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Archive for julho, 2008

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jul 30

Jonas

Jonas era uma pessoa qualquer coisa. Daquelas pessoas que a gente tem dúvida se tem alma ou não. Aquele tipo de gente que não gargalha, não tem extravagância nem criatividade. São genéricos que Deus fez para preencher o planeta. Pois bem, Jonas era assim.

Tinha um emprego burocrático que, vai ver, nem ele sabia direito para que servia. Ia pro trabalho com vontade de dormir, ia dormir com vontade chorar, e acordava com vontade de morrer. Morava em um apartamento acinzentado, nem feio nem bonito, qualquer coisa como o dono. Tinha uma pasta surrada e camisas para cada dia da semana. Visitava a mãe, quase a contragosto, no asilo uma vez por semana; às vezes uma vez por mês. Ou uma vez por ano, como fez em duas ocasiões.

Jonas só tinha um grande desejo: aparecer no jornal. Mas não em uma notinha qualquer, ele queria virar uma manchete na primeira página! Só que o problema era o seguinte: o que Jonas teria que fazer parar virar notícia?

- Poderia matar alguém. Mas Jonas não queria deixar uma imagem negativa. Além do mais, era medroso, não conseguia nem encarar alguém com os olhos, que dirá matar.

- Poderia tentar entrar num desses programas com câmeras numa casa cheia de gente legal e descolada. Mas Jonas era qualquer coisa, menos legal e descolado.

- Poderia se matar em um lugar conhecido e com muito movimento. Isso era fácil, só bastavam três coisas: altura, gravidade e gente para ver e se impressionar.

E foi essa opção que Jonas escolheu. Ele morreria, mas teria certeza de que todos os jornais mostrariam seu rosto estampado nas suas páginas principais. Já ficava até imaginando a manchete: “Jonas, um homem brasileiroâ€, “Morre um mito do cotidiano†ou até mesmo “Jonas sai da vida para entrar para históriaâ€. Já tinha até escolhido o local. Pularia do alto do maior hotel da cidade, afinal de contas, até o presidente estava hospedado nele, seria um espetáculo.

Jonas escreveu um bilhete de despedida que ninguém leu e colocou, em plena quarta-feira, uma camisa de domingo e uma calça de sábado. Saiu de casa com um sorriso na cara e o manteve até o fim. Do caminho da sua casa até o hotel, brincou com uma criança, tomou um sorvete, piscou pra uma moça (que sorriu de volta) e tomou outro sorvete (o palito do primeiro veio premiado). Parece até irônico ser feliz só no dia da morte.

Jonas chegou ao hotel, cumprimentou o moço do check in e subiu para o andar mais alto que pôde. No parapeito da janela, olhou pro céu, deu uma piscadela para Deus e se jogou…

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Plaft!

E no dia seguinte, saiu a manchete nos jornais

“Presidente morre atingido por um corpo não identificado.â€


Pedro

jul 21

Loucura incabível

“Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off.”

Não que eu tivesse medo da solidão, ou algo parecido, mas depois de termos dividido inúmeras madrugadas, na última terça sem ele, aquilo bateu feio, tipo pedrada na cabeça, e eu não conseguia não pensar no que ele estaria fazendo, naquele momento, em que, pensava nele.
Devia estar fazendo qualquer coisa de ordinário, dormindo, lendo algum livro merda, ou nos piores dos casos, vendo leilão de boi na TV, mas certamente, seja lá o que estivesse fazendo, não pensava em mim.

Me controlava para não pegar o telefone e num impulso besta, ligar sem dó alguma do seu sono. De certo que me acharia uma louca, oquê, são duas da manhã, e todo aquele teatro de pessoa equilibrada que por noites eu fingia ser, iriam por água abaixo.
O que vamos concordar, é mesmo coisa de louca. Mas eu vivia bem na minha loucura, era feliz assim, e enquanto eu fantasiava com situações inexistentes que eu apertava bem forte os olhos e desejava que acontecessem, uma vida me esperava por trás do vidro, e ela acontecia sem mim. Por baixo da chuva, do sol e da areia, pessoas passavam, conversavam, faziam juras que nunca conseguiriam cumprir, nasciam e morriam, mas eu não saía daquele sofá.
Pensava em fazer a minha melhor cara de coitada e chorar até ficar sem lágrimas, mas ele não me era importante o suficiente para isso.

Ele não era meu salvador, não era um amor, nem quem eu esperei a vida inteira, nem ele, nem porra nenhuma de qualquer outro homem.
Ele era um motivo para eu afundar a cabeça em paranóias infinitas e sofrer como se nunca tivessem me feito sofrer antes, era a minha desculpa para a minha vida lá fora, de que eu definitivamente era uma pobrezinha merecedora de cafuné e chá quente enquanto me lamentava para as amigas.
E sim, uma louca. Uma louca que usava a dor como combustível de sua existência.

