Castelo de Dragões

jun 13

Ser execrada por você funciona como um desses exames médicos mais graves, em que “negativo” significa o melhor resultado possível.”
(Fernanda Young)

Olá,
Pode parecer estranho até mesmo para mim, mas resolvi escrever uma carta inteirinha só para você. Depois de tantos esforços para chamar minha atenção seria indelicado da minha parte, não acolher tais apelos tão desesperados.
Sempre achei de uma nobreza ímpar, ajudar os mais necessitados, por isso peço desculpas por não ter dado tanta atenção no começo, mas na minha tola ignorância, sua fixação por tudo aquilo que gostaria de ser, seria passageira.

De uns tempos pra cá, resolvi começar a cuidar mais da minha saúde, já que da minha vida quem fazia questão de cuidar era você, e acho que era isso que mais te deixava furiosa. Você tinha achado alguém que não sentia prazer em entrar naquele jogo de gato-e-rato que você tanto amava, mas algo maior tomava minhas forças o suficiente para não prestar atenção em você: Ser feliz.

Meus sorrisos te eram de um incomodo extremo, e era por isso que eu sorria o tempo todo. De boca aberta e com um som bem alto, enquanto observava o ódio no seu andar passando por mim, com a podre ilusão de que sua presença me intimidaria.

Mas não havia perigo que me tirasse daquela cadeira, eu tinha sido vacinada contra você e se podia me dar ao luxo de sorrir sossegada, era porque havia enfrentado dragões muito antes de chegar ao castelo, and you know what I’m talking about.

Não preciso me preocupar se você lerá essas palavras ou não. Escrevê-las é a certeza necessária de que chegarão ao destinatário correto. Você não mede esforços em ir atrás de tudo que possua o meu cheiro.

Há quem diga que tudo isso não passa de amor reprimido, e se for esse o caso, perdão de novo por te desapontar, mas seria impossível.
Sua cor de cabelo nunca combinaria com meus sapatos.


Bella incompreendida

jun 11

“— Good morning, Mrs. Dixon! I’m the cleaner!
— What? The killer?
— Not yet, Lady, not yet. Only the cleaner…”
(Caio Fernando Abreu)

A independência tomava conta daqueles pequenos olhos castanhos que fitavam seu presente ganho no último Natal: Uma Barbie passeio no shopping.
Seu, por muito tempo, sonho de consumo, mas que entre tantos cigarros de chocolate ao leite, percebera que com aquele umbigo brilhante e tatuagem na virilha, perdera todo o fantástico toque retro, e aquela ambiciosa menina pôs-se a chorar.
A Barbie já não a satisfazia mais. Ela agora queria uma Suzy.
E queria agora!

Na ida ao mercado, os pensamentos pesavam feito chumbo. Aquele dia, não era um dia qualquer.
Bella, seu nome de guerra, por que era assim que gostava de ser chamada, chiquérrima em seu tamanquinho da Sandy, ajeitou a tiara nas madeixas castanhas e correu para o corredor do Yakult, visando o porre daquela noite.

Ela cantarolava um axé qualquer, cantado repetidamente por sua mãe na semana anterior, ao mesmo tempo que se jogava no chão e fazia pirraça, gritando:
“Eu quero o cereal do Bob Esponja. Eu quero. Eu quero. Eu quero.”, enquanto exorcizava seu Chiclete com Banana interior.

Sua madrasta a levantou e com 3 seguidos tapinhas na bunda, a fizeram enxergar o que a menina já sabia fazia tempo: O mundo não era para ela.

Pobre menina rica, flutuando pela órbita de um mundo que não a compreendia.

Chegando naquele apartamento que ainda cheirava a novo, procurava por entre as caixas da mudança, sua tesourinha sem ponta da Estrella.
Com seu Crayon mordido, escreveu num pedaço de folha:

“Oh infortúnio, mundo cruel, dor imensa. Não poderei passar mais 5 anos tentando ajustar um mundo que não se ajusta a mim.”

