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Archive for setembro, 2008

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set 29

Os Nerds e a Mão Negra

Em um tranqüilo dia, Juca estava vendo o jornal da tarde, quando uma notícia o deixou atônito, incrédulo, embasbacado. Counter Strike estaria proibido a partir daquele dia por incitar a violência nos cérebros em construção dos jovens. O jogo seria retirado das lojas e as Lan Houses não poderiam conter o jogo em seu catálogo. Quando ele ouviu aquilo, seu copo de Nescau pós-almoço deslizou de suas mãos sem ação e caiu no chão, fazendo com que todo conteúdo fosse projetado para o alto, daquele jeito inconveniente e fisicamente alucinante que só os copos cheios que caem perpendicularmente ao solo sabem fazer.

- O que vai ser de JucaDemon93?

Foi a pergunta mais profunda que Juca se vez em 15 anos.

- O que vai ser do clã DemonStrike?

Foi a segunda pergunta mais profunda, cinco segundos após a primeira.

- Então masturbação é isso?

Foi a terceira pergunta mais profunda. Mas essa foi há uns 4 anos atrás, posta aqui somente para título de curiosidade.

Juca chorou. Entrou no Msn e falou com JôDarkLight, BibinhoAlucard94, LuluAngelModel e ClozinhaGossipGirl, seus melhores amigos. Os cinco resolveram passar na Lan-House para ver se a notícia era verdade. Afinal de contas, como jornalista é tudo prostituto e mentiroso, vai que esse tormento não passava de balela?

Chegando ao local marcado, Robson tonelada, o cara que ficava na bancada controlando o sistema da casa de computadores, já demonstrava, com o semblante da mais pura tristeza, que o jornalista prostituto e mentiroso falara a verdade. Nada de Counter-Strike. A partir de agora somente Puzzles nas Lan Houses. Agora só teria Tetris, Doctor Mario, Columns e os tetris da Sailor Moon e dos Tundercats.

A entrada da Lan House estava tomada por garotos espinhosos, mocinhas com dentinhos lindos, porém acavalados, e gordinhos melequentos fazendo piquete. Alguns deles já empinavam placas com os dizeres: “Queremos Head Shot” e “Faquinha no Presidente”. Seria um fato muito curioso se fosse isolado, contudo, a gravidade do problema era muito maior do que o esperado.

Simplesmente todas as Lan Houses aderiram à manifestação, tirando as Lan Houses institucionais, que eram as usadas pelos filhos “dusverme” de Brasília. Nessas o jogo mais famoso era o “Contiendo los terroristas”, que era uma espécie de Counter Strike em que você é um militar brasileiro matando venezuelano de boina vermelha na fronteira Brasil/Venezuela em plena Amazônia. Esses jogos entocados do governo eram uma loucura!

Os clãs, assim como as famílias tradicionais do Nordeste nos séculos passados, se odiavam assustadoramente. Mas diante dessa gravidade, não houve escolha: união.

Acabou que o governo arranjou briga com as pessoas erradas. Se a gente deduzir que no Brasil devem existir umas 10 mil Lan Houses, e, em média, cada uma tem umas 50 pessoas fiéis, vai um zero, passa o cinco, pronto, 500 mil nerds em ação conjunta. Como a maioria dos nerds tem inteligência acima do normal, podemos considerar esse grupo formado como uma potência demasiadamente relevante.

Pouco a pouco os nerds criaram uma intrincada rede de influência (que eu nem ouso a detalhar) e passaram a ter um poder de locomoção e tele-transporte fora do comum. Eles estavam em TODOS os lugares.

Até que no dia 7 de setembro, o dia fatídico, o dia do desfile das forças armadas, a história começou de verdade. Membros da Mão Negra (o clã dos clãs) se esconderam em prédios da redondeza e ficaram de tocaia para quando o carro do presidente passasse. Juca, nesse momento, um alto graduado no clã, recebera a Sniper que daria o desfecho na estratégia.

Juca mirou e esperou o tempo certo. Na hora da saraivada alegórica de tiros do exército…

Pápápápápápápápá!!! Pápápá!

… Houve despercebido o tiro de Juca

PÁ!

Head Shot no Presidente da república.

Resumindo, em nove meses, os nerds se rebelaram, armaram todos os planos possíveis e deletaram o presidente da vida pública do país (aliás, não só da pública, mas de qualquer uma). Uma semana depois, Hugo Chávez dava um golpe de estado e assumia o controle do Brasil.

É por isso que eu digo… Não mexam com nerds, eles são muito…muito perigosos…


Pedro (um nerd)

set 24

Valer a pena

“Men see things in a box, and women see them in a round room.”

Eu tinha um amigo que dizia que “ser feliz” era um momento, era isso mesmo que ele falava: “A felicidade é um momento”. Mas acho que ele não passava muito por esses momentos, vivia deprimido e não soube acompanhar o resto. Foi ficando pra trás, cada vez mais, até que numa das melhores festas que eu já fui com o pessoal da escola, alguém olhou pros lados e perguntou “Cadê ele? Cadê?” e percebi que não fazia idéia de onde ele estava, do que estava fazendo, e nem do que tinha virado. Preciso te confessar isso, me incomoda a maneira como os outros vão embora das nossas vidas. É tão natural que parece certo demais para você lutar contra.

