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Archive for maio, 2009

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mai 14

Um cotovelo horrível

Tirando as funções locomotoras, o cotovelo é, esteticamente, a parte mais insignificante do corpo. Eu não consigo me lembrar de outro lugar tão despercebido e esquisito que a gente carregue conosco. Tanto que, nunca se falou: “putz, que cotovelo bonito ele tem, hein?”. Olhos, cabelo, pés, braços, até orelhas podem ser bonitos ou feios. Com o cotovelo, a lógica é diferente – ele está na seção de coisas que sempre são e serão feias, assim como as plantas de plástico, os sapos, os presidentes e as pessoas que frequentam o Norte Shopping.

Mas, por causa dessa feiura ordinária e da localização corporal desfavorável, essa articulação útil e relegada só destoa se for horrenda, escrota e colorida.

Estava sentado ontem no ônibus, observando as pessoas na minha frente. Tinha o motorista, o cobrador (ou trocador. Cobrador ou trocador?) e dois casais apaixonados, um de cada lado do ônibus. O motorista estava muito longe, o cobrador dormia, logo, eu só tinha a paisagem e os casais para me entreterem durante o trajeto. No entanto, o itinerário do ônibus 571 já está imortalizado na minha memória, transformando a observação da paisagem em um programa reprisado 1500 vezes. Só me restava a dupla de casais, basicamente um recado de Deus para mim: “aí, Pedrão, olha só como o amor existe!”.

Pra variar, o casal mais apaixonado estava na minha frente. Ele abraçava a menina por cima do ombro, imprimindo total proteção e apreço à jovem. Eles se beijavam de 18 em 18 segundos, naquela mecânica amorosa (?!?!) típica de quem está começando a se apaixonar. Ela era bonitinha, ele nem tanto, mas parecia bem higiênico, pelo menos. O que importava é que nos 17 segundos entre-beijos, eles eram um casal lindo, e durante o beijo também não era de se jogar fora (as pessoas ficam horríveis beijando… Já viu uma foto sua, espontânea, beijando alguém? Você detesta essa foto, certo? Pois é, só os atores sabem beijar bonito. Talvez a língua deixe tudo mais feio.)

Quando estava terminando de decifrar o padrão dos pombinhos, e a um matiz de começar a ter uma inveja silenciosa, eu reparo no cotovelo do garoto. Foi a coisa mais nojenta do meu dia, quiçá da minha semana. Era uma bolota espinhosa, com uma coloração bem diferente, pelos negros avulsos e pele descasquenta. Uma ilha de poluição estética no meio da higiene do pobre garoto. O cotovelo dele me chocou tanto, que eu me entortei todo para ver o meu próprio cotovelo (uma cena ridícula no ônibus) e me certificar de que o meu não era tão escroto assim. Quando vi meu cotovelo lisinho, levemente rosado e com alguns pelos loirinhos balançando ao vento, dei um “graças a Deus” silencioso e perdi qualquer sinal de inveja que brotava no meu ser.

Ai comecei a pensar: “Aposto que ela só o viu de costas depois que ficou afim dele… Porque como ficar afim de alguém com um cotovelo tão nojento?” Existem defeitos que são assim mesmo, você esconde até onde der, e só mostra quando o amor estiver no ar. Um cotovelo espinhoso, uma bunda peluda, uma estria mal intencionada, um umbigo bolota… Tem coisas que, mesmo estranhas, podem até ficar fofinhas depois de uma miopia amorosa, não é verdade?

Pedro

mai 12

Amanhã é o dia

Duas amigas sentadas no bar:

- Amiga, acho que ele gosta de mim.
- Jura? Ele disse alguma coisa?
- Ontem ele me mandou um torpedo. Normalmente ele termina em “bjs”, mas ontem ele mandou “beijão =****”.
- Uauuu, amiga. A palavra inteira, com “ão” e ainda 4 asteriscos. Ta ficando sério o relacionamento, hein?
- A gente vai sair amanhã. Tenho certeza que amanhã é o grande dia.
- E aonde será o encontro romântico?
- Ah, não é bem um encontro. Vamos ver o jogo de futebol, na casa de um amigo dele. Mas eu sinto que amanhã ele me pede.
- Já mudou o “relacionamento” do Orkut?
- Eu deixei sem nada.
- Ih, quando não ta nada é “encalhada”.
- Melhor deixar “solteiro” então?
- Solteiro é “piranha-a-procura”.
- Eu deixo o que então?
- Ah, amiga, depende. Você prefere ser vista como “encalhada” ou como “piranha-a-procura”?