Cortou aquela inútil redinha, sentou no parapeito da janela e pode apreciar a fria noite de São Paulo. Bella sorriu por uns instantes, e naqueles segundos até chegar ao chão, dentro do conjuntinho das Super Poderosas, sentiu seu magro corpo tomado por uma estranha vontade de gritar bem alto ao mundo o que guardou por tanto tempo. Vontade interrompida quando seu corpo desencarnou no verde do gramado ainda molhado.

Se pudesse sentir algo, sentiria-se realizada.

 

Enquanto D. não volta

jun 10

“Era Ana, era Ana, Pedro, era Ana a minha fome explodi de repente num momento alto, expelindo num só jato violento meu carnegão maduro e pestilento, era Ana a minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos’”
(Raduan Nassar)

Me agarrei a toalhas velhas, e pensei em coisas lindas enquanto D. não voltava.
Eu desejei durante cada dia daquele Outubro que a campainha tocasse e Ah, meu amor, senti tantas saudades. Mas no começo da estação que antecedia minha loucura, baixou como Pomba-Gira a certeza de que D. não voltaria. Tantas histórias antes de dormir que ficaram sem ser contadas, tanta louça suja e garrafas para encher na cozinha, e D. continuava longe.

Escrevi cartas nunca lidas, Volta, D., e a barriga, a cabeça, a vida doíam.
O relógio despertava ás 7 da manhã, e eu permanecia imóvel na cama, com os olhos congelados, como quem não dormira a noite toda.
Não dormi a noite toda.

Mas em situações em que D. não volta, a vida não deixa ninguém na cama por muito tempo. Somos levados por esses dias de sobrevivência, que erroneamente, em momentos sem D, chamamos de vida, e somos empurrados para o trabalho, mercado, e aula de judô das crianças.

E a minha dor era o que eu tinha de mais lindo. Linda como minha felicidade nunca tinha sido, linda como D. não me deixava ser. E eu desejava encarar de novo aquele olhos cruéis e dizer bem baixinho “Me conte sobre seus sorrisos de Monalisa”.

Procurei D. em outros corpos, outros risos, outros abraços e só recebi em troca beijos vazios de quem não era D.
Oito meses de apaguei-seu-telefone-até-nunca-mais, oito meses de remédios para dormir, e volta logo, meu amor.

Mandei todas as roupas e toalhas para a lavanderia, aquele cheiro que me subia nas horas que mais doíam era insuportável. O perfume que eu escolhi para D., agora devia fazer a cabeça de outra gatinha.
Virei um filme de Bergman, um preto e branco, cheio de traumas e com gosto amargo. Mas era só na tristeza que se encontrava a beleza, e pela primeira vez na vida, eu me sentia bela.

Descuidada, magra, com enormes olheiras e sem D., mas belíssima.


Pornografia Poética

jun 10

“Aqui é assim, eu invento o pecado pra vender o perdão.”

 

 

- Eu vi uma vez uma versão pornô da Divina Comédia do Dante. Muito boa! É uma que o cara tarado se vestia de hot dog.
- Continue. Adoro pornografias.
- Tinha um cara que se vestia de elefantinho de pelúcia também.
- Uma vez eu vi numa sex shop uma cueca de elefantinho de pelúcia, e a tromba tinha lugar para entrar o… Você sabe oque. Isso é tão ridículo. Porque alguém vestiria o… Ai, odeio falar essa palavra.(…) de tromba de elefante peludinho? Isso nem sexy é.
- Chega a ser triste.
- Deprimente!
- Pornografia eu gosto de dois tipos: Aquela que tem algo de cult (perversões alternativas, especialmente as orientais) e a amadora de baixíssima qualidade.
- As de baixíssima qualidade são boas porque são reais pra dedél, mas normalmente são com pessoas feias. E que me desculpem os feios, mas eles não me dão tesão.
- Não, eu encontro as de baixíssima com gente bonita, ou pelo menos aceitável.
- Você não é exigente. “Exigente”… Que palavra feia.
- Exigente
Exi gente
Ex gente
- Virou poeta?
- Nunca. Poetas são chatos.
- Que bom. Eu odeio poesia. Eu odeio Clarice Lispector e tudo que pareça uma tentativa disso tudo junto. Tenebroso. Pavoroso. Escroto demais.
- EBA! Então vamos ver pornografia.
- Desde que não tenha nada a ver com poesia e Clarice Lispector…
- Que tal uma pornografia trash dos anos 70 ao som de Clarice Lispector?
- COM Clarice Lispector.
- Ela com Vinícius.
- Com Drummond, aquele velhinho bem vovozinho. Imagine ele, rasgando Clarice ao meio.
- Tapa na cara e cuspe!
- O mais trash possível. Clarice é uma cachorrona…
- Da pior espécie.
- Sabe, acho que to começando a gostar dessa vagabunda, viu?
- Clarice boca loca?
- Clarice putinha do Drummond.

