Corra Mary
10 out 2009

Consolos

Antes de tudo, esse não é um texto sobre uma coroa sessentona que, ao perder as esperanças no amor, fruto de traições diversas de malandrotes idosos, compra um vibrador e chama o aparelho pelo nome. Ela, aliás, chama pelos nomes, pois a cada uso, se refere ao consolo usando um nome diferente – Almir, Gerson, Gilberto – homens que já lhe trouxeram amor em algum momento da vida. Ela faz reposição hormonal, ainda tem um fôlego de leoa e só descansa depois que a pilha (dele, não dela) descarrega.

Na verdade é sobre como nós somos consolados em questões que estão além do nosso alcance. Se eu sentir que está chato, eu enfio algum conto erótico lá pelo final do post, tá certo?

Dinheiro não traz felicidade. Uma espinha interna no nariz muito menos. Dinheiro é uma coisa tão legal, mas tão legal, que alguém, em dado momento de humanidade abnegada, trouxe a máxima de que dinheiro não traz felicidade. Concordo, se ela viesse em frasco pelo menos… No entanto, mais de uma centena de vezes tivemos coisas que se vendem e que nos deixaram feliz. Um livro, um video game, uma meretriz (mentira), um pônei, ah, mil coisas. A felicidade, na questão material (ela existe, o que há de ser feito? Virar um bicho grilo e fumar maconha o dia inteiro? Pô bicho, é uma possibilidade), é o resultado de um emaranhado de coisas que vão sendo compradas. Dinheiro tem sim uma relação íntima com felicidade. Se você ganhar na megasena, você vai ficar feliz; se o Collor confiscar sua poupança, nem tanto;

Convencionou-se o bordão para que nós, seres sem proventos de sobra, que devem no banco e esquecem de terminar o mês no azul, nos sintamos consolados. A gente já tem uma inveja atroz das pessoas ricas (tirando as excêntricas), imagina se a vida nos mostrasse flagrantemente que dinheiro traz alguma felicidade? É melhor fazer propaganda contra.

***

Outra coisa que nos conforta é saber que outra vida virá depois que morrermos. Vamos ver os anjinhos (ou as bestas, no caso dos blogueiros), pular nas nuvens, tocar harpa, jogar baralho com Deus. Aí alguém no setor de reencarnação vai nos enviar um fax perguntando se já estamos preparados para a próxima vida. Recebemos uma pequena sinopse do que virá pela frente, e, por mais que o que nos espera na próxima vida seja uma porcaria, nós vamos corajosos em nome da evolução da alma.

O mais bizarro é quando existe o consolo do consolo. São aquelas pessoas que só fizeram merda a vida inteira, se convertem para alguma religião acolhedora, dão um belo dízimo e guardam um lugar no céu (A Reforma Protestante aconteceu há 500 anos, mas a venda de indulgências continua!). Ou seja, não basta se entregar a algo da qual não se tenha a mínima certeza, o barato é negociar com intermediários que saibam tão pouco como você sobre o que virá quando as botas baterem. É estranho admitir que, dentro de um mundo tão complexo, a diferença entre céu e inferno esteja em algumas mensalidades pagas. Aliás, é estranho que em um mundo tão complexo, haja espaço para céu e inferno, mas é uma ideia. Há quem renuncie da vida em prol de uma certeza tão infundada que chega dar medo de pensar quanto vale uma vida. O que vai ser de uma freira se Deus não existir?

Mas acho que entendo. É uma perspectiva tão desoladora saber que você vai morrer e acabar por toda a eternidade, que é difícil acreditar que um ateu durma em paz. No entanto, as pessoas relutam fortemente em considerar essa hipótese. É menos agressivo acreditar em algo que esteja fora do nosso controle. Talvez seja uma maneira semi-consciente de transferir a nossa responsabilidade para outra hora e outro lugar.

Estamos sempre buscando o sentido da vida, porque é desolador demais que ela não o tenha e que estejamos rumando cegos por aí. Só que passar a vida procurando um sentido para ela é a primeira condição para que você não construa sentido algum durante a existência. Não adianta, existem coisas que não têm respostas, e, se tiverem, ninguém vai acreditar.

O que me parece também é que todas as desgraças do mundo são muito bem justificadas por lobystas religiosos. A galera da agência de publicidade que escreveu a bíblia fatalmente pensou nisso:

- E se perguntarem “quando rolou a desgraça tal, por que Deus não interveio?”, “Estou miseravelmente pobre e acredito em Deus! Cadê ele?”.

