Esta é uma história fantasiosa que conta o futuro das duas criaturas mais velhas que eu conheço: a minha cachorra e a minha vizinha.
É uma doideira o que os anos fazem com a gente. E não estou me referindo à s rugas de expressão, aos peitos caÃdos e à s genitálias idem – coisas que fazem parte dos conjunto de provas cabais de que a vida NÃO é bela. Falo daquelas pessoas e animais com quem você interagiu há anos e que hoje vivem sem a capacidade de fazê-lo.
Vou usar pseudônimos para que ninguém se ofenda.
Dona Tita (eu juro que inventei, foi criativo, né? Quantas donas Titas existem por aÃ? Todas as de verdade e essa) era uma velhinha simpática que já tinha sido uma senhora austera e executiva. Mesmo com os 80 e blaus, foi por muito tempo a pessoa mais sã daquela casa completamente insana – morava com uns cinco quarentões e cinquentões malucos, esquentados e barulhentos – os sobrinhos.
Bolota era uma cachorra detestável, epilética e também barulhenta. Quando era apenas um filhote, em 1994, mordeu um fio, tomou um choque, e nunca mais foi a mesma. Talvez ela seja doente desde que nasceu, mas como a primeira crise epilética dela veio depois desse acidente, cremos que antes da mordida elétrica, ela era um poodle normal.
De dois anos para cá, as coisas para ambas desandaram de vez. Bolota parou de ter crise -também pudera, que coração se exalta quando mal se anda, mal se enxerga e mal se come? De qualquer forma, sinto que ela já esteja no lucro, afinal, para um cachorro condenado pelas circunstâncias cardÃacas, viver mais de 14 anos é um milagre. Aliás, talvez essa casa nunca tenha vivido um milagre justamente por causa disso: Bolota roubou todos para se manter viva.
Dona Tita adoeceu, e nunca mais falou coisa com coisa. De uns tempos para cá, tornou-se a matriz de todas as gritarias da casa, o que soou estranho, pois ela é quem apartava os sobrinhos escandalosos. Mas, quando ficou mal, os sobrinhos acalmaram e passaram a fazer as vezes de enfermeiros. O problema era a hora do banho – ela gritava desesperadamente. Um grito agudo, algo como uma agulha enfiada no ouvido – não consigo pensar coisa mais aguda do que essa. Era tanta gritaria que, volta e meia, qualquer um falava, em qualquer apartamento à volta:
- Caralho, hora do banho da Dona Tita.
Quando havia visitas, o constrangimento batia. Falar que no vizinho tem uma velha que detesta tanto banho que esperneia o mais alto que pode, é no mÃnimo esquisito.
O mais curioso é que Bolota e Tita se manifestavam praticamente na mesma hora. Parecia que Bolota, ao chorar por causa dos reumatismos, chamava Dona Tita para o banho. E assim foi por longos 17 meses. Uma velha gritando de cada lado da parede, uma orquestra demonÃaca que, apesar de tudo, não podia nos trazer sentimentos ruins – xingar alguém nesse estado é pedir para Deus lhe negar a porta dos céus. Escrever um texto sobre isso também.
Mas houve um dia em que a orquestra manifestada no apartamento vizinho foi diferente – eram os sobrinhos gritando loucamente, pedindo para Dona Tita voltar. Sem precisar fazer o mÃnimo esforço para tal, ouvi que a anciã havia morrido enquanto dormia. E, que loucura, antes de chorarem pela morte, xingavam-na por pensarem que estava fingindo dormir para não tomar banho.
Levantei sozinho em casa e pensei o óbvio, já sabia o que tinha acontecido. Depois verifiquei, só por desencargo de consciência e fiz algo que vinha fazendo há meses: acompanhei a respiração da Bolota. Ela quase sempre me surpreendia, dessa vez não. Só me restou pegar o telefone:
- Mãe, volta para a casa, a Bolota morreu…
Pedro
Ai, que texto triste… Não sei se pela Bolota ou pela Dona Tita
Confesso que a bolota me doeu mais no coração que a Dona Tita… =~
Péssimo estágio da vida…
Triste e curioso ao mesmo tempo…acho que um budista explica.
É Flávia… Game Over.
pedro, nesse eu tive que comentar.
tá ficando profissional … conseguiu me fazer rir e me deixar triste ao mesmo tempo, sério!
te vejo em talk shows por aà futuramente! hahah beijo, querido!