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Archive for março, 2009

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mar 18

A escolha do morango

strawberry

- Morango, por favor.
Mais uma vez meus olhos se reviraram, sem que eu pudesse dizer nada. Desde que comecei a sair com A., em algum momento ele me transformou na maior adoradora de morango que poderia existir.
Não do morango fruta, mas daquele morango artificial das balas, biscoitos e picolés que sempre comprávamos. Definitivamente não era a minha preferência, na verdade estava longe de ser, mas no nosso primeiro encontro, no final de Setembro, A. se virou em minha direção e perguntou:

- Chocolate ou morango?
E eu, observando uma velha do outro lado da rua, que passeava com mais cachorros do que sua mão podia conduzir, sem dar muita atenção, respondi:
- Morango.

Sem saber que ali, marcava tudo o que eu seria para ele, que no mundo fora dos morangos de A., nem se quer fazia sentido.
Eu odiava chocolate, e essa era a única verdade, que A. nem por um minuto considerou uma hipótese aceitável, e diante do que me fora apresentado, escolhi o que me parecia, talvez, o mais aceitável.

Aquele sabor de morango não me lembrava em nada com a fruta que nas férias na casa da minha tia, a empregada sempre trazia da feira. Era um sabor enjoativo que provavelmente fora nomeado dessa forma, quando alguém bem esperto percebeu que se desse um nome nunca antes escutado, não seria comercialmente atrativo.
E agora, graças a um filho da puta que enriqueceu com uma genialidade mentirosa, A. passeava por entre as pessoas com um enorme picolé de chocolate em uma mão, e na outra a minha própria mão, exibindo para quem quisesse ver, o seu precioso troféu:
Sua mais nova namoradinha, assim como muitas outras ainda viriam a ser, mas com um diferencial que mudava tudo.

Entre uma escolha em que visivelmente, escolhi o menos provável, o que minha mão melecada segurava, era prova irrefutável, que em algum momento, em algum sorveteiro de esquina, aquelas opções me foram apresentadas, e eu, por livre e espontânea pressão, fiz minha maldição, ou como ele gostaria de chamar: minha escolha.
E ele poderia andar por aí, com a consciência leve. Sabia que se algum dia eu reclamasse, era fácil de jogar na minha cara que fora uma opção minha.

Lá estava eu, com uma detestável escolha escorrendo pelas mãos, com um sabor que não me agradava, percebendo que na verdade antes disso ter chegado ao nível do insuportável, existia uma terceira opção. A de renegar tudo o que me fora apresentado e optar pelo nada. E estava certa de que o nada me seria melhor. O que ainda me fazia pensar, era em qual mão eu segurava a minha escolha tão errada.

Corra Mary

mar 16

Desenhos que desafiam muito a biologia

Desenho é legal demais, deveria ser considerado uma arte nobre, como o cinema ou a pintura. O mais divertido é que TODOS eles desafiam a biologia, afinal de contas, animais que falam e pessoas que voam são a graça e o absurdo de 99,9% deles. Tanto que “As Trigêmeas” talvez seja o único que esteja nos conformes com as questões biológicas primordiais. E é o mais chato que existe. Tudo bem que elas são assoladas pela Bruxa Onilda, mas aí já entram cunhos históricos, pois bruxas malvadas são coisa da idade média.

Portanto, os Ursinhos Carinhosos soltarem raios do bem pela barriga (dão de mil a zero nos Teletubos, por exemplo); o Popeye ficar escrotamente forte por comer espinafre (comi hoje e continuo na merda física); as Meninas Superpoderosas destruírem a cidade antes de despachar o vilão; e o Goku destruir metade da Terra antes de matar o as forças do mal são totalmente aceitáveis, não é verdade?

Mas o desenhos que mais desafiam a biologia – e não são piores por causa disso, pelo contrário -  são aqueles que estabelecem intimidades esquisitas entre espécies animais diferentes.

O exemplo mais batido do século (passado) é o Mickey Mouse, um rato “fofilders” que tem um cachorro de estimação, o Pluto. Até aí tudo bem, mas o Mickey também tem um cachorro como melhor amigo – O Pateta. Logo, posso inferir que  Waldisney (não o motoboy, o desenhista) acreditava que o cachorro é o melhor amigo do… rato. Cachorro ser melhor amigo do homem é coisa de gente carente. Eu concordo, afinal, minha cachorra decrépita é a minha pior inimiga.

