2008 me descaracterizou

dez 20

2008 foi um ano filho da puta. Tudo o que eu imaginei que seria bom, tornou-se uma merda, e tudo o que eu imaginei que seria uma merda não me surpreendeu. Mas eu não vim aqui falar disso, e sim sobre como eu mudei – não para melhor ou pior, e sim para “menos eu” simplesmente – nos últimos 12 meses.

  • Perco tudo, mas não perco a piada.

Sempre fui prudente na hora de fazer uma piada, ainda mais quando esta se referia a alguém. Mas alguma entidade má tomou conta do meu corpo de uns tempos pra cá e me transformou em um daqueles caras de time de futebol americano dos filmes igualmente americanos que usam casacos cujas mangas são coloridas. Eles oprimem os nerds, zoam e fazem os outros chorarem. Não que eu tenha sido tão cruel, mas realmente perdi a linha. Eu tenho (ou tinha) um amigo na faculdade chamado C (não vou identificar o Ciro, é sacanagem). Graças a uma música que eu fiz, que virou hit entre nós, ele nunca mais falou comigo direito. Também pudera, eu zoava o coitado do primeiro ao último verso. O pessoal adora a canção, tão esmeradamente produzida, mas ele detestou, com toda a razão.

Fui a um aniversário na casa do meu grande amigo Paulo.  Nesta época, ele namorava há apenas dois meses com Mariana. Na hora do parabéns, os pais, pudicos e corujas, estavam cantando junto. Aí no momento do primeiro pedaço, já prevendo um dilema de quem seria merecedor de receber o primeiro, eu perguntei no meio de um daqueles silêncios entre-gritarias (você acha que ninguém vai ouvir e todos ouvem):

- E aí, Paulo!? 20 anos de amor ou 2 meses de carnalidade?

Todos riram a valer… Menos os pais dele, que se pudessem, pegariam o bolo e enfiariam no meu rabo. Pronto, perdi prestígio familiar graças a uma galhofinha que julgava inocente.

Tenho que lutar contra esse vício de perder a peguete, o amigo, o prestígio, mas não perder a piada.

  • Rir com Faustão

Estava vendo as videocacetadas, com o oferecimento da Fininvest, quando apareceu uma de um poodle raivoso que tentava morder a dona. Aí ele falou que poodles são bizarros, vivem 190 anos, ficam cegos de um olho, depois do outro, uma tristeza. Comecei a rir desvairadamente, pois o apresentador praticamente descreveu a Fly, a cachorra que sobrevive aqui em casa. Ela é uma conjunção de problemas – Artrite, epilepsia, cegueira, costas encurvadas – e ainda tem forças para rosnar. Teria para morder, mas lhe faltam os dentes.

Depois de rir, reparei que tinha apreciado a piada do Faustão. Entrei em um pânico interno, me perguntando se a partir daí, iria começar a gostar de Raúl Gil, Leão Lobo e de outros canastrões que figuram a Tv Brasileira. O que não seria de se estranhar, porque se eu achasse o Wagner Montes na rua, daria um abraço nele.

É complicado, eu não me reconheço em certos aspectos. Não tenho me interessado mais por filmes (e eu adoro!), sobretudo os com título de número: dormi vendo 300, Número 23…  Para ser sincero, o último filme que eu vi foi Alvim e os Esquilos, no Telecine.

Eu nunca atribuí nenhum significado cabalístico às mudanças de ano. Mas dessa vez eu vou fazê-lo. Vou mudar mais um pouco até o dia 31, só na expectativa de que em 2009 eu volte a ser eu mesmo. Ou não, porque piadas ousadas são ultra divertidas. Além disso, Faustão e Alvim e os Esquilos não são de todo o mal, não é verdade?


Tô gorda

dez 18

Tô gorda. Tô mais gorda do que já fui em qualquer dia da minha existência.
E não, não estou reclamando. Serio muito fácil sentar a bunda em frente ao computador e escrever sobre o quão gorda eu estou.
Mas o grande saco de se estar gorda, é que isso incomoda mais aos outros, do que a você de fato.
Não que eu adore me olhar no espelho e ver tanta gordurinha mal localizada num corpinho que não está mais tão “inho” assim, mas a repulsa dos outros é o que mais me assusta.

Mãe: Nossa minha filha, ta precisando voltar à academia, hein?

Pai: O que é isso? Estrias?

Amiga: Essa roupa não te cabe mais, né?

