A vida com eufemismos
jul 10
Vocês já repararam como a nossa vida está inteiramente submersa nessas simpáticas construções gramaticais, que deixam o mundo bem mais agradável? Só pra esclarecer, eufemismo é aquela palavrinha ou frase que você bota no lugar de outra para ficar mais gostosinho de ouvir, ou pelo menos, mais aceitável. Por exemplo, em vez de “Fulanete morreu”, “Fulanete foi dessa para melhor”.
Mais do que mais agradável, talvez o mundo só exista porque as pessoas arranjaram jeitos de expressarem mais delicadamente os seus anseios, coisas difíceis, más notícias etc. Se até a nossa bunda tem a opção de desfrutar de papéis higiênicos delicados e suaves, a nossa mente tem mais do que direito de fabricar e ouvir coisas de mais fácil assimilação. Se assim não fosse, a predisposição do ser humano à escatologia, ao ataque ou à inimizade seria muito maior.
Se você ligar a Tv e prestar atenção, é só ver como certos produtos só puderam ter comerciais vinculados, graças ao eufemismo.
Aquele do Lacto Purga, com o clássico “meu intestino funciona como um reloginho!” é um ótimo exemplo. Se a gatona do comercial falasse “graças a Lacto Purga, consigo defecar todo dia na mesma hora! E sem ser mole, a consistência é excelente!”, o remédio não venderia tanto, por mais que seu objetivo seja esse: defecar bem!
Aquele Corpus da Danone também aposta nessa viagem intestinal fofinha e vende horrores. Se a moça, em vez de falar “Corpus regula seu intestino. Se em 15 dias ele não fizer efeito, devolvemos o dinheiro.”, falasse “Com Corpus, todo o bolo fecal preso no seu cólon desce mais facilmente. Se depois de 15 dias evacuar ainda for um problema, a gente devolve o dinheiro!” seria muito mais engraçado, mas muito mais esquisito!
Continuando a falar de merda, se eufemismo fosse uma falsidade (eu não acho), o anúncio mais honesto, ainda que nem tanto, seria o da Gleid.
-O garotinho com vontade de cagar fala pra mãe a mais pura verdade “mãe, quero fazer cocô”.
- A mãe vai toda feliz. (meio estranho, qual mãe fica feliz com isso? Não é pra ficar triste, mas feliz já é demais) “Então vamos!”.
- Aí o garotinho fala que quer ir fazer cocô na casa do Pedrinho, porque lá tem Gleid.
Mas o anúncio, ainda sim, é fácil e gostosinho, ainda que a premissa básica seja de que fezes fedem. Mas é só ver o anúncio e reparar que a mensagem ainda é meio que modelada para ficar mais harmônico.
Anúncios de absorventes também são sensacionais. Eles têm tantos eufemismos que até o “sangue de demonstração” passa pelo crivo do civil e aceitável e fica azul aquático. Todos nós e principalmente vocês mulheres sabemos que ninguém é tão realeza a ponto de menstruar azul céu. “Você se sente protegida a noite toda” é basicamente igual a “O absorvente é grande o suficiente para que o sangue não escorra durante a noite”.
Pois é, eu poderia falar sobre o comercial da Lucretin para higiene íntima (eufemismo), sobre o Boston Medical Group para homens com problemas sexuais (eufemismo), sobre o licor de cacau para matar os vermes (esse sim, mesmo com a Susana Vieira falando não tem tanto eufemismo assim), mas, para um texto sobre a delicadeza na expressão humana, isso aqui já está nojento demais…






