Viva os banheiros!

set 12

Em dado momento de 2005, estava eu em uma festinha na Lagoa. A casa estava permeada de biricoticos gostosinhos, parceiragens descoladas e menininhas sensuais. No meio de tudo isso estava eu, com uma menininha não tão sensual, mais ainda assim com certa beleza interior e exterior, bebinho com os amigos e me sentindo o rei do mundo.
Depois de tanto beber, meu estômago se tornou uma espécie de casa de suingue alcoólica que fervia a valer. Meu affair, coitada, sentada no meu colo, pressionava de certa forma a minha barriga com seu dorso, e eu já pensando no pior: vou vomitar na nuca dela se não agir a tempo… Levantei tropeçando até nas formigas e fui ao banheiro para negociar com a privada a limpeza da orgia no meu estômago.
Passei mal, mas com iniciativa própria, algo típico dos fortes.
Levantei e comecei a conversar com o espelho, coisa que toda pessoa faz nas 317 vezes em que vai mijar numa festa.
- Fudeu. Estou todo poluído por dentro e ela vai reparar imediatamente, o que eu faço!? Já sei! Vou escovar os dentes com essa escova… Bom, não sei de quem é, mas com certeza ela está mais limpa do que eu.
- Humm… E se a escova for dela?
- For dela é quase um cacófato… Bem, eu bochecho antes de usar, ninguém vai perceber.
Depois de conversar comigo mesmo, escovei os dentes, dei descarga e saí prontíssimo para outra. Fui tomar uma coca para disfarçar o gosto da pasta de dente que foi usada para disfarçar o gosto do leque de bebidas que eu expeli. De qualquer forma, no final deu tudo certo!
Só contei essa história para mostrar que o banheiro é o cômodo mais especial da casa e é o que mexe com mais energias e anseios do homem, sejam eles os mais primitivos ou os mais derivados. Ele é tão importante que merecia um livro tipo “Feng Chui só para toaletes”.
É só reparar que nunca entramos no banheiro à toa. Sempre há um propósito que nos transformará em pessoas diferentes das que entraram. É como se fosse uma sala da transformação: saímos do banheiro mais limpos, ou mais aliviados, ou mais frescos, ou mais cheirosos. É um lugar que cria cumplicidade com seus ocupantes. Ele, no mínimo, te vê pelado, ou em posições super constrangedoras pelo menos uma vez por dia. Tem gente que tem tanta cumplicidade com o próprio banheiro, que nem defecar fora de casa consegue. É um misto de serenidade, aconchego e costume que só o próprio lar pode oferecer, a tal ponto que há praticamente um contrato não-verbal entre ânus e privada. Grosso modo, fazer fora de casa é como trair a própria bunda.
Clichês a parte, eu só tenho a agradecer a quem inventou esse cômodo, embora seja apenas lembrado nas horas difíceis e preterido ao longo das décadas.



As palmeiras

set 09

“A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”
(Fernando Pessoa)

 

Meus olhos acordaram tão inchados que mal cabiam em mim, eram 9 da manhã e ele ainda dormia, talvez sonhasse com enormes palmeiras, com um vento bem forte, soprando pra lá e pra cá, e areia. Muita areia numa vista vazia, sem pessoas ou animais, só as enormes palmeiras, sem a menor preocupação de nada, apenas de se mexerem.

Juntei todas as minhas forças possíveis de quem madrugou na noite da cidade grande, onde nada pára e as luzes doem os olhos, e levantei o corpo até sentar na cama e abraçar os joelhos.

 

Queria contar pra ele o quanto eu podia odiar alguém, como eu detestava sem ao menos ter um motivo para isso, queria explicar toda minha capacidade de ser uma pessoa desprezível, e isso me faria mais humana. Ou quem sabe menos.

Mas de certo que não valeria a pena, quando se sonha com palmeiras, o que menos pode existir é qualquer coisa de humano, e eu me rebaixaria a menos que isso, provavelmente choraria. Arrependida de não controlar minha boca e mente e vomitar palavras sem ao menos entender o porquê daquilo tudo. E não era vontade de entender, passava longe de qualquer entendimento desnecessário, era um ímpeto desejo de falar, de sabotar a mim mesma, e manter uma esperança de se ouvir um “apesar de” ou achar graça e tudo não passar de tolices da ressaca do vinho da noite anterior.

 

Continuei pensando nas palmeiras, mas agora a boca ardia por água, e como se me repreendesse por tudo que pensava, acendi um cigarro, traguei bem fundo enquanto observava a ponta queimando num laranja vivo, e qualquer dia pintaria o cabelo daquele laranja. Para me arrepender em duas horas, ou adorar pelo resto da vida.