- Vamos lá, galera, brainstorm! Vamos pensar…

- Vamos botar umas histórias bacanas… Podemos fazer uma do Jonilson. Sei lá, Deus tira tudo dele, mas Jonilson se mantem fiel. Aí Deus devolve tudo em dobro e o abençoa por manter sua fé. Aí fica a ideia de que é preciso ter perseverança e paciência, pois Deus o recompensará um dia! Vamos cunhar o slogan “É preciso ter uma paciência de Jonilson”!

- Ótimo! Mas Vamos botar Jó em vez de Jonilson? Fica mais fonético.

Só sei que eu tenho certeza de que estou vivo enquando estou vivo.

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Marlene Maria tirou sua camisola em frente o espelho e chamou:

- Armaaaando… Vem, Armando…

Plec!

Zzzzzz

O vibrador estava ligado. Marlene Maria pega o consolo, com pilhas Duracell médias, e liga a Tv. A tela transmite Silvio Santos ao contrário, pois ela está assistindo refletido no espelho. Ela acha muito prazeroso fazer amor com Armando e ser vista por Silvio, sem que seu varão possa ver (também pudera, ele está enfiado em Marlene Maria).

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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05 out 2009

O malandrão e o bundão

Antes de tudo, malandro é aquele cara que viveu na época do Madame Satã, tinha a sua navalha entre os dedos e vendia o almoço para comprar o jantar. Ia para o samba, catava a cabrocha, fumava o cigarro que ele mesmo enrolava e bebia até perder a blusa listrada. Era amigo dos estivadores e fazia uns bicos para pessoas que, por confiarem nele, não deveriam ser nem um pouco confiáveis também.

Mas quem não conhece um bom e velho malandrão, não é verdade? Nem digo que sejam más pessoas, são só esquisitas pra cacete. Como acreditar que você é capaz de pegar todas as mulheres, independentemente de seus estados civis, belezas e idades; e fazer todas as coisas possíveis e imaginárias? Algo me diz que isso não é auto-estima… É babaquice.

Eu já fiz algo louvável. Meu amigo também. Você também e seu amigo, idem. Mas o maladrão já fez todas, e quando não foi ele quem fez algo, foi o tio, que tem o maior órgão genital já apresentado na Terra. Vou sugerir que ele enfie o órgão em si mesmo, por que não? Aposto que isso ele ainda não fez.

Jesus Cristo foi um bundão total. Sabia que ia ser traído; falava para a galera nunca dar a outra face (bundão nasceu para apanhar, né?); andava com uma roupa esquisitona… Mas olha aí: é o cara mais respeitado que já existiu. Ele é tão respeitado que virou bordão, interjeição, personagem de filme do SBT, super herói, alguma parte da Santíssima Trindade, objeto da mais pura descrença… Como não existe bonequinho de Jesus Cristo!? Max Steel é o caralho, é Jesus com articulações! Aí, na embalagem poderia vir, em vez de veículos e armas laser, umas três ovelhas, um cajado e, talvez, uma cruz. Espero que algum executivo da Estrela esteja lendo meu post.

Bill Gates é outro zé bucéfalo de marca maior. Quer coisa mais triste do que só perder a virgindade depois do primeiro bilhão? Mas quer coisa mais feliz do que ter um bilhão!? Ou melhor, quer coisa mais absurdamente ótima do que ter algumas dezenas de bilhões? Pois é, você é malandrão e não tem dinheiro para comprar nem um Windows verdadeiro (bate aqui, meu bom, eu também não). Bill Gates está cagando montes para você, não faz a menor diferença para ele. Mas graças ao seu computador, você defeca via teclado seus grandes feitos, vai me dizer que não? Agradeça ao bundão.

Bom, você reparou que eu claramente pendo para o otários, embora seja esperteza e sagacidade na mais pura essência (nesse momento me vem uma tosse abrupta e eu quase morro. A sorte é que mamãe está por perto para me acurdir com a massagem respiratória). Mas serei absolutamente imparcial e justo no que vou propor: um confronto imaginário entre a Malandrolândia e a Bundãolândia. Quem se sairia melhor?

***

Não é que o Malandrão seja o macho alpha da sociedade (ele acredita nisso), mas ele tem muito mais tendência a ficar com alguém do que um bundão. Isso você pode comprovar na sua faculdade, no seu trabalho ou na sua escola. A coisa mais próxima que o bundão usualmente faz é virar o conselheiro e melhor amigo da menina que ama (dói demaaais).

Score: Malandros 1 X 0 Bundões

O Bundão tem mais empatia e é menos maquiavélico (menos quando está jogando Magic, é claro). No mundo cruel de hoje, não sei se isso é bom ou ruim.

