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Archive for junho, 2008

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jun 27

Nao dá mais

“Mister cool, mister often cruel
You’re so unhappy and lonely
Always saying “something is wrong with me”
Well, something is wrong with you, man
because ever since it’s over between you and I
I feel so… amazing!
Mister Unhappy…
Why didn’t you let me be?”
(Julie Delpy)

Saindo da banca de jornal, uma vendedora vira para a outra e pergunta:
“- Ai, será que ele vai me ligar?”

Enquanto guardava o dinheiro, percebi que o que menos ela precisava era uma resposta sincera:

- Talvez até vá. Aí vocês vão combinar de se ver, ele vai te levar para jantar fora, e mesmo não sendo a melhor noite da sua vida, é exatamente isso que você dirá para as amigas no dia seguinte enquanto escreve uma mensagem de texto ignorando a jarra de vinho que caiu no seu vestido novo na noite passada, dizendo que tudo foi perfeito, e que se tivesse sido melhor, estragava.A primeira briga séria será na tão famosa crise dos 3 meses. Ele vai sentir ciúmes de qualquer coisa que se mexa, e você vai jogar na cara dele todas as vezes que se fez de cega. E acredite, não serão poucas…
Todo o romantismo e aquele amor fora do comum serão deixados de lado enquanto você falará coisas sem pensar, ele falará coisas sem pensar, e os dois inevitavelmente ouvirão o que não querem.
No dia seguinte vocês sentarão na praça do shopping para conversar, pedirão desculpas e farão as pazes. E será esse vai e vem por muito, mas muito mais tempo.
Suas capacidades de chorar e sofrer irão surpreender até mesmo a você.
Sua mãe sempre que a encontrar chorando no chão da cozinha, botará a mão no peito e falará “Ai, minha filha. De novo?”
E você ouvirá isso mais do que “bom dia”.
Mas você continuará lutando. É ele quem você quer. Seu vício, sua fixação, sua obsessão, e você não desistirá nunca.
Um dia ele vai chegar e dizer, como se vocês não tivessem tido nada, que “não dá mais”.
Não dá mais? Como assim não dá mais? O que não dá mais é uma calça 36, um sutiã menina-moça… Isso não dá mais!
Como ele pode dizer isso de vocês dois como se fossem roupas velhas? E toda a historia que tiveram? Todas as promessas, os sonhos. Vai tudo isso pro lixo? Como poderá tudo ficar bem, agora que “não dá mais”?
Ninguém disse que seria fácil, e não foi. Mas agora você está novamente sozinha, ele desistiu de lutar com você, e tudo acabou sem você conseguir aceitar o fim….
E tudo isso, pelo infortúnio do seu celular ligado e funcionando muito bem no bendito momento em que ele achou o seu telefone no bolso de trás da calça marrom e achou conveniente te ligar.
Sim, ele vai ligar. Mas seria preferível que não.

Corra Mary

jun 24

Lixo

“A vida não é apagável, pensei. Nem volta atrás. Ainda não construíram a máquina do tempo. Ninguém virá em meu socorro. Faz tanto tempo que invento meus próprios dias. Preciso começar por algum ponto.”
(Caio Fernando Abreu)

Pensando em tudo, só cheguei a conclusão de que aquela merda toda, não me serviu de nada.

As pessoas tem mania de querer tirar uma lição de tudo, mas às vezes não há lição alguma para ser tirada. Simples assim. Não foi bonito o bastante para virar novela, e nem triste demais para virar trauma. Foi algo morno, e assim sempre será.

Acho que é bem coisa de mulherzinha-drama-queen: Exageros e desgastes emocionais, enquanto poderiam botar um salto e ir tomar caipirinha de kiwi.

Que se foda a beleza perdida, que se foda toda essa necessidade de embonecar o lixo, que se foda a charmosa artificialidade do que me atrai.

Prefiro viver sem pontos altos, momentos fortes, na plenitude total da calma que eu tanto invejo. Sem telefone na mão, sem comida requentada, sem socos na porta. Sem data de validade, sem interpretação involuntária de vilã. Na tranqüilidade máxima de uma vida sem esperas. Acordar de manhã, colocar uma roupa, dar bom dia para o porteiro e ir viver minha vidinha ying yang.

Corra Mary

jun 20

Guerlain

“- Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isto depende bastante de onde você quer chegar (…).
- Eu não me importo muito com isso (…).
- Então não importa muito que caminho você irá tomar.”

