Archive for julho, 2008

Pedro

Jonas era uma pessoa qualquer coisa. Daquelas pessoas que a gente tem dúvida se tem alma ou não. Aquele tipo de gente que não gargalha, não tem extravagância nem criatividade. São genéricos que Deus fez para preencher o planeta. Pois bem, Jonas era assim.

Tinha um emprego burocrático que, vai ver, nem ele sabia direito para que servia. Ia pro trabalho com vontade de dormir, ia dormir com vontade chorar, e acordava com vontade de morrer. Morava em um apartamento acinzentado, nem feio nem bonito, qualquer coisa como o dono. Tinha uma pasta surrada e camisas para cada dia da semana. Visitava a mãe, quase a contragosto, no asilo uma vez por semana; às vezes uma vez por mês. Ou uma vez por ano, como fez em duas ocasiões.

Jonas só tinha um grande desejo: aparecer no jornal. Mas não em uma notinha qualquer, ele queria virar uma manchete na primeira página! Só que o problema era o seguinte: o que Jonas teria que fazer parar virar notícia?

- Poderia matar alguém. Mas Jonas não queria deixar uma imagem negativa. Além do mais, era medroso, não conseguia nem encarar alguém com os olhos, que dirá matar.

- Poderia tentar entrar num desses programas com câmeras numa casa cheia de gente legal e descolada. Mas Jonas era qualquer coisa, menos legal e descolado.

- Poderia se matar em um lugar conhecido e com muito movimento. Isso era fácil, só bastavam três coisas: altura, gravidade e gente para ver e se impressionar.

E foi essa opção que Jonas escolheu. Ele morreria, mas teria certeza de que todos os jornais mostrariam seu rosto estampado nas suas páginas principais. Já ficava até imaginando a manchete: “Jonas, um homem brasileiro”, “Morre um mito do cotidiano” ou até mesmo “Jonas sai da vida para entrar para história”. Já tinha até escolhido o local. Pularia do alto do maior hotel da cidade, afinal de contas, até o presidente estava hospedado nele, seria um espetáculo.

Jonas escreveu um bilhete de despedida que ninguém leu e colocou, em plena quarta-feira, uma camisa de domingo e uma calça de sábado. Saiu de casa com um sorriso na cara e o manteve até o fim. Do caminho da sua casa até o hotel, brincou com uma criança, tomou um sorvete, piscou pra uma moça (que sorriu de volta) e tomou outro sorvete (o palito do primeiro veio premiado). Parece até irônico ser feliz só no dia da morte.

Jonas chegou ao hotel, cumprimentou o moço do check in e subiu para o andar mais alto que pôde. No parapeito da janela, olhou pro céu, deu uma piscadela para Deus e se jogou…

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Plaft!

E no dia seguinte, saiu a manchete nos jornais

“Presidente morre atingido por um corpo não identificado.”

Pedro

Helo

Acabou a luz na minha casa. Não que, a princípio, isso seja um problema. Eu respirei aliviada por ficar longe de MSN e orkut por alguns instantes. Um momento de paz e leveza. Um momento.

Olhei para o meu aquário sem oxigenação, filtragem e sem luz e encarei a realidade: acabou a luz. Fudeu! Quem me conhece sabe que meus peixes são quase como filhos meus, que eu tenho uma paixão por eles que beira o absurdo, mas foi então que eu pensei: como eu fico? Os peixes são de menos.

Pensei no e-mail do meu professor sobre a orientação da minha monografia, e se ele pedisse pra eu levar o material hoje? E se alguma empresa me chamasse para um estágio, pedindo para eu responder o mais rápido o possível?

Pensei em fazer outra coisa para me distrair. Liguei a televisão. Óbvio, ela não ligou. Pensei na minha infância, quando eu não me importava que faltasse luz - de dia.

No pânico, peguei meu laptop. Pensei “mas o que é que eu vou fazer com ele sem Internet?“. Mas, naquele momento, eu respirei aliviada. A luz dos meus peixes voltou a acender. A vida voltou ao normal.

