A ex

jun 22

- Amor, quem é essa pessoa que te liga toda hora?

- Ah, é a minha ex.

- E o que a sua ex quer com você?

- É que a vó dela morreu.

- E o que você tem a ver com isso? Por acaso foi você quem matou?

- Não seja ciumenta. Eu gostava muito da vó dela.

- Você está namorando comigo, agora você tem que gostar é da minha vó.

- Coitada, ela tá sofrendo. Só to querendo ajudar.

- Ela tem amigos e familiares para isso. Não precisa ligar pra você.

- Éramos amigos antes de começarmos a namorar. Você quer que eu jogue no lixo 10 anos de amizade?

- Foda-se se vocês eram amigos do colégio, do maternal, do saco escrotal dos seus pais ou até de vidas passadas, eu não estou nem aí! Quando uma pessoa vira atual, ela nunca mais desce para o degrauzinho da categoria de amiga. Ela não é sua amiga, ela é sua ex.

- Não é bem assim, você não tem amigos também?

- Tenho, mas eu nunca fui pra cama com eles.

- Então você não tem amizade com nenhum ex seu?

- E porque eu teria? Se algum deles fosse bom, ainda seria atual.

- Você é muito radical.

- A vó dela tá morrendo faz quanto tempo? Porque ela te liga todo dia desde que estamos juntos. Se essa vó tá sofrendo esse tempo todo, acho que até eu vou levar flores no velório da coitada.

- Quando descobriram o câncer, já era tarde demais. Nem chegou a sofrer. Ela sempre me ligou pela amizade que temos.

- Que nem quando ela te ligou às duas da manhã de uma terça-feira? Era só pra bater papo? Ela não quer ser minha amiga também não? Vou adorar ter alguém me ligando de madrugada num dia de semana. Super normal.

- Ela é meio carente mesmo.

- Se o problema dela é carência, que adote um cachorro então. Aliás, se esse for o preço pra ela te deixar em paz, eu mesma dou um cachorro pra essa maldita. E com pedrigree ainda. Ela tem preferência por fêmea ou machou ou eu mesma posso escolher?

- Ela já tem oito gatos, não precisa de cachorro.

- Esse é o problema dela então. Um gato é normal, agora oito, é coisa de gente que não bate bem da cabeça.

- Para com isso.

- Aliás, você vai no velório da vó dela?

- Acho que sim, me sinto na obrigação de ir por tudo o que a família dela fez por mim.

- E o que exatamente foi?

- Eu era praticamente um membro da família deles.

- E deixou de ser assim que vocês acabaram, né? Olha, to até com inveja dessa família.

- Mesmo não mantendo mais contato, guardo com carinho tudo o que eles fizeram por mim.

- Que bacana. Vou te chamar pra circuncisão do meu sobrinho também. E pra cirurgia de hérnia da minha tia mês que vem.

- Você quer o que? Que eu pare de falar com ela? Que eu corte o contato completamente?

- Eu? De jeito nenhum. To tão comovida com essa amizade tão verdadeira e sincera de vocês dois que to até pensando em voltar a falar com os meus também, especialmente aquele ex que a minha mãe adorava, sabe? Acho que já te contei dele, o bem sucedido, bonitão, mais velho e que era louco pra casar comigo.

- Não acho uma boa ideia.

- Ótimo. Então estamos entendidos.

Lei Seca

jun 21

Não sei como é essa blitz da Lei Seca em outros estados, mas aqui no Rio de Janeiro elas estão por toda parte. Vai chegando o final de semana e é certo você esbarrar com elas por algum lugar.

Acho até bacana, realmente tem gente que abusa da bebida ao ponto de não conseguir ficar nem em pé, quem dirá dirigir. Mas o problema é que a Lei Seca te fode por qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Duas latinhas de cerveja e você já se fode dos pés a cabeça. Acho que foi por isso que surgiu o Twitter da Lei Seca.

