
— O nosso amiguinho foi embora… O nosso amiguinho foi embora.
Ela, 84 anos, na iminência do sexagésimo aniversário de casamento, sobre o marido, para os dois netos. Seu marido, meu avô, sorteado pela impossibilidade da morte, agora era só uma alma partilhada em frações desiguais nos interiores da gente viva que gosta dele. A morte é a única coisa impossível que acontece. É impossível e repentina, independentemente da idade, das condições de quem se desfaz disso aqui, porque não existe preparação suficiente. A morte é impossível até que se prove o contrário, e quando o contrário é provado — sempre —, é uma surpresa terrível.
E o que sobra para ela, 84 anos, 59 deles numa referência involucrada num caixão? Não sei, deve ser muito pouco. Mais de meio século compartilhando os hábitos, as tarefas e os sonos com alguém sugere que a morte também deveria ser compartilhada. É essa a injustiça que torna a vida muito mais difícil do que bonita.
Mas, e é quase uma afronta dizer isso a quem se perdeu da metade de si com a morte do outro, ela, aos 84 anos, tem um resquício de consolo. Esse resquício se encontra nos suportes familiares de que ainda dispõe. Chegou o momento de usar a família em uma de suas maiores finalidades: neutralizar precariamente a dor pelas peças que a desfazem aos poucos. Pelas peças que deixam de existir, impossível e repentinamente. É um suporte insuficiente, porque a verdadeira sustentação acabou de deixar de ser, mas sofrer acompanhado já é algo perto de quem só tem os próprios ombros para chorar.
Ela, 84 anos, não é António Jorge da Silva, 84 anos também, cria de Valter Hugo Mãe. Ele, apenas mais uma ficção real da literatura, perde a esposa, se vê sozinho (mesmo com filhos) e é mandando para um asilo, onde se ultraja com o tratamento infantil que recebe, se deprime, vê a morte ceifando seus companheiros, se reinventa à força e convive com a saudade constante.
“passados vinte e três dias, a elisa e o meu genro vieram visitar-me. traziam os meus netos, o miúdo e a miúda, e eu senti que já não poderia adiar mais o encontro. assim que entraram no meu exíguo quarto, as portadas abertas para mostrarem que vivemos em profunda claridade, fizeram fila no correr do roupeiro e permaneceram esticados como para revista de tropas. verifiquei que estavam de gala, todos adomingados para me verem e eu imaginava bem a elisa a dar ordens precisas sobre isso. quero-vos arranjados porque vamos ver o avô. e eu senti-me um idiota por ter julgado algum dia que as suas visitas iam ser constantes, coisa do quotidiano, para que eu acreditasse ainda na união da família. que idiota fui, de facto, assumindo ali diante deles que se punham embonecados no disparate de acharem que assim devia ser para irem ver quem outrora viam todos os dias. era como transformarem-me num passeio aborrecido…”
Ela não vai passar por isso. Enquanto a impossibilidade não lhe tomar a vida e lhe devolver a companhia do marido em alguma instância das suas crenças, ela jamais será um passeio aborrecido.