E quantas lembranças eu já colecionava, para fazê-lo alguém com o mínimo de relacionamento possível, simplesmente, para mim, existir.
Que por mais que ele sempre estivesse fazendo presença lá, era agora que ele existia. Ele fazia parte dos meus pensamentos e se antes eu cagava para se ele estava vivo ou não, agora eu vivia em função disso. Eu comia para alimentá-lo, eu dormia para descansá-lo. Se num acesso de sadismo, ele me pedisse para ajoelhar no chão e latir, era isso o que eu faria.

E se por algum motivo, alguém sem o menor entendimento da minha forma de ser, me criticasse, eu levantaria e socaria na boca, por Deus, isso não é justo, porque na minha loucura incabível, não havia espaço para racionalidades.

Corra Mary

jul 20

Ser estagiário é uma merda.

Bem, estagiário tem esse nome porque passa por um estágio, sim. Estágio esse que pode ser entendido etimologicamente como um degrau em uma evolução. É um ínterim em que você passa de um merda qualquer a um empregado (qualquer também), ou, em certas empresas, um espaço em que você vai do nada à porra nenhuma. É um tempo da sua vida em que você é carimbado com aquele ferro quente, perde o nome e se transforma numa barata trabalhadeira. Nada mais.

Acho que a única diferença entre estagiários e escravos é que já assinaram uma lei pra libertar os segundos. Ficou chato botar a galera pra trabalhar de graça, comendo ração, morando na senzala, aí redigiram um documento e mandaram todo mundo embora (santo relações-públicas do império). Hoje em dia, há a maravilhosa “bolsa-auxílioâ€, que na verdade deveria se chamar “pochete-ajudinhaâ€, que, como o nome que eu inventei já diz, não dá nem pra comprar jujuba no ônibus, mas… Como há 500 mil seres humanos (baratas trabalhadeiras) lutando pela mesma vaga, o preço pode ser o que for, que a demanda dará conta do recado.

Fazer entrevista de estágio é uma merda maior ainda.

O empregador malandro, que decorou tudo isso que eu escrevi, sabe que pode te ignorar, te fazer esperar por uma hora, te tacar uma torta na cara, que, no final das contas, você vai estar manso, submisso e pronto pra entrevista. Hoje eu tomei um chá de cadeira de uma hora e 15 minutos. Bem, se marcou às 3 e sabe que não vai conseguir atender na hora, marca às 4 e meia, pronto, fica todo mundo bem. Eu cheguei nervoso, tenso… Ao final, estava quase dormindo na cadeira, o que me fez achar que isso é uma tática da empresa: te deixa esperando até seu nervosismo acabar, aí sim você está pronto para a sabatina.

O pior é ter que ouvir toda a proposta de mais-valia da empresa, ouvir que o dinheiro é ridículo, mas o trabalho é pior, ouvir várias coisas, e você, sem um pingo de amor próprio, só pensando “aham, aham, me contrata, me contrata!â€. Entrevista de estágio é algo tão escroto, tão escroto, que na melhor das hipóteses, você sai com um estágio! Bleeeerg!

Eu preciso arranjar algum jeito alternativo de ganhar dinheiro. Com jornalismo isso não vai acontecer nem fudendo. Aliás, talvez só fudendo mesmo, mas acho que não tenho predisposição a fazer amor no sofá com o meu futuro chefe.


Pedro

jul 15

Considerações essenciais sobre Pokemons, Orkut e vergonha

Nas minhas férias de 2001, eu descobri despretensiosamente no programa da Eliana o desenho que mais marcou a minha adolescência: Pokemon. O chato é que eu já tinha de 15 pra 16 anos, e nessa fase o que a gente mais quer é proclamar ao mundo uma auto-afirmação do tipo “eu sou descolado e independente, resumindo, sou mau à veraâ€. Minha mãe, por puro instinto maternal, sempre vinha me dar a mão na rua e eu tirava grosseiramente, não queria que ninguém me visse de mão dada com a mamãezinha (ainda que me desse sempre um leve remorso de fazer essa maldade). Ver Pokemon era outra coisa que não condizia com a minha imagem de adolescente descolado, por isso eu morria de vergonha de assumir que via.

A minha sorte é que uns dois amigos meus começaram a assistir também (a gente tinha descoberto que passava no Cartoon) e todo dia às 17 horas nos reuníamos em uma espécie de maçonaria informal e secreta para vermos as aventuras de Ash, Pikachu e toda a turminha. Mas, perante a sociedade, eu sempre ia com 50 pés atrás nas conversinhas:

- Qual seu desenho animado, Pedro?

- Ah, Dragon Ball Z (sangue, muito sangue), X-Man (socialmente bem aceito no mundo juvenil masculino)…

- Pô, irado, eu me amarro em Simpsons e homem-aranha…

- Pois é… Hoje em dia todo mundo vê Pokemon, né? Que merda… (naquele desdém esperto, com a esperança de falar pelo menos um pouco sobre meu desenho favorito).

