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Archive for janeiro, 2009

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jan 08

Ironia infantil

“Depois que amadureceu e que decidiu não mais se matar, foi-se embora inspiração. Deixava então de ser uma sofredora diletante para tornar-se uma adulta.”

pesadelo10

Quando criança, sempre que mamãe e eu chegávamos a algum lugar onde milhares de outras crianças corriam e brincavam, ela soltava a minha mão, por mais apertada que estivesse, e dizia: Vai brincar!
Eu era muito pequena para conseguir explicar que o que eu menos queria naquela situação era me soltar da mão de mamãe. Por mais tentador que todas aquelas crianças parecessem, elas eram novidades, e desde sempre, o novo sempre me assustou.

Ela me soltava, me encorajava a seguir e depois ia embora. Se naquela época, eu compreendesse o que é “ironia”, certamente que essa seria a primeira palavra a surgir na minha cabeça, e talvez até desse um risinho sarcástico, e talvez levasse as coisas de maneira mais leve, e não agisse como uma criança, sendo criança. Mas eu era…

Quando se é pequeno, tudo parece maior do que verdadeiramente é. As situações, as pessoas, os locais, as experiências, e fica quase inevitável não fazer xixi nas calças ou não chorar por colo.
É desesperador se perder no shopping. É humanamente impossível resistir à nova Barbie-passeio-no-vale. É surreal a falta que a mamadeira de Cremogema faz.
Ser criança, nada mais é que um aprendizado para as porradas que virão.

Enquanto não se berra, não se consegue. E enquanto não se apanha, não se aprende.
Se já te foi esquecido, pergunte a qualquer criança.
É assim que é, e é assim que te será pelo resto da vida.

Mas a grande verdade, é que depois de um tempo, quando a mão insiste em ser soltada, fica fácil dizer: Tudo bem, já tenho duas, não preciso de mais uma.

E então seguir em frente, como assim te foi sugerido…

Corra Mary

jan 06

Pílulas sem propósito ou conexão

Se houvesse um concurso para eleger as pessoas mais cools do orkut, com certeza 99% dos finalistas seriam aqueles que só têm testimonials de uma linha só em seus perfis. Você já reparou que aquele seu amigo hype só tem depoimentos hypes de uma linha, vindos de amigos igualmente hypes, formando uma teia de amigos hypes? -Tudo bem que conforme vai se distanciando do centro, a teia vai ficando menos hype, é lógico- Você vê na lista de depoimentos, ou  aqueles meio desdenhosos – “É, até que eu gosto de você…”;  ou aquele de amiga cúmplice “Te amo. Pronto, falei!”; ou também aqueles de músicas “Exagerado, jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado…”. Acho que o cool gosta de adotar uma áurea de mistério, aceitando somente aqueles depoimentos que correspondam ao grau máximo de síntese e coolzice: uma linha só é mais que o bastante. Acho que cool mesmo é aquele não tem orkut e ainda fala com todos os amigos, seja lá com quantas frases.

+ Todas as pessoas estão sujeitas a uma verdadeira solenóide amorosa durante a vida. É um sobe e desce que mexe com o seu poder de contentamento. Primeiro, você está na crista da onda, e tem-se um vasto poder de escolha. Depois acaba essa maravilha, e você procura as saídas alternativas que, embora não sejam espetaculares, são interessantes. Depois as saídas alternativas escasseiam, e você recorre às cartas na manga (não me interprete mal – Você também tem cartas na manga, e provavelmente é uma carta na manga de alguém). Em dado momento, você repara que está brigando por uma carta na manga. É nesse momento que o seu contentamento está com o filtro frouxo, e você passa a se contentar com bem pouco. É aí que falam “quando menos se esperar mais, você encontra alguém”. Ou seja, a sua função é esperar pelo momento em que não se espera mais nada de nada. É como estar enterrado na merda e ter que se acostumar com o cheiro – acontece, né? Aí, muito de repente, você volta para a crista da onda e tudo acontece novamente.

+ Fulano (parceiro de blog da Fulana) resolveu arranjar uma desculpa astrológica para parar de fumar – Como se ficar fedendo, com os dentes podres, pulmão fudido e sistema digestivo esburacado não fosse o bastante para tal. Ele se encorajou a parar depois da festa de réveillon. Fumou 300 cigarros até a manhã do dia 1º, rezando para que ficasse enjoado para sempre de tabaco. No fim do dia 2, Fulano estava sozinho em casa, achou um cigarro e falou consigo mesmo “pô, não fumei nada hoje, estou indo bem, não vai fazer mal fumar esse”. Pegou o mata-rato e sentou para escrever. No entanto, o teclado e o mouse não respondiam, pois eles eram sem-fio e a base não estava conectada. Aí ele pensou “será um sinal dos deuses?”. Ignorando os deuses, foi ligar a base, com o cigarro na mão, atrás do PC. A distância entre a estante e a parede era muito pequena, fazendo com que o cigarro batesse e fizesse um risco de 8 cm o branco da parede. Com o atrito, a brasa caiu e o cigarro apagou. Fulano pensou “sim, é um sinal”, e jogou fora o Hollywood maldito.

+ Eu espero que o primeiro dia do ano não seja um modelo de como o seu ano inteiro vai ser. Eu dormi às 7 horas da manhã, acordei uma hora depois para trabalhar. Na verdade, eu ainda fiquei meia hora sonâmbulo falando coisas como “Eu sei que eu tenho que ir trabalhar, mãe, eu sei…Lá lá lá!”. Aí a minha avó puxou o meu pé e eu acordei de verdade. Tomei o café correndo, quase dormi no ônibus, quase dormi no almoço e quase dormi em todos os momentos em que tentava me concentrar no meu computador. Foi o dia mais longo da minha vida, e ainda me traz seqüelas físicas e psicológicas. Saí do trabalho às 20h30min (sim, escravo) e, pra variar, quase dormi voltando. Cheguei, conversei amenidades com a família e explodi de felicidade ao tomar um banho e dormir. Ou seja, passei o dia com o maior sono da minha vida fazendo algo que não queria, não fui produtivo e ainda fiquei feliz por fazer coisas ordinárias. Se meu ano for assim, eu me mato.

Obs1: Eu tenho orkut e depoimentos com 15 linhas ou mais. Não sou cool.

Obs2: A solenóide é um modelo. Não é 100% autobiográfico.

Obs3: Fulano vai sentir saudades de Jolly, Rocco e Rogers (nomes que Fulano botava nos últimos cigarros quando o maço estava acabando).

Obs4: É lógico que eu não vou me matar. A vida é um fardo, mas é ótima!

Pedro

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