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Archive for julho, 2009

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jul 28

Hermógenes, o salvador – a pura ação no jornalismo

Sabe quando você chega ao seu estágio ou emprego e percebe que vai ter um dia especial, daqueles de filmes? Não? É, eu também não pressenti nada quando cheguei à redação naquele longíquo dezembro. Para preservar algumas pessoas e instituições, vou usar alguns nomes falsos, ok? É que não quero falar mal de lugares em que já estive, afinal, “fique sabendo que o mundo profissional roda”, segundo minha ex-chefe, dona de uma simpatia mastodôntica, no meu último dia (ou esporro) por lá.

Estava na produção da Tv Rancho Maroto quando minha coordenadora de pauta, essa sim um amor de pessoa, me passa uma carta de um leitor do suplemento Zona Sul, do Globo. A carta diz que na rua Pedro Américo, no Catete, uma galera dimenor se encontra para fumar e comercializar crack e outras drogas. Na secura do vício, eles furtavam coisas ou assaltavam transeuntes só para conseguir comprar a pedra maldita. Aí ela me diz “Pedro, arranja uma casa nessa rua, com uma janela bem em frente ao bando, para podermos fazer imagens de madrugada e flagrarmos o consumo de crack”.

É impressionante como se pedem coisas estranhas às pessoas. Qual ser humano abriria a casa para uma equipe de TV filmar gente usando crack? E o pior, de madrugada? Pois bem, esse era meu desafio tremendo. Eu quis perguntar para ela “quer também um anão maneta andando de monociclo? Eu consigo!”, mas preferi tentar antes de reclamar.

Liguei para a presidente da associação de moradores do Catete e, embora ela tenha concordado que a Pedro Américo era uma esbórnia, nada poderia fazer por mim. Comecei a ligar para moradores avulsos da rua (obrigado, Telelistas!), perguntando com toda a calma do mundo se a parada fervia mesmo na vizinhança. Todos falavam que era, de fato, uma desgraça, mas ninguém quis abrir suas portas para a nossa equipe.

Foi quando liguei para um dos restantes da lista: o Hermógenes (esse nome é verdade, apesar de parecer falso), meu salvador. Ele falou que tinha uma amiga que morava em frente ao foco dos fumantes e se comprometeu a me ajudar. Ele disse que eu tinha que ter um pouco de calma, que a produção poderia durar alguns dias e que, se quisesse uma parada bem feita, deveria ser paciente… Eu ri por dentro, suei por fora e imaginei contando para a minha chefe sobre os caprichos da minha fonte excêntrica.

No dia seguinte, minha coordenadora me diz que o Jornal O Dia iria alugar um apartamento naquela rua para poder fazer imagens também, e que eu tinha que conseguir convencer o Hermógenes a me ajudar logo. Quando o desespero bateu, peguei o carro da Rancho Fundo e fui para o Catete com o motorista. Entrei no carro que nem os policiais americanos – escorregando no capô, com a arma no coldre e a rosquinha na mão… Mentira, eu andei até o carro e entrei pela porta, só isso. Fui até o Catete para convecer um síndico qualquer a deixar nossa equipe entrar em seu prédio.

Quando estava chegando, Hermógenes liga para o meu celular para me dar o status de sua operação. Nesse momento, quase me desarranjei, mas tinha que manter o pulso firme. Na verdade, só conseguiria ter pulso firme na vida se comprasse um na loja, mas enfim. Ele me disse que conseguiu uma visão maravilhosa do lugar, que seria um espetáculo a matéria. Pensei “esse cara usa crack, estou ficando com medo…”. Quando peço para o motorista retornar à Band, digo, Tv Rancho Maroto (merda, o backspace está tão longe…), Hermógenes, até então benevolência e arrojo puros, me impõe uma condição.

- Olha Pedro, eu te ajudei, arranjei a casa da minha amiga, mas isso tem um preço. Eu vou querer seis cervejas.

- Mas como!? Eu não sei se posso comprar cerveja para vocês!

