruna fosse escutar os problemas de outra, enquanto os meus ainda eram fresquinhos e tristes o suficiente para fazer Bruna chorar comigo?

 

Bruna não me ligou nos infernais 5 minutos que se seguiram e eu senti subitamente uma enorme vontade de ir até a casa dela, apagar a mensagem, comer salada de macarrão e ir embora.

Não levantei da cama por dois anos, ou pelo menos foi o que pareceu, fiquei parada, olhando pra janela com vista para o nada, enquanto a maquina falava sem parar:

“Sou eu, Bruna! O que houve? Ta em casa? To indo praí. Vê se não vai roer todas as unhas.”

 

Para Bruna

 


2 Comentários

  1. Carolina Louro /

    oi? hahaha

  2. Preciso de amigas com esse feeling! FATO!

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