Score: Malandros 2 X 1 Bundões

O Malandro tem mais malemolência  do que o Zé Bucéfalo. Numa briga entre os dois, há enormes chances do bundão tomar um sapeca iá iá, afinal, ele só é bom em porrada virtual. No entanto, como dar porrada não quer dizer nada, e a sociedade já está muito violenta, com índices de espancamentos e agressões altíssimos, bater em pessoas é um gol contra.

Score: Malandros 2 X 2 Bundões

Provavelmente os nerds, que nada mais são do que uma enorme parte do contingente bundonômico, terão melhores empregos em altos escalões. Logo, mandarão em vários malandros subalternos. VIRAAAADA DA BUNDÃOLÂNDIA

Score: Malandros 2 X 3 Bundões

Bundões são mais sagazes nos meandros da imensa rede de computadores. Fazem os melhores sites, vivem debatendo em fóruns de discussão, são os donos das lan houses…

Score: Malandros 3 X 3 Bundões

Bem, o jogo acabou. Deu empate, os jogadores trocam as camisas. O que podemos tirar como lição dessa partida?

A) Não devemos julgar nossos semelhantes. Se bem que se eu fosse semelhante ao Jorginho Bolota, aquele mongol da faculdade, até eu me julgaria.

B) O bom é sempre estar no meio termo. Eu odiaria ser maladrão marrento ou bundão peidorreiro. Prefiro ser cigano, o cara de teatro, intelectualoide… Não, intelectualoide não, por favor, Deus!

C) Fomos feitos assim e morreremos assim. É o karma. Você não viu a novela, idiota? Droga, essa frase vai datar o texto. Se daqui a cinco anos alguém lê-lo, a pessoa não vai entender a ligação de karma com novela. Bem, você que está lendo o texto em 2014, deixa eu explicar. Em 2009, ou seja, há cinco anos, passou uma novela chamada Caminho das Índias, que fala, obviamente, sobre a Índia. Nesse país cheio de mendigos, acontece a total falta de mobilidade social. Ou seja, aquele cara que nasce na merda, tem que se acostumar com o cheiro, porque dificilmente sairá dela, entendeu? Ué, você está vendo Caminho das Índias?! Ahhh, está passando no Vale a Pena Ver de Novo…

D) Desde que eu tenha pedigree, já é um começo. Ser um bundão metido a malandro ou um malandro que só se fode é o fim da picada.

E) N.R.A.

Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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22 set 2009

Esse texto não tem graça

Primeiro ou segundo dia de setembro

Me equivoquei redondamente há dias quando pensei que eu era a salvação dos problemas de um ex-caso. Na minha cabeça, eu juntava todos os predicados necessários para fazer uma pessoa como ela rir, se divertir e se apaixonar. Só esqueci, no meio da auto-blindagem do excesso de confiança, de que, na verdade, ela é quem era a salvação para todos os meus problemas.

E é duro passar a acreditar que você sai do nível de “salvação extraordinária” para o patamar de “historinha que não deu certo”. Como é irônico constatar que o impacto que ela deixou em você é muito maior do que o impacto que você deixou nela. São coisas como essa que deixam alguém com medo de se embrenhar na mata da paixonite. Mas, num emaranhado de contradições, cabe perceber que se sentir pequeno é a forma mais cruel de não ter coragem para crescer.

É chato demais procurar – à toa – algo nela que me represente. Todos nós somos carimbos, e a tinta que eu deixei foi fraca demais para ser percebida. Isso porque todas as músicas possíveis e imaginárias sobre amor e burrice já têm destinatário certo na mente dela – um passado de mais de meia tonelada (ou mais de meia década) contra um presente de 70 kg… É pedir para ficar de castigo numa gangorra hipotética. Mas é o que dá entrar numa disputa, sem o menor poder de barganha.

Eu desenvolvi uma habilidade desgraçada de ser a pessoa certa nos momentos mais errados possíveis. Ando perdendo as contas de ser incrível em vão. Continuando na toada contraditória, fico com uma culpa que não é minha. Fico puto da vida e só, porque o mundo é um saco de pessoas ordinárias, e não dá para fazer nada até esbarrar com alguém que valha o medo de se embrenhar na tal mata. Enquanto isso se espera pela hora de não esperar nada, pois esse é o exato momento furtivo onde a história acontece e te surpreende.

Mas vou te contar que falta saco e paciência.

Suspiro e coraçãozinho batendo mais forte são indicativos maravilhosos ou cruéis, só depende da situação. Essa história ajudou a tirar meu fôlego, antes por ânsias e bons momentos, hoje por cansaço acumulado de casos que foram para o saco. A vida é estampada com seus altos e baixos, pela maré que seca e alaga, pelas malditas contradições e incoerências: uma maneira pouco cortês de te fazer grato pela montanha e resignado pelo vale.

