Bella incompreendida

jun 11

“— Good morning, Mrs. Dixon! I’m the cleaner!
— What? The killer?
— Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner…”
(Caio Fernando Abreu)

A independência tomava conta daqueles pequenos olhos castanhos que fitavam seu presente ganho no último Natal: Uma Barbie passeio no shopping.
Seu, por muito tempo, sonho de consumo, mas que entre tantos cigarros de chocolate ao leite, percebera que com aquele umbigo brilhante e tatuagem na virilha, perdera todo o fantástico toque retro, e aquela ambiciosa menina pôs-se a chorar.
A Barbie já não a satisfazia mais. Ela agora queria uma Suzy.
E queria agora!

Na ida ao mercado, os pensamentos pesavam feito chumbo. Aquele dia, não era um dia qualquer.
Bella, seu nome de guerra, por que era assim que gostava de ser chamada, chiquérrima em seu tamanquinho da Sandy, ajeitou a tiara nas madeixas castanhas e correu para o corredor do Yakult, visando o porre daquela noite.

Ela cantarolava um axé qualquer, cantado repetidamente por sua mãe na semana anterior, ao mesmo tempo que se jogava no chão e fazia pirraça, gritando:
“Eu quero o cereal do Bob Esponja. Eu quero. Eu quero. Eu quero.”, enquanto exorcizava seu Chiclete com Banana interior.

Sua madrasta a levantou e com 3 seguidos tapinhas na bunda, a fizeram enxergar o que a menina já sabia fazia tempo: O mundo não era para ela.

Pobre menina rica, flutuando pela órbita de um mundo que não a compreendia.

Chegando naquele apartamento que ainda cheirava a novo, procurava por entre as caixas da mudança, sua tesourinha sem ponta da Estrella.
Com seu Crayon mordido, escreveu num pedaço de folha:

“Oh infortúnio, mundo cruel, dor imensa. Não poderei passar mais 5 anos tentando ajustar um mundo que não se ajusta a mim.”

Cortou aquela inútil redinha, sentou no parapeito da janela e pode apreciar a fria noite de São Paulo. Bella sorriu por uns instantes, e naqueles segundos até chegar ao chão, dentro do conjuntinho das Super Poderosas, sentiu seu magro corpo tomado por uma estranha vontade de gritar bem alto ao mundo o que guardou por tanto tempo. Vontade interrompida quando seu corpo desencarnou no verde do gramado ainda molhado.

Se pudesse sentir algo, sentiria-se realizada.

 

26 Comentários

  1. É bom saber que há ainda sonhadores , aqueles que vêem as entrelinhas , que saber distingüir o real do imaginário.
    Esse texto tem um cheiro estranho
    Tão estranho que chega a feder
    Talvez seja porque não estamos acostumados com ele
    É porque o cheiro é de justiça

    Quissá um dia essa sociedade hipócrita inocentará as vítimas do pokémon mais maléfico já nascido
    Bella , ainda acertaremos as contas
    Ai de você se aparecer aqui na Tijuca!

  2. Hum, venho através dessas mal-traçadas linhas agradecer efusivamente tão eloquente post em tão famigerado blog. Aqui deixo claro que o que proferirei adiante não se tem por desdizer o supracitado, mas sim colocá-lo em suma, através do dito. As informações contidas, devem ser digeridas com parcimônia, pois, levando em conta aquilo que é mostrado, deveras azia o sentido do todo, intrinsicamente levado a sério, ou não.

    Resumindo: adorei o texto e adorei a homenagem, beijos, do seu amigo/mestre Papí

  3. Pobre menina incompreendida! Não só incompreendida mas também maléfica, de caso pensado deixou tudo pro pai se fuder!
    haha!

    Gostei desta ‘versão’ pro assassinato. E finalmente com blog né dona Mary?

  4. Olá Marina,

    Sim, você não me conhece. Mas foi através deste mundo virtual que conheci seus textos e o seu antigo flog.

    Que bom que você está de volta. Escreva um livro(se é que já não tem algo pronto), trabalho com livros e me mande um original! Não sei a sua pretensão sobre literatura, mas tenho certeza, que seria um bom livro.Quem sabe?!

    Saiba que seus textos são reais, apesar de parecerem contos…Não há quem não os leia e não sinta uma certa proximidade..

    Parabéns!!

    Um abraço,

    Da sua fã,

    Bianca

  5. Put’s mto bem escrito apesar de achar meio fantasiosa essa versão…
    Mas mto bem pensada…
    Bacana seu estilo de escrever…
    parabéns…

  6. Ótimo saber que você criou esse espaço, muito melhor que o fotolog!
    Amo todos os seus textos, sou sua fã!
    Beijos!

  7. Johnnatan Nascimento /

    Fantástico teu blog, garota.
    tens tino. muito tino.

    voltarei, com certeza. impressionado.

  8. só essa sua cabecinha pra fantasiar uma nova versão para a morte de isabella, tão dramática.
    mas devo admitir que escondi um sorriso de mim mesma ao chegar no final do “conto”
    cadê meu livro hein?
    beijão mary

  9. Simplesmente um luxo! Deveras arrebatador!

  10. Eu achei o final caído…

  11. vale a pena retornar!!!!!
    =)

    mas aproveite os pensamentos de um beudo – e eu digo aproveite, como se jogasse moedas pra cima e gritasse “peguem! eu jah perdi os reflexos!”.

    o texto eh fenomenal. mas naum acha que eh hora de falar uma geração a frente e naum uma atrás?

    non ducor, duco. estamos na internet. entrei pra ver uma foto sua e encontrei isso. agora resta polir.

  12. Me perdoe por não conseguir exprimir elogios da mesma forma que meus companheiros de comentários, mas adorei seus textos!

    Até a próxima!

  13. Oi!

    Existe uma certa semelhança com um fato atual.

    Eu gostei, apesar de não achar que ela poderia escrever algo tao tao, rsrs.

    Beijos!

  14. É bom saber que ainda há pessoas que gostam de sonhar, de imaginar, de transformar coisas poucas em tão grandiosos. Gostei daqui, minha cara.

  15. Aaah que bom poder ler seus textos quando eu quiser!
    Parabéns pelo blog! Está ótimo, como sempre!
    Beijinhos!

  16. pobre menina rica, levou uma vira morna e rápida, cheia de caprichos. agora deve estar ainda pior, pois a personagem principal da sua morte não é ela mesma.

  17. que coisa maravilhosa poder ler textos da Mary sempre que quiser !! ja estou viciada
    leio releio e não canso
    adorei o texto…
    minha escritora predileta

    bjokinhas

  18. Era terrível ter que ir no seu flog todo santo dia, e enquanto a página abria, esperar, rezando, pra que houvesse lá, mais um texto, e me sentia um pouco ridicula por isso, mas agora, felizmente, posso vir aqui e ler e ler de novo, e de novo e reler e ler uma vez mais… Obrigada por manter mais uma viciada. hausuahsuhasuhshu

    beijos!

  19. Vai-se a aparência perpetua-se o conteúdo

    Uma imagem pode até valer mais que mil palavras, mas ler os seus textos é sempre um prazer, continue assim.

    Beijos

    Até mais

  20. Textos absurdamentes gloriosos, te acompanho desde o flog e parei aqui…

    Li todos os textos e amei..

    tbm amo escrever.

    Bjos Mary

  21. nossa realmente, muitoo bom o texto!

    parabens mary.

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