Assistência funeral
Quando você pensa que teve uma ideia genial, pesquise na internet depois do grito de “Eureka!”: sua ideia já foi pensada antes. Existem plano de saúde, seguro de vida, seguro de peitos, de pernas, provavelmente de unhas, seguro do carro, seguro da casa (quem tem Jogo da Vida sabe muito bem. Aliás, que jogo, hein – é o único momento da sua existência em que você adora ter gêmeos numa famÃlia que já tinha uns cinco filhos). Quando se acredita que existe seguro de qualquer coisa, você liga a TV e observa um gordinho com cara de personagem da FamÃlia Dinossauro falando sobre assistência funeral, o Rio Pax, uma espécie de seguro-lápide.
Ok, essa iniciativa não é exatamente nova, mas mesmo assim, ainda não consigo assimilar o quanto é esquisito pensar nisso. Paga-se uma mensalidade para quando a morte bater à sua porta, você ter destino certo, sem causar transtornos à famÃlia. Um buraquinho para chamar de seu, com direito a flores, velório e talvez até viúvas mercenárias e choronas. Eu não estou falando mal do Rio Pax, só acho que ele causa algumas coisas estranhas na vida das pessoas. Talvez por se tratar de um assunto que a gente não domina – a morte das pessoas.
Parece que quando você começa a fazer parte do plano funerário, a morte fica um pouquinho mais real. O seguro-lápide, assim como os antigos de saúde, tem carência, olha que doideira. Você tem que se comprometer a NÃO morrer nos três primeiros meses, senão nada feito, vai para a vala ou pagar milhões num enterro sem assistência. E é engraçado, porque dá a impressão de que você pode morrer a qualquer momento, o que, no fim das contas, é a mais pura verdade. Minha madrinha fez o Rio Pax para ela e as filhas (que carinho mórbido), mas logo obrigou:
- Oh, nada de morrer até julho, hein?
Nesses casos, é impossÃvel não pensar, ainda que com bom humor: “será que eu vou viver até lá?”. Mas em qualquer outro tipo de plano, a gente não cogita isso:
- Vamos viajar no fim do ano!?
- Vamos! Mas só se a gente não morrer, tá?
- Ai, cruz credo!
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- Mozão, vamos marcar o casamento para quando?
- Não sei, meu prÃncipe, se não morrermos, acho que em outubro, né?
- Ai, que coisa horrÃvel, Gabi!
- Ô mô, não me trata assim! Te amo mais que o infinito.
- Me ama mais do que ontem?
- Amo!
- Me ama menos que amanhã?
- Não sei se estarei viva para ter certeza, me pergunta isso amanhã de noite?
- Porra, Gabriela!
Quando minha madrinha fez o contrato, o carinha perguntou com a naturalidade de quem quer saber qual o seu sabor de sorvete favorito:
- A senhora vai querer uma bÃblia ou um terço em cima do caixão?
Então quer dizer que rola uma tabelinha do que a pessoa pode colocar no esquife? Bandeira do Vasco, a cueca favorita, uma cebola (uma cebola?), uma boneca inflável… Mil opções! Ou será que você só tem duas alternativas, bÃblia ou terço? Se for assim, mostra uma grande limitação espiritual do Rio Pax. O que que eu vou fazer com uma bÃblia em cima do meu caixão se eu for ateu? Aliás, o que que eu vou fazer com uma bÃblia? Eu vou estar morto. Se tem gente viva que não sabe ler, imagina morta? Será que a bÃblia no caixão é um carimbo póstumo no passaporte divino? Não. Uma empresa que lucra com a morte não pode ter convênio com Deus.
O que importa é que o Rio Pax é umas 30 vezes mais barato que um plano de saúde. É só torcer para não ficar doente – afinal, existem milhões de formas de morrer sadio, acidente de ultraleve, por exemplo. Mas se a moléstia atazanar, e não haver plano de saúde, uma ida ao Miguel D’Or, Sousa D’Or ou similares pode resolver. Ou não, o que é mais provável. Vou torcer para continuar sadio e confiar nos poderes de shaman da minha mãe.
Você pode pensar que eu estou apenas fazendo propaganda do Rio Pax, pois na verdade quero promover o negócio do meu tio, que é o cara gorducho do comercial. Juro que não, alguns tios meus já morreram (acho que sem assistência funeral), e creio que os restantes ainda não tenham feito seus seguros-lápide. Vou perguntar, por via das dúvidas, se eles preferem bÃblia ou terço, eu não preciso do Rio Pax para fazer isso por eles. De qualquer forma, eu prefiro um cd dos Beatles, ok?
Pedro