- Trato é trato… Porra, são só seis cervejinhas, pelo amor de Deus.

- Err… Eu vou falar com a minha chefe, mas eu não garanto.

- Sem cerveja não tem casa. Fala com a sua chefe.

O desarranjo que eu prendi quando ele ligou, eu soltei quando ele desligou. Como eu vou pedir para a minha chefe, autora de centenas de esporros espalhados em uma linha de justiça (dos esporros mais injustos possíveis aos apenas injustos), seis cervejas para o cara da matéria??? Nesse instante tive certeza de que ele fumava crack, fazia parte do cartel colombiano no Brasil e que iria estuprar a equipe na madrugada. Eu não sairia ileso, pois a minha chefe compraria um engradado de cerveja, enfiaria 18 na minha bunda e daria as seis restantes para o Hermógenes.

A minha coordenadora foi falar com a chefe. Com todo cuidado do mundo, praticamente tecendo um suéter de ursinho com as palavras, pediu as cervejas à chefa. Nesse momento, um trovão ecoa na sala:

- A EQUIPE NÃO VÃO COMPRAR CERVEJA COISA NENHUMA!!!!

-…

- Dá 20 reais para ele e olhe lá!

- !!!

Depois que a chefe liberou o cascalho, coisa inimaginável, liguei para o Hermógenes dizendo que a breja estava garantida (que papel patético o meu).

- Olha, Hermógenes, a gente não vai poder comprar a cerveja, porque a equipe não pode entrar no bar, vai ficar estranho. Mas a gente está levando 20 reais, beleza? Aí você compra!

- Porra, Pedro, eu estava de sacanagem contigo. Você tem que ser mais safo. Vem um cara pedir cerveja e você aceita pagar? Que porra é essa?

-…

Eu, o estagiário que deveria bancar o jornalista esperto, caindo numa espécie de pegadinha do Mallandro cateteana… Que constrangedor.

O bom é que Hermógenes, apesar de não tê-lo conhecido pessoalmente, não era fumante de crack. Era uma pessoa realmente disposta a ajudar, pois arranjou uma casa com uma visão espetacular do grupo de drogados. O mais bizarro na matéria é que nessa rua tem uma Delegacia, a 9ªDP. O pessoal de lá afirma que quem deve patrulhar as ruas é a PM (bela desculpa… Se bobear eles sentem na própria delegacia o cheiro do crack vindo da rua). Nas quatro horas que ficamos filmando, nem uma patrulhazinha apareceu por lá. Bem, no dia seguinte a PM se comprometeu a reforçar o policiamento.

A matéria abriu a edição nacional da TV Rancho Maroto e eu ganhei um parabéns da equipe toda (menos da chefe, pois o pacto com demônio não prevê elogio aos mais fracos). E eu posso dizer sem falsa modéstia: a culpa foi toda do Hermógenes.

Pedro

jul 23

O formulário

- Oi, bom dia… Aliás, boa tarde. Já passou do meio dia.
- Boa tarde.
- Eu vim aqui pra falar com o Sr. Bittencourt
- Ele te espera?
- Sim.
- Um segundo…

–

- Alô, Sr. Bittencourt? Tem um jovem na portaria que… Ah, sim. Mando subir? Ok.

–

- O Sr. Bittencourt liberou a sua entrada.
- O elevador é por onde?
- O Senhor preencheu o formulário?
- Que formulário?
- O de subir o elevador.
- Não.
- Então não pode subir.
- Mas você acabou de dizer que o Sr. Bittencourt liberou a minha entrada.
- Meu jovem, eu só cumpro ordens.
- Olha, eu só vim falar com o Sr. Bittencourt!
- Pra isso também tem que preencher um formulário, mas aí já é com a secretária dele.
- …
- …
- Não vamos a lugar nenhum assim.
- O senhor é quem não vai a lugar nenhum.
- Você venceu. Onde arrumo esse formulário?
- Ao lado da samambaia ali. O senhor pode se sentar nas cadeiras vermelhas enquanto preenche.
- Obrigada.