É um twitter genial que te avisa por onde estão rolando as blitz, e já sabendo delas, você evita passar por aquele lugar e procura outro caminho para não ter que assoprar aquela merda de bafômetro e se fuder completamente. Todo mundo sabe que não é legal dirigir embriagado. Ok, verdade universal e até os que fazem não concordam, mas vamos combinar que duas latinhas não deixam ninguém bêbado, não é mesmo?

Acho que o verdadeiro controle sobre quem está em condição de dirigir e quem não está, não é nem feito pela blitz, mas sim pelo próprio Twitter. Porque se a pessoa está conseguindo ler o twitter pelo celular, então ela está tranquilíssima para dirigir. Essa pessoa pode ter tomado suas duas inocentes cervejinhas, que em nada afetarão sua habilidade ao volante, por isso ela merece escapar das blitz.

Agora, se a pessoa não consegue saber onde estão as blitz por falta de capacidade para ler, então essa pessoa não vai conseguir escapar das blitz, não porque ela não tem como saber onde elas estão, mas porque sua embriaguez está tão, mas tão alta, que nem ler ela está conseguindo. Essa pessoa certamente não conseguirá escapar das blitz. Merecido também.

No final das contas, o Twitter que inicialmente seria um boicote a lei seca, acaba mais ajudando do que atrapalhando. Ponto para o Twitter.

Tirinha #2 – A morte do português

jun 16

Autoria Marina e Pedro
Ilustração Daniel Cramer

Pessoas, situações, objetos e etc

jun 14

Tenho mania de estar sempre obcecada pelas coisas. Pessoas, situações, objetos e etc. Funciona da seguinte forma: Eu fico obcecada sempre por exatamente aquilo que eu menos posso ter. E não é aquilo de não ter agora, mas ter depois e acabar não dando valor. Não, é não ter nunca e ficar curtindo a obsessão de nunca ter tido e imaginando como seria se eu tivesse. Sim, é meio doentio, mas eu não comecei esse texto falando que era normal.

E aí acontece uma coisa esquisita. Tudo isso me consome de uma forma que eu paro a minha vida em função dessas pessoas, situações, objetos e etc e acho então que nunca conseguirei ser feliz se não tiver essas pessoas, situações, objetos e etc. É esquisito porque eu vivi 20 e poucos anos sem essas pessoas, situações, objetos e etc, e no momento em que elas encabeçam a minha lista pessoal de prioridades, elas se tornam a única prioridade, e aí comer, respirar, dormir e falar com a minha mãe ao telefone, se tornam segundo plano, porque eu começo a respirar, a descansar e a me alimentar dessas pessoas, situações, objetos e etc.

Eu poderia simplificar tudo e me contentar somente com o que já tenho ou com o que posso vir a ter, mas acho que isso seria fácil demais. E se fosse fácil, não me interessaria.

Outra coisa que também acontece é já ter tido essas pessoas, situações, objetos e etc, mas no momento em que essas pessoas, situações, objetos e etc vão embora, o meu desespero começa. E aí tudo vai embora pela porta dos fundos, e ao invés deu fechar a porta e me contentar com o lado de dentro, eu passo a viver no corredor esperando aquilo voltar como um cão fiel que espera o dono. E é ridículo me comparar a um cachorro que não tem consciência de que o dono talvez nunca volte, porque eu tenho. E mesmo tendo, é difícil explicar para mim mesma que aquelas pessoas, situações, objetos e etc se foram para sempre e que nunca voltarão. Talvez por incapacidade, talvez por falta de vontade, ou só por aquilo que acontece na vida: O passado passando e eu não passando com ele.

O lance é que eu vivo obcecada e só largo uma obsessão quando outra aparece, e para uma pessoa controladora, isso é uma guerra constante comigo mesma. É como se dentro de mim existisse um espaço para minhas obsessões pessoais, e esse espaço precisasse ser sempre preenchido com pessoas, situações, objetos e etc diferentes de acordo com a vida que eu levo e para onde ela me leva.