Dois amigos sentados no bar:

- Ta de pé o jogo de amanhã, né?
- Mas é claro.
- Vou levar a cerveja, você leva o isopor?
- Só quem tem isopor é a Letícia. Aí convidei ela, né!?
- Letícia?
- É. Lembra dela, não? Mês passado… Casa do Rubão… A menina da blusa verde.
- Ah, sim. A blusa-diarréia-infantil. Lembro, lembro. Nem sabia que vocês estavam juntos.
- A gente se viu algumas vezes depois da festa. Nada demais.
- Ah, não te contei. Sabe quem vai amanha? O Farofa. Meu primo. Lembra dele?
- O Farofa? Então vamos sair todo mundo depois pro bar do Bigode.
- O Bigode ta ficando muito caro. Nem parece mais boteco. Ta até com ar condicionado.
- Ar condicionado? Só falta tirar as cadeiras de plástico.
- Mas sem problema, tem aquele boteco ao lado da casa do Monstro. Podemos todos ir pra lá.
- Excelente. Fechar a noite com chave de ouro.

Corra Mary

mai 10

Complicado

Um certo tipo de obrigação, um falso sentimento momentâneo de continuidade, que te empurra para fora da cama e como um relógio te avisa que já passou das cinco – concorrendo também a ser dia seguinte – e te pegarias então sentado no pé da cama, levando um objeto a boca (como uma criança de colo), sem saber ao certo o porque se faz, e se perguntarias, assim por acaso, se na situação do dia ter passado e os sonhos continuados, ininterruptos, o haveria de ter mesmo existido, e sem uma hipótese de mentira, ou verdade que deixou de acontecer, a realidade e tudo mais que ela pudesse trazer, seria tão inimaginável a ponto de tudo não indicar apenas mais cansaço pelas horas de fingimento na cama de lençóis de ontem.
E por quanto tempo ainda os vizinhos continuariam a te lembrar que não-ter-vivido não significaria não-ter-existido? E quem ainda poderiam ser eles para serem donos de tal verdade absoluta, visto que apenas pagam o mesmo aluguel com a clássica desculpa de som alto e visitas no alto da madrugada para se fazerem presentes e o apartamento não invadido pela vigilância sanitária? E você não estava incomodando. O apartamento vazio e as plantas secas e o cheiro de água sanitária não seriam motivos válidos para se incomodar, e talvez a sua não presença na caixa de correio, e a ausência das conversas sobre o tempo nos medíocres encontros no salão, o fariam ser visto quase como um anti-cristo da boa vizinhança, a mais nova conversa pelos corredores, e logo mais, por todo um bairro.
É complicado. – Você diria.

Corra Mary

mai 08

Situação excludente

Estou passando por uma situação extremamente excludente. Eu tenho 10 grandes amigos na vida e quatro grandes amigos na faculdade (vida é uma coisa, faculdade é outra). Desses 14, de acordo com o último censo 2009, 13 namoram. Pensando nesses números, podemos chegar à conclusão de que em 94% das saídas eu sou o único solteiro, e por conseguinte, o segurador de velas. Antigamente eu me incomodava, mas pelo bem do meu organismo, isso está passando, senão eu já teria pirado ou morrido de desgosto.

Pior do que segurar vela de amigos, é segurar vela de desconhecidos. Num dia desses fui a um rodízio de pizza para comemorar o aniversário de uma amiga (que namora). Eu tentei fazer um charme chegando meia hora atrasado. O problema é que os convidados eram tão charmosos que eu acabei sendo o primeiro a chegar. E o pior, a mesa só ficava reservada até 15 minutos depois do combinado. Fiquei que nem um retardado desiludido na porta, pensando coisas feias sobre o acontecido. Aí, um casal percebeu minha cara de retardado desiludido e perguntou: “você veio para o aniversário da Lailla?”…”vim!”…”Pô, ela não chegou (jura?), mas vamos entrar para pegar outra mesa?”…”vamos!”.

Fiquei olhando para o casal, afinal, não vinha um papo sequer na minha cabeça. Pedi a Deus para que caísse um meteoro na rua, só para ter assunto, mas não caiu. Fiquei lá segurando essa vela anônima, quando me veio um alívio: um amigo e uma amiga chegaram (juntos, pois eles namoram). Agora a geopolítica era diferente, segurava uma vela conhecida, pelo menos. Eu fui candelabro de todas as modalidades nesse dia: de desconhecidos, de meio-a-meio, de quatro casais ao mesmo tempo, foi uma dor. Mas aí no final chegaram outros amigos solteiros e a dor diminuiu.

O problema de só ter amigos casados, arranjados, chatos e namorados, é que o mundo se fecha de tal forma que você perde as perspectivas. Todo mundo tem um amigo que some quando namora, certo? Imagina ter todos? Além do mais, ninguém te apresenta uma viva alma para você entrar no time deles. Parece que a satisfação que dá quando você está amando e namorando já basta. Todos querem seu bem, mas ninguém se empenha em agir… É mais ou menos como ajudar os mais pobres.

