Revisão de nota
Eu fiz umas 1227 provas de vestibular na minha vida. Sempre depois desses martírios acadêmicos, vinha a parte do gabarito (que era um inferno), da espera pela nota (que era um inferno), da nota em si (que nunca era a suficiente, logo, era um inferno também) e, por último, da revisão de prova… Eu, assim como 99,8% dos candidatos (o 0,2% é composto pelos que têm autocrítica e pelos nerds, ou seja, a mesma merda), me sentia garfado pelos professores malvados e impacientes.
Sempre ficava imaginando se a minha prova seria a milésima sexta que o professor ia corrigir no dia, ou então que ele desenvolvia jogos estranhos, só para se manter acordado depois de 1006 avaliações. Sei lá, pensava que ele corrigia as ímpares com carinho e as pares com maldade; ou que ele escrotizava a nota quando a caligrafia era de mão dada; ou que ele sorteava uma prova para ser o “zero injusto”.
- Ahhh, já corrigi 80 provas… Tá na hora do zero injusto, HA HA HA HA HA!!!
- Shhh, tem mais professor corrigindo prova nessa sala, sabia?
- Desculpe.
De qualquer forma, eu nunca ganhei sequer um pentelhésimo para aumentar a nota. Nada. Era sempre uma trolhada sem creme, sem jantar antes… Uma dor. Depois de passar metade do tempo de uma faculdade em cursinho pré-vestibular, acabei passando para a faculdade pública sem ganhar acréscimo algum desses putos. Depois de 1227 provas. Antes tarde pra caralho do que nunca.
Só fui descobrir o que é ter uma revisão de nota, no final do 4º período. Mas também todos os milidécimos, microcentilésimos e minipentelhósimos que eu deixei de ganhar na vida se acumularam para essa revisão. Não sabia que havia um departamento no setor de “justiça divina” que cuidasse dessa parte de nota. Algo como, foi garfado agora, mas será recompensado depois.
Cheguei à faculdade para dar um rolé c’oa peguete, quando encontro uma menina da minha turma.
- Ué, Fátima, o que você está fazendo na Uerj?
- Ahh, vim ver a nota do João Pedro (prof. de Técnicas de reportagem 2… Ou 1… Ou edição de texto… Fotografia não era, com certeza).
- Ih, saiu, é?
- Saiu… Fui falar com ele porque a minha nota estava muito baixa…
- Ahhh tá… Muita gente se fudeu?
- Algumas sim. Teve gente que tirou 1,5.
- Eita… Vou lá ver.
Desci a rampa que dá para a secretaria pensando em quem poderia ser o retardado que tira 1,5. Coitada dessa pessoa, uma infeliz sem cérebro. Vou me oferecer para dar aulas particulares para ela.
Quando eu vejo a lista, o retardado sem cérebro era eu. 1,5 – a maior queimação de filme, todo mundo passaria no corredor, veria a minha nota e pensaria “caralho, não sabia que o Pedro era um jumento”.
Fui falar com o professor também. Entrei na sala afobado, e ele falou imediatamente pra eu ficar calmo e que a minha nota estava errada. Acho que ele nem sabia o meu nome. Acho também que ele só gostava mesmo de praticar um sadismo maneiro com os alunos que matavam a aula dele. Muito justo. Ele afirmou que eu não havia mandado um trabalho por e-mail e que era isso que estava me arregaçando bonito (esse trabalho devia ter peso 17, não é possível). É claro que ele não falou com essas palavras. Mentira, falou sim, ele é muito sacana. Mentira, não falou não, eu que sou =D.
Provei por A mais B que tinha mandado o trabalho, ele acabou achando e depois me deu a nota certa. Mas vocês não imaginam o quanto aumentou. Ela simplesmente pulou de 1,5 para 9,6, um pequeno salto de 540%. NADA no mundo sobe 540% em um dia. O preço petróleo não subiu isso quando teve aquela crise bolada em 1979. Aliás, nem se caísse um meteorito no Iraque, o petróleo subiria 540%. Se eu ganhasse na Mega Sena, não ficaria 540% mais feliz. Seria felicidade demais, eu iria explodir.
Depois desse absurdo, estou pronto para não receber nem um décimo de bandeja nos próximos 22 anos, ou nas próximas 1227 provas, o que vier primeiro. É bom começar a estudar para não depender dessa raça insana chamada professores universitários…
Pedro