Jonas
Jonas era uma pessoa qualquer coisa. Daquelas pessoas que a gente tem dúvida se tem alma ou não. Aquele tipo de gente que não gargalha, não tem extravagância nem criatividade. São genéricos que Deus fez para preencher o planeta. Pois bem, Jonas era assim.
Tinha um emprego burocrático que, vai ver, nem ele sabia direito para que servia. Ia pro trabalho com vontade de dormir, ia dormir com vontade chorar, e acordava com vontade de morrer. Morava em um apartamento acinzentado, nem feio nem bonito, qualquer coisa como o dono. Tinha uma pasta surrada e camisas para cada dia da semana. Visitava a mãe, quase a contragosto, no asilo uma vez por semana; às vezes uma vez por mês. Ou uma vez por ano, como fez em duas ocasiões.
Jonas só tinha um grande desejo: aparecer no jornal. Mas não em uma notinha qualquer, ele queria virar uma manchete na primeira página! Só que o problema era o seguinte: o que Jonas teria que fazer parar virar notÃcia?
- Poderia matar alguém. Mas Jonas não queria deixar uma imagem negativa. Além do mais, era medroso, não conseguia nem encarar alguém com os olhos, que dirá matar.
- Poderia tentar entrar num desses programas com câmeras numa casa cheia de gente legal e descolada. Mas Jonas era qualquer coisa, menos legal e descolado.
- Poderia se matar em um lugar conhecido e com muito movimento. Isso era fácil, só bastavam três coisas: altura, gravidade e gente para ver e se impressionar.
E foi essa opção que Jonas escolheu. Ele morreria, mas teria certeza de que todos os jornais mostrariam seu rosto estampado nas suas páginas principais. Já ficava até imaginando a manchete: “Jonas, um homem brasileiroâ€, “Morre um mito do cotidiano†ou até mesmo “Jonas sai da vida para entrar para históriaâ€. Já tinha até escolhido o local. Pularia do alto do maior hotel da cidade, afinal de contas, até o presidente estava hospedado nele, seria um espetáculo.
Jonas escreveu um bilhete de despedida que ninguém leu e colocou, em plena quarta-feira, uma camisa de domingo e uma calça de sábado. Saiu de casa com um sorriso na cara e o manteve até o fim. Do caminho da sua casa até o hotel, brincou com uma criança, tomou um sorvete, piscou pra uma moça (que sorriu de volta) e tomou outro sorvete (o palito do primeiro veio premiado). Parece até irônico ser feliz só no dia da morte.
Jonas chegou ao hotel, cumprimentou o moço do check in e subiu para o andar mais alto que pôde. No parapeito da janela, olhou pro céu, deu uma piscadela para Deus e se jogou…
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Plaft!
E no dia seguinte, saiu a manchete nos jornais
“Presidente morre atingido por um corpo não identificado.â€
Pedro
