Corra Mary
25 set 2011

O arrastão nosso de cada dia

Às vezes acho que o Rio de Janeiro é que nem uma baranga de Facebook que achou uma pose perfeita – daquelas que operam um pequeno milagre da fotogenia – e postou 125 fotos com o mesmo look para impressionar os outros. Todos acham a beldade maravilhosa, mas é só conhecer melhor alguns átomos dela para perceber que aquela beleza pretensiosa é tão genuína quanto um tênis Mike (hecho en Suriname). O fato é que o Rio se transformou no maior engodo da história do turismo mundial, e só a gente, que desvia mais de bala do que o Keanu Reeves, sabe bem disso.

Mas a gente, apesar de viver num lugar que não é o pior, mas irrita porque paga de melhor, tem muito senso de humor. Ri de si mesmo, ri das desgraças e ri das desgraças que recaem sobre si mesmo. Isso é muito louco. Noutro dia, eu, mal educado a ponto de pensarem que fui espancado oitenta vezes pela mãe, prestei atenção na conversa dos outros. Uma mulher madura explicava ao pessoal como procedeu com as amigas durante um arrastão. Do jeito que ela ria, parecia um chá de bebê, mas não, era um arrastão mesmo.

Ela começou o relato tratando o arrastão como um resfriado mequetrefe:

- Menina, peguei um arrastão na sexta-feira. Não te contei? Foi terrível!

Ela estava no carro com três amigas em um congestionamento colossal na Linha Amarela. Esta via é uma das muitas cariocas que representam bem a Terra Encantada (um Playcenter com o selo Botswana de qualidade instalado na Barra da Tijuca): sempre quando você passa por lá, tem certeza de que vai morrer. As estatísticas provam que isso tem chances reais de acontecer. Acho que a Terra Encantada é divertida por isso: eles te oferecem uma adrenalina que chega a patamares muito mais radicais do que os da concorrência.

No meio do papo, até então em um trânsito inocente (trânsitos nunca são inocentes), ela viu dois caras com capacete na mão andando no meio da Linha Amarela, indo contra os carros. Onde a moto deles foi parar, somente o gerente do achados e perdidos da humanidade poderia dizer (mas ele não foi encontrado pela nossa reportagem). Ao ver um início de confusão alguns veículos à frente, a certeza abateu as mulheres no carro: sem poder ir pra frente ou para trás, uma hora o arrastão iria chegar até elas.

Uma das amigas sugeriu que elas fugissem do carro, afinal, a vida estava acima dos valores materiais. Mas a dona do carro, que provavelmente pensaria o mesmo se também estivesse na carona, lembrou-se das prestações pagas ad infinitum pelo carango, calculou que seria mais rentável esperar a roleta russa (porque vai que os bandidos desistem?) e deu seu parecer com todo o equilíbrio que a ocasião pedia:

- EU NÃO ABANDONO O MEU PRETINHO!

Mas aí é que tá. Se não vai facilitar a vida do bandido entregando logo o carro, algo tem que ser feito para deixar o trabalho do cara mais prático, pois é muita gente para ser assaltada. As coroas começaram a separar os itens “roubáveis” para que o assaltante fizesse uma coleta seletiva e não surrupiasse coisas desnecessárias como documentos, fotos dos filhos… ou aqueles óculos caríssimos que você prefere dar rabo com uma flor enfiada a perder pro meliante sem tomar uma facada antes.

Ou seja, quando há tempo para que a vítima separe o que pode perder, o montante reunido costuma conter coisas valiosas, mas certamente as mais caras estão muito bem camufladas em algum lugar. Assim, acontece uma situação surreal em que o assaltado fica satisfeito por perder pouco e o ladrão satisfeito por roubar sem resistência. Você ficar bem porque foi menos roubado do que poderia é um sintoma de que tem alguma coisa bem errada por aqui.

De qualquer forma, por alguma questão milagrosa, os bandidos sumiram. Os carros começaram a andar, mas a mulher pensou que cada um que era roubado ia sendo liberado, mas não, o expediente dos ladrões havia terminado mesmo. As coroas deram graças a Deus porque só os carros da frente se ferraram, os que se ferraram deram graças a Deus porque pelo menos estavam vivos, e os bandidos deram graças a Deus por mais um dia de trabalho produtivo. E Deus deve ter dado graças a Si mesmo por não precisar morar no Rio de Janeiro.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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20 set 2011

Esperando a anestesia passar

A rotina é um dos anestésico da vida. Mas como todo anestésico, ele não só anula a dor, como também a capacidade de sentir coisas. A vida vai passando, e conforme você vai se acostumando a existir, perde o medo de que pessoas valiosas sumam, seja como for, da sua vida. Perde a consideração e esquece que alguém que é importante no seu meio, o é por algum motivo que nem sempre se perdeu com o passar dos dias. A rotina, o costume e o convívio embotam o senso e relativizam o valor das relações.

