
Pergunte para qualquer enamorado o porquê de ter escolhido a pessoa que escolheu, e ouvirá sempre a mesma resposta: “Porque ele(a) é especial.”
Se não estivermos falando com um casal com Síndrome de Down, o “especial” se refere a uma pessoa única, diferente de todas as outras que aquela pessoa anteriormente conheceu, alguém extraordinário, diferente, uma completa exceção. Entre milhões de cabecinhas, corpos, personalidades e cheiros, aquela, por algum motivo, foi a que se destacou.
Qual seria então o motivo, o componente, o elemento X para que uma, entre tantas outras, tenha se destacado?
Nem sempre é a pessoa mais bonita que se destaca. Ou a mais inteligente, a com mais caráter ou a mais de família. Ter características agradáveis é apenas o pontapé inicial para a tão desejada categoria de pessoa única. O atributo peculiar para tal, vai um pouco mais além.
E se aquela pessoa é especial e única, isso faz com que, automaticamente, todas as outras se tornem meros individuos ordinários que apenas passaram por aquela vida. E que aquela vida não teve o menor medo de as deixar ir embora.
As pessoas naturalmente carregam consigo uma peneira social. Separam o que e quem deve ficar daquilo que não tem lá tanta importância e que se for embora não fará tanta falta. As pessoas, assim como as coisas, fluem. É a vida acontecendo. As especiais também. Mas quando elas fluem, dói.
E não há terror maior do que se imaginar uma pessoa ordinária. Ninguém quer ser apenas mais um. Todo mundo quer ser especial. Mas para que haja uma exceção, há que existir uma comparação, nos levando então a dura realidade de que para alguém se destacar, é necessário que outro alguém não se destaque.
Há quem diga que esse tal destaque, é o componente que falta para completar a outra pessoa. Mas não gosto dessa teoria. Não acredito que devemos nos sentir incompletos e aceitar isso como uma fatalidade da vida. Acredito sim que somos completos e justamente por sermos assim, podemos nos dar ao luxo de nos dividir com outro ser igualmente completo. Isso de procurar algo que falta em você em outro alguém, soa mais como necessidade do que com vontade. E o que é o amor e a paixão se não uma enorme vontade?
Talvez sejamos todos especiais em algum ponto ou para uma determinada pessoa. Sempre haverá alguém para se agarrar naquela qualidade que cuidadosamente lapidamos a vida inteira esperando justamente uma pessoa para notá-la, e então, por conta dessa única qualidade, botando-a na frente de todos os defeitos, é ela que nos fará naquele momento, naquela situação, para aquela pessoa, indiscutivelmente especial.
E não há com o que se preocupar, se hoje é o dia dos ordinários, amanhã talvez seja o dos especiais.