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Archive for fevereiro, 2009

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fev 17

Bloco de rua

Carnaval é sempre uma época feliz.
Não importa se você gosta do carnaval em si, ou não, porque de alguma coisa que vem junto com ele, você com certeza gosta.

Meus carnavais nunca são o típico carnaval da família brasileira. Não vou a bloco de rua, não fico até o cu da madrugada assistindo desfile, não torço pelas notas, não sei qual ex-bbb desfila para qual escola, nem se quer gosto das músicas, mas o feriado… Ah, o feriado. Esse sim eu gosto.

Amigos de todo o Brasil resolvem curtir o carnaval do Rio. Não que seja o melhor carnaval do Brasil, mas já virou tradição que eles venham, então quando começa o ano já tem nego comprando as passagens. É impossível ficar em casa.
Em dois mil e alguma coisa, teve um carnaval em especial que me foi muito útil como experiência para nunca mais.
Perto da minha casa sempre tem um bloco. Óbvio que eu não faço nem idéia do nome, mas isso não importa.
No mesmo dia e hora do bloco sem-nome, resolvi passar o dia na casa de uma amiga. Natália.
Natália é bem do tipo garota de bloco. Com enormes peitos semi-escondidos no decote, luzes no cabelo e saias que deveriam ser proibidas. Mas é minha amiga.

Peguei o ônibus na rua do bloco, que seguiria por um caminho diferente quando chegasse numa certa parte.
Entrei no ônibus e ele seguiu. O trânsito estava um pouco ruim, mas andava.
Bom, isso no começo.

E então chegamos perto do bloco. Nenhum carro saía, nenhum carro entrava. A galera buzinava, uns cantavam, outros xingavam, e 90% das pessoas que ali estavam, haviam bebido demais da conta.
Os que estavam no bloco, claro.
O ônibus parou justamente na curva da rua do bloco.
Eu, como boa antipática e não muito sociável que sou, sentava na frente do ônibus, e então escuto alguém pela janela:
- Ô ruivinha, ruivinha! Olha pra cá.
Olhei. Péssimo erro.
- Desce desse ônibus. Quero conversar contigo.
O tal ser que com muita dificuldade falava comigo, era um típico garoto de micareta.
Sem blusa, short colorido, bandana na cabeça, colarzinho de miçanga e cabeça raspada. Estava bêbado, sentia do ônibus o cheiro de cachaça, e desesperadoramente o que eu mais desejava naquele momento era que aquele ônibus andasse.
Balancei a cabeça. Para qualquer pessoa num estado normal e aceitável, aquele simples, mas significativo gesto seria entendido como um “nãoâ€. Doce engano. Não para nosso protagonista.

O motorista por sua vez, com um péssimo senso de humor, deixara a porta aberta desde o último passageiro a entrar, e mantinha aberta mesmo notando meu evidente desconforto com a situação.
Se aproveitando disso, nosso bêbado-micareteiro resolveu que era uma boa idéia entrar no ônibus.
Não sei em qual momento isso pode ter lhe parecido uma boa idéia, mas foi justamente isso que ele fez.
- Oi, qual o seu nome?
- Você ta me cantando no ônibus?
- Eu não to te cantando. Só quero saber seu nome.

Sempre tive a dúvida de saber se no mundo dos blocos de rua, essas respostas realmente colam.

- Você vem sempre aqui?
- Ham? No ônibus?
- Não, no bloco.
- Eu não to no bloco.
- Lógico que ta.

E então com muito esforço ele conseguiu dar uma leve sambadinha e cantar uma música horrendo, com gestos apontando para mim. Era algo como:
“Ô meu amor… Você me esnobaaa… Mas eu sei que você me queeeer… Ô meu amoooooor uooo uoooâ€

Respirei fundo e tentei parecer o máximo desinteressada possível. Olhava para os lados, passava a mão no rosto e dava falsos sorrisos de desaprovação. Aquele era o momento mais constrangedor que eu conseguia me lembrar.