–

- Psiuuu… Eu disse nas cadeiras vermelhas.
- É onde estou.
- Não, não. Essa é laranja. As cadeiras laranjas são para deficientes físicos. As azuis para idosos. As amarelas para gestantes. E as verdes para desempregados a mais de dois anos.
- Mas não há nenhum deficiente físico aqui.
- Imagina se chega um e vê o senhor sentado na cadeira dele. Onde ele vai sentar? No chão?

–

- Ei, moça…
- Já terminou de preencher o formulário?
- Não, não. É que me ocorreu uma dúvida.
- Do formulário?
- Não. Sobre o que você acabou de dizer. Daquele lance das cadeiras… E as cores.. enfim.
- Hm
- E se por acaso aparece uma deficiente física, gestante, idosa e que nunca trabalhou na vida?
- Impossível. Já viu uma grávida com mais de 40 anos de idade?
- Mas é um caso hipotético. Um exemplo.
- Nós não trabalhamos com exemplos. Isso só na outra filial. Se o senhor quiser, só precisa preencher esses formulários aqui que encaminho…
- Não, não. Obrigada. Já estou terminando esse aqui.

–

- Opa. Acabei. Aqui está meu formulário.
- Ah, sim. Pode subir. Primeira à esquerda.

–

- Oi. Licença de novo. A senhora disse primeira à esquerda, mas eu não achei os elevadores.
- É porque eles são para a direita.
- Então porque você me mandou para a esquerda?
- É onde ficam as escadas.
- O escritório do Sr. Bittencourt fica no 26 andar.
- Eu sei.
- E porque você acha que eu subiria pelas escadas e não pelo elevador?
- Porque o senhor preencheu o formulário das escadas, e não o do elevador.
- Mas isso é ridículo.
- Meu rapaz, aqui não há nada de ridículo. Somos muito simples. Priorizamos a organização e nosso método tem se mostrado muito eficaz no controle das pessoas que entram, das que saem e das que apenas perambulam pelos corredores da empresa fingindo para as esposas que trabalham.
- Mas eu nem trabalho aqui. Eu só quero falar com o Sr. Bittencourt.
- É a primeira vez do senhor aqui?
- Sim!
- Ah, então eu preciso fazer um cadastro do senhor. Olha aqui pra webcam.
- Isso é mesmo necessário?
- Se o senhor quiser, pode só deixar seu e-mail.
- Meu e-mail?
- Isso mesmo. Para receber as nossas informações.
- Que tipo de informação?
- Ah, o senhor sabe… Aquelas que vão sempre direto pra lixeira automática e os cartões virtuais de aniversário e Natal.
- Então tudo bem. Eu fiz um e-mail no Gmail esses dias que quase não uso.
- Ah, perdão. Eu me esqueci de avisar. Só aceitamos e-mails da empresa.
- Mas eu não tenho um e-mail da empresa.
- O senhor gostaria de fazer? Máximo de 13 caracteres, mínimo de três. Precisa conter pelo menos uma letra, e um número.
- Não, não. Obrigada. Que mal lhe pergunte, essa empresa é de que?
- O senhor não sabe?
- Não.
- Fabricação de formulários.

Corra Mary

jul 20

Coisa de vó

Dona Ormezinda se chama assim mesmo. Ormezinda. Analisando etimologicamente, podemos reparar com facilidade que esse nome significa águia (órmee) besuntada (zynda), em hebreu. Minha tataravó, que surpreendetemente não era judia, ao ver sair de seu ventre uma linda criança imunda e com olhos aguçados, resolveu dar esse nome para a filha (que acabou dando para neta também. Tataravó é mãe de bisavó que é mãe de vó, certo? Minha vó seria uma Ormezinda Júnior se fosse homem, entendeu?).

Esse parágrafo inteiro é uma imensa mentira. Tirando os nomes, é claro. Resolvi começar logo com uma lorota porque as informações que trarei provavelmente possuem enormes imprecisões históricas. Então, para que você não se apegue a possíveis mentiras (coisa que todo mundo faz sem perceber na vida), leia com dois metros de distanciamento.

