O drama da calcinha suja

jul 31

Há uns anos atrás, conheci um carinha numa festa da marinha. Ele era lindo. Alto, loiro, olhos verdes, sorriso enorme. Chamava-se Marcelo, e era realmente encantador. Tinha um ótimo papo, era charmoso e ficamos juntos até a festa acabar.

No final da noite, ele pediu meu telefone. Duvidei que fosse ligar, mas no dia seguinte o telefone tocou, e era ele me chamando para jantar fora.
Tomei um banho de princesa, me perfumei, fiz a maquiagem, escolhi uma roupa de matar, troquei o absorvente umas 80 vezes, e esperei ele ligar. Às 8 ele passou na minha casa, e seguimos para a Fiammetta.

Pedimos uma pizza de marguerita, e nem preciso dizer que estava fantástica. Acho que até se tivesse pizza de bosta no Fiammetta, seria divina.

No meio do jantar, pedi licença e fui ao banheiro. Não estava com vontade de fazer xixi, mas é sempre bom checar se está tudo ok. Se a maquiagem não está borrada, se não estou feito uma idiota sorrindo com toda a graça do mundo, com um pedaço de manjericão preso no dente, ou se o absorvente continua segurando o fluxo direitinho, e bem… Estava tudo ok, exceto o último item.

Minha menstruação estava tão intensa, que meu Intimus gel com abas não conseguiu agüentar, e partes da minha calcinha, antes branca, estavam vermelho-sangue.
E agora? Como eu ia voltar pra mesa sabendo que minha calcinha estava completamente manchada? Nojento demais. Não tinha condições.
Sempre carrego um absorvente de emergência na bolsa, mas calcinha não!

No momento, me pareceu uma boa idéia lavar a calcinha na pia e esperar secar.
Como não tinha levado a bolsa pro banheiro, corri até a mesa, peguei a bolsinha do absorvente e voltei pro banheiro. Joguei o absorvente no lixo, tirei a calcinha e lavei-a na pia com o sabonete líquido aroma tutti-frutti.

Bom, o primeiro passo estava feito, e com sucesso. Agora era só esperar a calcinha secar.
Adoraria que esse fosse um dos banheiros em que não há papel para secar as mãos, e sim os odiosos secadores de ar quente, mas o banheiro da Fiammetta não é banheiro de shopping, e nem todo o papel do mundo me seriam úteis nessa situação.

Me tranquei no banheiro, estendi a calcinha no porta-papel higiênico e esperei. Eu realmente esperei. Esperei tanto, que a recepcionista do restaurante bateu na minha cabine e perguntou se estava tudo bem. Limitei-me em responder um seco “”.
O que eu ia dizer?
Tá tudo bem sim, só estou esperando a minha calcinha secar.”????
Não podia!

Dentro de uma cabine de banheiro, com uma luz amarela bem fraca e tocando toda a coletânea do Jorge Vercillo no rádio do banheiro, chega uma hora que você não tem mais a menor noção do tempo. Você entra numa outra dimensão, em que um minuto a mais ou uma hora a mais já não fazem mais a menor diferença. É uma sensação que só alguém que está num cubículo ouvindo incessantemente Jorge Vercillo é capaz de saber.

Não sei quanto tempo fiquei lá dentro, mas foi o bastante para secar a calcinha o suficiente para voltar à mesa.

Quando voltei, Marcelo não estava na mesa. Devia ter ido ao banheiro, então sentei, voltei a comer a minha pizza, que já estava gelada, e o esperei.
Terminei a pizza, e Marcelo ainda não tinha voltado. Estranhei a demora e perguntei  ao garçom. E para a minha surpresa, Marcelo pagou a conta e foi embora. Era um cavalheiro mesmo. Enquanto eu secava a minha calcinha no banheiro, fez questão de pagar a conta antes de ir embora.

Ele devia ter achado que eu era alguma doida que estava fugindo dele trancada no banheiro, ou algo do tipo, mas não, não era nada disso. Não podia deixar um homem desses fugir da minha vida por um mal entendido tão besta.

Peguei o celular e liguei uma, duas, três… quarenta e sete vezes para ele, sem obter resposta em nenhuma delas.
Se antes ele não me achava uma maluca, certamente agora achava.

Acabei voltando para casa de taxi. Sozinha, triste, mas de calcinha limpa.

Acho que não preciso nem dizer que o Marcelo nunca mais me ligou, né!? Aliás, eu nunca mais tive notícia alguma do Marcelo.

Então, se alguém conhece algum Marcelo que se encaixa nas descrições, avise-o desse texto, e Marcelo, se estiver lendo, saiba que foi tudo um mal entendido. Podemos recomeçar de onde paramos?

Lembre-se

jul 14

Quando você estiver trabalhando, lembre-se. Quando você estiver dormindo, comendo, se vestindo, lembre-se. Quando você estiver assistindo televisão, comendo churrasco, e tomando uma gelada, lembre-se. Quando você estiver beijando outras bocas lembre-se. Quando você estiver dirigindo o carro, a moto, o caminhão lembre-se. Quando você sentir vontade de fazer xixi nas calças de tanto rir, lembre-se. Quando você não achar que a vida vale à pena, lembre-se. Quando você acordar e não quiser sair da cama, lembre-se. Quando você sentir ódio, lembre-se. Quando você sentir frio e calor ao mesmo tempo, lembre-se. Quando você perder o ônibus, lembre-se. Quando você passar um domingo inteiro em casa, lembre-se. Quando você for visitar um parente distante, lembre-se. Quando você lavar o carro, lembre-se. Quando você escutar a sua música favorita, lembre-se. Quando você correr, andar, rastejar, lembre-se.
Quando e enquanto você viver, lembre-se que eu estarei te amando.
E quando você estiver lembrando, não se esqueça de não esquecer.

Corra Mary