Bloco de rua

fev 17

Carnaval é sempre uma época feliz.
Não importa se você gosta do carnaval em si, ou não, porque de alguma coisa que vem junto com ele, você com certeza gosta.

Meus carnavais nunca são o típico carnaval da família brasileira. Não vou a bloco de rua, não fico até o cu da madrugada assistindo desfile, não torço pelas notas, não sei qual ex-bbb desfila para qual escola, nem se quer gosto das músicas, mas o feriado… Ah, o feriado. Esse sim eu gosto.

Amigos de todo o Brasil resolvem curtir o carnaval do Rio. Não que seja o melhor carnaval do Brasil, mas já virou tradição que eles venham, então quando começa o ano já tem nego comprando as passagens. É impossível ficar em casa.
Em dois mil e alguma coisa, teve um carnaval em especial que me foi muito útil como experiência para nunca mais.
Perto da minha casa sempre tem um bloco. Óbvio que eu não faço nem idéia do nome, mas isso não importa.
No mesmo dia e hora do bloco sem-nome, resolvi passar o dia na casa de uma amiga. Natália.
Natália é bem do tipo garota de bloco. Com enormes peitos semi-escondidos no decote, luzes no cabelo e saias que deveriam ser proibidas. Mas é minha amiga.

Peguei o ônibus na rua do bloco, que seguiria por um caminho diferente quando chegasse numa certa parte.
Entrei no ônibus e ele seguiu. O trânsito estava um pouco ruim, mas andava.
Bom, isso no começo.

E então chegamos perto do bloco. Nenhum carro saía, nenhum carro entrava. A galera buzinava, uns cantavam, outros xingavam, e 90% das pessoas que ali estavam, haviam bebido demais da conta.
Os que estavam no bloco, claro.
O ônibus parou justamente na curva da rua do bloco.
Eu, como boa antipática e não muito sociável que sou, sentava na frente do ônibus, e então escuto alguém pela janela:
- Ô ruivinha, ruivinha! Olha pra cá.
Olhei. Péssimo erro.
- Desce desse ônibus. Quero conversar contigo.
O tal ser que com muita dificuldade falava comigo, era um típico garoto de micareta.
Sem blusa, short colorido, bandana na cabeça, colarzinho de miçanga e cabeça raspada. Estava bêbado, sentia do ônibus o cheiro de cachaça, e desesperadoramente o que eu mais desejava naquele momento era que aquele ônibus andasse.
Balancei a cabeça. Para qualquer pessoa num estado normal e aceitável, aquele simples, mas significativo gesto seria entendido como um “não”. Doce engano. Não para nosso protagonista.

O motorista por sua vez, com um péssimo senso de humor, deixara a porta aberta desde o último passageiro a entrar, e mantinha aberta mesmo notando meu evidente desconforto com a situação.
Se aproveitando disso, nosso bêbado-micareteiro resolveu que era uma boa idéia entrar no ônibus.
Não sei em qual momento isso pode ter lhe parecido uma boa idéia, mas foi justamente isso que ele fez.
- Oi, qual o seu nome?
- Você ta me cantando no ônibus?
- Eu não to te cantando. Só quero saber seu nome.

Sempre tive a dúvida de saber se no mundo dos blocos de rua, essas respostas realmente colam.

- Você vem sempre aqui?
- Ham? No ônibus?
- Não, no bloco.
- Eu não to no bloco.
- Lógico que ta.

E então com muito esforço ele conseguiu dar uma leve sambadinha e cantar uma música horrendo, com gestos apontando para mim. Era algo como:
“Ô meu amor… Você me esnobaaa… Mas eu sei que você me queeeer… Ô meu amoooooor uooo uooo”

Respirei fundo e tentei parecer o máximo desinteressada possível. Olhava para os lados, passava a mão no rosto e dava falsos sorrisos de desaprovação. Aquele era o momento mais constrangedor que eu conseguia me lembrar.

- Desce desse ônibus e vem comigo.
- Não, não. Eu tenho compromisso.
- Ah, então me dá um beijinho!

E então o conveniente rapaz se agarrou no meu banco e começou a fazer movimentos como um poodle na perna dos convidados, enquanto virava meu rosto procurando minha boca.

- Me solta.
- Eu sei que você quer.

Onde estava a sanidade daquele rapaz?
Percebendo que não obteria ajuda nem do motorista, do cobrador, ou de qualquer alma sóbria daquele lugar, resolvi que ganharia mais saindo do ônibus, já que o trânsito continuava caótico.
Saltei. Eu e o cachorrinho tarado.

- Sabia que você me queria, viu só?
- Eu quero é fugir de você.
- Não fala assim que eu me apaixono.