Sabe quando você olha para algum lugar sem o menor interesse, mas mantém o olhar simplesmente porque uma soma de conforto, tédio e sono te obrigam a isso? Estou assim. Letargia purinha.


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13 set 2009

Xingamentos que doem

Eu não sei se vocês concordam comigo, mas a imensa gama de xingamentos que são usados na hora de um confronto são justamente os que menos dizem alguma coisa sobre você. Quanto mais pesada é a injúria, mais etérea ela acaba sendo. Se perde no ar o que você quer dizer, quando você chama alguém de “filho da puta”, porque com certeza a mãe da pessoa xingada não é uma matrona da rua Ceará. E mesmo que o xingado seja filho da pobre prostituta, ele não tem o que dizer, afinal é a mais pura verdade. O que ele vai fazer? Retribuir na mesma moeda?

- E você, seu filho da arquiteta! Filho da professora! Filho da dona de casa!

A maioria desses xingamentos não tem condição alguma de afetar uma pessoa.

Filho da puta! Minha mãezinha é uma nobre dona de casa, que sempre me recebe com comidas quentinhas, lava a roupa e limpa a casa. Você não está xingando ninguém… Está mentindo, isso sim.

Vai tomar no cu (lembrando, gente, que “cu” não tem acento)! Mas eu vou tomar no cu só porque você pediu? Isso não me apetece, o que eu posso fazer?

Viado! Bem, eu, um profundo respeitador de quaisquer orientações sexuais, não considero “viado” ou similares uma ofensa. Mas entendo que quando a pessoa cospe um “viado” com raiva, ela não está compartilhando da minha crença. Mas de qualquer forma, chamar um hétero de viado é a mesma coisa de chamar um gordo de magro; Um alto de nanico; um ator teatral de íntegro (brincadeira, pessoal).

Seu merda! Por que escolheram “merda” como o dejeto oficial para esculachos? Por que não seu vômito? Seu urina? Seu catarro? De qualquer forma, chamar alguém de cocô ainda não é a forma ideal de acabar com uma pessoa… Por mais que ela cheire mal. Seria melhor “Seu fedido!”.

Xingue alguém de merda e de fedorento. Eu tenho certeza absoluta de que o segundo esculacho doerá mais na pessoa. Merda é qualquer coisa, se relaciona com as mais variadas situações. Fedorento não. E feder machuca o psicológico, vai me dizer que não? Quer coisa pior do que ter a convicção de que você está poluindo um ambiente com um cheiro que não combinou contigo, mas apareceu no seu corpo?

Embora possa parecer pueril, xingamentos infantis são muito mais acachapantes. E não era para menos: a infância é notadamente a época da nossa vida em que somos mais sinceros. Ela chama, sem o menor constrangimento, alguém de feio, burro, medonho ou fedido. Se ela te chamar de feio, putz, há grande possibilidade de você ser o chupa cabra, pois o que separa a criança dos juízos dela é um mar cristalino e calmo, sem moral alguma para servir de obstáculo.

Xingamento bom é aquele que te ataca justamente por não saber se você se encaixa nele. “Corno”, por exemplo. Alguém te chamar de corno é como abrir, com uma chave sórdida, os enormes portões da paranoia. Você nunca saberá se foi traído, a menos que te contem ou você descubra de alguma forma (Algo me diz que detetive só serve para isso mesmo). A mesma coisa com “feio”. Imediatamente você discute com o seu próprio ser: “serei um jaburu? Serei eu mais feio do que a fome na Etiópia?”. “Vai tomar no cu” não vai tirar sua auto-estima nunca, entendeu?

Em resumo, é pior ser chamado de feio do que de filho da puta, por mais que eu seja filho de Vanessa, 35 anos, corpo escultural, boca de veludo, discreta e deliciosa.


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01 set 2009

Gringo é o caralho

Antes de tudo, peço perdão pelo caralho logo no título. Aposto que a sensação seca, adstringente, pouco propícia que um desavisado caralho literal pode causar foi a mesma que a do meu título. Mas é porque você não vive há mais de 20 anos com o estigma de poder ser de qualquer lugar do mundo, menos da sua própria cidade. Eu sou apenas um rapaz latino americano, do Sudeste do Brasil, um país miscigenado, cheio de cores, matizes e tons. Tudo bem que toda essa tinta passou longe do meu DNA.

