Archive for agosto, 2008

Corra Mary

“É uma piada.
Duas velhinhas em um hotel fazenda na montanha:
Uma diz: “A comida aqui é um horror”!
A outra diz: “Eu sei, porções minúsculas”.
É assim que eu vejo a vida:
cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza e acaba rápido demais.”
(Trecho do filme Annie Hall)

Aquilo tudo não era pra mim, sempre achei que escola realmente, não fosse para pessoas como eu. Aquilo tudo de leis, mols, biologia e física, faziam qualquer um enlouquecer. Já havia repetido dois anos, e se bombasse mais um, meu pai ficaria uma fera.

Doutor, era assim que a empregada o chamada. Para alguém que nunca fez doutorado, era mais luxo que o pedido. Sorriso bonito, barba bem feita, um advogado brilhante, em que a única ocupação da toda sua vida que não tinha sido um grande sucesso, foi na de ser pai.

Uma vez conheci um fulano que me lembrava meu pai. Um futuro médico, rapaz educado e um poço de inteligência que chegava a dar nojo, daqueles que fazem qualquer um se sentir estúpido diante de 20 e poucos anos sem saber que tirar a cutícula da unha, abre caminho para bactérias e infecções que 100% das peruas nunca aprenderão em anos de manicure nos salões de Ipanema.

“Ele fez Santo Inácio”, e isso enchia barriga, aquele lance todo de escola, números e logaritmos era para alguém como ele. Um orgulho para qualquer pai.

E que agora, gastava suas tardes de quinta-feira mostrando em hospitais públicos, desenhos de massinha colorida e repetindo incessantemente “O preservativo, minhas senhoras, não pode ser reutilizado”, para pobres coitadas prenhas que contavam as moedas para mais tarde comprarem o leite na padaria que seus murchos seios em dois ou três meses cessariam.

E as donas o olhavam com cara de empadinha “O que esse jovem sabe da vida?”. É meu rapaz, o mundo fora do hospital é maior do que sua cabeça instruída consegue entender. Parece fácil, e é, mas foi sua escolha ser o responsável por falar, falar, falar, até se cansar de não ser ouvido, e aí falar mais um pouco. Mas só até as 5 da tarde, porque o trânsito em frente ao shopping, a essa hora, fica uma loucura.

Corra Mary

Corra Mary

“- E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte.”
(Caio F. Abreu)

O gosto daquele café era amargamente insuportável, mas tomava sem deixar uma gota no fundo, revezando entre mais café e cigarros de filtro amarelo.
O que era para ter sido uma ida ao boteco, se transformava numa mesa de duas pessoas que tomavam bebidas duvidosas e hora ou outra, grunhiam palavras que se podia entender “é né?” ou “mas e então?”.
Alguns segundos depois ele soltou assuntos de como foi seu dia, seu trabalho e histórias de contos fantásticos, onde eu tinha quase como obrigação, peneirar todo o exagero e as tornava tão cotidianas e ordinárias quanto a ida àquele boteco.

Gostava de passar o dia inteiro ouvindo aquilo.
Depois de anos escutando cada palavra de cada sentença fantástica, você começa a ganhar gosto pelo ouvir, sem a necessidade quase vital de sempre falar, querer contar e passar para alguém o que começa a pensar alto.
Só sentava e ouvia: “Você se tornou uma pessoa diferente. Não bebia, não fumava, e era horrores de desagradável. Hoje não sei se você é mais eu, ou se eu que me tornei mais você.”

E pouco importava, ele também mudara, e não precisava ser dito, era visível a cada briga com a mãe, cada saída a programas péssimos, a cada namorada e a cada visita ao boteco de cinco anos atrás.

