Devendo na praça

fev 11

Eu tenho 22 anos e nunca tinha assimilado o sentido de dívida como algo que pode acontecer com jovens, sobretudo comigo, um garotote sem grandes pretensões consumistas. Quando via meus pais preocupados, nervosos e tomando comprimidos mágicos que fazem dormir, achava estranho e com medo de passar por algo semelhante quando crescesse. Mas acho que uma condição que mostra que você cresceu é ter umas (dezenas de) dívidas que possuam a curiosa habilidade de te manter acordado – e preocupado.

É claro que essa situação não se generaliza (vide ricos, poderosos, endinheirados e milionários… E também os abnegados, que nunca contraem dívidas, os freis e eclesiásticos em geral, os índios, os ciganos, os ermitães, os que vivem de caça, os aborígenes, os filósofos e os sociólogos – que são uma espécie de filósofos misturados com ermitães abnegados).

Eu não estou devendo as calças. O problema é ter de pagar o dobro do que eu ganho. Em números absolutos, é pouco dinheiro, pois eu ganho uma miséria, mas ela já é considerável a ponto de me fazer pensar: “puta merda, não consigo pagar isso nem por um caralho embelezado!”.

Isso tudo começou porque eu ignorei completamente um negócio chamado LIS. Fiquei devendo 290 reais, mas resolvi apagar isso da memória. Assumo que não é uma prática eficaz, esquecer não dá crédito. Três meses depois, liga uma moça do banco (uma safada ordinária e desaforada) falando que eu iria ter que dar a bunda cinco vezes para quitar a rebordosa (mentira, ela não disse isso). Ela falou que eu estava devendo quase 600 pratas e que poderia parcelar, a menos que quisesse que meu nome fosse para o saco (tá, é mentira também, ela não foi tão agiota malvada). A vaca simplesmente disse que eu estava devendo, parcelou meu prejuízo e me obrigou a dar uma data para começar a pagar, ou seja, ela praticamente me obrigou a adivinhar o dia em que eu começaria a cagar dinheiro espontaneamente. Fazer o quê…

Bancos são maus e ardilosos. As dez parcelas que eu tenho que pagar vêm com uma dose saliente de juros… Juros… O tempero que salpica a nossa vida… No final das contas, vou pagar quase três vezes os 290 reais do começo da história, o que, refazendo meus cálculos, dão quase três vezes o que eu ganho na gigantesca Tv Bandeirantes. Se eu não pagar, meu nome vai sujar. Tudo bem que os nomes dos meus familiares não são uma limpeza ou motivo de orgulho, mas ser mais um Staite da Hora sem credibilidade na praça, e tão moço, me constrange um pouco.

Trabalho que nem um corno, não pego quase ninguém, ganho vergonhosamente mal (só barro quem trabalha no Nequi Bonaldes) e noutro dia senti dor na lombar. Estou me tornando um monstro rapidamente. Para completar, só uma gravata apertada e um pouco mais de tendência suicida, pronto, aí eu me torno um adulto deprimente.

Vou quitar minha dívida em alguns meses e torrar o resto em Comandos em Ação, só para relembrar um pouco a infância. Mas pode deixar que eu não vou comprar muitos, porque se ficar devendo as calças de novo, não vou ter tranquilidade o suficiente para brincar com eles, como eles realmente merecem ser brincados.


Que pena, boy

fev 04

Nunca fui muito boa em aceitar o fim das coisas. Sempre que algo chegava na beirada do “nunca mais” eu me desesperava e não conseguia entender que é assim que a vida funciona.
Mas sabe, com você foi diferente. Foi um desespero fora do normal. Digo, do meu normal.
Não que tivesse sido tão bom assim a ponto deu querer que você não se vá a todo custo. Porque cá entre nós, você estava longe de ser tão bom quanto eu achava que era.
Mas sabe, as pessoas tem disso. Elas imaginam um alguém cheio de qualidades, com todo aquele nhenhenhe de pessoa honrada, com sua palavra, e promessas cumpridas, que acaba se esquecendo em quem elas estão despejando tudo isso.
E nem que você se entupisse de feijão com farinha, teria sido metade do homem que eu imaginava.