Por falar em rato, outro programa que eleva a espécie ao status de líder são as Tartarugas Ninja. Elas, como vocês lembram bem, são discípulas do Mestre Splinter, um rato não tão “fofilders” quanto o Mickey. Aliás, o mestre Splinter é decrépito como a minha cachorra, mas pelo menos ele usa quimono e luta caratê à vera. Um mestre roedor, quatro tartarugas discípulas e uma jornalista (April O’Neal) amiga de todos eles é uma afronta à biologia. Jornalistas só merecem isso mesmo de amizade.

Para terminar, outro desenho que mexe com essas coisas é Thundercats. Eu fico imaginando o produtor falando sobre a sua ideia com os investidores do canal:

- Vai ser um desenho de pura ação, juntaremos vários felinos vigorosos, um leão, que é o líder… É, ué, vai querer cometer o mesmo erro dos Ursinhos Carinhosos? O leão tem que ser o principal! Aí ele tem uma espada que cresce quando ele grita “THUNDER!”, “THUNDER!” “THUNDER CAT, UÔÔÔ”. Não, claro, se ele falar um “THUNDER” só na rotina do lar, não acontece nada. Vai ter um momento propício, entende? Tipo quando o He-man sobe no castelo para gritar. Ele vai ter amigos felinos, o Tigre… Bem, ele pode se chamar Tigre mesmo. Tem a Chita e um outro felino cinza que eu pesquisei na enciclopédia. Não é uma bela ideia?

- Felinos super heróis… Quem vai ser o vilão? A Zebra macabra? O Antílope maligno? Tem que seguir a cadeia alimentar, né?

- Putz… A gente bota uma múmia vilã para humanizar o desenho, que tal?

- Vai fazer muito sucesso no Egito…

Pedro

mar 14

Dona Maria Luiza

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Dona Maria Luiza, mais conhecida por mim como vó, uma simpática senhora na casa dos 80 (não se sabe muito bem ao certo sua idade, a mesma nunca divulga os números exatos), fala três línguas, o que devido ao Alzheimer, a fez começar a falar as três ao mesmo tempo, e num súbito de consciência entre o Francês, o Alzheimer e os óculos que misteriosamente se perdem em sua própria cabeça, achou que era de suma importância se adequar aos tempos modernos.
Fora exatamente essa a expressão usada “Preciso me adequar aos tempos modernos”, o que também poderia ser traduzido em “Minha neta terá a árdua tarefa de me ensinar sobre coisas que eu nem faço idéia de que existam”.

Pois bem, depois de tanto pensar em como começaria, decidi que o celular era a melhor opção. Afinal, não havia mistério, minha vó estava acostumada a usar o telefone. Celular, ela tiraria de letra.
E era aí que eu estava enganada.

- Vó, isso aqui é um celular.
- Isso eu sei. Não sou tão velha assim também.
- Ok. E você sabe ligar?
- Ligar? Mas já não está ligado?
- Não, vó. Tem que pressionar esse botãozinho daqui. Assim ó.
Maria Luiza se maravilha com a modernidade a sua frente: luzes, som, cores vibrantes. E eu poderia até jurar que sua cabeça acompanhou a musiquinha de abertura.

- E agora é só discar?
- Isso. Agora você disca o número e aperta o verdinho.
- Ah, se é só isso, é fácil.
- Ótimo. Tenta você sozinha agora. Liga aqui pra sua casa.
- Mas porque eu vou ligar pra cá? Se eu quiser falar com você é só abrir a boca. Que idéia besta.
- É só um teste, vó.
- Ah, ta.

Parecia difícil segurar o aparelho micro com os botões mais micros ainda, mas nessa tarefa até que ela se saiu bem. Botou o aparelho no ouvido e num susto só, reclamou:
- Ah, isso ta com defeito. Não ta dando sinal.
- Vó, celular não dá sinal. Não é que nem telefone.
- Ah, não? Mas aí como que eu vou saber se pode discar?
- Discando, oras.
- Ah, então ta.

