O segundo dia mais gay da minha vida
Eu juro pelas paredes do meu intestino que eu não queria elaborar um texto sobre esse episódio. Eu sempre tive a mania de escrever alguma coisa engraçadinha depois que me acontece uma coisa chata / degradante. Foi assim com a menina que esfregou na minha cara, mas eu não percebi porque tenho problema mental (“Papando uma mosca varejeira”); e com a menina que me deu um toco saindo correndo pela rua (“A curiosa vez em que Deus se vingou de mim”).
Em um dia em que deveria ter ficado jogando Uno com a minha avó, fui pra uma festa com pessoas moralmente incríveis e questionáveis. Era semi à fantasia, pois nenhum convidado destoava por estar com ou sem roupinhas ou apetrechos normais ou fantasiosos. As músicas eram razoáveis – ora desciam ao inferno (funk!), subiam prum hip hop inofensivo, chegavam ao topo com uns roquinhos e desciam tudo de novo depois.
No meio dos festejos, olho para uma menina que estava fantasiada de Pocahontas. Pensei “isso lá em casa ia ter muito trabalho…”, mentira, pensei “clarearia o filho dela, mas pelo menos lhe daria olhos azuis”, mentira de novo, apenas pensei “porra, bonitinha essa Pocahontas, hein? Puta que pariu, se tivesse músculos, chegaria agora!”. Ela passou e eu continuei a dar atenção à única fêmea que jamais me abandonou: a cerveja.
Fui dançar, pois danço muito, quando vi uma outra garota, só que vestida de mulher gato, com uma roupa coladinha. Imediatamente me veio à mente: “pega esse chicote e bate no meu lombo, gostosa”. Na verdade foi assim: “Obrigado Deus, por existirem as calças de ginástica. E obrigado mais ainda pelas mulheres que as usam sem sentir vergonha nem complexo de observação por nossa parte”.
Procurei saber dados da Mulher gato e descobri que na faculdade ela tem apelido de heroína da Disney (lembrando que a Pocahontas, a outra, nessa hora está em outra dimensão que não saberia detalhar agora). Soube também que a Mulher gato havia terminado um namoro há pouco tempo. Isso me debilitou a alma, afinal, sou expert em ficar com meninas que voltam para os ex (“Esse texto não tem graça”). Só que o pior não era isso, a constatação que meu amigo fez foi mais desanimadora ainda e ajudou a tacar algumas pás de cal nas minhas segundas intenções:
- Ela é ex-namorada daquele negão ali, oh. Ele faz vale-tudo. Mas ele é legal!
Legal? Quero ver ele sendo legal me vendo ficar com a ex dele. O cara faz vale tudo, meu Deus, imagina ele puto da vida?
- Ei rapaz, fiquei chateado com a sua atitude! Mas que índole ruim, é um puta vacilo, meu!
É, seria exatamente assim…
Enfim, além disso, imaginei que eu, na minha posição pélvica ordinária, só poderia ser a ÚLTIMA pessoa a se envolver com uma menina que acabou de terminar com um negão de vale tudo. Porra, sai o negão e entra o Pedrinho? Ela teria um vazio existencial sem precedentes. Eu não gostaria de estar por perto.
A festa foi se encaminhando até que eu esbarrei com a Pocahontas do início do texto. Retirei um assunto ridículo do fundo de mim e fui falar com ela:
- E aí? Quer uma cerveja, um cigarro, um aperto de mão, um abraço…?
- Não, eu não fumo nem gosto de cerveja.
- (vaca filha da puta, vai ser mal comida assim na puta que te pariu) beleza (vira pro lado e finge que ela não existe, Pedro!).
- Fumar mata, sabia?
- É, eu sei (ih, vai puxar papo agora, é? S2… Não! S2 é o cacete!)