E você pode fazer agora aquela clássica cara de bunda, e me jogar na cara que eu ainda escrevo sobre você. E você está certo. Está certo porque sabe de tudo o que foi. E sabendo disso, ainda mantém minhas fotos e cartas no armário.
Eu entendo. É difícil de aceitar que tudo aquilo cessaria, não é? Afinal, ela não te escreve. Que pena, boy.

Mas para te ser sincera, eu não esperava nada diferente disso. Não vou dizer que era porque eu te conhecia, afinal, não é novidade para nenhum dos dois, que isso esteve longe de acontecer. Mas depois de tudo o que li, tive a paz de finalmente te conhecer.
Agora sim conheço cada palavra que escrevia para as outras, conheço o tamanho da sua podridão, conheço sua desprezível mania de não afastar aquilo que no futuro ainda poderia te ser útil, conheço sua adorável cara falsa de arrependimento, conheço o tamanho da sua curiosidade. Mas de tudo que eu pude ter o desprazer de conhecer, conheço ainda mais a minha enorme vontade de não esbarrar nunca mais com tanto lixo.

Sinto agora aquela agradável sensação de tarefa concluída, sabe?
Ah, não sabe? Imaginei. Mas posso te garantir que não há rostinho bonito que pague isso.
Depois de ter entregue tanto a quem não merecia nada, o mínimo que poderia acontecer, era a vida me jogar nas mãos tudo o que eu tinha o direito de saber.
E foi bem assim. Caiu de paraquedas bem no meu colo. Um embrulhinho escrito em letras garrafais falsidade com o seu cheiro tão forte que me sinto aliviada por ter jogado em outro colo faz tempo.

Agora, meu caro, tenha um pouco de dignidade, e pare de tentar me achar em lugares que obviamente eu não estou. Não peça a ela palavras que você sabe que não estão a sua altura de serem ditas. Contente-se com o pouco que a vida ainda te foi muito boa em oferecer, e na medida do possível não estrague tudo mais uma vez, tente dessa vez, não ser você. Sei que nisso você é bom.


Você tem medo de borboleta?

fev 02

baratagay

Não é de hoje que mulheres e insetos não se dão muito bem. Poderia passar o texto todo discursando sobre o quão repugnante é uma barata, mas não seria nada que qualquer ser humano já não soubesse.
Mas insetos de uma forma geral me desagradam a ponto de um extremo desconforto. Só a mim, claro. Porque para quem está de telespectador, é uma alegria só.

Há pessoas que não tem nojo, mas mesmo assim não tem pavor. Há aqueles que ainda se aventuram em estar presente no mesmo recinto que um, e há aqueles também (os mais incompreensíveis) que os tem como bichinho de estimação.
Qual a graça de criar um animal que não terá a menor interação com você?  Por acaso a sua vespa fará festinha quando você chegar em casa? Ou então levará o seu escaravelho para dar uma volta no quarteirão? E o seu gafanhoto, fará cocozinho no jornal?

Meu irmão tem um amigo que é bem desse tipo mesmo. Um cara bem bacana, inteligente, e que nas horas vagas cria tudo quanto é tipo de bicho. Aranha, cobra, barata, gafanhoto, formiga, e por incrível que pareça até uma Beagle de 10 anos, chamada Bibi.

Um dia fizemos uma viagem pra praia juntos. Juntamos uma galera legal, enfiamos tudo em dois ou três carros e pegamos a estrada.
Com umas duas horas de viagem, paramos num posto para abastecer e comer alguma coisa. Enquanto conversávamos e comíamos uns sanduíches ruins pra caramba, sentados no meio fio, uma borboleta pousou perto de nós. Para meu pavor.
Estava atenta a qualquer movimento da praga, me contorcia em desconforto e mal conseguia prestar atenção na conversa, o que para ele, deve ter soado como um absurdo.

- Você tem medo de borboleta?
- Tenho.
- Nossa, nunca vi isso. De barata eu até entendo, mas de borboleta?
- Pois é.
- Mas por quê? Elas são tão bonitas.
- Pra mim, borboleta não passa de uma barata Drag Queen.



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