Bicho-Papão

jun 10

“Você já conheceu o casal perfeito? Aquelas almas gêmeas onde o amor nunca morre? O marido e mulher que confiam completamente um no outro? Se você ainda não conheceu o casal perfeito, deixe-me introduzi-los a você: Eles estão parados em cima de uma camada de creme congelado de qualquer bolo de casamento. O segredo do sucesso deles? Bem, só pra começar, eles não precisam olhar um pra cara do outro.” (Desperate Housewives)


Aribabiba!
Creative Commons License photo credit: mOOrango*

- Eu não sei se a amo.
E a conversa começou assim. Na verdade já havia 4 ou 5 horas que estávamos sentados, naquela mesma posição, vomitando palavras, mas foi com essa frase, que comecei de verdade a me dar conta do que estava acontecendo. Dei um pulo, sentei sobre os joelhos, como fazia quando era pequena, me inclinei para frente e disse:
- Como não sabe? Se você tem dúvidas, é porque não ama.

O amor sempre me foi algo bem resolvido. Para mim, não existiam vertentes, ou se amava, ou não. Nunca fui de viver no meio termo, meias pessoas, meias vidas, e aquilo de meios amores, estava me deixando louca.
Era como ouvir duas músicas ao mesmo tempo. Você sabe que algo acontece, algo soa, consegue perceber riscos de algo familiar, mas não identifica o que é. Não enxerga a beleza, ou a falta dela, e então percebe que de modo algum elas podem acontecer juntas. São separadas, assim são suas naturezas, e foram feitas para existirem em momentos diferentes.

Era difícil entender como alguém que não sentia, conseguia fingir tão bem. Não para o outro, mas para si, há ponto de deixar dúvidas.
Amor não é vontade, não é desejo, não é pura amizade frágil. Quando se ama, dá medo de dizer. E ele dizia toda hora. Ele pintava os muros, gritava aos mundos, um amor que não existia. Ele amava sua fantasia. Risos, caras, cheiros e vozes. Tudo o que considerava perfeito, idealizado numa pessoa, tudo o que desejava que ela fosse. Mas ela não era.
Ele não a amava, ele amava a vontade de amar.

Comecei então a ter orgulho de ser o que eu era. Tinha escolhido viver assim, sem grandes amores, sem grandes emoções, o que me deixava livre também de grandes dúvidas, grandes mentiras e grandes anos indo embora pela privada. E eu estava ok.
Me confortava a certeza de não ter alguém naquele exato minuto dizendo “eu não sei se a amo”, com meu rosto em mente. Isso machuca mais que topada com o dedinho no canto da porta, é cruel, cruel e cruel. Mil vezes cruel.

- Menina, se você tem a sorte de viver como diz, deveria gastar o tempo que julga o infortúnio dos outros, com alecrim e sal grosso.
Ninguém vive sozinho, não fomos feitos para tamanha evolução, e quanto mais achamos que estamos livres desse tipo de necessidade básica, mais estamos implorando por alguém.
Você deve ser a pessoa mais triste que alguém como eu, esbarra pela vida. Solidão é Bicho-Papão atrás da porta.


8 Comentários

  1. Certa vez ouvi alguém dizer “eu quase te amo”…

  2. Gostei muito do que você escreveu sobre “amar”! Muito interessante!
    já re-li 3 vezes! rs

  3. Amábyle /

    Vou postar no meu flog, com os devidos créditos! ;)

  4. eita, um “nao sei se a amo” ninguem merece. Ou ama ou nao ama e pronto!! O pior eh que quase todo mundo q eu conheço jah passou por um casinho, namorado… enfim… um SER que “quase amou”. Vão se fuder, depois nós q somos as complicadas!

  5. As vezes um “não sei se amo” pode ser um “Não quero amar, não quero amar, não quero amar… droga! to amando! (vou fingir que estou em dúvida, pra me enganar mais um pouquinho ;D)”

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