As palmeiras
set 09
“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”
(Fernando Pessoa)
Meus olhos acordaram tão inchados que mal cabiam em mim, eram 9 da manhã e ele ainda dormia, talvez sonhasse com enormes palmeiras, com um vento bem forte, soprando pra lá e pra cá, e areia. Muita areia numa vista vazia, sem pessoas ou animais, só as enormes palmeiras, sem a menor preocupação de nada, apenas de se mexerem.
Juntei todas as minhas forças possíveis de quem madrugou na noite da cidade grande, onde nada pára e as luzes doem os olhos, e levantei o corpo até sentar na cama e abraçar os joelhos.
Queria contar pra ele o quanto eu podia odiar alguém, como eu detestava sem ao menos ter um motivo para isso, queria explicar toda minha capacidade de ser uma pessoa desprezível, e isso me faria mais humana. Ou quem sabe menos.
Mas de certo que não valeria a pena, quando se sonha com palmeiras, o que menos pode existir é qualquer coisa de humano, e eu me rebaixaria a menos que isso, provavelmente choraria. Arrependida de não controlar minha boca e mente e vomitar palavras sem ao menos entender o porquê daquilo tudo. E não era vontade de entender, passava longe de qualquer entendimento desnecessário, era um ímpeto desejo de falar, de sabotar a mim mesma, e manter uma esperança de se ouvir um “apesar de” ou achar graça e tudo não passar de tolices da ressaca do vinho da noite anterior.
Continuei pensando nas palmeiras, mas agora a boca ardia por água, e como se me repreendesse por tudo que pensava, acendi um cigarro, traguei bem fundo enquanto observava a ponta queimando num laranja vivo, e qualquer dia pintaria o cabelo daquele laranja. Para me arrepender em duas horas, ou adorar pelo resto da vida.
Ele se mexeu bruscamente na cama e ajeitou o travesseiro, interrompendo meus pensamentos, e eu o adorei mais ainda por isso. Poderia passar o resto dos meus dias ali, desligando telefones, campanhinhas e a vida. Passar os dias sentada no quarto escuro, observando sua mão por trás da cabeça procurando a parte mais gelada do travesseiro, sem deixar que o movimento das palmeiras cessasse, sem descanso para o tempo e a pressa que não existem. Inventando lados e jeitos, mexendo na melodia de uma música imaginária, que seja lá qual fosse, não importava, se encaixaria perfeitamente.
Sem sono, deitei ao seu lado, fechei os olhos, dei uma longa respirada e ainda com o cigarro na mão, implorei em pensamento por enormes palmeiras. Mas no meu desejo ainda haviam ondas, numa praia dessas que só existem em filmes. Sorri satisfeita quando percebi que palmeiras e praias com perfeitas ondas só existem juntas em desenhos infantis, e que uma ou outra já seriam o suficiente para horas a mais de sono, eu não precisava, não precisava e apesar de querer, poderia abrir mão facilmente, e lá pelo meio dia, levantar, lavar o rosto e seguir a vida fora daquele apartamento.
Sem palmeiras.
A vida e o apartamento.




acho que isso será a cura da minha insônia essa noite, as palmeiras dançando perfeitamente…
Praia, pra mim, sempre foi o mar… não me importam as palmeiras, o que me diverte, me traz paz, é o marulhar…
muito bom este texto,digamos que tem uma junção coerente de nossos pensamentos inerte na solidão do homem contemporâneo,bjos!
Andas fumando maconha, mulher? Hehehehe… Ótimo texto, como sempre.
”Não te sataneio. Por mais que meu ódio seja inegável e minhas palavras duras, não te quero na lama da pior tempestade que eu posso imaginar, mas é impossível não desejar que comas da mesma fruta podre que me sirvo nesse banquete eterno ao qual você me pôs sentada com a mesma obediência de um animal de estimação com seu dono.”
Perfeito.
Adorei o texto *.*
APARECE, Saudades imensas né amore?!