Pelo que consta nos arquivos confidenciais do Faustão e da minha família, a minha avó foi filha de uma vendedora de rosas. O meu bisavô, de cujo nome não me lembrarei jamais, era barão na Itália e tinha o estranho hábito de guardar todo o dinheiro debaixo do colchão. Ele temia que o Fernando Collor confiscasse a poupança dele. Tudo bem que esse medo era meio precoce, afinal, estamos em 1910 ainda. Mas medos são medos, acontece. Vai que ele era vidente?

Essa fortuna guardada no colchão era uma partilha entre ele e o sócio. Vocês já podem imaginar que, seguindo a etimologia “sócio” = “filho da puta”, na relação entre eles um iria se fuder, certo? Na verdade quem se fudeu de verde e amarelo foi a minha bisavó. Quando meu biso foi para o céu, a pobre vendedora foi recorrer à salvaguarda monetária que havia no colchão, afinal, a menos que você venda rosa para o Elton John, é difícil levar uma família só com esse ofício. A surpresa é que o desgraçado do sócio surrupiara tudo assim que meu bisavô tinha morrido. Ou seja, é aí que começa a desgraça financeira da família Staite. Bem, na verdade essa é a minha desculpa, pois falar que as gerações da minha família foram incompetentes e nada acumularam dói demais em mim. Ah! Agora eu reparei que se meu bisavô fosse vidente, ele veria que o sócio era um ladrãozinho mequetrefe. Ele era burro mesmo… Ou apaixonado pelo sócio. São detalhes que nunca saberemos.

Estou escrevendo sobre a minha avó primeiro porque não tenho maturidade para escrever sobre temas consistentes, de alguma valia para a sociedade, segundo, porque o dia da avó está aí e seria uma afronta familiar não escrever sobre a simpática velhinha.

A minha avó tem algumas manias que a sua provavelmente tem também. Ela dificilmente me chama pelo nome, porque se o fizesse, todos os meus parentes atenderiam primeiro. Por que nossos avós listam a família inteira antes de te chamar?

- Ô Dulce, Raphael, Jaqueline… Ô Pedro!

No “Jaqueline” eu já sei que é comigo. Isso quando ela não me chama de “garoto”. Eu até entendo, porque “garoto” não tem erro, seja lá com que idade, afinal, como ela é a grande matriarca, todos os homens da família – que não passam de 55 anos – são garotos no fim das contas.

Outro vício de dona Zinda é a preocupação alimentar. Sempre quando a comida está na mesa, ela diz “Tá na mesa… Vai esfriar!”. Se ela fala somente o “tá na mesa”, eu espero aqueles quatro segundinhos rotineiros, porque eu sei que o “Vai esfriar” está chegando. E é engraçado porque a aflição dela quando não estou na mesa é tanta, que parece eu vou morrer de fome se a comida esfriar um grau. Só que não é só isso, parece que a nossa ligação gastro-sentimental vai matá-la de fome também. Acredite, é aflição (e amor, por que não?) demais.

Minha avó tem 87 anos, xinga, cozinha e vive dizendo que já me deu tanto banho que não entende porque eu tenho vergonha de mostrar minhas partes íntimas para ela (calma, não que ela peça para ver. É tipo quando estou saindo do banho, sei lá, você entende, né? Não vá pensar que a minha vozinha é uma maníaca tarada. Ela é só tarada… Maníaca não. É mentira!!!). Ela tem que entender que eu cresci, e essa é a tarefa mais difícil para avós aprenderem – que os netos crescem.

Fui criado por vó. Tenho vários amigos que sacam todas as brincadeirinhas de rua, que, sei lá, tiveram aquela infância de moleque, sabe? Que quebraram já todos os ossos, se rasgaram com cerol, jogaram bola no paralelepípedo quente e cheio de vidro moído… Eles costumam me zoar falando que eu sou menininho de apartamento, que jogava bola no carpete e soltava pipa no ventilador. Vou fazer o quê? Voltar no tempo, matar a minha avó, entregar o apartamento, alugar uma casa com crianças e paralelepípedos e ir ao Xota Quente (o puteiro da rua) aos 12 anos? Ué, foi a vida. Mas, apesar de não ter desenvolvido esse lado malandro, vovó me ensinou a ler quando eu tinha quatro anos. Tudo tem seu lado bom.

