Corra Mary
06 out 2011

A ida ao mercado

Depois de Copacabana, o mercado é o lugar onde mais se encontra gente estranha por metro quadrado. Na verdade não só as estranhas, mas gente de todos os tipos, porque assim como os loucos, os normais também eventualmente precisam abastecer as prateleiras de suas casas. Mas há algo no mercado que atrai especialmente os malucos e psicóticos de todos os tipos.

Se houver alguma espécie de irmandade dos malucos anônimos, tenho certeza que o ponto de encontro deles é no mercado.

Ontem eu e Luiza, amiga e fiel escudeira, resolvemos fazer uma festa de aniversário surpresa para outra amiga nossa. Fizemos a listinha de compras, respiramos fundo e fomos ao mercado.

Nossa ida ao mercado já começou estranha desde a porta de entrada (que também é a de saída). Enquanto entrávamos, fomos empurradas por um funcionário que carregava nos braços outra funcionária desmaiada. Ao fundo ouvimos uma terceira funcionária: - De novo?
Ou seja, a funcionária apagada nos braços do rapaz, já possuía um histórico de apagões em pleno trabalho.

Normal, até porque, se eu trabalhasse num mercado, eu também desmaiaria de desgosto com certa frequência.

Luiza se virou e disse: - Creepy!

Acenei com a cabeça e continuamos andando rumo ao inferno mercado.

Procuramos logo na entrada as fileiras de carrinhos que todo mercado dispões aos clientes. Mas aparentemente o nosso não. Perguntei a um funcionário onde estavam os carrinhos e recebi a melhor resposta que um funcionário pode dar sobre um item que teoricamente seu local de trabalho deve proporcionar: - Ah, devem estar por aí.

Percebemos então que nós mesmas deveríamos achá-los.

O mercado estava lotado e sem nem sombra de um carrinho vazio. Pessoas vinham e iam com compras nos braços. Percebemos que teríamos que degladiar com os outros se realmente quiséssemos um carrinho.

Certa hora, quando andava mais a frente, ouvi a Luiza gritando:
- Marina, aqui!!

Virei-me e vi Luiza debruçada no carrinho cheio de uma senhora, enquanto a mesma olhava assustada, segurando um carrinho vazio que estava ao lado.

Mergulhei naquele mar de gente e fui nadando empurrando uma velhinha aqui, um funcionário ali até chegar ao carrinho e abraça-lo como se minha vida dependesse daquilo. Por pouco não senti a necessidade de mijar para marcar meu território.

Era difícil andar pelos corredores apertados cheios de pessoas sem a menor noção de espaço ou respeito. Numa dessas, nos encontramos numa sinuca com outros três carrinhos. Uma senhora prendeu completamente o fluxo dos carrinhos e resolveu que não se moveria pois queria pegar um objeto que estava atrás do nosso carrinho.

Depois de esperarmos em vão para que conscientemente a senhora entendesse que somente o carrinho dela andando poderia destravar o de todo o resto, travamos o seguinte diálogo:

Luiza: - A senhora poderia andar pra frente?
Velha encrenqueira: - Mas eu quero pegar aquilo. (apontando para um objeto atrás do nosso carrinho)
Luiza: - Mas a senhora precisa ir pra frente para que todos os carrinhos se movam. Inclusive o seu.
Velha encrenqueira: - E é você quem dá as ordens aqui?
Eu: - Então vamos ficar todas paradas aqui, sem sair do lugar porque a senhora não tem a boa vontade de dar míseros três passos pra frente. Que tal?

Luiza com toda a sua educação não conseguiu fazer com que aquela senhora desprovida de bom senso e inteligência básica conseguisse entender a lógica de algo tão simples. Mas nada que uma boa grosseria altamente necessária não a fizesse se mover.

Já estávamos achando que aquele mercado era uma enorme pegadinha ou que fosse localizado numa espécie de Twilight Zone de Botafogo. Fomos correndo pegar os últimos itens. Já estávamos com medo imaginando o que mais poderia acontecer ali.