E esse é o simples motivo que nos leva a gritar com a mãe ou ser indelicado com uma avó e não ter consciência pesada depois. Você submerge num convívio tão padrão que acha difícil entender o amor que sente por essas pessoas, você não tem medo ou culpa, porque a rotina passa a esquisita ideia de que os dias são infinitos. Uma hora você poderá resolver a questão. Mas só depois percebe que graças à rotina, todo mundo que morre vira santo, o que não é errado. Morrendo, eles quebraram a rotina e desfizeram a nossa letargia, mas nem sempre haverá tempo para tratá-los como deveria, afinal, a vida é única, e a continuação dela só existe nas nossas crenças.

Numa escala menos fatalista, relacionamentos amorosos são assim também. Duas pessoas se amam, mas se esquecem disso conforme as mesquinharias evoluem de abelhas para transformers. Toda a visão romanceada de um começo pode ser desconstruída pouco a pouco, e muitas das coisas boas têm a possibilidade de se transformar em fardo. Há, por exemplo, quem trate o sexo esporádico de uma data especial como um inferno necessário para manter uma relação. Mas mal percebe que essa relação se tornou um arremedo muito malfeito de algo realmente bom tempos atrás.

E me pergunto por que querer continuar uma relação nessas condições. Acho que porque a gente desaprende com a vida a ser independente e a apertar o nosso reset interior. E mais importante: há grandes chances de a gente voltar a enxergar o óbvio, o sentimento no qual a rotina tacou 7 pás de cal em cima, mas que ainda está lá esperando ser resgatado.

Dúvidas, todas as dúvidas do mundo. A quebra na rotina me trouxe todas elas de uma vez. A gente só sabe o quão bom é dormir depois que acorda. Por outro lado, há vezes em que por mais que você queira e precise dormir, não consegue por algum motivo. É necessário tempo para voltar a entender as coisas, tempo de esperar acabar o efeito da anestesia e ver o quanto de dor vem por aí. Entre se manter dormente até a completa demência ou se sujeitar a sentir (inclusive o que há de pior), acho menos deprimente a segunda opção, já que nesse dilema, se ferrar é só uma questão de tempo.

O que me consola é que, por mais que as pessoas preguem o preto no branco, nada está certo, errado ou definido. Quando não há remédio algum, o tempo é o melhor deles.

A vida não é fácil, e das questões mais impiedosas que a formam, as maldades cardíacas estão num patamar elevado de dificuldade. Acho que nunca senti tanta saudade, medo e expectativa.

E essa é uma das faces mais irônicas de quem fala “o amor é lindo”. Na verdade, “o amor é foda”, pois “lindo” não pode ser usado no bom e no mau sentido.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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13 set 2011

Dor

Estou tomando um remédio que pode causar reações anafiláticas, ressecamento dos olhos e da boca, rinite, úlceras nas gengivas, alteração da pressão arterial, edema cardiovascular, insuficiência cardíaca em pacientes com função cardíaca limítrofe, anemia hemolítica, agranulocitose, neutropenia, trombocitopenia, náuseas, vômitos, dores epigástricas, cólicas, queimação, diarreia, indigestão, insuficiência hepática, pancreatite, hemorragia, gastrite, duodenite, esofagite, flatulência, inflamação no intestino grosso, necrose hepática, hepatite, icterícia, tontura, depressão, confusão, meningite com febre e coma…

De duas uma:

Ou você pensa que estou numa luta de cotonetes gigantes contra a morte, afinal, pelo naipe das reações adversas, deve ser alguma moléstia fatal que talvez nem me deixe terminar o tex…

Ou você deve estar curioso, porque como posso me encontrar doente se todas as doenças do espectro médico estão relacionadas nos efeitos colaterais? Há, inclusive, doenças com nomes lamentavelmente inéditos na minha vida: agranulocitose, trombocitopenia e neutropenia. Algumas doenças mais conhecidas como depressão eu até entendo, porque só de ler a bula já perdi o amor pela existência e o ânimo de viver.

