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Archive for maio, 2009

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mai 31

Declarações pessimistas sobre calvície

José Antônio da Hora, meu simpático pai, nasceu careca, pelado e sem dente, assim como eu e você (o quê? Você nasceu cabeludo? Que foda! Nasceu de roupinha!? Mentiroso, eu sei que isso é impossível). Durante a vida, teve que correr atrás de cabelo, roupa e dentes, esse último um verdadeiro martírio infantil. No entanto, hoje, aos 55 anos, só lhe restam incisivos, molares, mastigadores, caninos, calças, cuecas e camisas. Os cabelos se foram para sempre. O que me mata é que eles se foram há MUITO tempo.

Diz ele, rindo despretensiosamente, que aos 21 anos, suas madeixas já rareavam. Também pudera tanta indiferença, ele ficou tão pouco tempo com cabelo, que nem deu para rolar apego. Eu e meu irmão temos 22 e 23 anos, ainda não somos carecas, mas acho que já estamos condenados pelas circunstâncias genéticas impostas pelo tronco paterno da família. Que raiva!

Vovô Luiz, o patriarca dos Staites (a parte materna), morreu cabeludo, aos 70 anos. Vovô Fernando, o patriarca dos da Hora (logicamente, a paterna) tem a cabeça tão brilhosa que parece nunca ter nascido um pelinho sequer naquela proeminência impecavelmente lustrosa que ele chama de crânio. E agora!? Temos um embate capilar. A família careca se esbarra na cabeluda. Qual o gene mais forte?

Cabelo é foda. Assim como dor de barriga, todo mundo já teve problemas capilares de alguma ordem. Quando nasci, minha cabeça se comprometeu a distribuir cada fio para uma direção. Eu tenho aquilo que os especialistas de Harvard chamam de “rodamoinhos”. São uns 17 rodamoinhos espalhados pela minha generosa cabeçorra, deixando um aspecto constante de guerra civil em mim. Um desses rodamoinhos fica bem na frente, entre as entradas. Graças a ele, quando meu cabelo está maior, eu fico com um cacho caído para o lado esquerdo. Apelidaram de “cacho-pênis”. Legal, né? É por isso que agora só uso cabelo raspado.

Mas é uma situação complicada. Podemos comparar, forçando 500 Newtons de barra, o cabelo com a menstruação. Passamos boa parte da vida reclamando deles… Mas nos desesperamos quando eles desaparecem. Todo mês você, minha amiga de casa, reclama que o sangue está chegando; briga com o seu namorado (TPM é uma desgraça); fica enchendo o saco… Mas quando ela não vem, você morre do coração, não é verdade? É a mesma coisa com cabelo. Eu reclamo dele diariamente, mas me dói saber que ele está me abandonando.

Mas, quando a menstruação não vem, você pode tomar um remédio (sei, remédio…) que vai fazer você, milagrosamente, voltar a menstruar (existem clínicas cuidadosamente espalhadas pelo Rio de Janeiro só para isso!). A mesma coisa acontece com seus problemas capilares. Rola um produto que faz os cabelos voltarem, olha que maravilha!? Mas fofocas hospitalares afirmam que o mameluco que usá-lo fica momentaneamente impotente. Bom, o ideal então já é ser brocha, porque aí não tem problema algum! Esse remédio é perfeito para mim.

Meu irmão disse que ele não deixa impotente. A parada, em 1% dos casos, diminui a libido da pessoa durante o tratamento. Bom, já não é de todo o mal. Para reflorestar o cocuruto, ele já recorreu à babosa, que é uma espécie de sêmen vegetal nojentíssimo; ao tarô e à bruxaria. Agora está convicto em usar esse remédio corta-tesão. Desejo, do fundo da minha alma, toda a sorte para ele.

Temos que debater na sociedade se os carecas causam ojeriza ou alguma outra coisa nas mulheres. É claro que o “alguma outra coisa” não é algo bom. Se elas não sentem ojeriza, devem sentir pena… Ou raiva… Ou estranhamento… Ou desprezo.

O problema é que muitos carecas queimam o próprio filme, entende? Quem nunca viu aquele tipo de cara que deixa crescer cabelo numa das encostas laterais e tampa, quando estiver grande, a careca? Todos, até os cegos, percebem que o cara está escondendo um troço super explanado. É muito constrangedor. Aí um vento bate e a telha voa toda. É que nem esconder um elefante atrás da moita. Não importa o tamanho da moita… O elefante vai aparecer. Perucas são outro fator escrotizador dos carecas. Eu prefiro não ter nada, a ter cabelo de Barbie… Coisa horrível.

