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Archive for outubro, 2008

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out 29

3 de fevereiro de 1999 – Três gordos com cara de babaca

Da série “Dias inesquecíveis†– Adaptado para o Orkut / Blog.

3 de fevereiro de 1999 – Três gordos com cara de babaca

Um ano antes, eu e Medeiros nos conhecemos e nos tornamos grandes amigos. Depois ele conheceu o Piá, e a nossa amizade terminou. Fim.

Mentira, a nossa amizade ainda existe, mas voltemos ao ano de 1999. Naquela época, nós, sempre malandros e pegadores, tínhamos um grupo da mais pura malandragem e pegação: T.T (Tê ponto Tê), que significava “Todas todasâ€. Esse conluio de jovens foi formado no intuito de ser uma maçonaria em busca do amor das meninas que nos rodeavam. É basicamente isso, nós inventávamos códigos secretos e apelidos descontextualizados para poder falar delas ao lado delas! Era demais! Mas no final das contas, ninguém pegou ninguém e somos praticamente BVs até hoje.

Nossa obsessão por algumas das meninas foi tão acachapante, que fazíamos coisas que beiravam o ridículo para que elas nos dessem atenção. Num dia, uma de nossas musas máximas chegou e falou com a gente do nada:

- Vocês têm tampa de caneta Bic?

- Err… É… Não… Por quê?

- Porque é legal quebrar com os dedos!

Depois desse episódio, nós começamos a juntar todas as tampas de caneta Bic ou genéricas, porque se ela nos perguntasse novamente, poderíamos passar horas quebrando tampas de caneta, e talvez até fazendo amor. Só sei que no final tínhamos umas 28 tampas. Mas elas nunca mais chamaram a gente para nada =(.

Bom, nós éramos patéticos como qualquer jovem de 12 anos, mas pelo menos tínhamos algum estilo. No começo de 1999, nós firmamos o pacto de conceder a algum novo aluno a honra de entrar no T.T, e essa pessoa tinha que ser maneira e pintosa que nem a gente (hahaha). Mas quando os “calouros†entraram na sala, só decepção, e Medeiros não se conformou:

- Porra, três gordos com cara de babaca.

David e Suma eram dois deles. O David era gordo e um pouco babaca. O Suma nem era tão gordo, e a babaquice ficava só na cara mesmo.  Mas a gente acabou elegendo o terceiro, porque ele parecia o mais interessante dos três. Ele era gordinho e, coitado, nem tinha cara de babaca. O que importa é que no final ele se tornou parte da gente como nunca poderíamos esperar.

O gordo de 1999 é o Deco – um dos caras em melhor forma que eu conheço, mas já vou dizendo que ele tem namorada.

Obs.: O único que será gordo para sempre é o Marcelo, porque gordura de alma nenhuma dieta faz sumir. =D

out 26

Publicitários

Ser publicitário não é tão fácil quanto os outros pensam. Às vezes criar uma propaganda para um produto não é necessário apenas criatividade.
E quando o produto não ajuda?

Hipoglos e/ou fraldas – Esse é fácil. Arruma a criança mais linda que conseguir, deixa ela pelada com a bunda pra cima, bota uma mulher aparentando seus 19 anos, beijando a bunda do neném e um narrador dizendo algo como: Proteja o que você tem de mais importante.

Ração – Não há quem não goste de filhotes, então junte um bando de cachorrinhos de dois meses num jardim, correndo, mordendo, brincando e dormindo, e óbvio ao lado sempre um pote escrito em letras garrafais o nome da ração. Fofo, delicado e funciona pra dedéu.

Telefone celular – Ataque a concorrência, seja engraçado e faça musiquinhas.

Absorvente – Mulher de calça branca fazendo ginástica (o terror de qualquer sangrenta) com flashes do seu absorvente retendo um misterioso líquido azul. Não importa se a menstruação é vermelha e não azul. O líquido de modo algum poderá ser vermelho. Há quem tenha nojinho. Puff..

Sabonete – Pegue a artista do momento e jogue a vagabunda dentro de uma banheira. Muito Photoshop na pele o mais aveludada possível, bote o sabonete em suas mãos e chame-a de Diva.

Sabonete íntimo
– Esse é um pouco mais desafiador do que apenas um sabonete. Seu público alvo são as mulheres. Sendo mais objetiva, suas xoxotas, então trate de arrumar lindas meninas em ações onde está implícito que usarão o tal sabonete íntimo. Arrumando as malas e botando-o na bolsa, abrindo a porta do banheiro e pegando-o.
E só. Pare por aí.

Cerveja – Peitos, peitos, peitos. Ah, e cerveja também.

Laxante – Hmmm… Errr… Bom, um tanto quanto difícil, eu reconheço. Como fazer um comercial para um laxante?
Tem que soar o mais delicado possível, não dá pra chegar e falar “Cague até seus órgãos, tome (insira aqui o nome do seu produto)†e se for supositório então, desista.
Não é por acaso que vira e mexe vemos coisas desse tipo durante o comercial do jornal:

“Tô todo cagado, mas morrendo de rir.”