A verdade é que estou sentindo dor de dente. Mais precisamente dor no presidente do Sindicato Bucal de Sofrimento Humano (vice: afta). Dor no superintendente da Sociedade de Partes Inúteis do Corpo Humano (presidente: apêndice). Dor no membro do Conselho de Palavras Aparentemente Simples, Mas Que Obrigatoriamente a Pessoa Precisa Consultar no Dicionário Antes de Usar (presidente: afta também): estou com dor no siso.

Se por causa de uma dor no siso estou tomando um remédio que pode me render uma necrose hepática, quais doenças eu posso ganhar de brinde colateral se eu tiver, sei lá, uma neutropenia? Aids, Síndrome de Klinefelter, Doença da morte sofrida e horrenda? Espero que dos tanglomanglos enumerados na bula, eu só tenha a flatulência. Não ligo de peidar durante uma semana a minha pequena poupança de amor-próprio e autoestima em troca de continuar vivo. Às vezes é melhor ser notado pelo cheiro do que pela lembrança.

Alguns remédios são que nem as Meninas Superpoderosas: destroem tudo para matar um inimigo só. A alopatia às vezes usa uma marreta para matar mosquito, e a homeopatia, uma pena para acabar com o jacaré. Preciso urgentemente inventar uma medicina nova.

Além do remédio assassino para me aliviar as dores do momento (porque sabe Jeová os que vou precisar para acabar com as do futuro), tenho que tomar uma pílula do tamanho de um supositório. O mundo farmacêutico é sensacional: você, no fim das contas, dá graças a Deus por ter a opção de engolir. Seria péssimo voltar à infância, quando mamãe interrompia minha vida para botar um negocinho de dois centímetros na minha bunda. O supositório era pequenino, mas quando estava entrando, ficava do tamanho de um violão.

Para desinfetar o quadro, tenho também que bochechar uma mistura de água com água oxigenada (ou seja, inventaram a água mais ou menos oxigenada), que te deixa com o gostinho peculiar de catarro de unicórnio na boca. Sério, por que não fazem um remédio à base de jujuba? Por que a saúde, seja em forma de alimento ou remédio, é tão sacrificante?

Ah, acho que entendi por que a depressão está incluída na bula. Vou ter que ficar sem beber por uma semana, que dor (no dente e na alma).

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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05 set 2011

Não quero sua pulserinha

Desconfio de felicidade em excesso. Se aquela pessoa, às 6 da manhã, está pulando de alegria, de duas uma: ou acordou milionária ou vai dormir foragida por causa de um homicídio triplamente qualificado. É por conta disso que eu tenho medo de umas meninas da juventude cristã que vendem pulseirinhas na porta de um shopping perto da minha casa. Mesmo depois de levar fora da sociedade inteira, elas mantém uma simpatia tão grande, que eu fico momentaneamente com diabetes perto de tanta doçura. Isso não é convênio com Deus, é pacto com o Gavana, só pode ser.

Em uma ocasião fui pego por elas. Porque elas usam táticas milenares de guerra elaboradas por Sun Tzu que vão te cercar, a menos que você dê meia volta. A menina, com o nariz pintado para lembrar muito vagamente um palhaço, me deu um cartãozinho (que eu só não queimei na frente dela porque sou um ser social) e começou a divagar sobre a pulseirinha cujo dinheiro da venda provavelmente iria para algum fundo de ajuda humanitária, ou não. Para te falar a verdade, se minha vida dependesse de saber qual era o destino do dinheiro da pulseirinha, eu estaria fadado à morte.

E conforme ela foi falando, falando, falando, fui perdendo a energia vital para retrucar e não tive outra opção senão pagar para ela calar a boca. Pagar dois reais por uma pulseira no topo da pirâmide da vagabundagem realmente é salgado, mas dificilmente a paz custaria esse preço. Ou seja, elas trabalham de forma que você ache barato pagar pelo silêncio delas em vez de achar caro pagar pelo produto. Porra, elas são geniais.

A pulseirinha era preta e tinha sete contas que representavam sete coisas que seria mais fácil um iguana me levar pra jantar e ser educado do que eu lembrar o que eram. De qualquer forma, nenhuma conta simbolizava a durabilidade, pois a merda da pulseira arrebentou em cinco minutos. Antes que você pergunte, arrebentou na minha mão, pois não havia probabilidade infinitesimal suficientemente baixa de eu usar essa pilantragem no meu pulso.

Desconfio dessas meninas porque não existe coisa mais broxante do que ficar seguidas vezes no vácuo. Embora elas sejam treinadas pelo exército de Cristo, sempre haverá pessoas prontas para simplesmente não responder e seguir adiante. E como manter a calma e o bom humor?