Amizade igual a que tocava na música que minha empregada ouvia no rádio, ou o que fosse, mas há semanas que nossos dias não se batiam, e eu costumava chamar então de necessidade, ou falta. Quando a vida me era triste até o osso ou infinitamente generosa, era sempre ele o primeiro a estar comigo. Falando feito gralha, ou calada feito a menina da sétima série que se sentava na cadeira do canto. Eu podia ser quem eu quisesse ser, porque ele já conhecia o que eu era, o que eu gostaria de ser e o que eu provavelmente nunca seria.
Confortava-me com sorrisos, caras feias, ou quando juntava os dois em “te conheço mais que qualquer um”, e aquilo tudo era o que eu precisava. Podia até chamar de felicidade, e era assim mesmo que eu chamava.

E deixe que nos chamem a festas nunca idas, que o nosso apartamento em Botafogo nos espera com mais cigarros e programas na TV que fazem 6, 7 horas da manhã em claro, parecerem finalzinho de tarde aos que nunca tiveram hora.

Um garoto que vendia chiclete a mesa ao lado, se aproximou e pediu um cigarro.Devia ter uns 13 anos, no máximo, pés descalços e roupas nojentas quase me faziam sentir pena.
- Rapaz, qual a sua idade?
- Eu já tenho 18.
- Tem nada. Isso aqui é pra gente grande e burra. Em que ano você nasceu?
- Sabe o que é, Tia? Depois de tanto tempo na rua, eu já nem sei mais meu aniversário.

Era uma mentira, uma mentira bem contada, mas ainda assim uma mentira. Ou pelo menos minha cabeça cheia de memórias de aniversários e festas das princesas da Disney, acreditava que fosse.
Dei o maço inteiro, porque tudo que eu mais precisava estava comigo todos os dias do ano, era o meu desaniversário mais bem vivido e sentava-se na cadeira ao lado.

Para C.R Arias

Corra Mary

Corra Mary

Para os viciados em Orkut (ou seja, todo mundo que tem internet) o Corra Mary agora também está lá.

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=54362790

Entrem e sintam-se em casa… Ou talvez nem tanto.

Corra Mary

“É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.”
(Clarice Lispector)

A primeira coisa que tenho pensado todos os dias quando acordo, nesses últimos meses, é que hoje é o dia em que vou escrever para amigos, família, amores, desamores e mais uma porção de estranhos, tudo o que tem acontecido desse lado de cá.
Não que vá mudar alguma coisa, mas só de saber que também não piorará, parece bastante vantajoso, para alguém que em momentos de tristeza, se afunda mais e mais em músicas, versos, textos e o que mais puder encontrar que não deixe esquecer daquilo que diz para todos que já passou, enquanto observa a obsessão ganhar pernas, mãos e independência.

Novos dias, novas experiências, novas pessoas, novas tristezas, novas brigas. Teria um milhão de motivos para escrever um livro inteiro de novos assuntos, mas quando sento nessa cadeira, em frente a esse computador, nesse quarto cheio de lembranças, é só isso que consigo pensar, e começo a perceber que tudo o que sou é baseado numa inspiração. Para escrever, dar conselhos e falar como se soubesse realmente do que estou falando. Mas em momentos como esse, quando não se tem mais a tal inspiração, ela vira uma fixação infantil, tudo parece inútil, e não serve pra mais nada além de fazer sofrer.
Não dá para se tirar conclusões, para ser feliz, para se inspirar, já foi tão enxugada que nem mais palavras bonitas se consegue tirar de lá, é só tristeza, é para isso que ela serve, para machucar e doer como se fosse a primeira vez.
Tudo parece velho e batido, como nas milhares de vezes em que os amigos fazem todo aquele discurso chato de “amor próprio” em que tudo o que você pensa é “To cagando para isso”.

Prometo que esse é o último texto que escrevo pensando nisso, da mesma forma como prometi inúmeras vezes não voltar àquele inferno, e que nos segundos em que pensava em voltar, eu via que era um daqueles momentos em que o melhor a se fazer é sempre a pior opção. Nunca haveria paz para aqueles que já começaram no errado, se mantiveram no errado, e a única coisa de certo que fizeram foi se encontrarem sabendo que seria a última vez. As pessoas têm medo de despedidas, mas o meu grande medo sempre foi não ter uma.