Helo

Corra Mary

“Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off.”

Não que eu tivesse medo da solidão, ou algo parecido, mas depois de termos dividido inúmeras madrugadas, na última terça sem ele, aquilo bateu feio, tipo pedrada na cabeça, e eu não conseguia não pensar no que ele estaria fazendo, naquele momento, em que, pensava nele.
Devia estar fazendo qualquer coisa de ordinário, dormindo, lendo algum livro merda, ou nos piores dos casos, vendo leilão de boi na TV, mas certamente, seja lá o que estivesse fazendo, não pensava em mim.

Me controlava para não pegar o telefone e num impulso besta, ligar sem dó alguma do seu sono. De certo que me acharia uma louca, oquê, são duas da manhã, e todo aquele teatro de pessoa equilibrada que por noites eu fingia ser, iriam por água abaixo.
O que vamos concordar, é mesmo coisa de louca. Mas eu vivia bem na minha loucura, era feliz assim, e enquanto eu fantasiava com situações inexistentes que eu apertava bem forte os olhos e desejava que acontecessem, uma vida me esperava por trás do vidro, e ela acontecia sem mim. Por baixo da chuva, do sol e da areia, pessoas passavam, conversavam, faziam juras que nunca conseguiriam cumprir, nasciam e morriam, mas eu não saía daquele sofá.
Pensava em fazer a minha melhor cara de coitada e chorar até ficar sem lágrimas, mas ele não me era importante o suficiente para isso.

Ele não era meu salvador, não era um amor, nem quem eu esperei a vida inteira, nem ele, nem porra nenhuma de qualquer outro homem.
Ele era um motivo para eu afundar a cabeça em paranóias infinitas e sofrer como se nunca tivessem me feito sofrer antes, era a minha desculpa para a minha vida lá fora, de que eu definitivamente era uma pobrezinha merecedora de cafuné e chá quente enquanto me lamentava para as amigas.
E sim, uma louca. Uma louca que usava a dor como combustível de sua existência.

E quantas lembranças eu já colecionava, para fazê-lo alguém com o mínimo de relacionamento possível, simplesmente, para mim, existir.
Que por mais que ele sempre estivesse fazendo presença lá, era agora que ele existia. Ele fazia parte dos meus pensamentos e se antes eu cagava para se ele estava vivo ou não, agora eu vivia em função disso. Eu comia para alimentá-lo, eu dormia para descansá-lo. Se num acesso de sadismo, ele me pedisse para ajoelhar no chão e latir, era isso o que eu faria.

E se por algum motivo, alguém sem o menor entendimento da minha forma de ser, me criticasse, eu levantaria e socaria na boca, por Deus, isso não é justo, porque na minha loucura incabível, não havia espaço para racionalidades.

Corra Mary

Pedro

Bem, estagiário tem esse nome porque passa por um estágio, sim. Estágio esse que pode ser entendido etimologicamente como um degrau em uma evolução. É um ínterim em que você passa de um merda qualquer a um empregado (qualquer também), ou, em certas empresas, um espaço em que você vai do nada à porra nenhuma. É um tempo da sua vida em que você é carimbado com aquele ferro quente, perde o nome e se transforma numa barata trabalhadeira. Nada mais.

Acho que a única diferença entre estagiários e escravos é que já assinaram uma lei pra libertar os segundos. Ficou chato botar a galera pra trabalhar de graça, comendo ração, morando na senzala, aí redigiram um documento e mandaram todo mundo embora (santo relações-públicas do império). Hoje em dia, há a maravilhosa “bolsa-auxílio”, que na verdade deveria se chamar “pochete-ajudinha”, que, como o nome que eu inventei já diz, não dá nem pra comprar jujuba no ônibus, mas… Como há 500 mil seres humanos (baratas trabalhadeiras) lutando pela mesma vaga, o preço pode ser o que for, que a demanda dará conta do recado.

Fazer entrevista de estágio é uma merda maior ainda.

