Vem, vovó Dalila!
Todas as pessoas com mais de 16 anos no mundo, tirando Susan Boyle e a minha avó, já perderam o BV. Sim, a nova rainha da internet, embora com 47 anos, ainda se mantém intocada, tal qual um anjo barroco. Minha vó, mesmo com quatro filhas no currículo, viveu como Julia Roberts: fez de tudo, só não beijou na boca. Haja lençol com buraquinho.
Todos têm as suas lembranças desse momento (a perda do BV) guardadas em algum compartimento especial no coração. É um misto de constrangimento, nervosismo e amorzinho pré-adolescente (que é uma dor sem fim, convenhamos) resultando numa beijoca pueril, que faz jorrar nos vulcões imaginários de dentro da gente. Oh!
Graças a um sistema engenhoso do meu cérebro, que me faz esquecer cenas degradantes ou vergonhosas, eu lembro mais do meu primeiro beijo do que da minha primeira vez (cara, eu não paro de pensar em cisnes e gramados – não sei por quê. Não tem absolutamente NADA a ver com qualquer uma das duas inaugurações da minha vida). Foi no lugar mais clichê do mundo – o pátio da escola. A menina tinha um nome clichê também – Juliana. Eu tinha 11 anos… Ela 27… Foi lindo… Mentira, ela tinha 10, eu acho. Que safadinha precoce, meu Deus! Mas foi lindo mesmo…
No entanto, a literatura engarrafada nos anais dos Staites (minha amarga família) trouxe à tona uma nova revelação. Tive que futucar fundo a historiografia da minha família para descobrir a real data em que eu perdi o BV. Foi algo meio Código Da Vinci, entende? Depois de lembrar, um sentimento de amor brotou em mim.
Perdendo o BV
Sabe aquela história de fulano, que viveu uma vida de aventuras, cheia de riscos, mas no final morreu engasgado com um caroço de azeitona? Pois bem, se eu fosse o fulano, já teria morrido engasgado. Eu sou o maior cliente de São Brás (que na panela tem mais) que já pisou sobre a Terra. Eu me engasgo com absolutamente qualquer coisa. Mês passado, engoli errado um golão de guaraná… Tossi cuspindo tudo, fiquei sem ar por quase meia hora. Acho que eu tenho glote frouxa… Nossa, glote frouxa é uma bela expressão! Glote frouxa, glote frouxa, glote…
E eu acho o máximo os tapinhas e o “levanta os braço!” que vovó (a BV) fala quando estou quase morrendo de tanto tossir. Eles simplesmente não passam de um apoio moral, uma superstição, não sei bem. Alguma coisa que só vai servir mesmo para deixar sua morte mais ridícula, caso você morra engasgado.
Minha glote começou a afrouxar aos nove meses de idade. Eu peguei um carretel de linha e comecei a morder. Meu avô tranquilizou a minha mãe:
- Filha, o carretel só vai quebrar se ele for o Hulk!
De fato, alguns minutos depois, comecei a ficar verde. Isso porque um pedaço do carretel ficou preso na minha garganta, e eu fiquei sem respirar. Minha mãe, heroína toda vida, meteu a unha na minha garganta (juro! Eu lembro!) e puxou o caco de plástico que violentava a minha goela fofinha. Ufa! Pedro 1 x 0 Morte.
Passaram-se 11 meses. Estava eu no sofá, resfriado, tomando meu doce Naldecon. Para quem não sabe, o Naldecon é o xarope mais gostoso que existe. Deveria ter, sei lá, suco do Nequi Bonaldes sabor Naldecon. Kapo sabor Naldecon. Shampoo com cheirinho de Naldecon (isso existe, o remédio e o shampoo são de cereja). Mas, no intuito de saborear o xarope, fiquei com ele na boca por uns 5 minutos. Com a doçura do remédio, comecei a salivar loucamente. E vocês sabem quem é o melhor amigo da saliva, né? O engasgo.
Engoli e deu merda… Entrou no túnel errado, só pode. Meus alvéolos pulmonares estavam prestes a serem encharcados de xarope de cereja – isso não pode ser bom. Me engasguei de tal forma, que nem conseguia tossir. Minha mãe entrou em desespero e ficou sem saber o que fazer, uma vez que eu ia mudando de cor a cada minuto.
Foi quando vovó Dalila, minha avó de consideração (A Bv? Nãããão, Vovó Dalila NÃO era BV), entrou pela porta. Ela viu minha mãe em frangalhos e o neném roxo com olhinhos virados… Será que a criança ia morrer???
Vovó Dalila veio em minha direção: a luz diminuindo, o Marvin Gaye tocando na vitrola… E recebi uma respiração boca-a-boca que me tirou todo o xarope das minhas vias respiratórias (que sucção essa velha tinha…). Pedro 2 x 0 Morte. Minha cor (ou a falta dela) voltou ao normal. Depois disso, fumei um cigarrinho com ela no sofá, só para curtir o momento. Meu primeiro beijo foi com alguém que tinha 60 vezes a minha idade. Alguém já passou por isso!? Só os namorados da Suzana Vieira ou do Oscar Niemeyer.
O problema é que depois daquele dia, ela nunca mais voltou. Se você conhece alguma Dalila, boa de boca, e com uns 85 anos, fala que eu mandei um beijo… E que eu estou esperando por ela com uma garrafinha de Naldecon na mão.
Pedro