 

Ele se mexeu bruscamente na cama e ajeitou o travesseiro, interrompendo meus pensamentos, e eu o adorei mais ainda por isso. Poderia passar o resto dos meus dias ali, desligando telefones, campanhinhas e a vida. Passar os dias sentada no quarto escuro, observando sua mão por trás da cabeça procurando a parte mais gelada do travesseiro, sem deixar que o movimento das palmeiras cessasse, sem descanso para o tempo e a pressa que não existem. Inventando lados e jeitos, mexendo na melodia de uma música imaginária, que seja lá qual fosse, não importava, se encaixaria perfeitamente.

 

Sem sono, deitei ao seu lado, fechei os olhos, dei uma longa respirada e ainda com o cigarro na mão, implorei em pensamento por enormes palmeiras. Mas no meu desejo ainda haviam ondas, numa praia dessas que só existem em filmes. Sorri satisfeita quando percebi que palmeiras e praias com perfeitas ondas só existem juntas em desenhos infantis, e que uma ou outra já seriam o suficiente para horas a mais de sono, eu não precisava, não precisava e apesar de querer, poderia abrir mão facilmente, e lá pelo meio dia, levantar, lavar o rosto e seguir a vida fora daquele apartamento.

Sem palmeiras.

A vida e o apartamento.

 



Skills

set 07

Skills

Eu tenho uma amiga chamada R, que mora no bairro R e que encontrou em seu estágio na TV B, um lindo rapaz chamado J (é que ela pediu para não ser identificada, uma vez que ela acabou de começar a namorar o H). Sempre quando R falava de J, seus olhinhos brilhavam, suas sobrancelhas arqueavam e sua voz cantarolava. Aliás, eu acho que a R nunca falou o nome de J sem cantar. Aquela coisa tipo “aaaai aaai, meu herói”, tal quais as figurantes gostosíssimas de A Bela e a Fera morrendo de amores pelo Gastão.

- Pedro, no mundo tem os horríveis, os feios, os mais ou menos, os bonitinhos, os lindos, os maravilhosos como você (mentira, essa parte eu inventei) e acima de todo mundo está o J caminhando pelo Edem da beleza com um cetro na mão.

Eu comecei a calcular. Primeiro porque tem aquela premissa básica de que se a pessoa é linda demais, só pode ser chata, burra ou ambas. Segundo porque Deus não deixaria alguém assim existir porque a criação da vida nada mais é do que um jogo de RPG em que há um número padrão de skills para serem distribuídos. Tipo no The Sims.

- Aaai, ele é bronzeado, acabou de voltar de um intercâmbio na França e mora no Leblon.

- Uau, o cara é demais! (Mordendo de inveja algum pedaço da minha alma).

Mas ainda assim, não acredito que ele seja o rei do balacobaco. Acho que J só gastou todos os seus Skills em características mais flagrantes e se esqueceu de pôr nas mais recônditas. R diz que ele é lindo, bronzeado, simpático e inteligente. Pois bem, mas deve ter problemas nas glândulas sudoríparas… É fato!

Ele deve ter algum problema psicológico, sei lá, deve sonhar todo dia com um homem usando roupa de banana batendo nele com uma vara de marmelo. Ou então sonha em ser do N’sync, ou então já fez um filme pornô com anões. Se ele não tiver nada disso, então eu tenho pena dele. Porque só sobrou para sua genitália, que deve ser azul turquesa com verrugas amarelas.

No fundo, eu imagino que ele deva ser uma espécie de Palace II entre os homens– Perfeito por fora, mas com tantos probleminhas estruturais que deve estar todo estragado, coitado.

E eu sou um invejoso de merda.

 



Estranhas convivências

set 06

“Restaurante que vende farofa, não tem ventilador de teto.”

Eram sempre em dois. Mãos dadas, unidos por uma semelhança enorme. Ele com um pronto pensamento e fala mansa. E seu ego, dilacerado e inconstante.

Ele se sentou na cadeira de balanço em frente ao velho rádio e escreveu:

Relações vulneráveis. Agora é tratar o outro com um rio de cuidados, como algo que se quebra e danifica. Em que num desavisado movimento, escape pelos dedos, fuja e se perca, sem esperanças de volta, sem possíveis comparações ou trocas.
Uma nota para o tanto de pessoas em volta, suas alegrias, suas dores, suas experiências esquecidas, guardadas e novamente esquecidas, que sempre deixam alguma coisa.
Uma nota para as frustrações dos adultos, a inocência perdida e exagerada, a ambição, a solidão e a carência. Os motivos para comemorar, as festas, e a volta pra casa. As ligações perdidas, a doença de dar febre, deixar de cama e o cansaço excessivo.
Uma nota pelo pensamento, pelas desculpas, pela consideração, e pela falta dela.
O carinho guardado que de nada serve, a tranca da porta quebrada e a as enormes olheiras de uma semana de insônia, maquiadas com base cor de pele.
Enquanto não houver culpa, o museu das decepções estará sempre aberto, com a alta classe batendo ponto, sorrindo para as paredes, com champagne em uma das mãos, e a outra tocando em quem passa. Puxando roupas, cabelos e enrolando chicletes duros e sem gosto nos longos dedos.
Enquanto os próprios desejos, superarem as necessidades, ninguém terá nada a ver com ninguém, e bastará uma gota do adoçante caindo para fora da xícara, para encurtar os dias e transformar íntimas relações em estranhas convivências.