Eles simplesmente se vão, desaparecem e um dia enquanto você toma um copão de café com creme, vê essa mesma pessoa com 5 kgs a mais e uma aliança no dedo sentando na mesa ao lado, e você se dá conta que não conhece mais aquela pessoa. Ele poderia ter morrido sem você ter jogado flores no caixão. Ele poderia ter sido preso sem você botar a mão na boca e dizer “Meu Deus do céu”, ele poderia ter chorado tantas vezes sem nem pensar que a sua presença fosse talvez uma salvação ou maldição. Então você simplesmente se levanta da mesa, deixa uma gorjeta miserável para o garçom e vai embora. E no momento em que sai, aquilo tudo não existe mais.
Aquela pessoa é mais uma pessoa no mundo, e não importa muito quais seus sonhos e suas felicidades. Porque de certa forma ela não existe mais. Não para você.

Mas, nós, pessoas, temos a (in)feliz capacidade de substituir. Sei que você vai gritar comigo quando ler esse trecho, mas sabe que é bem verdade? Esse meu amigo por exemplo, ele era um baita amigão. Engraçado, fazia massagem sempre que eu pedia, e naquele dia que eu torci o pé, me levou nos braços até a enfermaria, mas um dia o telefone dele foi apagado, e não vou dizer que “foi a vida que o apagou”.
Não! Porque quem o apagou fui eu. Tenho consciência disso. O dele foi apagado da memória 27 e quando pego o celular, vejo que outra pessoa entrou na memória 27. Ele foi substituído, assim como eu também fui na vida e na agenda dele. E deveria me sentir triste por isso? Acho que nem está no meu direito.
Só espero que quem tenha me substituído seja… Hmm… Bem… Seja alguém que faça valer a pena.

Porque no final, é só isso que importa, né? Ter valido a pena ou não. Se no dia que tudo acabar, nada tenha valido a pena, eu não quero mais gastar meu tempo pensando nisso. Você me entende? Não quero me matar pelo que não posso mudar, e nem fazer um novo depois (que não é mais meu). Quero ter isso como sonho então. Agora mesmo!


Corra Mary

set 21

Fim

“‘Não quero ter esperança de mais nada. nao quero rezar para que Max esteja vivo e em segurança. Nem Alex Steiner.
Porque o mundo nao os merece.
”
(A menina que roubava livros)

Porque não podíamos ser como os amigos? Os felizes amigos que dentre as milhões de ligações, queixavam-se de tamanha felicidade, de sua sorte surreal do mesmo caminho que percorri, mas não passei da linha que separava a luta da condecoração. Era isso o que eu queria, era tudo o que eu mais queria, mas sabia que nunca se tornaria real. Pensava nas vezes que quase cheguei lá, cheguei, chegamos, perto, pertíssimo, tão perto que tocávamos todas as arestas existentes, e antes de ser jogada para fora com toda a raiva de quem me odeia, eu disse a mim mesma “É o fim”, e essa certeza já trazia o fim consigo.

Embora já não exista mais qualquer rastro disso tudo que eu falo, eu ainda sigo e vivo de um nome que não continuou. Não há verdade em não existir desde quando me lembro de estar padecendo no que eu amei como uma mãe ama seu filho, e seja lá qual for a solução, eu a afasto e nego veemente enquanto saboto dias de livre escolha, optando pelas noites na cama, sentindo tudo de ruim que desejo igualmente a você.

Já não vejo mais necessidade em buscas cansativas pela esperança. Esperança da qual na verdade, eu nunca soube traduzir em palavras exatas. Era mais como um sonho de criança, ter o que se podia ver, mas se expressar se tornava tão difícil quanto buscar. Seguia com a cabeça cheia, e os olhos cegos, por horas que se tornavam dias, e aqueles minutos sobre manchas frias, passavam correndo, quando eu pouco me importava com o que passasse, queria mais que o mundo explodisse, e o depois, a gente arrumaria.

Não te sataneio. Por mais que meu ódio seja inegável e minhas palavras duras, não te quero na lama da pior tempestade que eu posso imaginar, mas é impossível não desejar que comas da mesma fruta podre que me sirvo nesse banquete eterno ao qual você me pôs sentada com a mesma obediência de um animal de estimação com seu dono.


Corra Mary

set 17

Dona Dora F. 51 anos, homofóbica e suicida

Doralina Fernandez de Albuquerque era casada com Josival Albuquerque, um magnata do ramo dos laticínios. Josival fez muito dinheiro em cima de sua mais rentável invenção: “Foffy cheese”, uma espécie de polenguinho com aromas especiais como cebola e salsa, frango à passarinho, macarrão à balonhesa entre outros. Era um estouro entre a criançada. Dora achava as idéias do marido um pouco femininas demais, mas nunca foi capaz de contestá-lo, afinal, foffy cheese era a razão do luxo dos Albuquerque.

