Ad infinitum
jun 10
“Uma pessoa olhando para um celular que não toca – não há cena mais idiota. Os celulares foram justamente inventados para que ninguém precise mais ficar aguardando uma ligação ao lado do telefone.”
(Fernanda Young)
Começar uma carta para alguém como você, vinda de alguém como eu, não é um trabalho tão fácil assim, mas alguém nessa história toda tinha que demonstrar alguma consciência, respeito, ou seja lá como você queira chamar.
Durante aquela semana em que você não me ligou, eu passei por aquele típico papel de idiota, chegando em casa e gritando “Alguém me ligou?”, esperando ouvir o seu nome como resposta, e como você já sabe, eu não ouvi. Sua hipócrita-promíscua mãe não costumava te dizer quando pequeno que não se deve prometer se não for cumprir? Ou ensinou e depois de marmanjo, achou que os ensinamentos da velha-calejada-mãe não serviriam para você?
Sabe, rapaz, as pessoas seriam melhores se ouvissem suas mães.
Ainda espero encontrar algum velho conhecido na rua que vá me dar a notícia da sua morte trágica. Com muito sangue e cabeças rolando.
“Pobre coitado, morreu com o telefone na mão”. – Ele dirá, com água nos olhos.
E assim, um quase-nobre homem se desculpará pela sua última canalhice.
Aliás, foi bom entrarmos nesse assunto. Estou longe de ser uma boa samaritana, e não sou nenhum exemplo de candidata a Miss Universo, com todas aquelas falas gravadas de paz mundial, amor eterno e todas essas babaquices, sei como o mundo funciona e as pessoas são. Não esperava nada de você que fosse muita ilusão da minha parte, mas eu esperei aquela ligação. E você sabe o porque! Você sabe a entonação de voz que usou quando disse “Te ligo essa semana”. E você sorriu, eu sei que sorriu, enquanto eu balançava a cabeça e imaginava a caótica semana de espera que me vinha pela frente.
Mas agora muitas semanas já se passaram e não importa mais. Só estou escrevendo mesmo para que você fique tranqüilo. Tenho sanidade o suficiente para não foder com essa brincadeira de mentiras que você adora alimentar. É tão preferível olhar uma falsa perfeição enquanto se está de fora.
Já devia ter aprendido em outras caminhadas, que o podre sempre está no mais fundo que eu possa chegar de algo que se mostre atraente por demais nos primeiros instantes.
Aquela tão esperada luz no fim do túnel, pode ser só o início de uma enorme e fétida vala.
Mas um dia eu aprendo. Se não depois dessa, depois da próxima. Ou da próxima, ou da próxima, ou da próxima….[Ad infinitum]