As crianças brincavam no enorme jardim, enquanto eram observadas por suas babás, que por sua vez, desviavam os olhares atentos para o motorista porto-riquenho.
Era uma família que não vivia no singular, porque o plural os era muito mais conveniente. Uma tentação, impossível de resistir. Era assim que eles eram.

A caçula observava seus irmãos, enquanto arranhava as pequenas unhas nos cantos de madeira da caixinha de areia.

Eram três irmãos. Eles pulavam, riam e jogavam a bola colorida para o alto. E ela percebia, podia sentir, que não era igual a eles. Sabia que não compartilharam do mesmo colostro, mas o beijo na testa tão confortante todas as noites era da mesma boca com gloss Guerlain.

Seus pequenos dedinhos tocaram seus olhos, igualmente diferentes e ela emitiu algumas palavras do seu vocabulário ainda precário: Porque eu sou diferente?

E pela primeira vez, entendeu o que era “diferençaâ€. Não era apenas bom ou ruim, era uma pergunta que ela não possuía respostas, e talvez até papai e mamãe falhassem na tentativa de respondê-la , porque a pequena ainda não sabia o que significava “escolha†e qualquer coisa que viesse após o porquê, seria embasado e nada convincente.

Ela olhou para cima e pensou bem forte:

- Céu, se você não fosse azul, de que outra cor seria?

E apoiou a cabeça nas mãos e chorou. Chorou até ficar sem lágrimas, chorou como a criança mimada que era, chorou até esquecer dos motivos que a levaram a chorar, e chorou até seus pais saírem do carro do ano e presenteá-la com todos os sonhos do mundo, dentro de uma caixa, embrulhada com um lindo papel de presente, da mesma cor do céu azul.

Shiloh não chorava mais.

Corra Mary

jun 15

A igreja de tijolos verdes

“Se uma vaca tivesse a chance, ela comeria você e todos os que você ama.”
(Troy McLure – Simpsons)

Fui acostumada desde pequena a apreciar a boa e velha carne. Meus pais me ensinavam quais eram as melhores partes do boi, que coxinha de galinha se comia com a mão, e que nada melhor com cordeiro do que geléia de menta.
Era impossível fazer uma refeição sem um pedaço de carne para acompanhar. Até que um dia descobri que existiam pessoas que não comiam carne. E o pior: Por escolha própria.

No começo até achava uma graça. Sempre adorei animais, e isso era uma causa que de princípio, poderia até me soar justa, até que percebi que 90% dos vegetarianos, se comportavam como 90% dos evangélicos:
Eles não se contentam apenas em ser, querem que todo o mundo seja também.
E se você não concordar, amiguinho… Espere ser chamado de tudo, menos de bonito.
E nunca é pouco apelar para o sensacionalismo, imagens fortes, vídeos de bichinhos morrendo das piores maneiras possíveis e protestos fortes em ruas movimentadas.

Não coma carne, é cruel, mas se enrolar nu em vitafilm no meio da rua num sol escandalte é tranquilão.

Não espere muito respeito de um vegetariano. Pouco provável ouvir da boca de um:
“Pô irmão, tu come carne? Tudo bem, eu respeito, posso até sentar ao seu lado, mas prefiro ficar só na saladinha.â€
Tente se acostumar mais com:
“É vergonhoso e cruel matar um animal apenas para seu próprio consumo egoísta.â€

Mas onde está o respeito pelas escolhas dos outros? A bondade está só em não por um pedaço de vitela na boca, mas é xuxu beleza agredir alguém apenas pela forma como escolhe se alimentar?
O homem é um animal onívoro, e por mais que maqueiem isso, a carne faz parte da sua cadeia alimentar e as vitaminas contidas na carne são insubstituíveis. Para ingerir a mesma quantidade de proteínas de um bife, uma pessoa teria que comer quase 2,5 Kg de verduras.
Ou seja, ter as mesmas proteínas, até tem. Mas em proporções ridículas.
Nosso sistema digestivo e todo o sistema de processamento de alimentos, está adaptado à carne. Somos comedores de carnes e vegetais. Comemos uns aos outros, e é assim que fomos feitos por uma natureza cruel, de um criador mais cruel ainda. Esse é o dogma central da vida.

Quando se ingere uma simples alface, está matando um ser vivo, que nasce, cresce, e se reproduz, assim como qualquer outro. O alface é formado pelas mesmas macromoléculas que nós e possui um metabolismo muito similar ao nosso.
A verdade é que, não há razão científica (e nem lógica) para se alimentar de uma verdura e não de um suculento pedaço de picanha ao ponto.
No final das contas, ser vegetariano, moralmente falando, é hipócrita e sem nenhuma base científica, porque o motivo de poupar os animais em seu prato não é exclusivamente pelo fato de serem vivos, mas sim porque têm interesses, vontade e consciência.

