1997 de Carla

out 18

“ – Não faça isso. Nunca se machuque. Nunca mais faça isso. Deixe que os outros vão fazer isso por você”.
(Fernando Young)

A paixão emburrece o ser.

Carla queimava as fotos daquele rapaz e jogava as cinzas pela janela, não se importando em quem fosse cair. Ela já sofrera o bastante. Alguém mais haveria de sofrer também.
Em 1997 as coisas eram mais fáceis, sua única preocupação era dar comida aos gatos e não se atrasar para o primeiro tempo de aula.
As pessoas eram mais confiáveis, menos cruéis e os olhares dos amigos não eram de pena.

“Coitada da Carla”, e eles a poupavam, viraram seu rosto para o lado oposto, e ela sorria e fingia não se importar.
“Estou bem” – Ela dizia.
E não que não estivesse, ela não estava triste. Estava apenas nostálgica. Queria seu 1997 de volta, e desde que o século mudou, sua vida desandou. Ela passava muito tempo pensando. E o que estragava tudo eram esses malditos momentos em que Carla pensava.
Virou uma pensadora, bolou teorias, momentos e falas. Chegava a dialogar sozinha, era uma atriz nata, mas sua vontade de se socializar com o mundo diminuía à medida que Carla preferia passar seu tempo livre fumando 2 maços por dia e pensando.

“Foda-se, não há nada mais a ser feito”. E essa sensação descia por todo o corpo. Estava além das suas capacidades. Seu orgulho era do tamanho de todo um mundo, e ela o alimentava com tudo o que podia. Se fosse necessário passar uma vida inteira com aqueles pensamentos, era isso o que ela faria. Nada mais restara depois de seu orgulho, e ela estava bem com isso, e pronto.

Demorou 10 anos para a casa ficar vazia. Os gatos morreram, e os periquitos fugiram. Carla ficou sozinha. Sozinha.
E não parecia tão ruim assim. Era o medo, sempre o medo que a impedia de doar os pássaros e castrar os gatos, mas quando resolveu deixar o tempo passar e ver no que dava, se deu conta de que tudo que nasce, também morre e não há mais nada a se fazer, enquanto a natureza fazia seu papel.



6 Comentários

  1. Diria ser profundo esse post, gostei. :)

  2. Texto triste… prefiro quando tu ri da desgraça, com teu jeito peculiar e tua visão crítica ímpar.

    Seria clichê demais se eu falasse novamente que és uma escritora nata, quero te ler bem mais.

  3. Nossa eu me identifiquei com Carla..ate na data…
    adoro seus textos =)
    bjãooooooooo e bom fds

  4. 1997 foi um ano bacana pra mim :)
    não é a toa q eu tenho ele tatuado no braço esquerdo :P

  5. estou muito feliz pra entender um texto assim. haushuahshaushuahsu
    mas mesmo sem entender, adorei!

  6. Gostei do texto, me identifiquei. Realmente a paixão emburrece o ser. Sábias palavras;
    E só pra constar, adoooro os seus textos. TODOS! :)

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