E vovó idem, só que com a habiliadade de ter um lado bom enorme e um ruim pequenino como o meu pintinho na época em que ela me dava banho.

Pedro

jul 09

Sair na porrada

Todo mundo já saiu na porrada e tem alguma história para contar sobre. Assim como os leões, os macacos e os albatrozes, nós animais, na impossibilidade de mijar nas coisas que teoricamente nos pertencem, brigamos por causa delas. Tipo quando aquele cara escroto chega na sua mulher; ou aquele beberrão que te provoca do nada e pega sua bebida; ou aquela velha que insiste em te vender o seu próprio suéter… Porrada é porrada, meu amigo, quem já tomou, sabe que não é tão duro assim, a menos que quebre os dentes. E quem dá a primeira, ganha a briga.

Só eu não briguei. E juro que penso nisso com certo receio. A única vez extra-familiar em que rolou um kung fu na minha vida foi com Thiago Oliveira, na segunda série. Eu dei uma banda nele, parceiro, ele tremeu nas tabelas… É sério, meu único confronto foi contra alguém da segunda série (bem, pelo menos eu também era da segunda série. Eu sou fraco, mas não sou tão covarde). Eu disse extra-familiar porque porrada com irmão não vale. Ainda mais um irmão que você ama muito (ohh). Eu e meu maninho só brigávamos quando ele me chamava de Angélica, pois eu tinha um sinal, que desapareceu, na coxa. Esse xingamento (bom, eu considerava um xingamento), me dava uma tremenda vontade de dar um soco na cara dele. É claro que eu sempre errava, mas ele nunca me acertava pra valer também.

Eu sempre fui assim. O mais sociável, diplomático e fraco da turma. Eu só derrubava alguém quando fazia judô. mas judô é mongol, só conseguiria usar em briga se fosse faixa preta. Eu era faixa transparente, bege, sei lá! Já lutei capoeira também. Não sei se você reparou, mas eu só fiz lutas que só fazem sentido se você for fodão. Eu fico imaginando um cara me provocando, aí eu começo a gingar cheio de malemolência e atitude, um espectador tira um berimbau da mochila e começa um “Paranauêêê, Paranauê, Paraná!”, e eu tomo um soco no meio do olho, caio de cabeça no chão e só acordo no dia seguinte com flores na minha cabeceira. Não é como Krav Magá que, além de ter um belíssimo nome, te faz torcer as pessoas e bater que nem o Steven Seagal.

Meu irmão já saiu na porrada e, assim como Mike Tyson, já perdeu e já venceu (só não comeu orelha… Eu acho). Ele é assim como eu: magrinho, com uma banha aqui e outra acolá e de aspecto inofensivo. Só que ele, quando está com sangue nos olhos, vira um lutador astuto e sagaz. Quando eu fico com sangue nos olhos, eu choro. Ele já fez Kung Fu estilo Jon Jon Law (mentira, eu inventei esse estilo), sempre defendia os amigos (e o mais importante: tinha um amigo que o defendia!). Eu não… Só tenho um abraço extremamente carinhoso e quentinho. O problema é que se eu fizer isso no ringue, perderei a orelha, uns dentes e a minha dignidade.

É por isso que eu me pelo de medo. Eu tenho medo de dar motivos para alguém se emputecer comigo a ponto de querer me bater; ou então de estar na hora errada e no lugar errado. Não estou falando que eu sou um saco de pancada sem personalidade, até porque eu acabaria entrando numa briga se esgotasse meus argumentos para evitá-la. O que me encafifa é que eu não vejo sentido em duas pessoas duelando.

