Ironia infantil
“Depois que amadureceu e que decidiu não mais se matar, foi-se embora inspiração. Deixava então de ser uma sofredora diletante para tornar-se uma adulta.”

Quando criança, sempre que mamãe e eu chegávamos a algum lugar onde milhares de outras crianças corriam e brincavam, ela soltava a minha mão, por mais apertada que estivesse, e dizia: Vai brincar!
Eu era muito pequena para conseguir explicar que o que eu menos queria naquela situação era me soltar da mão de mamãe. Por mais tentador que todas aquelas crianças parecessem, elas eram novidades, e desde sempre, o novo sempre me assustou.
Ela me soltava, me encorajava a seguir e depois ia embora. Se naquela época, eu compreendesse o que é “ironia”, certamente que essa seria a primeira palavra a surgir na minha cabeça, e talvez até desse um risinho sarcástico, e talvez levasse as coisas de maneira mais leve, e não agisse como uma criança, sendo criança. Mas eu era…
Quando se é pequeno, tudo parece maior do que verdadeiramente é. As situações, as pessoas, os locais, as experiências, e fica quase inevitável não fazer xixi nas calças ou não chorar por colo.
É desesperador se perder no shopping. É humanamente impossível resistir à nova Barbie-passeio-no-vale. É surreal a falta que a mamadeira de Cremogema faz.
Ser criança, nada mais é que um aprendizado para as porradas que virão.
Enquanto não se berra, não se consegue. E enquanto não se apanha, não se aprende.
Se já te foi esquecido, pergunte a qualquer criança.
É assim que é, e é assim que te será pelo resto da vida.
Mas a grande verdade, é que depois de um tempo, quando a mão insiste em ser soltada, fica fácil dizer: Tudo bem, já tenho duas, não preciso de mais uma.
E então seguir em frente, como assim te foi sugerido…
Corra Mary