- Olha, não ta funcionando não.
- Você apertou o verde?
- Tem que apertar é?

- Marina, continua não funcionando, e eu tenho certeza que apertei. Ta vendo, o problema não é comigo.
- Qual você apertou, vó?
- Esse aqui.
- Esse é o vermelho. Você tem que apertar o verde.
- Ah, mas é que são tão parecidos.
E diálogos como esses perduraram a noite inteira. Era uma luta não declarada entre a simpática velhinha e o satânico aparelho da modernidade. E era inegável a boa vontade de ambos. Tanto do celular, quanto dela, mas parecia ser preciso muito mais que boa vontade para fazer aquela conexão de mundos funcionar o mínimo possível para uma agradável convivência, em que o dono controlava o aparelho, e não o contrário.

Vovó resistiu bravamente, não era difícil perceber que ela realmente queria aquilo. A cada acerto, (que na tentativa de repetição seguinte era abolido de sua mente) seus olhinhos brilhavam na esperança de finalmente estar desvendando a misticidade dos tempos atuais, felicidade tal que durou pouco mais de 20 minutos, quando cansada, largou o pequeno aparelho na cômoda principal e preocupadíssima perguntou:

- As pessoas ainda usam telefone residencial, né?

Corra Mary

mar 12

Membrana Photoshópica

As mulheres gostosas que posam na Playboy são gostosas, não adianta negar. No entanto, mais de uma vez achei na internet um “antes e depois” de musas que passaram pelo reparo no Photoshop com o objetivo de aparecerem intactas nas páginas de todos os punheteiros do Brasil. Como se um punheteiro se importasse com uma celulite, enfim. No “antes” tem a mulher ao natural, com suas imperfeições à mostra. No depois, tem ela perfeita.

Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Quando se está carente, na seca, na febre do rato, ou em todas as alternativas anteriores (eu diria que esses três estados são uma hierarquia, mas há quem não ache), o mundo muda, vai me dizer que não? Eu sei disso, porque eu tenho um amigo na febre do rato (Pedro Staite da Hora, um rapaz ótimo) que anda vendo as coisas de outro jeito. De uma forma mais bonita, eu diria.

Acontece que quando os seus anseios amorosos não são postos para fora (não pense em sêmen, por favor, mas se pensar, não te recrimino), eles sobem para a cabeça. Assim como a caxumba pode descer para o saco, existem coisas que podem subir. Quando isso acontece, nosso globo ocular passa a ter uma fina película esbranquiçada, tal qual uma catarata. Mas, diferentemente da doença, essa película faz enxergar mais. Ela torna as mulheres atraentes mais atraentes do que já são. As bonitas viram lindas; as médias ficam bonitas e as feias passam a dar um gasto danado. As horríveis… Bem, elas sempre continuarão no limbo, desculpa.

Essa película é a Membrana Photoshópica. É um conversor natural e instantâneo que faz a gente ver a realidade menos real do que ela já é.

Existe uma prática horrível que eu chamo de “compartimentalização”, um nome esdrúxulo que nem o Word reconhece (aliás, essa porra de programa nem reconhece “punheteiros”, o texto está todo grafado de vermelho). As pessoas dividem as outras em compartimentos – rosto, peito, abdômen, bunda, pernas. E se a pessoa tem alguma dessas partes interessantes, já se torna um atrativo, ainda que primitivo, a alguém que lhe veja com o mínimo de maldade. Quando se tem a membrana, essa compartimentalização atinge níveis estratosféricos, o que te faz arrastar asinha para indivíduos inarrastáveis.

- Porra, mas ela é estraaaaanha!

- Mas tem um peito…

Ou seja, com a catarata em questão, você deixa de ficar com pessoas para ficar com partes de seus corpos, uma doideira. A pessoa está ficando com uma bunda, ou com um rosto, nunca com outra pessoa inteira, porque você simplesmente ignora a imensidão de coisas esquisitas que ela tenha. Vira uma coisa animalesca, e faz parte daquele “se contentar com pouco” que muita gente tem e não percebe quando está assim.

