João morreu.

abr 11

João morreu e acordou numa sala sem decoração. De repente, entrou um homem que segurava um protocolo com alguns dados. O homem cumprimentou o morto:

- Seja bem vindo, João.

- Que horas são?

- Oração é na igreja, ahahaha. As horas não importam mais, meu caro. Não sei se você reparou, mas você morreu, ok?

- Morri!? Puta merda…

- Aqui consta que você morreu atropelado por um trio elétrico. Estava alucinado, fruto de 12 latinhas de cerveja, mais duas doses de tequila, mais um fumo pecaminoso. Você estava chegando em uma moça, ou melhor, um rapaz vestido de moça. Ele disse que era homem, você não acreditou, tentou agarrá-lo, e começaram a brigar. Quando você desferiu o primeiro soco, perdeu o equilíbrio e caiu na frente do trio elétrico. Seria uma morte dolorosa, mas você bateu de cabeça antes, então estava desmaiado quando foi estraçalhado. Cinema puro, hein? Abarrotou os jornais. Pessoas atropeladas por bonde, trio elétrico, Fusca, essas coisas que andam devagar, causam bastante comoção na mídia.

- Você é Deus?

- Sou! Brincadeira, meu nome é Kleber Costa, do setor de “explicação póstuma”. Aqui o nosso lema é “Morrer é triste, mas sem saber por quê, é mais ainda!”

- Onde está Deus?

- No seu coração, querido.

- E o céu?

- Céu? Bem, o céu fica… No seu coração também.

- Ué!? Eu não vou para o céu? O inferno também está no meu coração?

- Não, o inferno está atrás dessa porta. Mentira, ele também está no seu coração, João. Tá começando a pegar o espírito da coisa! Rapaz inteligente!

- Mas não só eu, como milhões de pessoas pelo mundo, acreditam que o céu está reservado para as pessoas de bem, que oram, que se dedicam a Deus! Vai me dizer que isso tudo é invenção!?

- Que culpa eu tenho se na humanidade existem pessoas criativas, dedicadas e medrosas? Tem gente que lê horóscopo, você acredita em horóscopo?

- Não.

- Por quê?

- Porque 1/12 da população têm o mesmo signo. Se eu ler que os librianos vão ter um dia de sorte, então quer dizer que os 550 milhões de librianos do mundo vão ter um dia de sorte!? Horóscopo é para quem se encontra no que está escrito. Balela total!

- E a Bíblia não?

- Mas a Bíblia foi feita por Deus!

- Como você sabe?

- Ué… São milhares de anos de uma crença que se perpetuou.

- E se convencionou. Se já escreveram Hamlet, O Senhor dos Anéis e Harry Potter, por que um ser humano bem intencionado não poderia escrever a bíblia?

-…

-…

- E o que eu faço?

- Tira um cochilo, meu filho.

- É… Depois disso tudo, preciso mesmo dormir algumas horas.

- Com certeza, quem sabe dormir por toda a eternidade, certo?

- Não! Só por alg…

- Boa noite.

Clic. Kleber desligou a luz, saiu pela porta e entrou em outra sala, onde cumprimentaria mais um desavisado. Trabalhar com morto requeria muita disposição e uma retórica afiada, mas Kleber já estava ficando craque nisso.


Big Blóudey

abr 07

 

Juro pela Santíssima Trindade que a minha vó, a ora doce ora ranzinza dona Zinda, fala “Big Blóudey”. O que é engraçado, porque falar Big Brother é mais fácil. Mas sabe como funciona a cabeça de um velhinho, né? O que brota dentro dela, JAMAIS sai. Calhou que da primeira vez que ela ouviu o termo, assimilou Big Blóudey, pronto, ficou para sempre.