Se os carecas se aceitassem mais, acho que o próprio mundo os veria com mais naturalidade. E assim eu não estaria tão preocupado agora. Se a conjuntura mundial não mudar seus valores até eu ficar careca, vou recorrer à babosa, ao tarô, à bruxaria e, se mantiver a brochidão costumeira e a falta de cabelo, vou direto para o remédio corta-tesão.

Pedro

mai 26

A conta da Dona Marilene

shit-happens

Meus amigos são umas figuras muito engraçadas. Lógico que todo mundo sempre dirá isso dos seus próprios amigos, mas acreditem, os meus são especialmente engraçados. Meu melhor amigo, por exemplo, a cada semana tem algo novo e surpreendente para contar. Aquele tipo de estória em que na hora não parecia muito legal, mas depois que passou, vira piada entre os amigos.

Vamos chamá-lo de Rodrigo, porque afinal, esse é o nome dele (ou um dos).
Numa madrugada, Rodrigo estava voltando pra casa depois de passar horas na casa de outro amigo.
Como sempre, sem um puto no bolso, foi a pé. Não é longe, mas o suficiente para desejar seriamente ter dinheiro, quando a dor de barriga bateu.
Fudeu, ele precisava cagar, e então pensou nas possibilidades disponíveis:
a) Vê se conseguia esperar até chegar em casa.
b) Vê se conseguia voltar pra casa do amigo.
c) Cagar nas calças
d) Cagar na rua

Para todas as opções havia uma série de complicações que a diarréia não o permitia avaliar coerentemente, mas no desespero, era certo de que não haveria tempo o suficiente para procurar um banheiro limpinho de alguma das duas casas em questão. Levando-se em conta que era madrugada, e nenhum lugar por perto estava aberto, a única opção que sobrava era a de cagar na rua (que entre se cagar na calça, estava em vantagem).

Rodrigo foi para uma ruazinha sem-saída, bem escura, que parecia a sua salvação. A última casa dessa rua tinha um muro baixo, pelo qual ele pulou só para se proteger um pouco mais da exposição de sua bunda branca.
Agauchou bem ali e mandou ver. Segundo o próprio, foi um alívio incrível, e pode novamente respirar com o mesmo conforto de antes.
Isso até chegar à parte em que teoricamente ele deveria se limpar. Afinal, de nada adianta cagar e não limpar a bunda.
Rodrigo estendeu a mão e achou a caixa do correio. Com muito peso na consciência, mas alívio em partes mais assustadoras, pegou toda a correspondência, e com o que lhe restara de dignidade, procurou o que parecia menos “escroto de deixar cagado”.

Não sei muito bem qual critério foi usado, mas o escolhido para papel higiênico foi uma conta de água.
Rodrigo deu uma leve olhada, e antes de terminar seu trabalho, tentou se desculpar mentalmente com Dona Marilene, que teria sua conta levemente cagada.
Finalizado seu trabalho, Rodrigo vestiu suas limpas calças e botou tudo de volta na caixa de correio, inclusive a conta de água, porque afinal, sacanagem jogar a conta da mulher fora. Cagar nela, não.

Corra Mary

mai 23

Frustrações

1994. Power Rangers, a grande febre infantil daquele momento, era o sonho de consumo de toda criança. Com o pequeno Raphaelzinho não era diferente. Ele queria mais que a vida um Megazord de Natal. Se você não conhece Power Rangers, é porque estava muito ocupado lendo Dostoievsky, mas eu sinceramente não creio que alguém não conheça Jason, Kimberly e companhia. Na hierarquia de fama temos Os Beatles, depois Jesus e, em terceiro, Power Rangers, não é verdade? O resto é o resto,

O Megazord que meu irmão (o Raphaelzinho) queria era uma composição dos cinco robôs menores (mastodonte, tigre-dente-de-sabre, minhoca, camelo, não me lembro dos animais) que, encaixados, daria o robô grande. Ou seja, ele poderia brincar com os cinco animais separados ou então juntos na forma de Megazord.

Em novembro ele enviou uma carta para Papai Noel fazendo o pedido. Você pode imaginar o que é um mês e meio para uma criança esperar seu brinquedo? É muito bom (mas doloroso) acordar todo dia pensando naquilo, fazendo planos de como vai brincar com ele, as centenas de histórias que poderiam ser criadas com os robôs… À medida que o tempo passava, mais ansioso ficava o pequeno Raphaelzinho. Nos últimos dias, ele chegou a sonhar com o Mastodonte e com o Pterodátilo… Na hora em que Papai Noel chegou com o saco na mão, o saquinho de Raphaelzinho entrou em ebulição, pois ele estava à beira de um orgasmo natalino.

