Sabe quando você chega ao seu estágio ou emprego e percebe que vai ter um dia especial, daqueles de filmes? Não? É, eu também não pressenti nada quando cheguei à redação naquele longÃquo dezembro. Para preservar algumas pessoas e instituições, vou usar alguns nomes falsos, ok? É que não quero falar mal de lugares em que já estive, afinal, “fique sabendo que o mundo profissional roda”, segundo minha ex-chefe, dona de uma simpatia mastodôntica, no meu último dia (ou esporro) por lá.
Estava na produção da Tv Rancho Maroto quando minha coordenadora de pauta, essa sim um amor de pessoa, me passa uma carta de um leitor do suplemento Zona Sul, do Globo. A carta diz que na rua Pedro Américo, no Catete, uma galera dimenor se encontra para fumar e comercializar crack e outras drogas. Na secura do vÃcio, eles furtavam coisas ou assaltavam transeuntes só para conseguir comprar a pedra maldita. Aà ela me diz “Pedro, arranja uma casa nessa rua, com uma janela bem em frente ao bando, para podermos fazer imagens de madrugada e flagrarmos o consumo de crack”.
É impressionante como se pedem coisas estranhas à s pessoas. Qual ser humano abriria a casa para uma equipe de TV filmar gente usando crack? E o pior, de madrugada? Pois bem, esse era meu desafio tremendo. Eu quis perguntar para ela “quer também um anão maneta andando de monociclo? Eu consigo!”, mas preferi tentar antes de reclamar.
Liguei para a presidente da associação de moradores do Catete e, embora ela tenha concordado que a Pedro Américo era uma esbórnia, nada poderia fazer por mim. Comecei a ligar para moradores avulsos da rua (obrigado, Telelistas!), perguntando com toda a calma do mundo se a parada fervia mesmo na vizinhança. Todos falavam que era, de fato, uma desgraça, mas ninguém quis abrir suas portas para a nossa equipe.
Foi quando liguei para um dos restantes da lista: o Hermógenes (esse nome é verdade, apesar de parecer falso), meu salvador. Ele falou que tinha uma amiga que morava em frente ao foco dos fumantes e se comprometeu a me ajudar. Ele disse que eu tinha que ter um pouco de calma, que a produção poderia durar alguns dias e que, se quisesse uma parada bem feita, deveria ser paciente… Eu ri por dentro, suei por fora e imaginei contando para a minha chefe sobre os caprichos da minha fonte excêntrica.
No dia seguinte, minha coordenadora me diz que o Jornal O Dia iria alugar um apartamento naquela rua para poder fazer imagens também, e que eu tinha que conseguir convencer o Hermógenes a me ajudar logo. Quando o desespero bateu, peguei o carro da Rancho Fundo e fui para o Catete com o motorista. Entrei no carro que nem os policiais americanos – escorregando no capô, com a arma no coldre e a rosquinha na mão… Mentira, eu andei até o carro e entrei pela porta, só isso. Fui até o Catete para convecer um sÃndico qualquer a deixar nossa equipe entrar em seu prédio.
Quando estava chegando, Hermógenes liga para o meu celular para me dar o status de sua operação. Nesse momento, quase me desarranjei, mas tinha que manter o pulso firme. Na verdade, só conseguiria ter pulso firme na vida se comprasse um na loja, mas enfim. Ele me disse que conseguiu uma visão maravilhosa do lugar, que seria um espetáculo a matéria. Pensei “esse cara usa crack, estou ficando com medo…”. Quando peço para o motorista retornar à Band, digo, Tv Rancho Maroto (merda, o backspace está tão longe…), Hermógenes, até então benevolência e arrojo puros, me impõe uma condição.
- Olha Pedro, eu te ajudei, arranjei a casa da minha amiga, mas isso tem um preço. Eu vou querer seis cervejas.
- Mas como!? Eu não sei se posso comprar cerveja para vocês!
- Trato é trato… Porra, são só seis cervejinhas, pelo amor de Deus.
- Err… Eu vou falar com a minha chefe, mas eu não garanto.
- Sem cerveja não tem casa. Fala com a sua chefe.
O desarranjo que eu prendi quando ele ligou, eu soltei quando ele desligou. Como eu vou pedir para a minha chefe, autora de centenas de esporros espalhados em uma linha de justiça (dos esporros mais injustos possÃveis aos apenas injustos), seis cervejas para o cara da matéria??? Nesse instante tive certeza de que ele fumava crack, fazia parte do cartel colombiano no Brasil e que iria estuprar a equipe na madrugada. Eu não sairia ileso, pois a minha chefe compraria um engradado de cerveja, enfiaria 18 na minha bunda e daria as seis restantes para o Hermógenes.
A minha coordenadora foi falar com a chefe. Com todo cuidado do mundo, praticamente tecendo um suéter de ursinho com as palavras, pediu as cervejas à chefa. Nesse momento, um trovão ecoa na sala:
- A EQUIPE NÃO VÃO COMPRAR CERVEJA COISA NENHUMA!!!!
-…
- Dá 20 reais para ele e olhe lá!
- !!!
Depois que a chefe liberou o cascalho, coisa inimaginável, liguei para o Hermógenes dizendo que a breja estava garantida (que papel patético o meu).
- Olha, Hermógenes, a gente não vai poder comprar a cerveja, porque a equipe não pode entrar no bar, vai ficar estranho. Mas a gente está levando 20 reais, beleza? Aà você compra!
- Porra, Pedro, eu estava de sacanagem contigo. Você tem que ser mais safo. Vem um cara pedir cerveja e você aceita pagar? Que porra é essa?
-…
Eu, o estagiário que deveria bancar o jornalista esperto, caindo numa espécie de pegadinha do Mallandro cateteana… Que constrangedor.
O bom é que Hermógenes, apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente, não era fumante de crack. Era uma pessoa realmente disposta a ajudar, pois arranjou uma casa com uma visão espetacular do grupo de drogados. O mais bizarro na matéria é que nessa rua tem uma Delegacia, a 9ªDP. O pessoal de lá afirma que quem deve patrulhar as ruas é a PM (bela desculpa… Se bobear eles sentem na própria delegacia o cheiro do crack vindo da rua). Nas quatro horas que ficamos filmando, nem uma patrulhazinha apareceu por lá. Bem, no dia seguinte a PM se comprometeu a reforçar o policiamento.
A matéria abriu a edição nacional da TV Rancho Maroto e eu ganhei um parabéns da equipe toda (menos da chefe, pois o pacto com demônio não prevê elogio aos mais fracos). E eu posso dizer sem falsa modéstia: a culpa foi toda do Hermógenes.
Pedro
