O ego empurrou a mesinha, sentou no pequeno espaço de chão, segurou o caderno e escreveu:

A vergonha de amanhã, será algo para se levar pro túmulo, embarcando de cabeça em tudo que cheira culpa.
Um sentindo o gosto da bosta do outro, catando o que sobrou da coleta de lixo do ano passado, respirando o ar que meus pulmões rejeitaram, comendo e se deliciando com carne de segunda.
De vigília pelos próprios erros, durando a vontade de fantasiar os dias que já não existem mais, numa ponte aérea de Berlin ao Japão, de Nova Iorque a Madri, consumindo cada rosto que passa, desejando a vida do passageiro ao lado, escondendo a cara escrota atrás dos óculos escuros durante o sol da meia-noite.
Abra as pernas para o gentil rapaz que te paga mais uma bebida.
Coma a garota de olhos profundos, que chora a noite e tem vontade de voltar pra casa.
Eu quero mais é que vocês se fodam.



Nilcemar tem voz fina

set 03

Ele liga para o banco e espera a atendente eletrônica atender.

- Olá, seja bem vindo ao Banco Onofre. Para falar com nossos atendentes, tecle 1; para tarifas, parcelas e contas, tecle 2; para informações sobre o cheque-especial, tecle 3; para informações sobre especificamente atrasos no cheque especial, tecle 3, depois zero e depois jogo da velha.

Pausa sonora para a mensagem eletrônica respirar…

- Bem, para cancelar a conta, tecle 5; para outros serviços, tecle 6; para ouvir uma piada, tecle 7…

Nil – Putz, me perdi, quantos comandos!

- Se você é retardado, não entendeu nada, e quer que eu repita, tecle 0.

Nil – Como é que é?

- Isso mesmo, idiota, tecle 0.

Nil – Que mensagem automática mais insolente! Eu quero falar com o gerente!

- Olá, seja bem vindo ao Banco Onofre. Para falar com nossos atendentes, tecle 1, para…

Nil – Deve ser esse…

…………………………………………….

Talita _ (falando rápido) Banco Onofre, 50 anos de tradição erguendo vidas com solidariedade, Talita, boa tarde, em que posso ajudá-lo?

Nil – Err… Bem, eu tenho um cartão que chegou faz uma semana. Mas o nome está errado, é coisa pequena, só a preposição.

Tal – Qual o nome da Senhora?

Nil – Não, não… Eu sou homem, meu nome é Nilcemar Ferreira da Silva. Mas no Cartão está Nilcemar Ferreira de Silva, aí eu queria saber…

Tal – Homem? Que que tem o homem? A senhora pode repetir seu nome?

Nil –Nilcemar!!! Eu sou homem, menina de Deus!

Tal – A senhora é homem?

Nil – Pára de me chamar de senhora!

Tal – (pensa um pouco) A senhorita é homem?

Nil- Não! Quer dizer, sou!

Tal – É ou não é?

Nil- Sou! Sou homem!

Tal – Eu também…

Nil – Sério!?

Tal – Não… A senhora está mentindo, por que eu não posso mentir também?

Nil – Olha Talita, eu sou homem! Sou casado, tenho três filhos!

Tal – Os três de parto normal?

Nil –Aham, por quê?

Tal – Corajosa, hein!? Doeu muito?

Nil - Porra, ta de sacanagem, maluco… Tá de brincadeira…

Tal – Alô?

Nil – Olha Talita, eu sei que você pode achar estranho o meu nome… É que ele é unissex, aí as pessoas confundem.

Tal – Mas eu não estou confusa… Pelo contrário, tenho convicção de que você é uma mulher que não tem o que fazer e fica ligando para encher o saco de quem quer trabalhar honestamente. Se a senhora, senhorita, ou que quer que seja, me deixar continuar trabalhando, eu agradeceria…

Nil – Mas que menina abusada! Meu nome está aí! Nilcemar Ferreira de Silva! É da Silva, mas ta errado…

Tal – Vai continuar batendo na mesma tecla? Então ok, deixa eu ver aqui nos sistemas…

Nil – Graças a Deus!

Tal – Hummm, muito bom, achei aqui… Ótimo, fique sabendo agora, sua troteira, que eu bloqueei a sua conta. Se quiser desbloquear, vai ter que vir à agência em São Paulo.

Nil – Mais eu moro no Rio! Não tem alguma mais perto?!?!

Tal – Foi um prazer atendê-la, obrigada pela preferência!

Nil- Filha da puta! Talita, sua vaca! Odeio esse nome… Nome de biscate…



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