Dizem que a vida não nos dá mais do que podemos suportar, mas acho sim que a vida errou de destinatário dessa vez. Não suporto, não agüento, não quero ser forte e principalmente não quero passar disso. É o ponto em que deito de barriga pra cima, abro os braços e digo: “Eu desisto”.
Porque eu desisto mesmo. Não quero dar a volta por cima, não quero enriquecer com livros de “eu consegui, você também pode”, não quero me sentir livre daqui há 5 ou 50 anos, porque não quero que isso passe.
Acho que essa é sempre a parte que as pessoas nunca conseguem entender: Eu não quero que isso passe. Não quero mesmo, de verdade, do fundo de tudo o que me tornei, isso faz parte, e não quero perder toda a amargura que sou.

Não estou disposta a mandar tudo pro inferno, a não mais lembrar das partes boas e ruins sem conseguir distinguir qual era qual, não quero esquecer como se nunca tivesse existido, só tenho como meta, aprender a viver sem, e vou seguir com ela enquanto fizer sentido.
O fim não me faz mal, o que me faz mal é saber que esse fim traz consigo a obrigação de evidenciar o que já não se tem mais.

Corra Mary

Corra Mary

“Não é inveja, eu li no dicionário, inveja é “revoltar-se contra a felicidade alheia”. Eu não tô revoltada, só quero saber porque tá todo mundo se dando bem e a minha vida continua esse cocô!”
(Vaní - Os normais)

Todo santo dia, assim que acordo, tenho sempre a boa vontade de fazer meu dia lindo. Com amigos, risos, flores e filhotinhos de cachorro. O mais feliz possível, com tudo dando certo e na maior harmonia.
Boa vontade não falta, não costumo acordar de mal humor, ou reclamando da vida, mas de uns meses pra cá, a cada dia novo, uma porrada nova.

Ok, sei que a maioria das pessoas vão ler e pensar “Ah, sei bem do que ela está falando, também me sinto assim”, mas acredite, isso não é meramente azar. Não é normal alguém se foder tanto, em tão pouco tempo. É algo maior, mais forte… Só pode ser encosto.

E funciona quase como cagada de pombo: Tu se fode lindamente, e então aparece um engraçadinho e diz: “Ah, não se preocupa não. Depois da tempestade, vem à bonança”.
Bonança?
Como alguém tem a cara de pau de chegar para alguém que se fode mais que Maria do Bairro e falar de “bonança”?
Depois da tempestade, vem à gripe, o nariz entupido, a amidalite… Vem tudo, mas definitivamente, a bonança não!

Acho que quando você vai crescendo, a vida começa a te apertar mais. A relação que você tem com as pessoas, começa a mudar, e tudo se torna mais complicado. Quando se é criança tudo é mais fácil e direto.
Você se machucou no pátio? Pode deixar que a Tia vai escrever na agenda e quando chegar em casa, a mamãe faz um curativo esperto.
Ta apaixonada pelo menininho da outra sala? Faz uns quinhentos coraçãozinhos numa folha de caderno com o nome dele dentro e manda alguém entregar.
Ta puto com o coleguinha porque roubou sua massinha? Espera a hora do recreio e puxa o cabelo dele com bastante força até o chão.

Não consigo lidar com essa nova realidade, novas pessoas, e novas relações, vejo sempre diferente do que está acontecendo, e sempre quando acho que não pode ficar pior, a vida me surpreende e mostra que merda nunca é demais. Coisas que deveriam ser simples, as pessoas complicam.
“Simplifique, simplifique!”
Podem dizer que é fase, que é pessimismo, mas de uma coisa eu estou certa: Banho de sal grosso e olho de boi, serão mais do que bem vindos.

Corra Mary