Se você vê sentido em porrada, vai tomar no olho do teu cu e vem pra mão. Mentira, siga meus passos para entender a arte da covardia coerente e autopreservativa:

1 – Tenha plena visão holística da coisa:

Se um rapaz mal intencionado (leia-se “filho da puta”) passa a mão na bunda da sua namorada, lembre-se de que você também passa, só que com o consentimento dela. Quer vingança melhor do que essa? O cara não vai levar a bunda dela para casa. Uma passada desavisada de mão NUNCA teve esse resultado – nem com as solteiras.

2 – Seja o psicólogo do seu agressor

Fale com ele olhando nos olhos e entenda (ou finja entender) tudo o que ele fala. E mostre que o melhor caminho é o diálogo e a comunhão na resolução de problemas. Por que ele está tão possesso? O que há de ser feito para que isso não aconteça? Retórica e psicologia nunca são demais nessas horas.

3 – Faça piadas divertidas

O piadista é sempre poupado. Ele é gente boa.

4 – Esteja sempre em maioria

E quando estiver, seja o apartador da briga. Vai inspirar no agressor o seguinte sentimento: “que sujeito coerente, mesmo em maioria ele quer evitar briga… É verdade, não há motivo para isso…”.

5 – Respeite os maiores e mais sóbrios

Quando for ao contrário, foda-se. Se o cara então for menor e mais bêbado (ou seja, juntar os dois aspectos) e ainda quiser entrar na porrada, esqueça tudo o que eu disse, porque alguém assim merece apanhar.

6 – Não se deslumbre com uma faixa verde

Seja lá qual luta você fizer, uma faixa verde nunca é a mais graduada. Mas é aquela que começa a te inspirar a sensação de ser um autêntico Jet Li ou Shang Tsung. Essa gente é a mais suscetível para brigas. São aquelas que estão no meio do caminho entre os que não tem a mínima auto-estima (os faixas transparentes) e os que estão acima da briga, pois sabem que vão dizimar o coitado (os faixas pretas, primeiros dans, segundos dans etc).

7 – Só provoque se estiver longe

Bem longe, de preferência você no seu computador e ele no dele.

8 – Nunca dê a outra face

Desculpe, Jesus, mas ninguém consegue dar a outra face quando se está inconsciente (afinal, seguindo meus passos, você será um verdadeiro merdão, como o mestre Pedro Staite).

9 – Pratique o amor

Quer coisa melhor do que o amor?

10 – Tenha uma amiga grávida

Se não houver jeito, e a porrada estancar, tenha sua amiga grávida por perto. Elas são mais preciosas que os piadistas.

Pedro

jul 03

Memórias do jardim

O jardim de infância é uma espécie de segundo parto. Quando estamos no confortável útero de mamãe (que lugar aconchegante), em dado momento a gente começa a ficar grande demais e só resta sair por aquele buraquinho maroto. É, aquele mesmo onde tudo começou há nove meses. Quando somos expelidos para o mundo aqui fora, todo o ambiente externo nos atinge de alguma forma. O ar, os micro-organismos, a luz… Nossos sentidos ficam despirocados com tanta informação, uma vez que eles estavam acostumados com placenta, escuridão e comida entrando pelo umbigo. Quando se nasce, ferrou, é uma batalha diária para não entrar em colapso.

É a mesma coisa no jardim. Estamos acostumados com o conforto do nosso lar, os desenhos animados, mamãe, irmão e fazer cocô sem pressa. Do nada, inexplicavelmente (para mim era inexplicável), eu tenho que botar uma roupinha sóbria e ir de encontro ao mundo. E o sofrimento que dá deixar sua mãe na porta da escola e seguir adiante é uma coisa difícil de assimilar. Parece sacanagem minha, mas nossos coraçõzinhos sofrem de verdade com essa primeira separação. As crianças são extremamente cruéis, mas sobretudo desconfiadas. Todas elas pensam que a mãe vai sumir no mundo, ou voltar para o planeta dela de origem e deixá-las naquele depósito de crianças chamado escolinha.

