Às vezes acho que o Rio de Janeiro é que nem uma baranga de Facebook que achou uma pose perfeita – daquelas que operam um pequeno milagre da fotogenia – e postou 125 fotos com o mesmo look para impressionar os outros. Todos acham a beldade maravilhosa, mas é só conhecer melhor alguns átomos dela para perceber que aquela beleza pretensiosa é tão genuína quanto um tênis Mike (hecho en Suriname). O fato é que o Rio se transformou no maior engodo da história do turismo mundial, e só a gente, que desvia mais de bala do que o Keanu Reeves, sabe bem disso.
Mas a gente, apesar de viver num lugar que não é o pior, mas irrita porque paga de melhor, tem muito senso de humor. Ri de si mesmo, ri das desgraças e ri das desgraças que recaem sobre si mesmo. Isso é muito louco. Noutro dia, eu, mal educado a ponto de pensarem que fui espancado oitenta vezes pela mãe, prestei atenção na conversa dos outros. Uma mulher madura explicava ao pessoal como procedeu com as amigas durante um arrastão. Do jeito que ela ria, parecia um chá de bebê, mas não, era um arrastão mesmo.
Ela começou o relato tratando o arrastão como um resfriado mequetrefe:
- Menina, peguei um arrastão na sexta-feira. Não te contei? Foi terrível!
Ela estava no carro com três amigas em um congestionamento colossal na Linha Amarela. Esta via é uma das muitas cariocas que representam bem a Terra Encantada (um Playcenter com o selo Botswana de qualidade instalado na Barra da Tijuca): sempre quando você passa por lá, tem certeza de que vai morrer. As estatísticas provam que isso tem chances reais de acontecer. Acho que a Terra Encantada é divertida por isso: eles te oferecem uma adrenalina que chega a patamares muito mais radicais do que os da concorrência.
No meio do papo, até então em um trânsito inocente (trânsitos nunca são inocentes), ela viu dois caras com capacete na mão andando no meio da Linha Amarela, indo contra os carros. Onde a moto deles foi parar, somente o gerente do achados e perdidos da humanidade poderia dizer (mas ele não foi encontrado pela nossa reportagem). Ao ver um início de confusão alguns veículos à frente, a certeza abateu as mulheres no carro: sem poder ir pra frente ou para trás, uma hora o arrastão iria chegar até elas.
Uma das amigas sugeriu que elas fugissem do carro, afinal, a vida estava acima dos valores materiais. Mas a dona do carro, que provavelmente pensaria o mesmo se também estivesse na carona, lembrou-se das prestações pagas ad infinitum pelo carango, calculou que seria mais rentável esperar a roleta russa (porque vai que os bandidos desistem?) e deu seu parecer com todo o equilíbrio que a ocasião pedia:
- EU NÃO ABANDONO O MEU PRETINHO!
Mas aí é que tá. Se não vai facilitar a vida do bandido entregando logo o carro, algo tem que ser feito para deixar o trabalho do cara mais prático, pois é muita gente para ser assaltada. As coroas começaram a separar os itens “roubáveis” para que o assaltante fizesse uma coleta seletiva e não surrupiasse coisas desnecessárias como documentos, fotos dos filhos… ou aqueles óculos caríssimos que você prefere dar rabo com uma flor enfiada a perder pro meliante sem tomar uma facada antes.
Ou seja, quando há tempo para que a vítima separe o que pode perder, o montante reunido costuma conter coisas valiosas, mas certamente as mais caras estão muito bem camufladas em algum lugar. Assim, acontece uma situação surreal em que o assaltado fica satisfeito por perder pouco e o ladrão satisfeito por roubar sem resistência. Você ficar bem porque foi menos roubado do que poderia é um sintoma de que tem alguma coisa bem errada por aqui.
De qualquer forma, por alguma questão milagrosa, os bandidos sumiram. Os carros começaram a andar, mas a mulher pensou que cada um que era roubado ia sendo liberado, mas não, o expediente dos ladrões havia terminado mesmo. As coroas deram graças a Deus porque só os carros da frente se ferraram, os que se ferraram deram graças a Deus porque pelo menos estavam vivos, e os bandidos deram graças a Deus por mais um dia de trabalho produtivo. E Deus deve ter dado graças a Si mesmo por não precisar morar no Rio de Janeiro.





