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Archive for abril, 2009

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abr 30

Vem, vovó Dalila!

Todas as pessoas com mais de 16 anos no mundo, tirando Susan Boyle e a minha avó, já perderam o BV. Sim, a nova rainha da internet, embora com 47 anos, ainda se mantém intocada, tal qual um anjo barroco. Minha vó, mesmo com quatro filhas no currículo, viveu como Julia Roberts: fez de tudo, só não beijou na boca. Haja lençol com buraquinho.

Todos têm as suas lembranças desse momento (a perda do BV) guardadas em algum compartimento especial no coração. É um misto de constrangimento, nervosismo e amorzinho pré-adolescente (que é uma dor sem fim, convenhamos) resultando numa beijoca pueril, que faz jorrar nos vulcões imaginários de dentro da gente. Oh!

Graças a um sistema engenhoso do meu cérebro, que me faz esquecer cenas degradantes ou vergonhosas, eu lembro mais do meu primeiro beijo do que da minha primeira vez (cara, eu não paro de pensar em cisnes e gramados – não sei por quê. Não tem absolutamente NADA a ver com qualquer uma das duas inaugurações da minha vida). Foi no lugar mais clichê do mundo – o pátio da escola. A menina tinha um nome clichê também – Juliana. Eu tinha 11 anos… Ela 27… Foi lindo… Mentira, ela tinha 10, eu acho. Que safadinha precoce, meu Deus! Mas foi lindo mesmo…

No entanto, a literatura engarrafada nos anais dos Staites (minha amarga família) trouxe à tona uma nova revelação. Tive que futucar fundo a historiografia da minha família para descobrir a real data em que eu perdi o BV. Foi algo meio Código Da Vinci, entende? Depois de lembrar, um sentimento de amor brotou em mim.

Perdendo o BV

Sabe aquela história de fulano, que viveu uma vida de aventuras, cheia de riscos, mas no final morreu engasgado com um caroço de azeitona? Pois bem, se eu fosse o fulano, já teria morrido engasgado. Eu sou o maior cliente de São Brás (que na panela tem mais) que já pisou sobre a Terra. Eu me engasgo com absolutamente qualquer coisa. Mês passado, engoli errado um golão de guaraná… Tossi cuspindo tudo, fiquei sem ar por quase meia hora. Acho que eu tenho glote frouxa… Nossa, glote frouxa é uma bela expressão! Glote frouxa, glote frouxa, glote…

E eu acho o máximo os tapinhas e o “levanta os braço!” que vovó (a BV) fala quando estou quase morrendo de tanto tossir. Eles simplesmente não passam de um apoio moral, uma superstição, não sei bem. Alguma coisa que só vai servir mesmo para deixar sua morte mais ridícula, caso você morra engasgado.

Minha glote começou a afrouxar aos nove meses de idade. Eu peguei um carretel de linha e comecei a morder. Meu avô tranquilizou a minha mãe:

- Filha, o carretel só vai quebrar se ele for o Hulk!

De fato, alguns minutos depois, comecei a ficar verde. Isso porque um pedaço do carretel ficou preso na minha garganta, e eu fiquei sem respirar. Minha mãe, heroína toda vida, meteu a unha na minha garganta (juro! Eu lembro!) e puxou o caco de plástico que violentava a minha goela fofinha. Ufa! Pedro 1 x 0 Morte.

Passaram-se 11 meses. Estava eu no sofá, resfriado, tomando meu doce Naldecon. Para quem não sabe, o Naldecon é o xarope mais gostoso que existe. Deveria ter, sei lá, suco do Nequi Bonaldes sabor Naldecon. Kapo sabor Naldecon. Shampoo com cheirinho de Naldecon (isso existe, o remédio e o shampoo são de cereja). Mas, no intuito de saborear o xarope, fiquei com ele na boca por uns 5 minutos. Com a doçura do remédio, comecei a salivar loucamente. E vocês sabem quem é o melhor amigo da saliva, né? O engasgo.