Corra Mary

out 25

O homem e o livro

“Só os irresponsáveis são realmente felizes.”

O homem sorria e segurava um livro. Sentei ao seu lado e acendi um cigarro. Não trocamos nem um “bom dia†se quer. Era só eu de um lado, ele, seu livro e um enorme sorriso do outro.
Esforcei-me para ler o título. Alguma coisa em vermelho, escrito numa capa branca com umas enormes manchas cinza em baixo, ou algo parecido. De certo era um livro interessante, ou ele não riria com tanto gosto sem se importar se alguém o visse.

As pessoas têm disso. Se alguém ri sozinho, é certo que será chamado de maluco, e se gargalhar então, é capaz de até ser evitado pelos outros.
“Cruz credo, ele está rindo sozinho†– E isso seria o suficiente para trocarem de calçada como se o outro tivesse alguma doença contagiosa, ou coisa que o valha.
Mas você é muito bem aceito se anda todo engomadinho e com a sua pior cara pelo caminho de casa. As pessoas passarão por você com a cabeça baixa e pensarão: “Esse cara é bem sério, será que é casado? Seria ótimo se conhecesse minha filha.†E seguirão seu caminho com um tipo de orgulho social que dá até gosto de ver.

E não era preciso esforço algum para perceber que entre a mureta e o banco, não eram esses os pensamentos que passavam na cabeça daquele homem.
Talvez imaginasse os personagens do livro. Como seriam suas feições, seus narizes, seus cheiros e suas risadas.
Sem mortes, porque a morte não faz ninguém sorrir. E nem o amor.
E a cada página que ele virava, eu me sentia quase que na obrigação de também ler aquele livro. Eu, e mais o resto do mundo. Porque eu estava sentada naquele banco, e não ria. Não gargalhava, não tapava a boca para parecer menos risonha. Não via motivos para isso, porque não possuía aquele livro. Era só o homem. E ele ria.

E quem seria eu para explicar que era apenas um homem e seu livro?
As pessoas deveriam ler mais. E sorrir mais também. Sozinhas.

Corra Mary

out 22

Trabalho de Geografia

Era manhã de segunda-feira, e aquela professora com cara de cavalo passara um trabalho de Geografia, para sexta-feira.
Como que é? Menos de uma semana para fazer e entregar um trabalho? E ainda sorteando os grupos? Como ter uma interação com pessoas que você não faz a menor questão de ter uma interação?

Bom, vamos lá… Mão no saquinho, uma caralhada de papeizinhos e…
Rodrigo – Bom, um amigo no grupo pelo menos eu terei.
Felipe – Um nerd, caladão, que não ajuda, mas também não atrapalha.
E agora a última pessoa. Por favor, seja a Mariana… Seja a Mariana… A Mariana.
E:
Eloá – Elo-quem?

- Professora, quem é Eloene?
- É Eloá. E é aquela da segunda fileira.

É, esse trabalho vai ser mesmo uma maravilha.
Quando se está na 8 série, os professores adoram esse tipo de sacanagem. Não sei mesmo se eles acreditam nisso, mas não cansam de falar dessa tal interação.
Que vá pra puta que pariu todo esse falso social, eu só quero passar de ano.

Para completar minha sorte descomunal, nosso grupo ainda seria o primeiro a se apresentar no primeiro tempo da sexta-feira. Juntei os 3, e combinamos de nos encontrarmos na casa da tal Elocleide às 2 da tarde.

Essa menina morava um tanto quanto longe, mal cheguei em casa e já tive que sair. Comi alguma coisa, peguei o caderno e umas canetas e fui. Acho que foi nessa hora que percebi que começou um cheirinho desagradável. Devia ter jogado uma água no corpo que fosse. A Eloísa que esperasse.

Tudo corria bem. Tínhamos cartolina de 3 cores diferentes, livros espalhados pelo chão da sala, o computador não saía do Google, e tudo indicava que acabaríamos cedo.
Excelente!

Não deu muito tempo e bateram na porta. Era o ex-namorado da Elonalda.
Ah, que maravilha, DR logo agora. Essa gente, viu? É brincadeira…

Ih, caralho, o maluco ta boladão. Já entrou chutando a porta, segurando a coitada pelos cabelos e dizendo algo do Orkut. Parece que a birra toda é por isso.
Maldita inclusão digital!
Alguém deveria processar as Casas Bahias por venderem computador em 2300 vezes sem juros. E até por que… PUTA QUE PARIU! Alguém me tira daqui, o cara tem uma arma.
CA-RA-LHO!

Deve ta cheiradão, mais perdido que cego em tiroteio, e to vendo que quem vai pagar o pato, é a pseudo-amiguinha. No caso: EU.

