Espírito de porco
jun 17

Se você tem estômago de vidro, por favor, pule este parágrafo, ele é nojento. Noutro dia, estava descendo uma escada quando vi uma estalactite de catarro presa no corrimão. Ou seja, algum filho do Satanás cometeu a indecência chinesa de cuspir em qualquer lugar o que lhe entupia as vias respiratórias. O produto cuspido conseguiu, por um milagre da física, se pendurar no corrimão e se manter preso nele, dada a sua liga forte, gerada por algum resfriado, sinusite ou enfisema pulmonar em estágio inicial.
A primeira coisa que eu pensei foi “Filho da puta, espírito de porco!”.
Tenho um amigo que, embora tivesse limites mínimos de educação para não escarrar ao léu, era um perfeito espírito de porco quando estava no colégio. Uma vez, estávamos na aula de biologia no laboratório – afinal, tudo o que a gente não aprendia na teoria, tínhamos que não aprender também na prática – quando ele dedicou sua atenção ao pequeno peixe que vivia solitário no aquário do local. Para facilitar a minha vida, vou fingir que o peixe se chamava Jolly. O amigo não merece ter seu nome revelado, mas se você for apegado a nomes, pode chamá-lo de Claribalte.
Claribalte viu Jolly nadando com imensa melancolia naquele aquário imundo. Neste momento, antes de enfiar meu piru da justiça na bunda culpada de Claribalte, preciso reconhecer que o pobre Jolly realmente nadava triste, e, de fato, a água não cumpria as exigências do Inmetro divino de ser inodora, insípida e incolor. Para “resolver” o problema existencial do peixe, Claribalte pegou uma garrafinha com um líquido azul e derramou no aquário, assim, Jolly ficaria feliz com a água “azul da cor do mar” (palavras do cretino do meu amigo).
Cinco minutos se passaram, e Jolly começou a nadar torto, e com a cabecinha desesperadamente apontada para a superfície.
Depois, na sala de aula, a coordenadora entrou desesperada perguntando:
- Quem teve a coragem de colocar QUEROSENE no aquário? Quem faz isso mata um ser humano.
Nenhum peixinho triste foi sacrificado nesta história. A heroica equipe de paramédicos do laboratório (tá, foi a zeladora) conseguiu salvar Jolly da morte. Depois de uma verdadeira CPI do Jolly e uma sequência de dedo-durismos, a denúncia recaiu sobre Claribalte, e ele foi punido com a limpeza do aquário. Para quem mataria um ser humano, saiu barato.
Não satisfeito em direcionar seu espiritismo suíno para animais indefesos, Claribalte também engendrava suas escrotices na vida em comunidade. Certa vez, ele estava no banheiro do colégio e, depois de dar sua mijada estudantil, foi lavar as mãos. Havia uma bola sólida de sabão presa a uma corrente, e era com ela que todos os alunos se higienizavam. Ele, querendo seu minuto de exclusividade, arrancou a bola para si, lavou a mão e não teve a menor dignidade de ao menos jogá-la no lixo. Jogou na privada mesmo.
Para somar, ao secar as mãos – também uma única toalha coletiva – ele, em vez de colocar de volta no lugar, tacou a tolha na privada também. E, o arremate: deu descarga, entupiu a privada e alagou o banheiro e o corredor. É ou não é um filho duma puta cheia de frieira e joanete?
E aí você me pergunta: mas, Pedro, porco escarra no corrimão, judia de peixe (ou de outros animais) ou depreda os banheiros que outros vão usar? Não! É por isso que eu acho muito desconfortável usar a expressão “espírito de porco”, porque, afinal, os porcos são muito mais educados do que a gente.