Depois que Frederico, o segundo filho, nasceu, a cabeça de Josival entrou em parafuso. Começou a ficar frio e distante, já não beijava a mulher com aquele velho ímpeto dos adolescentes, era grosseiro com a família… Estava infeliz. Foi quando ele percebeu que, na verdade, amava homens. Josival deixou um pequeno recado em cima da mesa e nunca mais apareceu:

“Querida Dora. A chama apagou. A culpa não é sua, meu amor. Preciso de mais do que você pode me oferecer. Vou embora com Renato, meu sócio… Espero que você se recupere.

Obs.: Não se preocupe, vou pagar a pensão direitinho…”

Dora pensou em se matar, mas depois pensou nas crianças, elas só tinham a mãe no mundo agora. A amarga mulher se comprometeu a criar os filhos numa ditadura total, para não haver um “desvio de rumo” que a falta de uma figura paterna poderia ocasionar nas crianças. A partir daquele dia, Dorinha criou uma tabela de regras rígidas:

- Nada de priminhas com as suas barbies contaminadas por perto.

- Nada de Discovery kids.

- Nada de desenho do Bob esponja ou afins.

- E nada que pudesse sugerir qualquer coisa que Dora achasse no mínimo maculador.

Frederico e Rogério cresceram héteros, só que humanistas e prafrentex. Também pudera, com anos de repressão da coronéia Dora, os dois começariam a questionar a hierarquia uma hora ou outra. É aquela coisa, os filhos sempre vão ser diferentes dos pais, não adianta. Os dois viviam discutindo com a mãe, falando que ela era muito homofóbica, e que todos deveriam ter direitos iguais e tal e coisa e coisa tal. Dora achava muito estranho, mas não falava nada, afinal, os filhos foram criados com total rigidez e sem espaço para “desvios” (Isso é uma história, ok? “Desvios” sempre com aspas).

Até que um dia Frederico e Rogério estavam conversando sobre suas namoradinhas…

- Fui lá na casa da Lalá ontem, cara…

- E aí? Rolou? Bimbou? Funfou?

- Nããão… Ela só pegou no meu pênis…

- Cara, eu não sei por que, mas eu odeio falar “pênis”, sabia? É tão… pouco sexual, tão ultrapassado… Acho que até D Pedro I deveria achar “pênis” brega…

- Porra, você prefere “piru”?

Nesse momento, Dora, a ditadora, passa pela porta do quarto, e não consegue deixar de ouvir a conversa…

- É, eu prefiro piru…

-Ah, não sei… Eu gosto de pênis…

E no dia seguinte, há 519 km dali, o ex-marido Josival lê uma nota no jornal:

“Mulher desesperada se joga do 15º andar.

“Doralina Fernandez deixou um recado dizendo que desgostos familiares seria a razão de seu suicídio.”


Pedro

set 14

22 Cds

“(…)o padre Lima fugiu com a filha do barbeiro, que deve ter virado mula-sem-cabeça, a filha, não o padre, nem o barbeiro. ”
(Caio Fernando Abreu)

Sempre gostei de nomear as pessoas com músicas. Assim não tinha dificuldade em situar cada uma delas no tempo em que aconteceram.
Com pessoas você se engana muito. Elas sempre fazem o tempo real parecer muito mais distante ou mais recente do que realmente são.
Como quando se conhece aquela pessoa. Diferente de todas as outras do mundo, alguém que você com toda certeza pode chamar de “uma pessoa única”, e tudo aquilo de only-one, only-only-one, only-only-only-one faz todo o sentido.
E num dia besta, bate aquela vontadezinha de estar com esse alguém que você não sabe mais se fazem 5 minutos ou 5 anos que se conhecem.
As lembranças se misturam com sonhos nas madrugadas de deprimentes-segundas e a realidade se mistura com a fantasia.
O tempo passou, parou, não existiu, e você se perdeu.

Ah, mas com música não. O que é hit nesse verão, será desse verão para sempre e nada nem ninguém poderá trocar de estação ou eventualmente repetir quando bem desejar por puro luxo.
Músicas não mentem, não se enganam, não dão a sensação de Zézinho ou Juquinha, que não pertença a Zézinho ou Juquinha.
É o que embala pensamentos e sentimentos de um dia, um momento, uma fase, ou uma vida inteira, então, como uma esponja, sugam cada gota fria de sensação, e futuramente nas vezes em que são ouvidas 9, 10 vezes incessantemente, são lembradas e relembradas com todo o gosto doce ou amargo que carregam.

Quando resolvo mexer na pilha de CDs em cima da cômoda que minha mãe e eu pintamos no último Natal, conto cd por cd até chegar no tal. Seguro na altura do rosto, olho por alguns segundos, penso em Zezinho (ou quem sabe, Juquinha) e cantarolo na melodia da música:
“Já fazem 22 cds que você foi embora. Não 21, não 23. Mas 22. E em 22 cds, tantas músicas acontecem, rapaz!”


Corra Mary

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