Bom, mas tudo vai dar certo. Minha mãe me ensinou isso: pensar sempre positivo que assim, nada acontecerá.
Eles vão conversar, ela vai apagar o Orkut, voltar com ele, apresentaremos o trabalho na sexta, e tudo acabará num sexo adolescente. Pronto, final feliz para todos.

De repente o doido da arma olha pro lado e percebe entre colas Pritt, livros de geografia e tesouras sem ponta, 3 indivíduos, cagadas de medo e sem trocarem uma só palavra, encontravam-se sentados no tapete da sala.

- Quem são vocês?
Rodrigo se adiantou:
- Estávamos fazendo um trabalho. Se quiser, deixamos vocês para conversarem mais a vontade.
- Podem ir vocês dois. Ela fica.

Como que é? Eles vão embora e eu fico aqui? Mas porque? Não tenho o menor interesse em ficar.
Ô, Seu Seqüestrador, o seu problema é com a Elozensse, e não comigo.

E de nada adiantou. Horas e dias se passaram, e agora o cheiro de nós três era insuportável. Não comíamos, não dormíamos, e obviamente, não tomávamos banho.
- Caralho, que catinga é essa?
Disse, Seu Seqüestrador.
Encolhi-me no sofá, olhei pro lado e desejei amargamente que a professora de Geografia morresse queimada.

Não preciso nem dizer que fui descoberta, né? Enxotaram-me daquele cativeiro o mais rápido que puderam.
Estava livre. Graças a Deus, voltei para casa, comi macarrão da mãe, tomei banho de duas horas e confesso que sentia até um certo gosto quando via na televisão. Eu havia virado heroína nacional sem ter feito nada.
Nem o trabalho de Geografia.

Mas felicidade de pobre não dura muito. Tive que voltar praquela casa maldita em menos tempo do que meus traumas permitiam.
E dizer “Eu não quero†era a mesma coisa que nada. Então, o que era um peido pra quem já estava cagado? Respirei fundo e voltei.

Não estava com muita paciência. Ãamos acabar logo com aquilo que já havia passado dos limites.
Entrei pela porta dos fundos, e sentei para ter uma séria conversa com o Seu Seqüestrador-corneado-pela-Eloanna.
Não obtive sucesso, vai ver que o que ele tinha cheirado era realmente bom, e até agora ainda fazia efeito.
Quis acender um cigarro, mas haviam câmeras pra dedéu lá fora, e vai que em algum ângulo, aparecesse na TV… Deus me livre, minha mãe arrancaria meu couro.

Quando começávamos a nos entender, a polícia arrombou a porta. Um estardalhaço todo. Só se o Seqüestrador fosse surdo, pra não ouvir.
No susto, o dedo dele puxou o gatilho. O tiro foi na pobre da Eloízy, espalhando sangue por todos os lados.
- Puta que pariu Eloésse, no trabalho de Geografia nãããããããão!

Corra Mary

out 18

1997 de Carla

“ – Não faça isso. Nunca se machuque. Nunca mais faça isso. Deixe que os outros vão fazer isso por vocêâ€.
(Fernando Young)

A paixão emburrece o ser.

Carla queimava as fotos daquele rapaz e jogava as cinzas pela janela, não se importando em quem fosse cair. Ela já sofrera o bastante. Alguém mais haveria de sofrer também.
Em 1997 as coisas eram mais fáceis, sua única preocupação era dar comida aos gatos e não se atrasar para o primeiro tempo de aula.
As pessoas eram mais confiáveis, menos cruéis e os olhares dos amigos não eram de pena.

“Coitada da Carlaâ€, e eles a poupavam, viraram seu rosto para o lado oposto, e ela sorria e fingia não se importar.
“Estou bem†– Ela dizia.
E não que não estivesse, ela não estava triste. Estava apenas nostálgica. Queria seu 1997 de volta, e desde que o século mudou, sua vida desandou. Ela passava muito tempo pensando. E o que estragava tudo eram esses malditos momentos em que Carla pensava.
Virou uma pensadora, bolou teorias, momentos e falas. Chegava a dialogar sozinha, era uma atriz nata, mas sua vontade de se socializar com o mundo diminuía à medida que Carla preferia passar seu tempo livre fumando 2 maços por dia e pensando.

“Foda-se, não há nada mais a ser feitoâ€. E essa sensação descia por todo o corpo. Estava além das suas capacidades. Seu orgulho era do tamanho de todo um mundo, e ela o alimentava com tudo o que podia. Se fosse necessário passar uma vida inteira com aqueles pensamentos, era isso o que ela faria. Nada mais restara depois de seu orgulho, e ela estava bem com isso, e pronto.

Demorou 10 anos para a casa ficar vazia. Os gatos morreram, e os periquitos fugiram. Carla ficou sozinha. Sozinha.
E não parecia tão ruim assim. Era o medo, sempre o medo que a impedia de doar os pássaros e castrar os gatos, mas quando resolveu deixar o tempo passar e ver no que dava, se deu conta de que tudo que nasce, também morre e não há mais nada a se fazer, enquanto a natureza fazia seu papel.


Corra Mary

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