Mas isso cansa demais. Dramatizar as pessoas, situações, objetos e etc cansa demais. Me obcecar por elas também e então começa outra coisa engraçada: Elas viram textos.
E aí você lê o texto e diz: Esse texto se encaixa perfeitamente na minha vida.
E eu te respondo: Pode ficar com ele então, porque na minha vida o encaixe já não está mais tão perfeito assim.

Um amigo para apresentar

jun 06

“Tenho um amigo para te apresentar.”

Toda mulher solteira já ouviu essa frase pelo menos uma vez na vida. Sempre tem alguém para apresentar outro alguém. Parece que o mundo se ofende com a sua solteirice. Você quase se sente na obrigação de se desculpar por estar encalhada. Todos se incomodam com isso, menos você.

Mas bem, você está solteira, não teria nada a perder, então porque não conhecer o tal amigo da sua amiga, que segundo ela é a sua cara?

Bem, é aí então que começa o problema. É praticamente um encontro as cegas. A sua única referência é a sua amiga. Muitas vezes as amigas acertam em cheio, mas olha, por experiência própria, muitas vezes elas erram feio também. E sem querer tirar suas esperanças, mas já tirando, sinto informar, mas essas vezes são as mais frequentes.

1) Ele é um babaca
Você chega no lugar combinado e conhece o dito cujo que sua amiga tanto falou. Depois de 20 minutos você percebe que preferia ser queimada viva, a ter que aturar aquele mala por mais um minuto. O cara é um babaca completo, e nem fudendo que teria chances com você. Então bate um pensamento um tanto quanto incomodo: O cara que a sua amiga disse que era a sua cara é ele? Sério mesmo que ela o acha parecido com você? Isso quer dizer então, que… Ó, não, céus, não pode ser… Ela te acha tão babaca quanto ele.

2) Ele é fantástico, mas não te quer
Ele é lindo, ele é engraçado, ele é inteligente, ele é o cara mais interessante da festa, ele é realmente a sua cara. Só é uma pena que ele não possa dizer o mesmo de você. Poxa, a amiga poderia ter evitado a situação embaraçosa e ter mandado seu Facebook para o indivíduo dar uma fuxicadinha de leve antes do encontro, né? Evitaria passar pelo papel ridículo de rejeitada que finge, mesmo com a autoestima sendo pisoteada pela festa inteira, não estar nem aí.

3) O outro amigo é mais interessante
Vocês combinaram de sair e foi mais gente do que o esperado. Você conhece o seu prometido, mas opa, o outro amigo é muito mais interessante. E agora? Você não quer quebrar o coração do pobre rapaz, ele até tem jeito, mas o outro já veio todo prontinho de fábrica. É o genro que sua mãe pediu a Deus, e o melhor de tudo, é o cara que você pediu a Deus, a Alá, a Buda, a Santo Antonio, e a quem mais pudesse ajudar. Coitado do rapaz, te olha como se fosse um cachorro faminto diante de um suculento pedaço de carne, como dar a notícia de que a recíproca não foi verdadeira?

4) Ele quer todas
Ele é um cara legal, interessate e você até toparia conhecê-lo melhor, mas ele tem um grave problema: Ele encara as amigas da sua amiga como um menu de restaurante. Ele não só quer você, como quer todas as outras também. Você está solteira, não desesperada.

 

A grande verdade é que apresentar alguém nunca dá certo. Tem que ser natural, os olhos se encontrarem e os santos se baterem. E quando alguém quer alguma coisa, corre atrás. Então se o amigo da sua amiga que você conheceu numa saída, gostar de você, ele vai procurar um meio de entrar em contato contigo novamente, sua amiga não precisa ficar de cupido ou de babá de marmanjo.

E pode parecer frasezinha de encalhada, mas acredite, antes só do que mal acompanhada. O moço pode ter todas as boas intenções do mundo, mas de boas intenções o inferno está cheio. Por mais que todo o resto do universo aprove a união, se você não aprovar, os pombinhos nunca dividirão a mesma gaiola.

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