Conversamos bastante mas não deu em nada. Pegamos nossos contatos virtuais e começamos um chove não molha de 40 dias e 40 noites. Um dilúvio para a minha angústia e uma oportunidade única para jogar a minha mais fina retórica fora. Tenho plena noção de que eu pari e pari o máximo de originalidade que poderia sair de mim. A gente se deu muito bem, até que ela me chamou para irmos a uma festa no 13º pior lugar do Rio de Janeiro (as duas Mariuzzins estão antes, o necrotério também, claro): Cine Lapa.
Fui para lá já sabendo que seria um desafio no mínimo interessante: era uma festa gay. A fila era gigante e eu mastigava na cabeça os prós e contras daquela noite, mesmo sem tê-la vivido ainda:
- Vai ser vergonhoso se ela não quiser, meu Deus…
Lá dentro, como era de se esperar, não houve sequer uma discussão, uma briga, pois os gays são uma fração evoluída do nosso mundo. Se eles vão para a festa, eles vão festejar, nada mais coerente. Eles vão lá para também, quem sabe, arranjar um amor. Um deles, inclusive, queria que o amor fosse eu:
- Pedro, meu amigo está interessado em você…
- (Porrete, que merda de hétero sou eu para entrar numa festa gay e dar esperança para os outros? Bem, pelo menos alguém se interessou, até que eu não sou de todo mal… Deixa eu ver se o cara é bonito… Que isso, Pedro? Tá maluco?) Bem, pede desculpa para ele, cara. Diz que eu sou hétero.
A musicalidade continuou alta, todAs nós dançando Lady Gaga, Beyonce, Madonna e mais uma caralhada de divas. Eu já bebendo cerveja meio nervoso reparando que o meu approach não estava evoluindo como esperava. Fui ao banheiro meio apreensivo, com medo de que alguém quisesse meu amor por lá também, mas nada aconteceu.
Na volta, ganhei alguns sorrisos carinhosos e parti para o ataque. Aquilo ali seria tipo desfile de escola de samba: você se prepara por semanas e semanas para o dia decisivo. Aí você perde e fica com ódio. E foi exatamente o que aconteceu, perdi e fiquei com ódio. É claro que não um ódio dela e da festa. Era ódio só dela mesmo.
Arranjei uma desculpa para ir embora que não convenceria nem a Madre Teresa de Calcutá, mas também estava pouco me fudendo. Saí, comprei um cigarro varejo, pois seria minha forma de extravasar silenciosamente, uma vez que nem havia fumado na noite (se você fuma, vai perceber que minhas intenções foram nobilíssimas), e fui pra casa com um micro sorriso brotando na cara.
- Sai, sorriso, não vou escrever sobre essa porcaria de dia.
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Bom, resolvi escrever um texto gigantesco para ter bastante coisa pra ler na minha despedida do blog. Eu, assim como Justin Timberlake, vou seguir carreira solo. O nome do meu blog vai ser www.corrapedro.com, que vai ser a melhor forma de chupar o sangue da Marina e homenageá-la ao mesmo tempo. Mentira, ainda não tem nome, mas vocês saberão (vou pagar 10 reais para quem retuitar meu link, vocês vão ver).
Fiquem sabendo que a minha separação com a Marina aconteceu da forma mais terrível possível. Ela me odeia e vai pedir pensão para o resto da vida (estou fudido). Aliás, acho bom que você leia logo tudo porque a qualquer momento ela vai deletar esse post (enquanto ela não modificar a senha, eu reposto o texto, não se preocupe). É sacanagem, foi tudo tão pacífico que até pareceu que ela não queria mesmo que eu fizesse mais parte do blog (ahahah, brincadeirinha, Mary).
Obrigado pelos 1338 comentários que o blog recebeu até hoje. Eu devo ter recebido uns 500 desses. Dos 500, acho que só uns 2 ou 3 foram escrotos (é a dor de se lembrado do pior jeito), uns 30 inúteis, de pessoas que não sei se existem, e o resto foi sensacional. Valeu mesmo! E obrigado para a Marina, por ter me chamado para participar desse adorável espaço.
Beijos e até mais ver!
