
O que a gente vai não vai saber usar daqui a cinquenta anos?
Vovós, elas merecem 18 abraços por dia, um para cada momento em que lhes invadir a sensação de que o tempo está acabando. Acho que a artimanha evolutiva de não nos importarmos com a morte deveria ser desenvolvida justamente depois que a terceira idade bate o cartão no ponto da duração humana. Afinal, a ninguém deveria ser incutida a chance de viver uma prova da morte antes de morrer. É muito triste não ser pego de surpresa nessas horas cruciais.
Hoje, minha avó, o ser que mais bem representa a mistura entre a casmurrice e a ternura na Terra, continua viva, como parece continuar pelos próximos anos (e, se depender de mim, até que eu ache em alguma birosca a poção da imortalidade), e muito curioso ver o que dá medo nela ou enumerar as artes que ela nem de longe domina.
Ela está com um problema na perna, uma hora uma das duas pediria arrego por sustentar uma pessoa durante noventa anos – infelizmente é natural. Foi se arrumar para ir à fisioterapia, mas parecia com medo do que encontraria por lá: talvez a desconfiança de que algum charlatão lhe passasse as mãos ou obrigação de ter que fazer quarenta flexões de braço com o fisioterapeuta sentado nas suas costas. Medo de vó, assim como o receio que a avó da minha namorada tem de escadas rolantes. Deve ser muito estranho idosos, que são predispostos a ignorar avanços tecnológicos, tendo que se adaptar a uma escada que só te oferece a graça de movimento na entrada e na saída.
É claro que escada rolante, que já não é novidade, cobra um mínimo de coordenação motora, e para um corpo que vai perdendo a precisão com o ceifar dos anos, o mínimo é o máximo. E trabalhar com o máximo é sempre perigoso. Mas além disso, imagino que a relação de velhinhos com a tecnologia deve ser análoga à de alunos ruins com o conteúdo de uma matéria qualquer na escola. O acúmulo de informações novas ao longo de certo tempo deve tornar impossível o aprendizado lá na frente se você não aprendeu o começo da matéria. Se tecnologia fosse uma disciplina, os mais velhos seriam repetentes.
A primeira televisão da nossa casa, a que me serviu Vamp, TV Colosso, Pingu e um plug para conectar o Atari, não tinha controle remoto. Quando a gente teve a primeira televisão com controle, minha avó já devia ter seus setenta e blaus. Ela nunca esboçou muita curiosidade por aprender a usá-lo, e qualquer vislumbre de interesse se esvaía quando ela errava o canal e apertava o tv/vídeo sem querer. Trocar o canal e pôr no tv/vídeo é entrar num limbo se você não sabe por que aquilo existe. Minha avó já passou tardes inteiras em frente à tela azul do tv/vídeo espraguejando o Sistema Solar e esperando desolada alguém chegar para sintonizar algum programa a que se assistisse.
Para dar um crédito à dona Zinda, vale ressaltar que celular já não é mais um mistério completo para ela, a menos que haja necessidade de colocar créditos. É inconcebível que exista uma confiança entre o cliente, que digita o número do crédito no cartão da banca, e a matrix da operadora de telefone. E se eu estiver mentindo para a operadora e digitar secretamente o código de cinquenta reais em vez do de 15? E se a operadora fingir que eu digitei errado e não computar meu saldo? Minha avó deve pensar nisso, com o aditivo de que aquele código de 15, 16 números é uma transcrição impossível para quem não tem mais uma visão acurada.
E aí fico pensando: o que será que não vou dominar daqui a cinquenta anos? Eu, que em algum momento da biografia achei que nunca aprenderia a usar o Facebook, sou um péssimo aluno em potencial na aula de tecnologia. Mas tirando as questões virtuais, que aparatos a vida lá fora terá que vão me dar medo ou a sensação da mais cristalina ignorância? Sei que isso vai acontecer, porque serei um idoso convencional, e não uma dessas exceções bem-vindas para formalizar a regra.
Sinto que vou boiar porque não sou visionário. Não consigo imaginar, como toda pessoa que tem um pouco de Júlio Verne, qualquer coisa nova que pode revolucionar o futuro. Minha visão do futuro é infantil, tanto que estou tentando imaginar qualquer inovação tecnológica que não seja uma mochila propulsora para cada cidadão (isso criaria uma nova estatística de acidentes na sociedade, as quedas de mochila. “O que houve com fulano?”, “Caiu de mochila”).
Acho que sou muito novo para estacionar no tempo e usar para sempre todas as ferramentas que uso agora, mas às vezes é inevitável a sensação de que a busca pela praticidade torna algumas coisas muito pouco práticas. Mas só quero acreditar nisso depois do setenta anos, se eu chegar até lá (bem, se o Bukowski chegou a 73, eu chego a uns 120).


Sou uma bola de amor por esse texto.
Kra, penso a mesma coisa, não costumo me adaptar facilmente a novidades, lembro quando lançaram o DVD, eu não achava uma boa idéia comprar o aparelho de dvd porque devia ser muito caro para alugar, e ainda hoje fico com mó receio de botar as contas em débito automático…
Imagina com meus 70, a galera frequentando bares por holograma com medo da violência e eu querendo tomar minha gelada pessoalmente com uns amigos num pé sujo.
Em uma conversa com uma tia, entramos no tema “conflito de gerações”. Uma hora ela me falou algo assim:
- A gente que é mais velha, tem mais dificuldade pra aceitar as novas mudanças. Uma hora tudo muda muito rápido e a gente não consegue acompanhar.
Eu acredito que chega uma fase em que nós começamos a nos acostumar com as coisas ao nosso redor. O jeito de falar, o jeito de fazer as coisas, as tecnologias existentes, tudo. E estamos tão apegados àquilo, que quando algo novo aparece nós não damos atenção e, quando percebemos, já estamos ultrapassados pelas novas gerações.
Recentemente, eu mesmo tive problemas a me adaptar com o SO Android. Acho que há dois anos começaram a aparecer uns códigos de barras em alguns videos no YouTube que diziam “aponte a câmera do seu Symbian”. E até que eu descobrisse que o tal Symbian se tratava de um SO para celulares Nokia, os SO’s Android e IOS já tinham sido lançados. E eu me deparei com aquele monte de novas informações que eu sequer conhecia. Tive que correr atrás.
Eu acho que as coisas ficam mais difíceis quando não nos atualizamos junto com o mundo. Hoje em dia tudo é muito rápido. Se não nos adaptarmos estaremos em apuros.
Eu penso nisso di-re-to! Tenho três avôs, dois deles usam internet, celular, controle remoto e são muito sagazes, rs! Minha outra vó, por parte de mãe, tem celular mais não usa, pois a parte de carregar a bateria do celular dificulta esse processo. Eu, com certeza, vou ser uma vovó lerdinha que não vai saber nem das novas tecnologias e nem fazer tricot. Hoje em dia eu já tenho dificuldades com certos celulares mais moderninhos… quando eu tiver velhinha então, jizuuus… Que meus netinhos me socorram! rs