Engoli e deu merda… Entrou no túnel errado, só pode. Meus alvéolos pulmonares estavam prestes a serem encharcados de xarope de cereja – isso não pode ser bom. Me engasguei de tal forma, que nem conseguia tossir. Minha mãe entrou em desespero e ficou sem saber o que fazer, uma vez que eu ia mudando de cor a cada minuto.

Foi quando vovó Dalila, minha avó de consideração (A Bv? Nãããão, Vovó Dalila NÃO era BV), entrou pela porta. Ela viu minha mãe em frangalhos e o neném roxo com olhinhos virados… Será que a criança ia morrer???

Vovó Dalila veio em minha direção: a luz diminuindo, o Marvin Gaye tocando na vitrola… E recebi uma respiração boca-a-boca que me tirou todo o xarope das minhas vias respiratórias (que sucção essa velha tinha…). Pedro 2 x 0 Morte. Minha cor (ou a falta dela) voltou ao normal. Depois disso, fumei um cigarrinho com ela no sofá, só para curtir o momento. Meu primeiro beijo foi com alguém que tinha 60 vezes a minha idade. Alguém já passou por isso!? Só os namorados da Suzana Vieira ou do Oscar Niemeyer.

O problema é que depois daquele dia, ela nunca mais voltou. Se você conhece alguma Dalila, boa de boca, e com uns 85 anos, fala que eu mandei um beijo… E que eu estou esperando por ela com uma garrafinha de Naldecon na mão.

Pedro

abr 28

Precisamos conversar

- Amor, a gente precisa conversar.

- É alguma coisa séria?

- Mais ou menos.

- Como assim, mais ou menos?

- Ah, Leila, pode ser séria dependendo do ponto de vista. Ou não, vai saber…

- Mas só estamos eu e você aqui. Que ponto de vista mais você precisa? É do meu, e do seu. Aliás, só do meu, porque se você vai falar comigo, é só do meu que interessa.

- Mas eu não sei do seu ponto de vista, então falo “mais ou menos” porque se falar que é séria e não for, vou ter te assustado a toa. E se falar que não é, e for, você pode achar descaso da minha parte.

- Marcelo, a gente namora há três anos. Você já me conhece bem o suficiente para saber do meu ponto de vista.

- Mas às vezes parece que eu nem te conheço. Quando acho que sua reação será uma, você me surpreende com outra totalmente inesperada.

- E você ta reclamando? Saiba que homens se matariam para estar comigo, mesmo sendo esse poço de imprevisibilidade que você diz que eu sou.

- Imprevisibilidade? Essa palavra nem se quer existe, Leila.

- Mas é lógico que existe. Não é só porque você não conhece que ela não existe.

- Eu estudei num dos melhores colégios daqui. Sei muito bem o que existe e o que não existe.

- Que nem daquela vez que você achou que “putativo” fosse um palavrão?

- Mas olha essa palavra. Não tem como não achar.

- É por isso que você é assim, Marcelo. Só porque estudou em colégio particular cheio de filhinho-de-papai, acha que sabe de tudo. Já pensou em fazer terapia? Tenho certeza que iria descobrir que a culpa é da sua mãe.

- Minha mãe não tem nada a ver com isso.

- Mas a culpa é sempre da mãe.

- Você não gosta da minha mãe?

- Eu não disse isso.

- Então porque acha que a culpa é dela?

- Se não é dela, é do seu pai.

- Meu pai morreu quando eu tinha dois anos de idade.

- Opa, Marcelo. Está aí então. Achamos o problema: É a morte do seu pai.

- Desde quando você é psicóloga, Leila?

- Só estou querendo te ajudar, seu ingrato.

- Mas eu não preciso da sua ajuda.

- Ah, não? Quer dizer então que você não precisa de mim na sua vida? Ta fazendo o que comigo então? Fica na minha vida quem quer. Sabia disso, Marcelo? Fica quem quer, e se você não quiser, pode ir embora.