- Desce desse ônibus e vem comigo.
- Não, não. Eu tenho compromisso.
- Ah, então me dá um beijinho!

E então o conveniente rapaz se agarrou no meu banco e começou a fazer movimentos como um poodle na perna dos convidados, enquanto virava meu rosto procurando minha boca.

- Me solta.
- Eu sei que você quer.

Onde estava a sanidade daquele rapaz?
Percebendo que não obteria ajuda nem do motorista, do cobrador, ou de qualquer alma sóbria daquele lugar, resolvi que ganharia mais saindo do ônibus, já que o trânsito continuava caótico.
Saltei. Eu e o cachorrinho tarado.

- Sabia que você me queria, viu só?
- Eu quero é fugir de você.
- Não fala assim que eu me apaixono.

Só havia então uma única opção: Andar a rua do bloco inteira até o outro lado, para então pegar um taxi. Porque de ônibus eu já havia desistido. E isso o mais rápido possível, antes que o cachorrinho tivesse alguma outra brilhante idéia de conquista feminina.
Fui andando no meio de serpentinas, confetes e rolos de papel enquanto hora ou outra era necessário dar uns leves empurrões no cachorrinho, que em momento algum desgrudou da minha cintura.
- Não vai te matar. É só um beijo.
- E você acha esse um bom motivo para eu beijar qualquer um que me peça?
- Mas eu não sou qualquer um.
- Eu nem te conheço!
- Então passa a conhecer.

Atravessava aquele mar de gente, vez ou outra me esbarrava com uma xirra, um bob esponja, um Silvio Santos, e ninguém parecia compreender minha pressa. Fui mais xingada que juiz em Fla-Flu, e por mais desculpas que eu pedisse, ninguém estava era nem aí.

O celular tocou. Era Natália, já preocupada:
- Alô? Natália?
- Marina, onde você ta?
- No bloco.
- Ham? Você não ia vir pra cá?
- É, eu ia, alias, eu vou. Mas no ônibus um cara veio falar comigo, ele entrou e o motorista não fez nada. Agora ele ta aqui, roçando na minha perna.
- Que?
- Te explico aí.
- Vem logo.
- Se eu conseguir sair daqui viva, ou pelo menos não estuprada, chego em 10 minutos.
Aproveitando o momento, o cachorrinho gritava:
- Natália, eu amo a sua amiga. Eu amo a sua amiga, Natália.

Cheguei ao final da rua e o cachorrinho ainda atrás de mim. Vi que era então o momento crucial para a minha escapada.
Ou isso, ou estaria fadada a sofrer mais momentos de tensão até que alguém se compadecesse de mim, ou até que algum amigo seu menos bêbado, o visse nesse estado deprimente e viesse ajudar.
- Sabe, eu to com sede. Compra uma cerveja pra mim naquela barraquinha?
- Compro. Mas aí você vai conversar comigo?
- Vou.

A barraquinha não ficava muito longe de onde estávamos, mas era o tempo que eu precisava para escapar do inferno que vivia.
Corri para um taxi, entrei, tranquei as portas e respirei.
- Sai daqui, pelo amor de Deus.
O motorista:
- Esse cara batendo na janela do carro, gritando “eu te amoâ€, e clamando por uma tal de Natália, está com você?
- Nunca vi na vida.
Corra Mary

fev 11

Devendo na praça

Eu tenho 22 anos e nunca tinha assimilado o sentido de dívida como algo que pode acontecer com jovens, sobretudo comigo, um garotote sem grandes pretensões consumistas. Quando via meus pais preocupados, nervosos e tomando comprimidos mágicos que fazem dormir, achava estranho e com medo de passar por algo semelhante quando crescesse. Mas acho que uma condição que mostra que você cresceu é ter umas (dezenas de) dívidas que possuam a curiosa habilidade de te manter acordado – e preocupado.