Ex-namorado: Na minha época você era mais magra.

Todo e qualquer homem que ler esse texto, virá com a velha história: “mulher é tudo exagerada”, mas não é questão de exagero, e sim, de 11 kgs a mais. Não que eu esteja concorrendo a um lugar no Fat Family, mas também não a um no Miss Universo.
Então qual o grande problema das pessoas em fazerem questão que eu me recorde a cada segundo de que estou gorda?
Eu sei disso, as calças que não passam mais da coxa não me deixam esquecer!

Minha mãe chegou esses dias em casa, abriu a porta do meu quarto e disse:
- Encontrei a Bárbara hoje. Filha da Elaine. Ela está magrinha.
- É, e ta dando mais que chuchu na serra.
- Elaine jura que ela é virgem.
- Só se for da orelha.

Parafraseando minha querida Fulana: Não to agradando. To poluindo a cidade visualmente.


Kriptonita

dez 14

Outro dia fomos a uma festa. Eu e as meninas. Sempre elas, sabe? O telefone tocou, já estava de pijaminha, mas então elas falaram com aquele jeito carinhoso que é impossível dizer não:
- Vaquinha, bota um decote que vamos a uma festa.
Ah, a amizade feminina…
Pegamos um taxi, e em 10 minutos chegamos na tal festinha.
Bastante gente conhecida, eu sem o menor saco de fazer social, e morrendo de vontade de fazer xixi.
Não era possível que eu já tivesse enjoado daquilo tudo. Acho que quando passo muito tempo com as mesmas pessoas, se eu não as amo, acabo enjoando. Porque só com muito amor para aturar manias, defeitos e jeitos talvez um tanto quanto exagerados.

E era tudo muito exagerado. Gente legal, admito, mas do tipo que você esbarra no shopping e dá “oi”, ou encontra numa festinha dessas e passa 5 minutos trocando uma idéia, mas vê-los todo final de semana começou a me dar nos nervos.
Estava subindo as escadas quando me deparei com ele.
Devia ter ficado em casa fumando meu cigarrinho e assistindo Zorra Total que ainda estaria ganhando mais.
Ele estava lindo, e… Ok, falemos a verdade: Ele não estava lindo, ele nem se quer era bonito, mas ele continuava carregando a palavra ele em letras garrafais no meio da testa.
Ele era ele, e isso já era o bastante para me dar friozinho na barriga.

Olhei pra ele, ele olhou pro decote, e o decote não olhou pra lugar nenhum. Fiz cara de empadinha, levantei as sobrancelhas e continuei em direção ao banheiro.
Ele não fez mais nada, não me puxou pelo braço, não me deu um beijo hollywoodiano, e eu não tive a oportunidade de dar um tapa na cara dele como seu eu não quisesse aquele beijo.

Esperei na fila do banheiro feminino ao lado de duas garotas conversando.
Uma chorava compulsivamente, e aquilo me dava uma agonia tremenda. Não importava o motivo, a razão, o homem ou em casos modernos, a mulher que fosse. Mas chorar na fila do banheiro era o fundo do poço para qualquer ser humano.
A amiga tentava acalmar a outra, oferecia água, e ela respondia:
- Não quero água. Isso não resolve nada.
E eu achava que o que deviam ter feito mesmo era ter suspendido a bebida da menina há pelo menos duas horas atrás.

Dentro do banheiro, enquanto mirava o xixi no azulejo pro barulho não ficar tão grotesco, as duas continuavam a conversar:
- Mas amiga, você sempre foi tão forte, tão corajosa. O que é isso agora?

Como se coragem tivesse alguma coisa a ver. Isso não é força, não é coragem, é burrice que acaba sempre em humilhação na fila do banheiro, e se para todo Homem Aranha existe uma Mary Jane, para todo Super Homem existe uma kriptonita.

Ele era minha kriptonita, e eu teria que conviver com isso. Não ia chorar em fila de banheiro, não ia reclamar com as amigas, não ia agir como se tivesse 15 anos, porque eu não tinha.
E se era então inevitável encontrá-lo, que fosse da melhor maneira possível, e que ele passasse então a ser o que era antes de estar entre minhas pernas: Um cara qualquer.

E era isso mesmo que ele era. Um carinha qualquer, um esbarrão no meio da pista, mas ainda assim, minha kriptonita.