Nesse rodízio maldito (mentira, ele foi legal), minha amiga falou que eu tinha que ir mais para a night, pois as nights são tipo um programa do Silvio Santos de arranjar namoradas (a diferença é que no Silvio Santos eu ganho 80 reais para participar, e na boite eu pago 80 de consumação, o que dá umas 3 cervejas e uma água ). Bem, mas eu não sou uma pessoa que pega mulheres na night, minha religião não permite essa putaria imoral. Mentira, eu não pego porque meus braços não são torneados e minha cabeça é muito grande, juro! Falei para a minha amiga que, para mim, a night tem que durar dois meses. Porque eu só consigo mostrar meu valor inestimável se tiver tempo para isso, e eu preciso de uns dois meses para tal. Afinal de contas, quem não tem sensualidade explícita tem que contar muita piada, senão morre virgem.

Mas escutem o que eu estou dizendo, estou cansado de mostrar meu interior maravilhoso. Vou investir na parte externa, para evitar esse trabalho todo. As coisas superficiais também têm lá sua valia, não é verdade? Ficar com alguém que só liga para beleza deve ser muito engraçado, preciso viver essa piada um dia. E vai ser breve, quando tiver braços mais torneados e cabeça mais proporcional.

Pedro

mai 04

Doenças da moda

Nós jornaleiros estamos sempre em contato (no meu caso, por pura obrigação) com as notícias mais quentes do planeta Terra. Qualquer novo acontecimento nos adentra a alma, porque é o maior mico ser desinformado numa faculdade de jornalismo. No entanto, estamos vivendo um momento em que todos, independentemente da vontade de se informar, conseguem falar sobre o que está na mídia. Esse fenômeno acontece quando o mundo (ou o Brasil) entra em crise. Quando o Jornal Nacional usa um bloco inteiro para falar sobre o mesmo assunto. E qual é o assunto do momento?

a)      Big Brother 10 será com famosos

b)      Marcio Garcia é um protagonista deprimente

c)      Gripe suína – pandemia

Se você respondeu letra C, genial, você nem deveria precisar dessas opções para acertar a minha pergunta.

O mundo está estranho, essa é a verdade. Precisamos de uma gripe coletiva para perceber que pessoas morrem. Deus já inventou o câncer, deveríamos estar mais do que acostumados com essa ideia.

É esquisito como o mundo elege, de quando em quando, uma doença da moda. Nos idos negros da Idade Média, a peste bubônica arrasou população europeia. Por causa de um mijo de rato filho da puta, a galera começou a morrer loucamente. Aí nas guerras, um grupo tacava defuntos que tiveram peste negra, através da catapulta, no outro grupo. E assim, todos chafurdaram juntos na imensa lama de mil quatrocentos e tal.

Devemos lembrar também da gripe espanhola, alguns séculos depois, que matou mais gente que a Segunda Guerra Mundial. Metade do mundo pegou essa gripe durante a pandemia, acredita? Tem também a AIDS, e aquelas doenças africanas que parecem mentira (ebola não pode ser de verdade, não é possível)…

É como se o planeta fosse uma imensa passarela sádica em que desfilam as doenças da moda. Cada uma no seu tempo e com seus mortos no bolso de couro com paetês. Nem todo mundo morre das mesmas doenças, mas que existem as que são tendência absoluta no mundo fashion-patológico, isso não podemos negar.

A AIDS é um pretinho básico; a varíola é a calça jeans – nunca saem de moda. Gripe espanhola é calça boca-de-sino – já arrasou quarteirões, mas ninguém morre mais disso. Gripe suína é só um conceito até agora, mas é a maior promessa da próxima estação.

Então já sabe, para ficar antenado com as últimas tendências, siga a lista:

- Compre suas máscaras. Ou abra uma loja de máscaras… No momento, essa peça é mais importante do que amor de mãe. Aquele industrial modesto que tem uma loja de máscaras cirúrgicas deve estar se sentindo estranho, né? Imagina ter como principal público-alvo “pessoas com medo de morrer”?

- Entre em pânico. É 99% certo que você não vai morrer de gripe suína, mas é muito transgressor acreditar nisso.

- (dica genérica) Aproveite mais. Se você não morrer de gripe, vai morrer de outra coisa. E não necessariamente daqui a 50 anos. Pode ser daqui a seis dias num acidente de lancha. Aproveite os cinco dias que virão, e, se sobreviver ao sexto, aproveite todos os outros só para garantir.

Bom, vou terminar esse texto, antes que outra doença apareça no planeta e o post fique defasado. Beijos e bons espirros.

Pedro

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