Algumas pessoas já me falaram que eu deveria ir para o Big Brother. A primeira coisa que eu penso em resposta é “nem fudendo”, mas como às vezes a intenção da pessoa é boa, eu falo coisas amenas e mongóis que nem são dignas de lembrança, mas pelo menos não são mal-educadas. O interessante é que “você poderia ir para o Big Brother” é tido como um elogio. Acho que a pessoa quer dizer que você é engraçada e tem personalidade. No entanto, é só ver as porcarias que entram naquela porra de programa para notar que esse elogio pode soar como uma verdadeira facada no ombro. Se todo mundo que tem personalidade poderia ir para o Big Brother, porque lá só tem retardado? (Não encha. Se você é fã de algum bbb, não faço questão do seu comentário).

Por um lado, é uma maneira mais “fácil” de ficar milionário. Por outro, caso você não ganhe, você vira um reles ex-bbb. Ou seja, você tem uma chance de ficar milionário, contra 13 de ser uma pária da sociedade, um autêntico darlit entre os humanos. Pelo menos no Show do Milhão (Silvio Santos), se você não ganhasse um milhão de reais em barras de ouro, que valem mais do que dinheiro, você voltava para a casa sem estigma algum (talvez de burro, mas passaria rapidamente). No Big Brother o buraco é mais embaixo. O ranço te persegue para sempre. Pior ainda se você for um dos vilões, tipo o Rogério da 5ª edição. Deus me livre!

É por isso que eu acho que o 13º BBB deveria ser entre os 12 infelizes que saíram na primeira semana em todas as edições anteriores. BBB 13 – Uma nova chance. Teríamos o Caetano, que teve a proeza de ser o primeiro eliminado da história, ou aquela que parecia a Pitty, seria demais! O problema é que o primeiro eliminado dessa edição provavelmente se mataria depois, afinal, ninguém aguenta tanta rejeição em uma vida. Eu proponho que ninguém saia nas primeiras duas semanas, e depois eliminem logo uns três. Assim a sensação de tristeza seria dividida e ninguém se sentiria tentado a fazer companhia ao Buba lá no céu (ou no inferno). De qualquer forma, ser um ex-bbb² deve ser algo complicadíssimo…

Embora eu jamais fosse para um lugar desses, imagino que lá seja o mínimo divertido. Já me imaginei lá, para falar a verdade. Tudo bem, soa contraditório, mas são apenas lapsos de falta de significado de vida (são rapidíssimos), depois tudo volta ao normal. Mas convenhamos, todo mundo que defeca ou toma banho já conversou mentalmente com o Pedro Bial, não é verdade?


Questionamento indelével sobre as belezas interior e exterior

abr 05

- Pedro, o que é melhor? Peitos ou estilo?

- Peitos! Não, peraí… Acho que estilo… Não, não, peitos, peitos… Ai, sei lá!!

Esse pergunta entrou para o hall de questionamentos indeléveis que permeiam a humanidade. Qual é a origem do universo? De onde viemos? Para onde vamos? Existe vida após a morte? Peitos ou estilo?

Assim como falar que Deus fez tudo em seis dias mais a folga e os direitos trabalhistas; que há vida após a morte no céu para os do bem, no inferno para os malvados e no limbo para os não batizados e para o darlits; falar que o melhor são “peitos estilosos” não vale. As perguntas são muito complexas, logo, as respostas não poderiam ser caprichosamente simples, ora bolas.

Até porque “peitos ou estilo?” não quer dizer exatamente isso. É uma dúvida milenar sobre o que é mais válido, a beleza interior ou a exterior. No mundo moderno, fastfoodiano, o peito é a metonímia da beleza, assim como o estilo é tudo o que há de bom por dentro. A resposta para isso não pode ser absoluta, afinal, não há alguém que seja 100% lindo,  ou 100% feioso, ou 100% gentil, inteligente e legal, ou 100% falso, mentiroso e sacripanta. Assim como as cores são resultados de pitadas diferentes dos pigmentos primários, as pessoas são um pitaco de cada coisa, no final fica tudo a mesma merda, mas com pequenos diferenciais – desprezíveis, quase.

