Declarações pessimistas sobre calvície
José Antônio da Hora, meu simpático pai, nasceu careca, pelado e sem dente, assim como eu e você (o quê? Você nasceu cabeludo? Que foda! Nasceu de roupinha!? Mentiroso, eu sei que isso é impossível). Durante a vida, teve que correr atrás de cabelo, roupa e dentes, esse último um verdadeiro martírio infantil. No entanto, hoje, aos 55 anos, só lhe restam incisivos, molares, mastigadores, caninos, calças, cuecas e camisas. Os cabelos se foram para sempre. O que me mata é que eles se foram há MUITO tempo.
Diz ele, rindo despretensiosamente, que aos 21 anos, suas madeixas já rareavam. Também pudera tanta indiferença, ele ficou tão pouco tempo com cabelo, que nem deu para rolar apego. Eu e meu irmão temos 22 e 23 anos, ainda não somos carecas, mas acho que já estamos condenados pelas circunstâncias genéticas impostas pelo tronco paterno da família. Que raiva!
Vovô Luiz, o patriarca dos Staites (a parte materna), morreu cabeludo, aos 70 anos. Vovô Fernando, o patriarca dos da Hora (logicamente, a paterna) tem a cabeça tão brilhosa que parece nunca ter nascido um pelinho sequer naquela proeminência impecavelmente lustrosa que ele chama de crânio. E agora!? Temos um embate capilar. A família careca se esbarra na cabeluda. Qual o gene mais forte?
Cabelo é foda. Assim como dor de barriga, todo mundo já teve problemas capilares de alguma ordem. Quando nasci, minha cabeça se comprometeu a distribuir cada fio para uma direção. Eu tenho aquilo que os especialistas de Harvard chamam de “rodamoinhos”. São uns 17 rodamoinhos espalhados pela minha generosa cabeçorra, deixando um aspecto constante de guerra civil em mim. Um desses rodamoinhos fica bem na frente, entre as entradas. Graças a ele, quando meu cabelo está maior, eu fico com um cacho caído para o lado esquerdo. Apelidaram de “cacho-pênis”. Legal, né? É por isso que agora só uso cabelo raspado.
Mas é uma situação complicada. Podemos comparar, forçando 500 Newtons de barra, o cabelo com a menstruação. Passamos boa parte da vida reclamando deles… Mas nos desesperamos quando eles desaparecem. Todo mês você, minha amiga de casa, reclama que o sangue está chegando; briga com o seu namorado (TPM é uma desgraça); fica enchendo o saco… Mas quando ela não vem, você morre do coração, não é verdade? É a mesma coisa com cabelo. Eu reclamo dele diariamente, mas me dói saber que ele está me abandonando.
Mas, quando a menstruação não vem, você pode tomar um remédio (sei, remédio…) que vai fazer você, milagrosamente, voltar a menstruar (existem clínicas cuidadosamente espalhadas pelo Rio de Janeiro só para isso!). A mesma coisa acontece com seus problemas capilares. Rola um produto que faz os cabelos voltarem, olha que maravilha!? Mas fofocas hospitalares afirmam que o mameluco que usá-lo fica momentaneamente impotente. Bom, o ideal então já é ser brocha, porque aí não tem problema algum! Esse remédio é perfeito para mim.
Meu irmão disse que ele não deixa impotente. A parada, em 1% dos casos, diminui a libido da pessoa durante o tratamento. Bom, já não é de todo o mal. Para reflorestar o cocuruto, ele já recorreu à babosa, que é uma espécie de sêmen vegetal nojentíssimo; ao tarô e à bruxaria. Agora está convicto em usar esse remédio corta-tesão. Desejo, do fundo da minha alma, toda a sorte para ele.
Temos que debater na sociedade se os carecas causam ojeriza ou alguma outra coisa nas mulheres. É claro que o “alguma outra coisa” não é algo bom. Se elas não sentem ojeriza, devem sentir pena… Ou raiva… Ou estranhamento… Ou desprezo.
O problema é que muitos carecas queimam o próprio filme, entende? Quem nunca viu aquele tipo de cara que deixa crescer cabelo numa das encostas laterais e tampa, quando estiver grande, a careca? Todos, até os cegos, percebem que o cara está escondendo um troço super explanado. É muito constrangedor. Aí um vento bate e a telha voa toda. É que nem esconder um elefante atrás da moita. Não importa o tamanho da moita… O elefante vai aparecer. Perucas são outro fator escrotizador dos carecas. Eu prefiro não ter nada, a ter cabelo de Barbie… Coisa horrível.
Se os carecas se aceitassem mais, acho que o próprio mundo os veria com mais naturalidade. E assim eu não estaria tão preocupado agora. Se a conjuntura mundial não mudar seus valores até eu ficar careca, vou recorrer à babosa, ao tarô, à bruxaria e, se mantiver a brochidão costumeira e a falta de cabelo, vou direto para o remédio corta-tesão.
Pedro