Já escrevi, no meu primeiro texto aqui na choupana rosa do corramary, sobre minhas vermelhidões e branquelidões. Mas não é necessariamente sobre isso que eu vou falar. É sobre a constante pressão social que a minha semi-total falta de melanina me proporciona diariamente.

Você pode me chamar de viado, de corno, de safrário, de varapau cretino, de Zé buceta, de filho da puta… Do que quiser. Se eu fizer por merecer então, fico até satisfeito (que mentira). Mas não tem coisa no mundo que eu odeie mais do que ser chamado de albino.

Albino é a minha rola!

Peço desculpas mais uma vez pela genitália explícita estacionada em alguma frase. É engraçado que “rola” sempre dá duas impressões: a de um pênis borrachudo e largo ou de um passarinho. Eu nunca uso “rola”, pois meu pinto não é um passarinho (???) nem uma deformidade genética digna do programa do Ratinho (rimou, eu sou um poeta).

Bem, voltando ao albino.

Primeiro de tudo que albino não tem melanina. Eu tenho, só que ela é pouca. Uma pessoa com pouco pênis é homem; uma pessoa sem pênis, provavelmente é mulher. Reparou na diferença enorme entre “não ter” e “ter pouco”? Pois bem. Meu cabelo não é daqueles amarelões claros, ele está mais para louro médio 3.6 com fios esverdeados. O cabelo cuja cor, segundo Juarez, meu ex-barbeiro e marido, é o sonho de toda mulher. Juarez sempre foi muito fofo… Ai ai… O que está acontecendo comigo?

Além disso, “albino” é uma palavra feia demais. Me lembra olho de peixe, uma coisa gelatinosa, sei lá. Se em vez de “albino” fosse uma palavra legal, tipo “claribalte”, eu não me irritaria tanto.

- Ih, Pedro, você é Albino?

- Albino é o cacete!

*************************

- Ih, Pedro, você é claribalte?

- Não, hehe, todos dizem isso!

Outra coisa que dilacera minhas entranhas é a constante achança pública de que eu sou gringo. As pessoas relutam absurdamente em acreditar que eu nasci no Rio, filho de dois cariocas. A única coisa europeia que escorreu do topo da árvore genealógica foram uns genes portugueses e italianos. Nada meu é alemão, ninguém da nossa família é alemão. A família só tinha relação com um germânico: o leiteiro que ia à nossa antiga casa nos anos 80, o simpático Wolfgang Shumacher. Sinto saudades dele… Gosto dele como de um pai. Somos idênticos…

Mas eu também não colaboro. A minha bolsa oficial de estágio é daquelas de um ombro só, marrom, meio escoteira / jornalista (pra ser escoteiro precisa de diploma?). Essa bolsa, escrota toda vida, é mais do que um mero saco onde guardo meus troços. É um convite aos meliantes. Uma pessoa normal, bronzeada, usando não desperta qualquer cobiça. Em mim, parece um depósito de dólares, pronto para ser passado para o primeiro surripião que tiver o dom do assalto (mas que dom filho da puta. Que surrupião idem).

Para driblar essa situação pré-delito, eu tenho que desenvolver um complexo esquema corporal chamado “malandreador de movimentos”. Eu simplesmente preciso gingar mais, andar mais cariocamente falando e falar alto, aos brados, todas as gírias que nada têm a ver comigo. Só assim um Zé bucéfalo com más intenções saberá que eu sou gente do povo dele.

Bandido filho da puta, numa ocasião em Copacabana:

- Fala aí… Boa noite… Pô, cara, você é inglês?

Inglês é o meu bilau! É o que eu tive vontade de exclamar de bate pronto.

Não preciso pedir perdão pelo bilau, porque se você se melindra com uma palavrinha tão inofensiva, vá para a puta que te pariu e sintonize no Discovery Kids. Lá não há espaço para ofensas, somente para ursos enormes roxos que brincam com crianças… Que medo! Gosto é que nem problema psicológico, cada um tem o seu.

É um saco andar pela Zona Sul do Rio de Janeiro, olhar gringos de verdade e pensar “isso sim é um gringo!”. Porque isso me faz acreditar que olham para mim na rua e pensam a mesmíssima coisa. Só fiquei tranqüilo uma vez quando estava andando na Saens Peña (Zona Norte) usando uma camisa rosa choque (mais nórdico impossível). Matutei “ihh, estou andando aqui de noite, todo mundo deve pensar que eu sou um gringo otário… Ah, mas que gringo vem fazer turismo na Tijuca? Ufa…”.

Reparou que eu comecei com caralho e terminei com bilau? Escrever realmente é uma terapia, acalma qualquer nervo.


Postado por Pedro | Categorias: Crônicas, Pedro
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