Culinária nostálgica
jun 07
Nostalgia é uma merda, é simplesmente a filha da falta do que fazer. Ela é parte integrante de dias tristes como domingo, juntamente com o Faustão, a ressaca e as comidas-símbolo (macarronada, bobó de camarão, peixes dos mais variados tipos…). Como há ausência de emoção e presença exacerbada de tédio, num domingo a gente estuda, organiza a semana, sei lá, ocupa a cabeça com coisas. Quando se é irresponsável demais para estudar e organizar a semana, a gente pensa. E lembra.
Meu irmão fez uma parada de banana com leite em pó, gelo e sei lá mais o que e falou para eu provar. Bebi e senti gosto imediato de algum momento da minha infância. Nossos sentidos são muito sagazes, eles sempre nos surpreendem. É a mesma coisa quando sentimos um cheirinho nostálgico (ex-namorados e ex-namoradas sempre têm essa merda de cheiro. Deve ser perfume vagabundo, que todo mundo tem).
Lembrei-me de uma vitamina horrível que a minha mãe fazia para gente. Não sei o que ela enfiava no liquidificador, mas tinha gosto de laranja, mamão e vômito. Agora, os ingredientes miraculosos que, juntos, formavam o gostinho de vômito, jamais saberei. A Coca-Cola tem a fórmula secreta dela. Minha mãe também. Mas eu sempre bebia aquele troço laranja, de consistência blilders (nojenta) acreditando piamente que estava me nutrindo horrores. Hoje sou um indivíduo forte e resistente (hahAh), mas não culpo a vitamina por isso.
Aliás, minha mãe sempre foi pródiga em fazer líquidos ruins. Cheguei certa vez a pensar que ela tinha um plano mirabolante para envenenar a gente, porque putz… Os chás que ela fazia no laboratório de alquimia (vulgo cozinha) eram verdadeiras poções malignas. Mas a gente tinha que beber, pois fazia bem – para o corpo, porque minha alma sempre sofria. Tudo bem que o chá de boldo não é um bom exemplo, porque no dia que fizerem alguma coisa gostosa a partir de boldo, o prêmio Nobel de química estará garantido para o inventor. Mas o chá de limão, tiro e queda para resfriado, gripe espanhola e varíola, era merda líquida. Jesus, que coisa ruim era aquela. Ela calhava de juntar ao mel e ao limão, uma pitadinha de alho. Talvez para exorcizar os espíritos vampirísticos que viviam na gente. Minha mãe sempre foi um pouco da bruxaria. Dizem que ela já trouxe o homem amado em três dias para si mesma! Vingardium leviosa!
Mas a falta de talento da minha mãe se restringe aos líquidos, mais especificamente os líquidos que curam. Isso me faz pensar o seguinte: por que os remédios, em sua esmagadora maioria, são ruins? O gosto da saúde é horrível – amargo de arrepiar, forte, eca! Quando o remédio é bom, ele pode te matar engasgado (Naldecon, já disse que isso mata!). Já o gosto da FALTA de saúde é ótimo! Coca-cola, hambúrguer do Nequi Bonaldes, sorvete com brownie e bomba de chocolate não me deixam mentir.
Por que um cheddar do fast food, que te incha como um colchão de ar, e que te mata silenciosamente como um ninja, é tão gostoso? Por outro lado, por que o boldo, patrono da saúde intestinal, tem gosto de cocô? (mentira, eu nunca comi cocô para saber. Mas eu suponho). Aí alguém vai dizer que nós temos que comer as coisas que fazem bem, que as coisas suculentas dão apenas satisfações carnais, que o que vale é o espírito. Porra, estou subestimando meus prazeres em troca da satisfação espiritual? Eu sou carnal, porra!
Bom, embora tenha mudado absurdamente o rumo da conversa, a história é mais ou menos essa. Tudo começou com a vitamina de banana, gelo, leite em pó e Nescau que o meu irmão fez. E vou te contar que, apesar de me fazer lembrar bebidas horríveis da infância, ela está mais do que aprovada. Deveria vender no Gigabyte.