É claro que essa situação não se generaliza (vide ricos, poderosos, endinheirados e milionários… E também os abnegados, que nunca contraem dívidas, os freis e eclesiásticos em geral, os índios, os ciganos, os ermitães, os que vivem de caça, os aborígenes, os filósofos e os sociólogos – que são uma espécie de filósofos misturados com ermitães abnegados).

Eu não estou devendo as calças. O problema é ter de pagar o dobro do que eu ganho. Em números absolutos, é pouco dinheiro, pois eu ganho uma miséria, mas ela já é considerável a ponto de me fazer pensar: “puta merda, não consigo pagar isso nem por um caralho embelezado!”.

Isso tudo começou porque eu ignorei completamente um negócio chamado LIS. Fiquei devendo 290 reais, mas resolvi apagar isso da memória. Assumo que não é uma prática eficaz, esquecer não dá crédito. Três meses depois, liga uma moça do banco (uma safada ordinária e desaforada) falando que eu iria ter que dar a bunda cinco vezes para quitar a rebordosa (mentira, ela não disse isso). Ela falou que eu estava devendo quase 600 pratas e que poderia parcelar, a menos que quisesse que meu nome fosse para o saco (tá, é mentira também, ela não foi tão agiota malvada). A vaca simplesmente disse que eu estava devendo, parcelou meu prejuízo e me obrigou a dar uma data para começar a pagar, ou seja, ela praticamente me obrigou a adivinhar o dia em que eu começaria a cagar dinheiro espontaneamente. Fazer o quê…

Bancos são maus e ardilosos. As dez parcelas que eu tenho que pagar vêm com uma dose saliente de juros… Juros… O tempero que salpica a nossa vida… No final das contas, vou pagar quase três vezes os 290 reais do começo da história, o que, refazendo meus cálculos, dão quase três vezes o que eu ganho na gigantesca Tv Bandeirantes. Se eu não pagar, meu nome vai sujar. Tudo bem que os nomes dos meus familiares não são uma limpeza ou motivo de orgulho, mas ser mais um Staite da Hora sem credibilidade na praça, e tão moço, me constrange um pouco.

Trabalho que nem um corno, não pego quase ninguém, ganho vergonhosamente mal (só barro quem trabalha no Nequi Bonaldes) e noutro dia senti dor na lombar. Estou me tornando um monstro rapidamente. Para completar, só uma gravata apertada e um pouco mais de tendência suicida, pronto, aí eu me torno um adulto deprimente.

Vou quitar minha dívida em alguns meses e torrar o resto em Comandos em Ação, só para relembrar um pouco a infância. Mas pode deixar que eu não vou comprar muitos, porque se ficar devendo as calças de novo, não vou ter tranquilidade o suficiente para brincar com eles, como eles realmente merecem ser brincados.

Pedro

fev 04

Que pena, boy

Nunca fui muito boa em aceitar o fim das coisas. Sempre que algo chegava na beirada do “nunca mais†eu me desesperava e não conseguia entender que é assim que a vida funciona.
Mas sabe, com você foi diferente. Foi um desespero fora do normal. Digo, do meu normal.
Não que tivesse sido tão bom assim a ponto deu querer que você não se vá a todo custo. Porque cá entre nós, você estava longe de ser tão bom quanto eu achava que era.
Mas sabe, as pessoas tem disso. Elas imaginam um alguém cheio de qualidades, com todo aquele nhenhenhe de pessoa honrada, com sua palavra, e promessas cumpridas, que acaba se esquecendo em quem elas estão despejando tudo isso.
E nem que você se entupisse de feijão com farinha, teria sido metade do homem que eu imaginava.

E você pode fazer agora aquela clássica cara de bunda, e me jogar na cara que eu ainda escrevo sobre você. E você está certo. Está certo porque sabe de tudo o que foi. E sabendo disso, ainda mantém minhas fotos e cartas no armário.
Eu entendo. É difícil de aceitar que tudo aquilo cessaria, não é? Afinal, ela não te escreve. Que pena, boy.