Só havia então uma única opção: Andar a rua do bloco inteira até o outro lado, para então pegar um taxi. Porque de ônibus eu já havia desistido. E isso o mais rápido possível, antes que o cachorrinho tivesse alguma outra brilhante idéia de conquista feminina.
Fui andando no meio de serpentinas, confetes e rolos de papel enquanto hora ou outra era necessário dar uns leves empurrões no cachorrinho, que em momento algum desgrudou da minha cintura.
- Não vai te matar. É só um beijo.
- E você acha esse um bom motivo para eu beijar qualquer um que me peça?
- Mas eu não sou qualquer um.
- Eu nem te conheço!
- Então passa a conhecer.

Atravessava aquele mar de gente, vez ou outra me esbarrava com uma xirra, um bob esponja, um Silvio Santos, e ninguém parecia compreender minha pressa. Fui mais xingada que juiz em Fla-Flu, e por mais desculpas que eu pedisse, ninguém estava era nem aí.

O celular tocou. Era Natália, já preocupada:
- Alô? Natália?
- Marina, onde você ta?
- No bloco.
- Ham? Você não ia vir pra cá?
- É, eu ia, alias, eu vou. Mas no ônibus um cara veio falar comigo, ele entrou e o motorista não fez nada. Agora ele ta aqui, roçando na minha perna.
- Que?
- Te explico aí.
- Vem logo.
- Se eu conseguir sair daqui viva, ou pelo menos não estuprada, chego em 10 minutos.
Aproveitando o momento, o cachorrinho gritava:
- Natália, eu amo a sua amiga. Eu amo a sua amiga, Natália.

Cheguei ao final da rua e o cachorrinho ainda atrás de mim. Vi que era então o momento crucial para a minha escapada.
Ou isso, ou estaria fadada a sofrer mais momentos de tensão até que alguém se compadecesse de mim, ou até que algum amigo seu menos bêbado, o visse nesse estado deprimente e viesse ajudar.
- Sabe, eu to com sede. Compra uma cerveja pra mim naquela barraquinha?
- Compro. Mas aí você vai conversar comigo?
- Vou.

A barraquinha não ficava muito longe de onde estávamos, mas era o tempo que eu precisava para escapar do inferno que vivia.
Corri para um taxi, entrei, tranquei as portas e respirei.
- Sai daqui, pelo amor de Deus.
O motorista:
- Esse cara batendo na janela do carro, gritando “eu te amo”, e clamando por uma tal de Natália, está com você?
- Nunca vi na vida.

14 Comentários

  1. Ele poderia ter sido o homem da sua vida, e vc nunca vai saber! (não, não poderia…)

  2. Filipe Coronel /

    O que é um pontinho vermelho desesperado no meio do bloco?

  3. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk NUNCA vá a uma micareta!!! NUNCA… nem passa perto….

  4. recebo os post por email.. por esse motivo nunca venho até aqui… mas ameeei esse. ri DEMAIS! e me identifiquei bastante com o fato do “cachorrinho”… por isso, ai sair pra esses “mini-infernos-na-terra” vou sempre acompanhada de um amigO.. pra evitar certos problemas… +, como todos, no geral, até gosto de carnaval… tirando essas confusões, blocos, bebados, samba enredo, serpentina, espuminha (tem mto no rio), entre outras coisas.. enfim, adoro o blog! ;*

  5. CA-RA-LHO!
    ri altíssimo nesse texto!! começo a gostar do carnaval de Curitiba, da cidade deserta… escreverei sobre ele

  6. Eu seiii q vc gostoooooooou!

  7. Realmente muito bom.

  8. Vannesa Rosa /

    A-D-O-R-E-I ! Mas como disse o rapaizinho ali em cima ele poderia ser o homem da sua vida e você nunca vai saber! haha

  9. PQP!!!!! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!! TÔ PASSANDO MAL!

    LENDO ESSA PORRA NO TRABALHO! SÓ EU MESMA! TIVE QUE CORRER PRO BANHEIRO PRA RIR ALTO. HAHAHAHA!!!!!

    AMOOOOOO!!!!!

    ENTÃO, QUAL VAI SER A DO CARNAVAL? HIHIHI….

    PORQUE VOU TE LIGAR MESSSSSMO, E É BOM VC ATENDER, OUVIU, “RUIVINHA”!

    BEIJOS.

  10. Pedro Staite /

    Hahahahahahahahaha

    Que aventura, hein!?

  11. Carnaval, época de reverenciar a carne e desapego material. Ninguém é de ninguém.

  12. hauahauahauaahauahaua chorei de rir imaginando essa história!!

  13. ADOREI O CARNAVAL EM CARAGUATATUBAAAAAAAAAAAAAA

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