Mas na cadeia da invisibilidade social, as meninas da juventude Cristã ainda estão muito lá atrás. Quem lidera mesmo são os entregadores de papelzinho, em Copacabana. Esses papéis fazem propaganda de basicamente três coisas: compro e vendo ouro, dentistas ultra baratos e trabalhos espirituais de pessoas que têm todos os santos no Facebook.

Com eles não sei o que fazer. É difícil saber se existe uma forma de ajudá-los sem que eu precise pagar pelos serviços eles divulgam. Por via das dúvidas, aceito todos os papeizinhos que me dão, o que me fez ter tido certa vez a impressão de ter recebido um folhetinho de um dentista que, além de ser muito barato, vendia e comprava ouro e ainda trazia seu amor em três dias. Sério, se você se predispuser a pegar tudo o que te entregam de uma ponta à outra da rua Siqueira Campos, ao final você vai entender por que as árvores do mundo estão acabando.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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29 ago 2011

Criancinha demoníaca

Fui uma criança moldada minuciosamente para me tornar um lorde. Meu sobrenome, por exemplo, é Staite da Hora Rafael Rangel Hervet Pontes Orleans e Bragança (Júnior). Quando eu ia ao mercado com minha mãe, sempre ficava muito preocupado com que os meus pedidos de guloseimas se encaixassem no orçamento familiar. Meu senso de responsabilidade me impedia de provocar um rombo no orçamento com minhas jujubas ou Cheetos Bolinha supérfluos. Sempre perguntava “SE SOBRAR DINHEIRO, compra um Cheetos pra mim?”. Escrevendo essa frase, eu quase me emociono ao pensar em como eu era uma criança bacana. Minha mãe apertava meu braço e me mandava ficar quieto. Não que ela fosse uma monstra, mas é que ela não queria mostrar que estava fazendo contas na hora de fazer as compras. Então um “SE SOBRAR DINHEIRO” era uma afronta ao convívio até então sadio entre a pseudo-dondoca da minha mãe e as dondocas com pedigree da vizinhança.

Estava no ônibus noutro dia e vi uma criança totalmente inversa ao que eu fui. Ela sentou, pôs a agulha no disco e começou a falar desenfreadamente e alto pra cacete. Tudo bem, acontece. Aí ela gritou para a mãe, que foi pagar a passagem: “senta aquiiii, mããe, mãããe, senta aquiiii”. A mãe sentou do meu lado, entre mim e ela, e começou a perguntar sobre o dia da menina. Sobre como foi o dia na escola, se ela assassinou algum amiguinho e ocultou o cadáver, se ela prevaricou e se ela desenhou muito na aula. Papo vai, papo vem, ela deu uma ordem à mãe:

- Mããe, pega a agenda!

- Oi?

- Pega a ageeenda!

E eu pensando “Ensina um ‘por favor’ a essa criança, mãe cretina”. A mãe deu a agenda à menina e ela obviamente não agradeceu. Em outro momento, o bebê diabo crescido puxou a faixa da lancheira e acabou arrebentando. Ela ficou chorosa e deu uma segunda ordem à escrava que a pariu:

 

- Mããe, consertaaa!

- Calma, filha, mamãe conserta em casa.

- Conserta agoraaaa!

Aí quando a mãe pegou a lancheira, abriu para ver se a filha não tinha perdido algo. Mas houve o contrário: tinha uma toalhinha a mais lá dentro. A mãe disse:

- Filha, essa toalhinha não é sua…

- É simmm, mamãe!

Além de mal-educada, a garota era uma trombadinha também, fiquei horrorizado. A garotinha tentou uma medida desesperada:

- Mamãe, fala assim: “essa toalha é sua”, fala, mamãe!

- Mas essa toalha não é sua, de quem é?

- É minha sim, mamãeee!

E quando pensei que ela já estava pronta para o Congresso Nacional, ela mandou a melhor de todas:

- Você tem que me obedecer, mamãe!

- Você que tem que me obedecer!

- Nããão!

Desci um ponto antes, pois estava quase procurando algum objeto perfurante da mochila. Fui pensando em como as pessoas cagam no pau quando se trata de educação em casa. Alguns pais conseguem transformar os filhos em monstros antes que a vida se encarregue disso. Nessas horas sinto profundo amor por Giulia, Manu, Mariana, Jéssica e companhia (nomes das camisinhas que ficam na minha gaveta).

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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