Em oito a cada dez textos meus no blog, eu faço alguma menção à cerveja em particular e ao álcool em geral. A tulipa e a garrafa sempre aparecem em algum momento, sejam como personagens principais ou como figurantes: apenas um gole, rapidamente, só para pontuar uma questão. Mas eu não sou um bêbado convicto, não subo na mesa, não vomito no meu pé, não mostro a bunda e nunca acordei nu sem saber por que dormi nu. Para mim, cerveja, a musa master, é excelente até te dar o primeiro soluço, depois uma água está de ótimo tamanho. A foda é beber cerveja boa – ela nunca te dá soluço, aí você bebe para sempre.
Pus esse parágrafo para aliviar minha consciência. São três posts seguidos sobre álcool, amizade e amor. Os três fazem bem e começam com a letra A, olha que fofo. Mas só o álcool e o amor também podem te matar. Pior: só o álcool te causa desarranjos intestinais. Ou seja, numa hierarquia cabalística, manejamos da seguinte forma: amizade em primeiro, amor depois e álcool por último.
De qualquer forma, a primeira bebida que eu pus na boca, no agradável sábado, foi justamente um chope. Mas esse foi em homenagem aos 15 anos de casamento da minha mãe e do meu padrasto. Quando o matrimônio, num mundo desgraçado como esse, perdura até as bodas de cristal, um chope é o mínimo que eu deveria beber para homenagear. Nunca vou esquecer quando Alicio, que já foi “tio Alicio” quando só dava uns pegas escondidos na minha mãe há 15 anos, começou a morar com a gente. Na primeira noite, ele brincou comigo e com o meu irmão (duas porrinhas de oito e dez anos) até a meia-noite, e falou cheio de alegria: “amanhã, vamos brincar assim que vocês acordarem!”. Levantamos às seis e pulamos nele… Ele alegou uma dor no rim… Como eu não sabia direito o que era rim, voltei desolado para o meu quarto. O puto tinha conquistado a gente e arranjado uma dor no rim!
Enfim, depois dessa comemoração, fui encontrar Thiago, meu parceiro de aventuras, e mais dois amigos. Fomos fazer aquilo que deixou os últimos dois posts fedendo a álcool: beber e beber. E assim foi, num boteco que cobra couvert às vezes (logo, às vezes é bom não ir), até as 4 da manhã engolindo malte, lúpulo e cevada sem o menor discernimento.
Domingo eu fui à missa, fiz a confissão e pensei coisas boas. Fim.
Mentira, eu acordei já notando que o apodrecimento corporal estava próximo, mas não poderia findar meus bons dias com marasmo e desarranjos – a gente deixa isso para segunda-feira. Fomos para um churrasco na puta que o pariu, ou seja, Barra da Tijuca, um dos poucos lugares – juntamente com o Polo Norte, a Terra do Fogo e Campo Grande – longe de absolutamente tudo.
A pior coisa da Barra é a quantidade inescrupulosa de condomínios-bairros-fechados. O churrasco ficava dentro de um – o Nova Ipanema. Entrando lá, eu fiquei com a impressão de que a criança que nasce num lugar como aquele, não desenvolve absolutamente nenhuma resistência ao mundo de verdade: se comer um camarão, se esvairá em merda; se pisar na areia, vai ter uma micose bizarra, bicho geográfico etc; se pegar uma menininha sem sangue nobre, vai se encher de DST … É uma pena como se criam pessoas pasteurizadas nesse mundo. Para entrar, eu precisei mostrar identidade e pegar um crachá escrito “visitante”, que eu orgulhosamente deixei no pescoço, para mostrar que eu não sou desse mundo polido e altivo. Por último, era só tirar uma foto… Entrar na festa foi tão burocrático que eu pensei que ficaria estagnado para sempre no espaço cósmico entre o mundo real e o churrasco.
Estabelecido na solenidade, causo um espanto nos meus amigos só porque eu peguei um guaraná. Nesses momentos você repara que está entrando na pecha de bebum. Outra pecha que eu conquistei até o final do churrasco foi a de homossexual. Dona Filomena, a mãe do aniversariante, perguntou para seu rebento se “aqueles dois meninos eram gays”, sabe Deus por que ela ficou encafifada com isso, mas enfim. De qualquer forma, eu e Thiago, o meu namorado, de acordo com as caraminholas triviais da Filomena, rimos disso, pois temos plena convicção de que somos os maiores pegadores do pedaço, a gente só não tem a mínima sorte e nem muito atributos, mas um dia vão notar nosso valor.
E no fim de domingo, estava eu em casa, pensando apenas em cama, sonhando por antecipação e profundamente marcado pelo banho de álcool, de amizade e pelas gotinhas de amor que me encharcaram nos últimos quatro dias – que valeram como quatro semanas.