 

 


Bicho-Papão

jun 10

“Você já conheceu o casal perfeito? Aquelas almas gêmeas onde o amor nunca morre? O marido e mulher que confiam completamente um no outro? Se você ainda não conheceu o casal perfeito, deixe-me introduzi-los a você: Eles estão parados em cima de uma camada de creme congelado de qualquer bolo de casamento. O segredo do sucesso deles? Bem, só pra começar, eles não precisam olhar um pra cara do outro.” (Desperate Housewives)


Aribabiba!
Creative Commons License photo credit: mOOrango*

- Eu não sei se a amo.
E a conversa começou assim. Na verdade já havia 4 ou 5 horas que estávamos sentados, naquela mesma posição, vomitando palavras, mas foi com essa frase, que comecei de verdade a me dar conta do que estava acontecendo. Dei um pulo, sentei sobre os joelhos, como fazia quando era pequena, me inclinei para frente e disse:
- Como não sabe? Se você tem dúvidas, é porque não ama.

O amor sempre me foi algo bem resolvido. Para mim, não existiam vertentes, ou se amava, ou não. Nunca fui de viver no meio termo, meias pessoas, meias vidas, e aquilo de meios amores, estava me deixando louca.
Era como ouvir duas músicas ao mesmo tempo. Você sabe que algo acontece, algo soa, consegue perceber riscos de algo familiar, mas não identifica o que é. Não enxerga a beleza, ou a falta dela, e então percebe que de modo algum elas podem acontecer juntas. São separadas, assim são suas naturezas, e foram feitas para existirem em momentos diferentes.

Era difícil entender como alguém que não sentia, conseguia fingir tão bem. Não para o outro, mas para si, há ponto de deixar dúvidas.
Amor não é vontade, não é desejo, não é pura amizade frágil. Quando se ama, dá medo de dizer. E ele dizia toda hora. Ele pintava os muros, gritava aos mundos, um amor que não existia. Ele amava sua fantasia. Risos, caras, cheiros e vozes. Tudo o que considerava perfeito, idealizado numa pessoa, tudo o que desejava que ela fosse. Mas ela não era.
Ele não a amava, ele amava a vontade de amar.

Comecei então a ter orgulho de ser o que eu era. Tinha escolhido viver assim, sem grandes amores, sem grandes emoções, o que me deixava livre também de grandes dúvidas, grandes mentiras e grandes anos indo embora pela privada. E eu estava ok.
Me confortava a certeza de não ter alguém naquele exato minuto dizendo “eu não sei se a amo”, com meu rosto em mente. Isso machuca mais que topada com o dedinho no canto da porta, é cruel, cruel e cruel. Mil vezes cruel.

- Menina, se você tem a sorte de viver como diz, deveria gastar o tempo que julga o infortúnio dos outros, com alecrim e sal grosso.
Ninguém vive sozinho, não fomos feitos para tamanha evolução, e quanto mais achamos que estamos livres desse tipo de necessidade básica, mais estamos implorando por alguém.
Você deve ser a pessoa mais triste que alguém como eu, esbarra pela vida. Solidão é Bicho-Papão atrás da porta.


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