O empregador malandro, que decorou tudo isso que eu escrevi, sabe que pode te ignorar, te fazer esperar por uma hora, te tacar uma torta na cara, que, no final das contas, você vai estar manso, submisso e pronto pra entrevista. Hoje eu tomei um chá de cadeira de uma hora e 15 minutos. Bem, se marcou às 3 e sabe que não vai conseguir atender na hora, marca às 4 e meia, pronto, fica todo mundo bem. Eu cheguei nervoso, tenso… Ao final, estava quase dormindo na cadeira, o que me fez achar que isso é uma tática da empresa: te deixa esperando até seu nervosismo acabar, aí sim você está pronto para a sabatina.

O pior é ter que ouvir toda a proposta de mais-valia da empresa, ouvir que o dinheiro é ridículo, mas o trabalho é pior, ouvir várias coisas, e você, sem um pingo de amor próprio, só pensando “aham, aham, me contrata, me contrata!”. Entrevista de estágio é algo tão escroto, tão escroto, que na melhor das hipóteses, você sai com um estágio! Bleeeerg!

Eu preciso arranjar algum jeito alternativo de ganhar dinheiro. Com jornalismo isso não vai acontecer nem fudendo. Aliás, talvez só fudendo mesmo, mas acho que não tenho predisposição a fazer amor no sofá com o meu futuro chefe.

Pedro

Helo

Por qual motivo muitas mulheres do orkut botam o maldito texto sobre ser maçã do topo? É realmente uma vantagem ser a maçã do topo?

Não entendo essas mulheres. Dizem que são para os homens atrevidos, os corajosos, os que querem o melhor. O que eu acho estranho é que são exatamente essas gurias, que se dizem o supra sumo da classe feminina, estão sempre solteiras. Elas esperam um homem, não um homem qualquer, mas O homem.

Ouvi esses dias a música do Raul “a maçã”. Lá ele diz “pois quem gosta de maçã irá gostar de todas, porque todas são iguais”. Sim, todas iguais; tirando aquelas impossíveis de serem comidas por algum motivo, à primeira vista todas são iguais.

A diferença é a disponibilidade: as maçãs dos galhos mais baixos serão de qualquer um, as do meio daqueles que têm paciência de escolher, e as do topo… Apodrecem e caem no chão.

Escaladores de macieiras não existem. Existem Raul Seixas, que escolhem, pegam as mais bonitinhas. Claro, não se pega a primeira maçã que se vê pela frente. Mas as de cima esperam a tanto tempo que devem estar bichadas. Por fora parecem lindas, mas por dentro a raiva de estarem ali, lindas, indisponíveis e num lugar que poucos chegam, acaba por estragá-las por dentro.

O fato de um homem olhar para elas é um fenômeno. Imagino duas maçãzinhas conversando:

-Ontem, aqui, no alto da minha macieira, passou um gatinho e olhou pra mim! Eu tenho certeza que ele volta ainda hoje me colher!

-Jura? Ai que sorte, vocês vão passar a vida toda juntos, terão filhos, ele vai amar você!

-vou lustrar minha casca, afinal hoje eu serei saboreada!

Depois de meia hora, a maçã volta a ligar para a amiga:

-Você não vai acreditar, ele vinha na minha direção, quando uma daquelas lá do meio olhou pra ele! E ele levou ela pra casa! E ela nem tava tão vermelha assim.

-Tudo bem, amiga, lembra que você é a maçã do topo. Só vai te levar aquele que realmente merecer!

Uma vez ou outra um maluco acaba pegando uma maçã do topo, mas é só porque os amigos dele duvidaram que ele o fizesse. Ele dá uma mordida na maçã, sente aquele gosto podre, e joga fora. Sabia que tinha passado do ponto, mas tinha que provar que era capaz.

A maçã, por outro lado, acha que mesmo no chão, ela é uma maçã do topo. Depois de pisada, humilhada, envergonhada por todos os homens que por ela passaram, fica para ela apenas o choro, a depressão e o pensamento “por qual motivo eu insisti em ficar no topo?”.

Helô