O meu primeiro encontro com tia Marta, a professora do jardim I, foi um pouco traumatizante. Eu resolvi extravasar meu desespero destruindo a sala de aula. Relatos arqueológicos contam que eu peguei uma cadeira e tentei tacar no espelho, mas minha força pueril não foi suficiente para levar meu plano diabólico adiante. Minha choradeira causou comoção entre meus amiguinhos (amiguinhos é o caralho, tinha acabado de conhecer esses melequentos) e um por um começou a chorar. Quando vi aquilo, pensei “serei um grande líder nessa escola…”, mentira, pensei “AHHHHHHHHHHHHH, MÃMÃÃÃÃEEEE, MÃMÃÃÃEEE”. Estávamos todos chorando, com a exceção de alguns que se tocavam ou comiam areia. Imagino que Dona Marta (não o morro, a tia) gostaria de enfiar a cadeira que me servia de arma no meio do meu rabinho, mas ela se conteve.

Essa dor toda se dissipou em 20 minutos. Porque crianças são cruéis, desconfiadas, mas principalmente adaptáveis. Meu primeiro grande amigo, o Michael, parava de chorar e me abraçava. Ao final do dia, já ríamos a valer e marcávamos uns birinaites para o finde, lesque!

O jardim II foi o ano mais acachapante da minha infância. Tínhamos aula com tia Valesca, que, se me botasse no colo, poderia fazer um belo comercial de ” united colors of Benetton”, pois ela era mais negra que o meu pendrive e eu era mais branco que leite de magnésia.  Ela dava esporro mandando a criança cruzar os braços:

- Que coisa feia, Pedro! Cruza os braços!

Eu, que me cagava de medo (e de amor) por aquela búfala enorme (Tia Valesca deveria pesar mais que a turma inteira – e sim, eu a amava), cruzava os braços sem pensar duas vezes.

Nesse ano de 1991, conheci um grande amor, que me violentou o coração até a segunda série. Juliana Flora era que nem eu – magrela, branquinha e de olhos claros. Só que ela era menos magrela, menos branquinha e com olhos mais expressivos. E você sabe como é amor de criança, né!? Pois crianças são crueis, desconfiadas, adaptáveis e, sobretudo, apaixonadas. A gente ainda não faz joguinhos amorosos, não tem muita noção das coisas, não faz nada com a nossa paixão. Essa é a época de macular o coração pela primeira vez, para que tenhamos pelo menos alguma experiência amorosa até chegar o ensino fundamental.

Eu me sentia o líder da turminha. A nossa brincadeira favorita era apostar corrida, e eu era quem fazia os circuitos. Iam todos me seguindo e eu dando as instruções, falando que tínhamos que contornar a gangorra, passar por fora do gramadinho, voltar pela areia… No final, creio que só eu decorava, aí todos corriam atrás de mim para saber qual o caminho. Eu sempre ganhava. Eu era muito seboso.

Era seboso, mas tinha meus dias de carência. Eu era praticamente uma tiete dos meus dois melhores amigos – o Michael e o Gregório. Certa vez – por volta de 1993, minha mãe combinou com as mães deles um encontro lá em casa, regado a muito sorvete e cerveja (o sorvete para gente, a cervejas para as alcoólatras das nossas mães). Era hora da saída e minha mãe me comunicou que eles iam lá para casa. Nesse momento, tive uma explosão de felicidade genuína que me descontrolou. Saí correndo pelo pátio, gritei “EU AMO A VIDA!”, e abracei uma árvore. Eu juro que daria uma cena de comercial de cartão de crédito. Uma criança loira, correndo feliz e abraçando uma goiabeira… Coisa linda, né? No entanto, a árvore estava inteiramente imunda de merda, e sabe Deus de que ânus saiu isso. Será um macaco? Um mico? Uma criança? Sei lá, é difícil acreditar, mas tinha cocô no tronco da árvore. Fiquei com uma imensa mancha de fezes na minha camisa, tive que voltar parcialmente peladinho para casa… Mas voltei feliz da vida.

Pedro

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