Veja bem que em momento algum citei que sou a favor do uso de animais para qualquer outro fim. Casacos de pele, rodeios, testes em animais, ou esse tipo de coisa.
Mas não estamos falando de matança por vaidade, estamos falando de matança por necessidade.
Nenhum protestante nunca pensou então em partir para outras causas? Digamos tentar converter outros animais, além do homem.
Poderiam se concentrar em chegar onde vence o “matar ou morrer†e levantar seus cartazes:
“Antílopes são amigos, e não comida.â€

Com licença seu Leão, não querendo pertubar o seu almoço, mas será que o senhor poderia ouvir os benefícios que a troca de um búfalo por um rabanete poderiam fazer em sua vida?


O grande problema não é você fazer a escolha que melhor combine com seu estilo de vida e ideais, mas sim dizer que essa escolha é obrigatoriamente a certa, e que toda e qualquer vertente está errada.

Se você quiser comer carne, coma. Se optar por não comê-la, não coma. Se resolver só viver de luz, boa sorte.
Mas se resolver jogar suas crenças, com seus protestos e argumentos abusivos, esteja preparado para ouvir o dos outros também.

Corra Mary

jun 15

Carta para Giulia

“Apesar de o Brasil também sofrer com suicídios, os problemas por aqui são outros: para cada pessoa que se suicida, 6 são assassinadas e 4 morrem em acidentes com veículos motorizados. Ou seja, as condições de vida no nosso país ainda têm de melhorar para que as pessoas sobrevivam tempo suficiente para pensar em se matar.”
(Revista Super Interessante)


Oi, Giu. Sei que estou mandando essa carta um pouco atrasada, que eu prometi que responderia a sua assim que chegasse, mas está difícil. Não digo isso como desculpa que todos usam quando estão com preguiça ou sem vontade de escrever, mas é porque o tempo ultimamente não está sobrando como na época em que nos conhecemos.

Esses dias passei perto da rua em que vendia o brinco igual ao meu que prometi te comprar. Não gosto mais de entrar naquela rua não. Um amigo meu, (amigão mesmo você deveria conhece-lo) viu uma mulher se jogar do 10 andar, e sempre que passo por lá, lembro dele interpretando o barulho que ela fez quando bateu no chão. Isso me arrepia.
Sabe, fico imaginando quantas outras ruas que eu passo com histórias parecidas, mas não dá em nada, porque ali eu sei, ALI ele me contou que a moça morreu, e não em outro canto. Por isso deixei para comprar seu brinco em Nova Iorque. Espero que as pessoa se suicidem menos por lá.

Gostei de ver aquelas suas últimas fotos que você me mandou. Você fica bem de preto, sabia? Tenho um certo preconceito com roupa preta, apesar de todos acharem que preto fica bem em todo mundo, eu acho que fica bem em todos, menos em mim. Minha mãe discorda, sempre diz que “preto emagrece” e que eu deveria usar mais, mas pra mim isso é conversa. Preto só me deixa feia. E eu continuo não-magra.

Sobre a sua carta, fiquei meio chateada com tudo aquilo que você me contou. Histórias que começam mal, normalmente terminam mal. E isso de as pessoas não prestarem… Sei lá, viu? Eu presto, você também… E somos pessoas!
Algumas não prestam para nós, e provavelmente alguma vez em nossas vidas também deixamos de prestar para alguém, isso é normal. A felicidade de uns, é a tristeza de outros. Só sinto muito, de verdade, por ser a sua tristeza, pq eu sei que você “presta”.

Não sei como andam as coisas por aí, espero que tenha passado naquele maldito exame prático, e que você tenha tirado essa idéia de Hell da cabeça.
Já pensei em tudo isso também. Já achei que não existiam pessoas que “prestassem” e que todo mundo omitisse tudo dos outros, e talvez até seja verdade, mas prefiro não pensar, não agora, não quando as coisas parecem finalmente estarem dando certo.
Vai ver elas só estão dando certo agora por tudo que eu passei antes, e pelo que fiz passarem também. Talvez seja um tipo de plano do destino, karma, ou não sei.
Ah, Giu, só sei que entupir minha cabeça de merda agora só me faria não prestar de tanta paranóia.

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Para Gi

Corra Mary

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