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Archive for setembro, 2009

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set 22

Esse texto não tem graça

Primeiro ou segundo dia de setembro

Me equivoquei redondamente há dias quando pensei que eu era a salvação dos problemas de um ex-caso. Na minha cabeça, eu juntava todos os predicados necessários para fazer uma pessoa como ela rir, se divertir e se apaixonar. Só esqueci, no meio da auto-blindagem do excesso de confiança, de que, na verdade, ela é quem era a salvação para todos os meus problemas.

E é duro passar a acreditar que você sai do nível de “salvação extraordinária” para o patamar de “historinha que não deu certo”. Como é irônico constatar que o impacto que ela deixou em você é muito maior do que o impacto que você deixou nela. São coisas como essa que deixam alguém com medo de se embrenhar na mata da paixonite. Mas, num emaranhado de contradições, cabe perceber que se sentir pequeno é a forma mais cruel de não ter coragem para crescer.

É chato demais procurar – à toa – algo nela que me represente. Todos nós somos carimbos, e a tinta que eu deixei foi fraca demais para ser percebida. Isso porque todas as músicas possíveis e imaginárias sobre amor e burrice já têm destinatário certo na mente dela – um passado de mais de meia tonelada (ou mais de meia década) contra um presente de 70 kg… É pedir para ficar de castigo numa gangorra hipotética. Mas é o que dá entrar numa disputa, sem o menor poder de barganha.

Eu desenvolvi uma habilidade desgraçada de ser a pessoa certa nos momentos mais errados possíveis. Ando perdendo as contas de ser incrível em vão. Continuando na toada contraditória, fico com uma culpa que não é minha. Fico puto da vida e só, porque o mundo é um saco de pessoas ordinárias, e não dá para fazer nada até esbarrar com alguém que valha o medo de se embrenhar na tal mata. Enquanto isso se espera pela hora de não esperar nada, pois esse é o exato momento furtivo onde a história acontece e te surpreende.

Mas vou te contar que falta saco e paciência.

Suspiro e coraçãozinho batendo mais forte são indicativos maravilhosos ou cruéis, só depende da situação. Essa história ajudou a tirar meu fôlego, antes por ânsias e bons momentos, hoje por cansaço acumulado de casos que foram para o saco. A vida é estampada com seus altos e baixos, pela maré que seca e alaga, pelas malditas contradições e incoerências: uma maneira pouco cortês de te fazer grato pela montanha e resignado pelo vale.

Sabe quando você olha para algum lugar sem o menor interesse, mas mantém o olhar simplesmente porque uma soma de conforto, tédio e sono te obrigam a isso? Estou assim. Letargia purinha.

Pedro

set 13

Xingamentos que doem

Eu não sei se vocês concordam comigo, mas a imensa gama de xingamentos que são usados na hora de um confronto são justamente os que menos dizem alguma coisa sobre você. Quanto mais pesada é a injúria, mais etérea ela acaba sendo. Se perde no ar o que você quer dizer, quando você chama alguém de “filho da puta”, porque com certeza a mãe da pessoa xingada não é uma matrona da rua Ceará. E mesmo que o xingado seja filho da pobre prostituta, ele não tem o que dizer, afinal é a mais pura verdade. O que ele vai fazer? Retribuir na mesma moeda?

- E você, seu filho da arquiteta! Filho da professora! Filho da dona de casa!

A maioria desses xingamentos não tem condição alguma de afetar uma pessoa.

Filho da puta! Minha mãezinha é uma nobre dona de casa, que sempre me recebe com comidas quentinhas, lava a roupa e limpa a casa. Você não está xingando ninguém… Está mentindo, isso sim.

Vai tomar no cu (lembrando, gente, que “cu” não tem acento)! Mas eu vou tomar no cu só porque você pediu? Isso não me apetece, o que eu posso fazer?

Viado! Bem, eu, um profundo respeitador de quaisquer orientações sexuais, não considero “viado” ou similares uma ofensa. Mas entendo que quando a pessoa cospe um “viado” com raiva, ela não está compartilhando da minha crença. Mas de qualquer forma, chamar um hétero de viado é a mesma coisa de chamar um gordo de magro; Um alto de nanico; um ator teatral de íntegro (brincadeira, pessoal).

Seu merda! Por que escolheram “merda” como o dejeto oficial para esculachos? Por que não seu vômito? Seu urina? Seu catarro? De qualquer forma, chamar alguém de cocô ainda não é a forma ideal de acabar com uma pessoa… Por mais que ela cheire mal. Seria melhor “Seu fedido!”.

Xingue alguém de merda e de fedorento. Eu tenho certeza absoluta de que o segundo esculacho doerá mais na pessoa. Merda é qualquer coisa, se relaciona com as mais variadas situações. Fedorento não. E feder machuca o psicológico, vai me dizer que não? Quer coisa pior do que ter a convicção de que você está poluindo um ambiente com um cheiro que não combinou contigo, mas apareceu no seu corpo?

Embora possa parecer pueril, xingamentos infantis são muito mais acachapantes. E não era para menos: a infância é notadamente a época da nossa vida em que somos mais sinceros. Ela chama, sem o menor constrangimento, alguém de feio, burro, medonho ou fedido. Se ela te chamar de feio, putz, há grande possibilidade de você ser o chupa cabra, pois o que separa a criança dos juízos dela é um mar cristalino e calmo, sem moral alguma para servir de obstáculo.