Raphaelzinho pegou o embrulho, com aquela cara de babaca que só as crianças em frente ao brinquedo, ou os homens em frente a uma linda menina sabem fazer. Despiu cuidadosamente o pacote, quase entrando em êxtase. Tirou o Megazord da caixa, botou no chão e ficou paralisado. O Megazord que o inexperiente Papai Noel trouxe (vulgo José Antônio, o papai biológico) não desmontava. Todas as partes do robô eram coladas, não havia vida naquele brinquedo, interação, nada!

A expectativa acumulada de um mês de espera se transformou em uma frustração tamanha, que o pequeno Raphaelzinho não conseguiu suportar. E quando a gente não suporta a frustração, a gente chora feito criança. Feito Raphaelzinho, na frente de todo mundo.

E é impressionante como frustrações mexem com a gente. É porque você precisa de tempo para se frustrar, o negócio é totalmente ligado a expectativas. E expectativa é esperar o tempo passar para conferir se o que você imaginava era isso mesmo. Quando não é, o sino maligno toca.

A cara de bunda; o castelinho de cartas que desmorona por dentro; o desânimo e a sensação de que nenhum outro brinquedo de Natal vai ser melhor que o Megazord, são sintomas cabais de que você está nadando em uma piscina de frustração.

Mas se você está assim, não se desespere. Vá com calma ao último andar do seu prédio e se jogue. Mentira, calma! Nós temos que nos frustrar, porque só assim ganhamos tolerância a posteriores decepções. É a mesma coisa com bebida alcoólica, se você vomitar, além de provavelmente ter uma ressaca a menos, você aprende a beber com mais habilidade. O que não pode é parar de beber para sempre só por causa do medo de vomitar. Quem tem medo não se frustra, mas também não vive.

Olhe só quantas datas especiais temos no ano. O que não falta é oportunidade para ganhar novos brinquedos. A diferença é que na vida, ao contrário de Natal e aniversário, essas datas especiais estão camufladas no calendário e nas circunstâncias. Quando você tropeçar numa dessas datas, caia de cara, ok? Em algum momento, um Megazord desmontável há de aparecer.

Pedro

mai 20

Circuncisões e afins

(Eu espero que todos saibam o que acontece numa circuncisão. Se não souberem, eu entendo, uma vez que nem eu sei EXATAMENTE o que fazem. Só sei que deve doer se eu fizer agora e sem anestesia.)

No meu antigo estágio, fiz amizade, que levo até hoje, com uma judia extremamente simpática. Graças a ela, eu reparei que judeus não são mãos-de-vaca, como prega o senso comum, pois se fossem, ela jamais aceitaria receber trezentos e sessenta e poucos paus por mês para trabalhar que nem uma corna mansa. Eu sempre soube que judeuzinhos Little babies eram circuncisos, depois cresciam e participavam de Bar Mitzvahs e jejuavam no dia do perdão. O que não estava no meu hall modesto de conhecimento eram as implicações que circuncisões traziam à vida amorosa do varão sionista. Coisa que o varão católico ou o varão Pedro Staite não vivem.

Em dado dia, saímos todos da Band e fomos beber um chopp malandrinho em um bar das redondezas. A conversa, como haveria de ser, rolava astutamente, super divertida. Das três mulheres da mesa, duas tinham alguma relação com o judaísmo. Uma era a minha amiga do início do texto, e a outra era uma amiga que tem um marido judeu. Bom, se ele é judeu eu não lembro, mas que circuncidaram o garoto, isso sim. Bom, grosso modo, a intimidade com a falta de prepúcio era um elo forte que unia as duas mulheres na nossa mesa.

Assim como em toda conversa de animais, em dado momento enveredamos para sexualidades. Eu sempre fazendo gracinha, falando mal de mim mesmo; outros falando sobre aventuras e afins. Nesse momento, minha amiga judia começa a falar que é muito melhor o homem que passou pela circuncisão.

- Ahhh, é bem melhor sem aquela capinha. (isso lá é maneira de falar??? Capinha???)

Bem, embora estava na mesa, não conversava diretamente com ela. Estava falando sobre coisas sérias com meus amigos (mentira). Só que volta e meia ela reiterava:

- Sem capinha é muito melhor… É mais prazeroso o ato…

Eu já tinha captado a conversa, mas ainda não havia me manifestado, pois estava com vergonha, uma vez que eu havia passado por toda uma vida infantil cunhada nos maiores preceitos da educação católica – aguinha na cabeça e piruzinho intacto.

Aí ela solta outra palavra de especialista:

- Além do mais, sem capinha é mais higiênico também.