- Leila, eu…

- Ai, Marcelo, você vai acabar comigo, né? Desculpa, desculpa. Eu não queria ter dito aquilo. Não me abandona não.

- Mas eu não disse nada.

- E nem precisa. Você veio com essa cara de cachorro que caiu da mudança. Eu te conheço. Eu te conheço!

- Conhece tão bem, que errou.

- Eu nunca erro, Marcelo. Sou pisciana, ascendente Leão, filha de Ogum. Você sabe o poder que isso tem?

- Ta bom, Mãe Dinah, vamos deixar isso pra depois, a conversa em si não é essa.

- Olha você me cortando. Bem que a minha mãe dizia preu não ficar com você. Porque eu não a ouvi, hein?

- Como eu estava dizendo, Leila, eu…

- Não. Você não vai falar isso. Li num livro de auto-ajuda ano passado, que nunca se deve deixar que o outro termine com você. É muito humilhante. Tenho que acabar antes então.

- Ham?

- Marcelo, está tudo acabado.

- Leila, você tem algum problema.

- Olha você já querendo me humilhar! Esse é o estágio pós-termino. O livro falava sobre ele.

- Esquece essa merda de livro. A gente pode conversar como dois adultos?

- E esse é o da raiva. Sabia que aquele livro me serviria em algum momento. Só aviso, Marcelo, no estágio do arrependimento, eu não vou voltar não, hein? Você só me fez sofrer.

- Leila, você está acabando mesmo? Tem certeza?

- Ta com raiva por eu ter estragado seus planos de acabar comigo primeiro e sair por cima, né?  Mas me diga, Marcelo, quais palavras exatas você ia usar?

- Apenas seis palavras: “Estou pensando em comprar um cachorro.”

- Eu sempre quis ter um labrador.

Corra Mary

abr 25

Morte aos pandas

pandacaiu

Eu odeio os pandas

Eles não querem viver. Os pandas definitivamente não tem a menor vontade de viver, e o homem, teimoso que é, não percebe isso.

Um chinesinho teimoso e de dentes podres descobre que há uma panda fêmea de um lado da China e um panda macho de outro, e resolve que é uma boa idéia gastar milhões para juntar os pombinhos numa noite voraz de sexo-panda. Os leva para um ponto em comum, onde montaram um verdadeiro hotel 5 estrelas para aqueles ridículos animais.
Os pandas chegam, se conhecem, obviamente não se gostam e então entram em “depressão”.
Depressão! O quão ridículo isso é? Um panda com depressão? Faça-me o favor, né?
E aí começa o verdadeiro teatrinho.
Os pandas não se “adaptam” e param de comer. Afinal, estavam acostumados com o bambu cada um, do seu lado na China.
Aí então depois de muito sacrifício, ainda não podem cruzar, porque ainda não é Março, e até na hora do sexo, o panda demonstra ser o animal mais merecedor de toda repugnância humana.
E quando Março chega, tem que correr, pois a panda fêmea só aceita se acasalar, isso se aceitar, por no máximo 5 dias.
E então depois de gastarem rios de dinheiro que alimentariam toda a população da China, depois de 500 veterinários engajados em causas tão estúpidas quanto essa se unirem, depois do Discovery Channel nos entupir com “a semana dos pandas” e depois dos pandas acharem que era hora de pararem de sacanear os humanos, a fêmea finalmente engravida.
Todos festejam, é feriado na China, os veterinários choram, o Discovery Channel passa o especial pornô-panda-do-cativeiro, e por final, quando a fêmea tem sua única e rosada cria, ela vai lá, e o come.

Agora me responde: Esse bicho tem algum prazer em viver?

Corra Mary

abr 24

Aliste-se no Exército!

- Você, que vai completar 18 anos neste ano, procure a junta militar mais próxima e se aliste no Exército brasileiro.

- Você não perde por esperar por uma vida cheia de emoções e aventuras.