- É, horrível! Que infantil

- (dor no coração), ééé! Mas eu vi alguns episódios… Meu primo… É… Meu primo sempre está lá em casa e enche meu saco pra ver com ele.

- Putz, minha irmãzinha me fez ver até a liga Pokemon!

- A liga foi fodaa! Errr… Putz, foda, hein? Que merda…

No fundo, no fundo, todo mundo via Pokemon e fingia que não via. Ver Pokemon era o pecado particular de cada um, e quem assumia, era tido como crianção babaca. Acho que, na verdade, o maior crianção babaca da roda era eu mesmo, mas enfim. A mesma coisa com Rebelde. Mas Rebelde eu nunca vi, juro.

Hummm, mas o que isso tem a ver com Orkut? Eu não tenho vergonha de Orkut, até porque, se tivesse, a minha vida seria a maior falsidade do mundo, porque eu vivo nele. O que me envergonha é a legitimação que eu dou ao site como a nova instituição brasileira obrigatória.

A pessoa já tem que tirar Certidão de Nascimento, Carteira de identidade, Cpf, Carteira de motorista, Certificado de reservista (eu tive, pelo menos), Carteira de trabalho, mas se não tiver Orkut, ela passa a ser desacreditada como ser humano. É como se fosse um estágio básico pro indivíduo deixar de ser um holograma e virar alguém de carne e osso. Sempre pensamos “porra, ele não tem Orkut? Qual é o problema dele?â€. Eu, por exemplo, fui roubado há mais de um ano e até hoje não fiz a segunda via da carteira de identidade… Mas entro no Orkut todo dia e me sinto um cidadão que pode morrer sem correr o risco de passar como indigente.

O Orkut também tem aquele caráter de legitimador de casais, não é verdade? Quando queremos saber se um suposto casal está namorando , é só entrar nos orkuts deles e ver o status. Se não tiver “namorando†é 99% de que realmente não estejam, porque a gente não admite que as pessoas escondam pra toda a sociedade o início de um lindo matrimônio (haha, que forçação).

E se a gente tivesse essa curiosidade absurda e a necessidade obrigatória de dar satisfação a todos os seus 637 amigos há 10 anos? Talvez tivéssemos que usar camisas ou placas de neon com os dizeres “namorando fulaninha (o)â€:

- Pedro, esse aqui é minha amiga Claudinha. Pedro, Claudinha, Claudinha, Pedro.

- Prazer, Claudinha, eu sou heterossexual e estou solteiro. Não vivo sem amigos, ar, drogas lícitas, paixões e roupas, com os relacionamentos anteriores aprendi que…

Daqui a pouco o site vai botar novos status como “Namorando, mas traindo adoidadoâ€, “Só comendo umas por aíâ€, “namorando (com Deus)†ou “Encalhadoâ€, porque a curiosidade das pessoas não se satisfaz mais com o que tem no Orkut.

Vale lembrar que mesmo criticando tudo isso, eu faço parte desse aparato, tenho vergonha, mas sigo à risca o que todo mundo faz. E sempre torço o nariz pra quem é prafrentex o suficiente de não me dar satisfações diariamente. E sim, ainda sei o nome de mais 100 Pokemons de cor e salteado.


Pedro

jul 13

Sacanagens na cama

“Se a música é o alimento do amor, toquem mais, e mais, para que o amor se empanturre e morra”

E no ápice do amor entre duas pessoas, ele e ela transavam como se não houvessem vizinhos.
Ela apertou o lençol com força e entre gemidos, gritou:
- Me xinga! Quero sacanagem!

Com toda sua vocação para prostituto barato, ele começou:
- Puta que pariu, ainda bem que você pediu, to com isso entalado há uns meses já.
Tu tem que voltar a malhar, ta ficando com uma pochete que não tinha antes.
Não pode ficar acomodada não, sua irmã mais nova ta ficando mais gostosa que você. Aliás, ela é adotada, não é!? Porque com aquela bunda maravilhosa, ela só pode ser filha do leiteiro.
E agora olhei pra baixo, e lembrei: Seu pé.  Pois é, querida, seu pé!
Com essas unhas todas pra fazer desde o mês passado… Sei lá… E esse seu dedo do meio aí, maior do que os outros. Nossa, me dá calafrios.
E agora, olhando aqui assim de cima, seu cabelo ta bem ruim, viu!?
Precisa refazer aquela progressiva mixuruca que tua mãe te pagava. E por falar na tua mãe, aquela vaca escrota, no último almoço lá na tua casa, quase mandei a tomar no meio do olho do cu sujo dela, que o bêbado do seu pai com certeza nem deve comer mais. Que aliás, faz ele muito bem.
E por falar nisso. E o cuzinho, amor, não rola hoje não?

Corra Mary

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