- Vem cá, minha querida, vai ficar me chamando de porco assim na cara dura?

Ela esqueceu de reparar que os quatro rapazes da mesa tinham genitálias católicas, agnóticas ou espíritas. Ela falar sobre uma parte delicada de uma pessoa, faz com que as outras pensem nisso imediatamente. E, porra, éramos quatro desfavorecidos pelas circunstâncias históricas religiosas. Ela não precisava bradar aos quatro ventos.

Saí da conversa me achando um merda horrível. É uma pena, porque antes do papo só me achava um merda mesmo. Saí de lá pensando “como poderei fazer para tirar meus excedentes corporais?”;”Será que eu carrego algo genuinamente católico, ou ele é aceitável?”; “preciso comparar com alguém…”… “NÃO! Que mané comparar?”; “Vou perguntar para a próxima peguete qual é a sua religião. Se for judia, estou fora…”.

Estabelecemos conexões valiosas graças a uma parte escrota (haha, escrota?) da anatomia do homem. Ali, naquelas horas, a amizade entre nós cresceu um pouco mais. Era o início da “gangue da capinha”.

Pedro

mai 18

Gatos, a loucura e o abandono

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No meu primeiro semestre na faculdade tinha aula com uma professora louca. Sim, ela era realmente louca. Não é exagero meu. Louca mesmo. Varrida, pirada, maluca.
No primeiro dia, ela já virou a minha preferida. A aula é sempre mais agradável com alguém lá na frente que ache bacanérrimo te fazer rir.
Muitos tentam, mas poucos realmente conseguem. Admiro quem tem cara para ser professor. Acho que eu morreria de medo e seria a típica professora de inglês do segundo ano. Onde os alunos cagam pra aula, fazem tudo menos prestar atenção, e na hora da prova, ainda tiram nota boa. (Linha que fica difícil de seguir se a professora no caso for de matemática)

Chamaremos a tal professora louca de Elisabeth (eu lá sei as conseqüências de chamar alguém louca, de louca).
Elisabeth sempre comentava sobre seus gatos. Seus 22 gatos, que dividiam com ela um apartamento na Gávea.
Mas não para por aí. Elisabeth também havia sido deixada pelo marido.
Para ter 22 gatos num apartamento, não é de se estranhar, né!?
Claro que as palavras usadas pela minha querida professora não eram exatamente essas. Eram coisas como: “Se eu soubesse que gatos amam mais do que homens, nunca teria me casado.”
Mas fofocas correm pela faculdade, e não estranhei quando soube do que de verdade acontecera.
Mas ela não era uma recalcada abandonada, era apenas uma mulher louca e sozinha que vivia com seus 22 gatos.

Na época de escola, tinha uma professora de matemática que era outra louca. Mas no sentido ruim. Foi onde aprendi o real sentido de mau-comida. Mas o que mudava nesse caso era APENAS a falta dos gatos.
Porque a tal professora também fora abandonada pelo marido, mas se tornou alguém mesquinha, amarga e altamente sádica. Adorava torturar os alunos enquanto se decidia se gostava ou não deles.
Certo dia, um menino de uma série abaixo me disse:
- Já chamou a Denise de senhorita?
- Eu não. Chamo de Denise mesmo. Por quê?
- Tem aula com ela amanhã? Se tiver, chame.

Sempre evitei muita aproximação com essa professora, dependendo do dia ela me amava ou me odiava, e como matemática nunca foi meu forte, eu preferia não arriscar, mas no dia seguinte, durante três deliciosos tempos seguidos de sua matéria, resolvi dar uma variada:
- Denise, a senhorita podia me explicar de novo o exercício 3?
No automático, a mesma se virou e respondeu:
- Senhorita não, que eu já sou toda arrombada. É senhora mesmo.

A mesma se vestia feito uma velha lésbica e não era absurdo quando ela contava para todos os 30 alunos da sétima série que não transava há seis anos. Gostaria muito de ver alguém responder “E o que nós temos com isso?”, mas a maioria não estava lá tão bem em matemática assim, então mantínhamos apenas os olhares enquanto nos perguntávamos o que aquela mulher havia feito com sua ética profissional.
Provavelmente a mesma coisa que fizera com sua reputação e feminilidade.
E tudo isso sabe por quê?
Porque quando o marido a abandonou, ela não comprou um casal de gatos.

E você que odiava gatos, hein?

Corra Mary

P.s.: O nome da professora mau-comida de matemática não fora modificado. Saí da escola fazem alguns aninhos, não me preocupo se ela gostará ou não e quero mais que ela enfie sua matemática no cu.

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