- Você vai ver a vida de um outro ângulo!

(Hora da descida alucinante de rapel. Os três viram de cabeça para baixo e ligam o foda-se – descem exageradamente rápido e sem freio. O Chroma Key é a dádiva dos comerciais de baixo orçamento.

Alguém já viu esse anúncio escroto?

São três rapazes representativos (um branco, um negro e um índio) super-simpáticos e quase fofos. O que era para ser um comercial sobre o alistamento militar, mais parece uma cena de filme pornô gay. É um comercial tão feio que chega a dar raiva. Só que o que mais irrita é ver que o mundo no alistamento militar não é cheio de aventuras e emoções. É simplesmente uma experiência infeliz – a menos que o sujeito queira servir, é claro.

Nos idos de 2004, fui me alistar naquela porra. Cheguei à 5ª circunscrição de não sei o quê, às 5h15 da manhã. Nesse dia, para começar uma delícia, o aquecedor estava escangalhado e eu tomei banho frio. Nada como sair da cama no outono e ir direto para um banho gelado na madrugada. Na rua não havia ninguém, até os assaltantes estavam dormindo nessa hora. Os únicos acordados eram os retardados na fila.

Eu fui o segundo a chegar. Tinha um cara mais velho na minha frente, o que me fez pensar em coisas desconexas (para quem acorda às 4, o estranho é pensar com nexo, mas enfim). Duas horas depois, quando a fila estava imensa, um riquinho chegou e trocou de lugar com o velho na fila! Ou seja, ele pagou para o cara guardar o lugar dele. Ter dinheiro deve ser uma delícia, mas só de pensar que eu poderia me tornar algo parecido, fico mais confortável na classe média. É mais meritocrático. Mas o riquinho em questão era meu amigo, então ficou tudo bem. No final, ele até trocou de lugar comigo, só porque eu, dentre as pessoas honestas, fui o primeiro a chegar realmente.

Eu, que nessa hora já reclamava da vida, mal sabia que aquilo era sorvete de limão perto da chatice psicológica que é o alistamento propriamente dito.

Dias depois, fui para Triagem. No mundo dos homens, sempre há dias específicos que ficam ou vão ficar como marcos. Um deles é o dia de ficar peladinho no Exército. Uma coisa bem desagradável, mas que passei sem ser zoado (até porque, zoar anatomia dos outros é vacilo).

Para você se livrar do exército, basta ter algum daqueles problemas que não chegam a ser assustadores: miopia e similares (de dois graus para cima, de preferência), pé chato, escoliose, hérnia, fratura bizarra, essas coisas. Nessa época comecei a reparar que, embora branquelo e fraco, era uma pessoa sem esses defeitos chatinhos, porém mãos-na-roda. Ou seja, não consegui ser eliminado de primeira. Tive que continuar indo diversas vezes até que eles constatassem detalhadamente que eu era indigno de entrar nas Forças Armadas.

Para piorar a situação, eu fui distribuído para Deodoro. Se antes eu tinha que ir ao cu do mundo, agora estava indo ao cólon – sempre há um jeito de ir mais profundo. Foram 10 lancinantes dias no 30º tal Batalhão de sei lá das quantas. Só sei que às vezes alguns paraquedistas voavam no céu – era um divertimento coletivo torcer para que eles morressem, mas nada grave acontecia.

Depois de ficar peladinho novamente; assistir a 318 vídeos do Exército (uma coisa meio TV Educativa feita por pessoas que não têm o mínimo de educação); ir miseravelmente mal em exercícios como barra, corrida e flexão (tinha gente que fingia ir mal para não servir. Eu nem precisava interpretar); torrar no Sol, finalmente chegou o último dia.

O último dia é o momento em que somos recebidos pelos Sargentos (a patente mais detestável do Exército – Um bando de Zés Bucetas que suaram para chegar a essa merda de posto, e que nunca mais vão ser graduados. Não fedem nem cheiram, coitados). Eles sabem que a grande maioria dos alistados vai embora, então eles meio que infernizam a gente só pelo bel prazer de deixar alguma marca em nossos corações.