Enquanto pegávamos velas e forminhas de brigadeiro, deixamos o carrinho um pouco afastado e ao voltarmos percebemos que nesses 10 segundos de descuido, nosso carrinho fora lotado de itens descartados pelas outras pessoas.

Sem entender que tipo de filho da puta desova suas mercadorias bastardas no carrinho de outro, corremos para a fila. Deixei a Luiza com o carrinho e fui buscar os últimos itens da lista: dois engradados de cerveja.

Depois de levar o primeiro, quando ainda estava pegando o segundo, ouvi um murmurinho e vi as pessoas daquele formigueiro se afastarem rapidamente criando uma roda vazia.

No meio dessa roda estava Luiza, debruçada no carrinho. Cheguei mais perto e pude perceber o que estava acontecendo: Uma das latas de cerveja do primeiro engradado havia estourado, molhando quem estava na nossa frente, nossas compras e obviamente a Luiza.

Um bendito homem, enviado pelo Deus das compras via Internet, veio nos ajudar a retirar o engradado do carrinho.

Àquela altura, foda-se a cerveja, só queríamos ir embora daquele manicómio. Chegando nossa vez no caixa, quando terminávamos de passar nossos itens, um percevejo pousou no nosso carrinho, provavelmente atraído pelo cheiro da cerveja estourada. Antes que pudéssemos tomar qualquer atitude, para completar o nosso dia, uma senhora que estava na nossa traseira na fila, achou que era uma boa ideia matá-lo.

Voltamos para casa exaustas, estressadas, irritadas, descrentes na humanidade e cheirando um gostoso mix de cerveja e percevejo recém falecido.

Como não podia esquecer de mencionar, a festa foi ótima. Obrigamos a aniversariante a comer o bolo inteiro, 100 brigadeiros e 3 litros de refrigerante. Deve estar arrotando doce até agora.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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Este post tem 13 comentários

  1. Fato que vc estava no Mundial…

    Comentário por Papí @ 06/10/11 - 4:28
    • Você incrivelmente acertou.

      Comentário por Marina @ 06/10/11 - 4:32
      • Não tem mercado pior que o Mundial. Especialmente num sábado. De manhã.

        Da última vez que fui num, tive que disputar espaço com velhinhas metidas a Schumacher pilotando carrinhos de mercado F1 como se chegar primeiro no caixa estivesse valendo o pódio. Mas acho que elas estavam mais pra Barrichello, só atropelando meus tornozelos.

        Comentário por AnnA @ 06/10/11 - 16:49
  2. Essa foto é do atacadão, fica na avenida brasil na altura de guadalupe, lá o bicho pega tbm…

    Comentário por Julio @ 06/10/11 - 8:42
  3. Aí você acordou…
    Putz… Parece aqueles sonhos malucos!

    Comentário por mily @ 06/10/11 - 11:31
  4. Comentário por mily @ 06/10/11 - 11:42
  5. HAUHAUAHAUHAUAHAU muito boa!

    Comentário por @ 06/10/11 - 12:42
  6. kkkk odeio ir no mercado kkk

    Comentário por Dandy @ 06/10/11 - 17:08
  7. Aposto meu apêndice que era o Mundial! ¬¬

    Comentário por Rafael Bettamio @ 07/10/11 - 3:14
  8. Por isso que eu vou ao supermercado, aqui em SP, de madrugada. Fuck Yeah!

    Comentário por Beto Petroni @ 07/10/11 - 17:14
  9. “Mas nada que uma boa grosseria altamente necessária não a fizesse se mover.”

    Algumas pessoas não entendem quando falavamos com educação pq simplesmente não sabem o que é.

    Comentário por Verinha Paiva @ 09/10/11 - 1:13
  10. Ei querida menininha ruiva!

    Não tá na hora de trabalhar não?!? Parece que é só o Pedro que escreve nesse blog.

    Leitores apreensivos e com saudades das suas estórias…

    Comentário por Sandro @ 18/10/11 - 17:27
    • A criatividade foi dar uma volta mas telefonou avisando que já está voltando.

      Comentário por Marina @ 19/10/11 - 19:59
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