Mas para te ser sincera, eu não esperava nada diferente disso. Não vou dizer que era porque eu te conhecia, afinal, não é novidade para nenhum dos dois, que isso esteve longe de acontecer. Mas depois de tudo o que li, tive a paz de finalmente te conhecer.
Agora sim conheço cada palavra que escrevia para as outras, conheço o tamanho da sua podridão, conheço sua desprezível mania de não afastar aquilo que no futuro ainda poderia te ser útil, conheço sua adorável cara falsa de arrependimento, conheço o tamanho da sua curiosidade. Mas de tudo que eu pude ter o desprazer de conhecer, conheço ainda mais a minha enorme vontade de não esbarrar nunca mais com tanto lixo.

Sinto agora aquela agradável sensação de tarefa concluída, sabe?
Ah, não sabe? Imaginei. Mas posso te garantir que não há rostinho bonito que pague isso.
Depois de ter entregado tanto a quem não merecia nada, o mínimo que poderia acontecer, era a vida me jogar nas mãos tudo o que eu tinha o direito de saber.
E foi bem assim. Caiu de paraquedas bem no meu colo. Um embrulhinho escrito em letras garrafais falsidade com o seu cheiro tão forte que me sinto aliviada por ter jogado em outro colo faz tempo.

Agora, meu caro, tenha um pouco de dignidade, e pare de tentar me achar em lugares que obviamente eu não estou. Não peça a ela palavras que você sabe que não estão a sua altura de serem ditas. Contente-se com o pouco que a vida ainda te foi muito boa em oferecer, e na medida do possível não estrague tudo mais uma vez, tente dessa vez, não ser você. Sei que nisso você é bom.

Corra Mary

fev 02

Você tem medo de borboleta?

baratagay

Não é de hoje que mulheres e insetos não se dão muito bem. Poderia passar o texto todo discursando sobre o quão repugnante é uma barata, mas não seria nada que qualquer ser humano já não soubesse.
Mas insetos de uma forma geral me desagradam a ponto de um extremo desconforto. Só a mim, claro. Porque para quem está de telespectador, é uma alegria só.

Há pessoas que não tem nojo, mas mesmo assim não tem pavor. Há aqueles que ainda se aventuram em estar presente no mesmo recinto que um, e há aqueles também (os mais incompreensíveis) que os tem como bichinho de estimação.
Qual a graça de criar um animal que não terá a menor interação com você?  Por acaso a sua vespa fará festinha quando você chegar em casa? Ou então levará o seu escaravelho para dar uma volta no quarteirão? E o seu gafanhoto, fará cocozinho no jornal?

Meu irmão tem um amigo que é bem desse tipo mesmo. Um cara bem bacana, inteligente, e que nas horas vagas cria tudo quanto é tipo de bicho. Aranha, cobra, barata, gafanhoto, formiga, e por incrível que pareça até uma Beagle de 10 anos, chamada Bibi.

Um dia fizemos uma viagem pra praia juntos. Juntamos uma galera legal, enfiamos tudo em dois ou três carros e pegamos a estrada.
Com umas duas horas de viagem, paramos num posto para abastecer e comer alguma coisa. Enquanto conversávamos e comíamos uns sanduíches ruins pra caramba, sentados no meio fio, uma borboleta pousou perto de nós. Para meu pavor.
Estava atenta a qualquer movimento da praga, me contorcia em desconforto e mal conseguia prestar atenção na conversa, o que para ele, deve ter soado como um absurdo.

- Você tem medo de borboleta?
- Tenho.
- Nossa, nunca vi isso. De barata eu até entendo, mas de borboleta?
- Pois é.
- Mas por quê? Elas são tão bonitas.
- Pra mim, borboleta não passa de uma barata Drag Queen.


Corra Mary

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