Tinha um gordinho que, tadinho, era o mais zoado. O outro era um rapaz de trancinhas. O terceiro era um branquelo da Zona Sul, com cabelo esquisito. Sim, era eu. Eu era o único da zona sul, logo, era tido como o milionário, filhinho de papai, vovô e mamãe. O sargento Zé Buceta-mór chamou os “três patetas“ para uma conversa na frente do pelotão dos recrutas. Aí um deles me olhou e começou a defecar pela boca:

- Ih, olha o soldadinho de Hitler!

Aí eu, mesmo querendo fazer um holocausto com eles, protestei.

- Que isso, gente, Hitler não…

- Opa! Ele sabe de história! Fala aí de Hitler pra gente, Jardim Botânico (esse era meu apelido).

- Hitler era um cara muito babaca e preconceituoso… Tipo vocês.

- Qual é meu irmão!? Perdeu a noção do perigo!?! Tá maluco?

Aí vem um e solta uma pérola da intelectualidade:

- A gente não é preconceituoso, você que é diferente.

Nessa hora você respira… Porque é só isso mesmo que dá para fazer.

Quando pensei que ia apanhar, eles mandaram a gente sentar. O gordinho zoado falou “pô, bem feito pra eles!”, e começou a contar para todo mundo sobre meu ato heroico. Virei o rei dos zoados, dos que perdiam o lanche na escola e dos bundões em geral.

Cinco anos depois, ainda sinto um ódio intenso dentro de mim. Um bando de embotados com fuzis na mão, que maravilha. Ainda bem que o Brasil não entra em guerras, senão estaríamos fudidos e mal pagos. Pior é que, se o Brasil entrar em guerra, eu ainda vou ter que torcer por eles…

Pedro

abr 18

A curiosa vez em que Deus se vingou de mim

Personagens principais (com nomes falsos, para rolar uma preservação. Sim, são os mesmos nomes falsos de sempre)

- Tita, a malandrinha.

- Lila, a que me conhecia sem eu saber.

- Pedro Staite da Hora, um nome falso também.

Cheguei à porta de uma daquelas boatezinhas cools, para beber cerveja com as pessoas cools que preferiam ficar do lado de fora. Enquanto bebíamos no sereno e à luz dos postes, conversávamos baboseiras quaisquer, simplesmente porque o clima pedia. Daí, eu resolvi falar coisas profanas com uma amiga:

- É… Só tem gente pecadora aqui… Tá faltando oh (apontado para cima), Deus nas vidas deles…

- Glória a Deus! É verdade, vamos dar as mãos.

- Vamos! Ai, tô até arrepiado, cara!

Bem, depois de rirmos bastante, Deus começou a se vingar de mim, como haveria de ser. Mas para uma vingança maneira, tem que ser como um caixote na praia: você tem que estar na crista da onda, desabar, se afogar e encher a sunguinha de areia. O bom é assim, quando você acha que está tudo maravilhosamente bem e, em um minuto, tudo que era bom demais para ser verdade vira uma grande e impiedosa mentira.

Estava bebendo a minha cerveja, já alto e cheio de felicidade, quando me aparece Tita, uma velha amiga dos idos de 2003, um ano louco, em que as pessoas faziam amor livre e usavam drogas em Woodstock. Ela não estava sóbria também, vale registrar. Aí, a gente se abraçou, conversou intimamente e eu comecei a pensar em maldade. Em dado momento, ela disse, fazendo uma referência a um beijinho pueril que nós demos no ano fatídico de 2003:

- Agora que eu tô lembrando, você conhece o meu quarto…

- É… 2003, né? Grande época…

Depois dessa conversa filosófica, reparei que Tita exalava maldade também. E continuamos a conversar:

- Hoje eu estou usando uma calcinha de oncinha.