Num dia, vi que uma menina total “peito” ficou solteira. Pensei “uhh la la, o Pedrão vai atacar!” (é, eu gosto de pensar em gritos de guerra que rimam, e daí!? Você é convencional, é?).  Mas depois comecei a desenterrar tudo aquilo que a caracterizava como um corpo que anda e respira – só e tão somente. Ela era uma mula, essa é a grande e infeliz verdade, uma autêntica queimação de filme ambulante. O que é pior na roda social? Estar com uma baranga que vai te envergonhar na entrada, ou levar uma burra que vai te envergonhar na saída?

Pois é, pensando nisso, meu arroubo pela solteirice dela começou a minguar. Dizem que inteligência é afrodisíaco (se tem comunidade no orkut, é verdade absoluta), logo, burrice é brochante. E levando em conta que eu não sou um ás da testoterona e da virilidade, eu desisti antes de tentar – ela ia me deixar envergonhado duplamente:  por ser uma mula e por me fazer brochar… É, esquece!

* E ainda tem o pior. Eu poderia chegar e tomar um toco. E tomar toco de uma mula dói como um coice, eu diria. Numa escala de dor, dentre as párias da sociedade, você pode levar o toco de uma feia, depois de uma burra e, por último de uma pessoa fácil, aí é auto-estima zero.

No final das contas, a gente cai no óbvio porque todos os peitos têm lá seu estilo e todos os estilos têm lá seu peito. A resposta que não vale é a única que cabe. Talvez isso seja bom.

É só ver a minha resposta na segunda linha do texto, eu prefiro peito, aí depois eu penso melhor e prefiro estilo. Aí eu volto para peito e depois desisto. Acho que todo mundo quer é alguém que não te cause vergonha. Se você se sente à vontade para levá-la a todos os lugares, pois sabe que vai sempre se orgulhar, fudeu, o amor está no ar.

(é, eu também gosto de terminar rimando às vezes.)

Conto erótico

abr 03

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Podia começar com “Era uma vez”, mas foram duas vezes, foram três, quatro, cinco… Foram mais vezes do que dedos para contar. E eu dizia assim: “Eu não minto quando escrevo”, e os amigos que me jogavam fogo para o cigarro sempre me perguntavam: “Cadê o seu?”
Estávamos todos no bar. Gosto desses dias com os amigos. Faz parecer que na semana seguinte não haverá segunda-feira.
E mesmo nos momentos em que o tédio roubava a cadeira ao lado, eu fazia dele a melhor companhia, para depois brincar de ser meu namorado.
A galera tinha levado gente nova, e eu torcia o nariz para tanto desconforto.
Faziam média, se olhavam se ajeitavam nas cadeiras de plástico, e os que mais me irritavam, se auto-intitulavam caretas.
Caretas de quê? A diferença entre o si e entre o não é só de um momento.
Um casal sentava-se ao meu lado. Ele, estudante fudido, sem um pingo de criatividade. Ela, vestido florido que nas horas vagas escrevia contos eróticos na internet para meia dúzia de punheteiros online.
Estava sim julgando, porque todo mundo julga o tempo inteiro, e é por isso que se tem amigos, ou inimigos. Sem julgamento não se vai nem pro inferno.
Ela pareceu interessada quando soube que eu escrevia. Puxou a cadeira mais perto e começou a falar – seus contos, suas idéias, suas vontades – dela.
Tinha me pego num péssimo dia. Não estava com disposição de fingir interesse pelo desinteressante.
Deixei-a falando. Porque é isso o que satisfaz. Não é preciso ouvir, apenas fazer presença para alguém falar, falar, falar por horas. De si, e tudo ligado a si mesmo.
Em algum momento ela me perguntou algo, e esperava uma resposta:
- Nunca escreveu conto erótico?
- Eu?
- É. Você.
- Eu não.
- Porque não?
Puxei seu cabelo com a força necessária para ouvir o estalar do pescoço. A mesa se calou e todos permaneceram imóveis, tentando entender o que acontecia:
- Gosta disso, Piranha?
O rapaz pouco criativo levantou num pulo e afastou-me, dando o que eu chamei de “minha deixa” para a conclusão da noite e da estória:
- Porque sacanagem não se escreve não se conta. Sacanagem se faz. Debaixo do vestido e sem flores.


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