Xingamento bom é aquele que te ataca justamente por não saber se você se encaixa nele. “Corno”, por exemplo. Alguém te chamar de corno é como abrir, com uma chave sórdida, os enormes portões da paranoia. Você nunca saberá se foi traído, a menos que te contem ou você descubra de alguma forma (Algo me diz que detetive só serve para isso mesmo). A mesma coisa com “feio”. Imediatamente você discute com o seu próprio ser: “serei um jaburu? Serei eu mais feio do que a fome na Etiópia?”. “Vai tomar no cu” não vai tirar sua auto-estima nunca, entendeu?

Em resumo, é pior ser chamado de feio do que de filho da puta, por mais que eu seja filho de Vanessa, 35 anos, corpo escultural, boca de veludo, discreta e deliciosa.

Pedro

set 01

Gringo é o caralho

Antes de tudo, peço perdão pelo caralho logo no título. Aposto que a sensação seca, adstringente, pouco propícia que um desavisado caralho literal pode causar foi a mesma que a do meu título. Mas é porque você não vive há mais de 20 anos com o estigma de poder ser de qualquer lugar do mundo, menos da sua própria cidade. Eu sou apenas um rapaz latino americano, do Sudeste do Brasil, um país miscigenado, cheio de cores, matizes e tons. Tudo bem que toda essa tinta passou longe do meu DNA.

Já escrevi, no meu primeiro texto aqui na choupana rosa do corramary, sobre minhas vermelhidões e branquelidões. Mas não é necessariamente sobre isso que eu vou falar. É sobre a constante pressão social que a minha semi-total falta de melanina me proporciona diariamente.

Você pode me chamar de viado, de corno, de safrário, de varapau cretino, de Zé buceta, de filho da puta… Do que quiser. Se eu fizer por merecer então, fico até satisfeito (que mentira). Mas não tem coisa no mundo que eu odeie mais do que ser chamado de albino.

Albino é a minha rola!

Peço desculpas mais uma vez pela genitália explícita estacionada em alguma frase. É engraçado que “rola” sempre dá duas impressões: a de um pênis borrachudo e largo ou de um passarinho. Eu nunca uso “rola”, pois meu pinto não é um passarinho (???) nem uma deformidade genética digna do programa do Ratinho (rimou, eu sou um poeta).

Bem, voltando ao albino.

Primeiro de tudo que albino não tem melanina. Eu tenho, só que ela é pouca. Uma pessoa com pouco pênis é homem; uma pessoa sem pênis, provavelmente é mulher. Reparou na diferença enorme entre “não ter” e “ter pouco”? Pois bem. Meu cabelo não é daqueles amarelões claros, ele está mais para louro médio 3.6 com fios esverdeados. O cabelo cuja cor, segundo Juarez, meu ex-barbeiro e marido, é o sonho de toda mulher. Juarez sempre foi muito fofo… Ai ai… O que está acontecendo comigo?

Além disso, “albino” é uma palavra feia demais. Me lembra olho de peixe, uma coisa gelatinosa, sei lá. Se em vez de “albino” fosse uma palavra legal, tipo “claribalte”, eu não me irritaria tanto.

- Ih, Pedro, você é Albino?

- Albino é o cacete!

*************************

- Ih, Pedro, você é claribalte?

- Não, hehe, todos dizem isso!

Outra coisa que dilacera minhas entranhas é a constante achança pública de que eu sou gringo. As pessoas relutam absurdamente em acreditar que eu nasci no Rio, filho de dois cariocas. A única coisa europeia que escorreu do topo da árvore genealógica foram uns genes portugueses e italianos. Nada meu é alemão, ninguém da nossa família é alemão. A família só tinha relação com um germânico: o leiteiro que ia à nossa antiga casa nos anos 80, o simpático Wolfgang Shumacher. Sinto saudades dele… Gosto dele como de um pai. Somos idênticos…

Mas eu também não colaboro. A minha bolsa oficial de estágio é daquelas de um ombro só, marrom, meio escoteira / jornalista (pra ser escoteiro precisa de diploma?). Essa bolsa, escrota toda vida, é mais do que um mero saco onde guardo meus troços. É um convite aos meliantes. Uma pessoa normal, bronzeada, usando não desperta qualquer cobiça. Em mim, parece um depósito de dólares, pronto para ser passado para o primeiro surripião que tiver o dom do assalto (mas que dom filho da puta. Que surrupião idem).

Para driblar essa situação pré-delito, eu tenho que desenvolver um complexo esquema corporal chamado “malandreador de movimentos”. Eu simplesmente preciso gingar mais, andar mais cariocamente falando e falar alto, aos brados, todas as gírias que nada têm a ver comigo. Só assim um Zé bucéfalo com más intenções saberá que eu sou gente do povo dele.

Bandido filho da puta, numa ocasião em Copacabana:

- Fala aí… Boa noite… Pô, cara, você é inglês?

Inglês é o meu bilau! É o que eu tive vontade de exclamar de bate pronto.

Não preciso pedir perdão pelo bilau, porque se você se melindra com uma palavrinha tão inofensiva, vá para a puta que te pariu e sintonize no Discovery Kids. Lá não há espaço para ofensas, somente para ursos enormes roxos que brincam com crianças… Que medo! Gosto é que nem problema psicológico, cada um tem o seu.

É um saco andar pela Zona Sul do Rio de Janeiro, olhar gringos de verdade e pensar “isso sim é um gringo!”. Porque isso me faz acreditar que olham para mim na rua e pensam a mesmíssima coisa. Só fiquei tranqüilo uma vez quando estava andando na Saens Peña (Zona Norte) usando uma camisa rosa choque (mais nórdico impossível). Matutei “ihh, estou andando aqui de noite, todo mundo deve pensar que eu sou um gringo otário… Ah, mas que gringo vem fazer turismo na Tijuca? Ufa…”.

Reparou que eu comecei com caralho e terminei com bilau? Escrever realmente é uma terapia, acalma qualquer nervo.

Pedro

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