- Cara, estou vivendo uma coincidência incrível hoje! Quando fui fazer xixi, reparei que a minha cueca é exatamente da mesma cor que a minha camisa. Eu poderia tirar a calça e me apresentar para o pessoal na rua (sentiram minha sedução, né?).

- Ai, posso ver?

Bem, aí eu a deixei ver o ladinho da cueca, mas também não deixei barato, afinal, eu sou malandrão. Pedi para ver a dela também. Nesse momento, me senti naquele outro ano louco, o de 1991, no Jardim III, comendo areia e vendo as calcinhas das meninas. Maior barato.

Nesse instante, meus amigos já começavam a preconizar a noite de amor que eu teria com ela. Falavam “vai comer a Tita, lá lá lá!”. Eu só não sabia muito o que fazer, estava me sentindo meio cheio, passando meio mal, mas todos me davam a maior força. Outro medo que eu tinha é que eu nem lembrava mais como se fazia amor.

- Ah Pedro, é que nem andar de bicicleta, aprendeu, você jamais esquece.

Eu odeio essa comparação, porque, assim como fazer sexo, eu não sei andar de bicicleta direito. De qualquer forma, algo do outro lado da rua me despertou a atenção, era um amigo me chamando para falar troças.

Deixei momentaneamente a menina de lado para conversar com o meu amigo. Falamos piadas bobinhas, que só mesmo o álcool poderia tornar palatáveis. Mas mesmo assim, reparei que no grupinho desse meu amigo, tinha uma menina que ria das coisas que eu falava. Era bem curioso, pois nem eu conseguia ouvir o que estava falando, que dirá a menina há sete metros de mim. Pensei que ela pudesse ser aluna do Professor Xavier, mas meu pensamento foi interrompido por ela mesma:

- Oi, você é o Pedro?

Nesse instante agradeci a Deus (mal sabia eu que Ele estava querendo a minha caveira) por me chamar Pedro, pois era a primeira vez que uma desconhecida bonita vinha falar comigo.

- Sou!

- Pior do que uma pessoa que fala o que pensa é uma pessoa que escreve o que pensa!

- Que lindo, você conhece o meu blog! (dei um abraço emocionado nela). Qual seu nome?

- Lila.

Às 3h35min da manhã, começava um novo capítulo na minha noite de calcinhas de oncinha. Entrei numa conversa interminável e engraçada com ela, não sabia se era a cerveja ou o papo, mas estava me divertindo horrores. Em dado momento, Tita aparece no horizonte pegando um taxi e eu nem consegui me importar como deveria.

Falamos sobre as coisas mais bonitas da vida. Eu, indo contra uma corrente que geralmente enxurra a minha vida, estava extremamente confiante. Acho que é porque ela era fã do blog, então uma parte ínfima de mim estava acima do bem e do mal, se achando a última coca-cola do deserto. Na hora de ir embora, às 5 da manhã, eu, na essência micareteira que me invade semestralmente, tentei tascar um beijo nela. O resultado foi um assombro. Ela não só não quis ficar comigo, como saiu correndo para a esquina! Quem corre nessas condições, meu Deus!? Foi uma coisa tão surreal que eu fiquei atônito, com a auto-estima – que estava nas alturas em outrora – em frangalhos.

Para não me matar, voltei andando, às 5 horas da manhã, com o compromisso de transformar essa situação em algo engraçado. No dia seguinte, contei essa história para umas 20 pessoas, todos gargalharam, e eu fiquei mais aliviado. Pediram até para escrever sobre isso, mas a Lila gosta do blog e deve ler o texto. Mas também, não tem como ter muita consideração por alguém que CORRE de você, não é verdade?

Fui para a casa duas idéias fixas. A primeira é parar de zoar Deus, já reparei que as coisas voltam. A segunda é, se alguém me mostrar a calcinha, numa próxima vez, eu não vou atravessar mais a rua para falar com ninguém…

Pedro

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