Mas se você fizer uma cirurgia de catarata, que dura 40 minutos, sua visão volta ao normal. Se você der sorte e encontrar pessoas certas, a membrana photoshópica some também. Dizem que beterraba e formiga fazem bem para o olho. Mas como eu não quero comer coisas que me causarão arrependimento, prefiro contar com a sorte.

Pedro

mar 07

A sincronia das velhas

Esta é uma história fantasiosa que conta o futuro das duas criaturas mais velhas que eu conheço: a minha cachorra e a minha vizinha.

É uma doideira o que os anos fazem com a gente. E não estou me referindo às rugas de expressão, aos peitos caídos e às genitálias idem – coisas que fazem parte dos conjunto de provas cabais de que a vida NÃO é bela. Falo daquelas pessoas e animais com quem você interagiu há anos e que hoje vivem sem a capacidade de fazê-lo.

Vou usar pseudônimos para que ninguém se ofenda.

Dona Tita (eu juro que inventei, foi criativo, né? Quantas donas Titas existem por aí? Todas as de verdade e essa) era uma velhinha simpática que já tinha sido uma senhora austera e executiva. Mesmo com os 80 e blaus, foi por muito tempo a pessoa mais sã daquela casa completamente insana – morava com uns cinco quarentões e cinquentões malucos, esquentados e barulhentos – os sobrinhos.

Bolota era uma cachorra detestável, epilética e também barulhenta. Quando era apenas um filhote, em 1994, mordeu um fio, tomou um choque, e nunca mais foi a mesma. Talvez ela seja doente desde que nasceu, mas como a primeira crise epilética dela veio depois desse acidente, cremos que antes da mordida elétrica, ela era um poodle normal.

De dois anos para cá, as coisas para ambas desandaram de vez. Bolota parou de ter crise -também pudera, que coração se exalta quando mal se anda, mal se enxerga e mal se come? De qualquer forma, sinto que ela já esteja no lucro, afinal, para um cachorro condenado pelas circunstâncias cardíacas, viver mais de 14 anos é um milagre. Aliás, talvez essa casa nunca tenha vivido um milagre justamente por causa disso: Bolota roubou todos para se manter viva.

Dona Tita adoeceu, e nunca mais falou coisa com coisa. De uns tempos para cá, tornou-se a matriz de todas as gritarias da casa, o que soou estranho, pois ela é quem apartava os sobrinhos escandalosos. Mas, quando ficou mal, os sobrinhos acalmaram e passaram a fazer as vezes de enfermeiros. O problema era a hora do banho – ela gritava desesperadamente. Um grito agudo, algo como uma agulha enfiada no ouvido – não consigo pensar coisa mais aguda do que essa. Era tanta gritaria que, volta e meia, qualquer um falava, em qualquer apartamento à volta:

- Caralho, hora do banho da Dona Tita.

Quando havia visitas, o constrangimento batia. Falar que no vizinho tem uma velha que detesta tanto banho que esperneia  o mais alto que pode, é no mínimo esquisito.

O mais curioso é que Bolota e Tita se manifestavam praticamente na mesma hora. Parecia que Bolota, ao chorar por causa dos reumatismos, chamava Dona Tita para o banho. E assim foi por longos 17 meses. Uma velha gritando de cada lado da parede, uma orquestra demoníaca que, apesar de tudo,  não podia nos trazer sentimentos ruins – xingar alguém nesse estado é pedir para Deus lhe negar a porta dos céus. Escrever um texto sobre isso também.

Mas houve um dia em que a orquestra manifestada no apartamento vizinho foi diferente – eram os sobrinhos gritando loucamente, pedindo para Dona Tita voltar. Sem precisar fazer o mínimo esforço para tal, ouvi que a anciã havia morrido enquanto dormia. E, que loucura, antes de chorarem pela morte, xingavam-na por pensarem que estava fingindo dormir para não tomar banho.

Levantei sozinho em casa e pensei o óbvio, já sabia o que tinha acontecido. Depois verifiquei, só por desencargo de consciência e fiz algo que vinha fazendo há meses: acompanhei a respiração da Bolota. Ela quase sempre me surpreendia, dessa vez não. Só me restou pegar o telefone:

- Mãe, volta para a casa, a Bolota morreu…

Pedro

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