Um cotovelo horrível
Tirando as funções locomotoras, o cotovelo é, esteticamente, a parte mais insignificante do corpo. Eu não consigo me lembrar de outro lugar tão despercebido e esquisito que a gente carregue conosco. Tanto que, nunca se falou: “putz, que cotovelo bonito ele tem, hein?”. Olhos, cabelo, pés, braços, até orelhas podem ser bonitos ou feios. Com o cotovelo, a lógica é diferente – ele está na seção de coisas que sempre são e serão feias, assim como as plantas de plástico, os sapos, os presidentes e as pessoas que frequentam o Norte Shopping.
Mas, por causa dessa feiura ordinária e da localização corporal desfavorável, essa articulação útil e relegada só destoa se for horrenda, escrota e colorida.
Estava sentado ontem no ônibus, observando as pessoas na minha frente. Tinha o motorista, o cobrador (ou trocador. Cobrador ou trocador?) e dois casais apaixonados, um de cada lado do ônibus. O motorista estava muito longe, o cobrador dormia, logo, eu só tinha a paisagem e os casais para me entreterem durante o trajeto. No entanto, o itinerário do ônibus 571 já está imortalizado na minha memória, transformando a observação da paisagem em um programa reprisado 1500 vezes. Só me restava a dupla de casais, basicamente um recado de Deus para mim: “aí, Pedrão, olha só como o amor existe!”.
Pra variar, o casal mais apaixonado estava na minha frente. Ele abraçava a menina por cima do ombro, imprimindo total proteção e apreço à jovem. Eles se beijavam de 18 em 18 segundos, naquela mecânica amorosa (?!?!) típica de quem está começando a se apaixonar. Ela era bonitinha, ele nem tanto, mas parecia bem higiênico, pelo menos. O que importava é que nos 17 segundos entre-beijos, eles eram um casal lindo, e durante o beijo também não era de se jogar fora (as pessoas ficam horríveis beijando… Já viu uma foto sua, espontânea, beijando alguém? Você detesta essa foto, certo? Pois é, só os atores sabem beijar bonito. Talvez a língua deixe tudo mais feio.)
Quando estava terminando de decifrar o padrão dos pombinhos, e a um matiz de começar a ter uma inveja silenciosa, eu reparo no cotovelo do garoto. Foi a coisa mais nojenta do meu dia, quiçá da minha semana. Era uma bolota espinhosa, com uma coloração bem diferente, pelos negros avulsos e pele descasquenta. Uma ilha de poluição estética no meio da higiene do pobre garoto. O cotovelo dele me chocou tanto, que eu me entortei todo para ver o meu próprio cotovelo (uma cena ridícula no ônibus) e me certificar de que o meu não era tão escroto assim. Quando vi meu cotovelo lisinho, levemente rosado e com alguns pelos loirinhos balançando ao vento, dei um “graças a Deus” silencioso e perdi qualquer sinal de inveja que brotava no meu ser.
Ai comecei a pensar: “Aposto que ela só o viu de costas depois que ficou afim dele… Porque como ficar afim de alguém com um cotovelo tão nojento?” Existem defeitos que são assim mesmo, você esconde até onde der, e só mostra quando o amor estiver no ar. Um cotovelo espinhoso, uma bunda peluda, uma estria mal intencionada, um umbigo bolota… Tem coisas que, mesmo estranhas, podem até ficar fofinhas depois de uma miopia amorosa, não é verdade?
Pedro