Pedaço de cena – Eufemismo

dez 03

Aquele texto velho sobre eufemismo me fez escrever a respeito em uma cena, para meu ex-grupo de teatro, com quem, diferentemente da minha ex namorada, ainda tenho um ótimo convívio. É sobre um publicitário que resolve tirar os eufemismos dos comerciais e botar a verdade das ruas, sem maquiagem! Não vou contar o final porque um dia, quem sabe, vocês podem assistir à peça e aí não vai ter graça alguma.

(…)

Br – LIIIINDO! LIIIINDO! EXUBERANTE! Vou morrer sufocado pelos milhões… Mas vamos lá, pessoal, dêem tudo de si, porque esse Roteiro de agora é uma bosta. (Comenta com o assistente) Um garotinho quer cagar na casa do amigo, porque lá eles usam bom ar… (riso preso)… Isso não vai dar certo nunca… Mas estão pagando, que se dane. Vamos lá! Luz, câmera, ação!

Garoto (entra com voz fina, de criancinha, que nem a do comercial do Gleid Plug) – Mãããe, quero cagar.

Mãe – Vai ué, o cu é teu.

Garoto – Mas eu quero ir na casa do Pedrinho.

Mãe – Mas nosso banheiro está desocupado, seu pederasta, vai logo antes que você se cague, vai!

Garoto – Não! Eu quero ir na casa do Pedrinho!

Mãe – Qual o problema do nosso banheiro?

Garoto – Ele tem cheiro de merda… É nojento!

Mãe – Nojento é você, seu ingrato! Eu lavo, passo, cozinho, costuro pra fora. Aquele alcoólatra do seu pai não faz porra nenhuma, não ajuda, não te compra um tênis, uma roupa, não lava um prato e você vem reclamar do banheiro? A tua escola está atrasada, o aluguel não é pago desde agosto, você vai morar na rua, filho da puta, lá não tem banheiro de Pedrinho não. Então vai se acostumando com a idéia. Aliás, você já ta com idade de ajudar em casa, meu filho, já tem 4 anos.

Garoto – Pára, mamãe! Eu quero ir na casa do Pedrinho. Lá é cheiroso, eles usam cheirinho de Alfazema.

Mãe – Mas é muito viadinho… Quer saber? Vai então, mas fique sabendo que não adianta gritar de lá que eu não vou limpar a sua bunda.

Garoto – Tudo bem, o Pedrinho limpa. (sai correndo feliz)

Mãe – (vira sorrindo para platéia) – Se você não quiser passar por cenas constrangedoras como essa, compre o novo aerossol “Peido Cheiroso”. Agride só um pouquinho a camada de Ozônio, mas é bem melhor do que ficar com a casa fedendo! Peido Cheiroso, se for peidar, tem que ser cheiroso.

(…)


Garotos serão garotos

dez 01

Eles deviam ter por volta dos 15 anos. E elas também. Por mais que tentassem parecer descontraídos, elas encostavam os pés na parede e passavam as mãos pelos cabelos tratados com Babosa, sem nem fazerem idéia do que seja isso.
Eles andavam por todos os lados e puxavam o irmãozinho menor para onde fossem, e talvez ele não tivesse se dado conta da situação e os chamava para jogar bola, sem entender o porquê das risadas. Não era hora disso.

E quanto mais o tempo passava, mais eles se olhavam, mais nervosos ficavam e mais velha eu me sentia. Eles não sabiam, mas naquela semana, exatamente naquela, eu tinha o dobro.
E as experiências já não cabiam mais, a nostalgia de todo aquele nervosismo, era enorme. Depois dos 20 as coisas são diferentes, e os movimentos variam entre o mecanismo total, e a descontração exagerada, sabendo do que está fazendo, e como está fazendo, e o irmão mais novo é deixado em casa. O melhor amigo também.

Elas não se movimentavam muito. Garotas têm disso, disfarçam o nervosismo olhando para os lados, ou mexendo na manga do casaco, mas se mantém imóveis no mesmo espaço desde o início. E elas me olhavam com o respeito de quem já havia saído do lugar há muito tempo. E eu havia.

Eles estavam em número menor. Sem contar com o irmão, que ainda não estava na idade de fazer número, e eles sabiam que mesmo sem quererem, tinham a obrigação de conduzirem a constrangedora situação, e toda aquela ingenuidade, depois de 2 horas começara a me dar nos nervos.
E eles me olhavam com o respeito de quem sabia que garotos nunca mais me foram assim. E nunca mais me foram mesmo.