Corra Mary

07 abr 2014

As 8 provas após o fim

obstaculo

Chegou ao fim. Não há mais nada a ser feito, não há mais nada a ser falado. Agora é você e as suas lembranças e mais nada nem ninguém. Uma merda, não? Uma enorme e fétida merda, mas assim é a vida e você não pode simplesmente dormir pelos próximos meses até que toda a fase de fossa passe e então acordar um belo dia novinha em folha, sem nenhum fantasma do passado e pronta para amar novamente. Você vai ter que viver cada fase lixo. E a vida é escrota. Ela te joga na cara, em cada oportunidade que tem, justamente o que você se esforça para esquecer: o fim. Ela te testa e você tem que passar no teste. Encare como uma prova da vida onde o prêmio final é a sua paz.
Então, cate os seus pedaços do chão, erga a cabeça e passe pelas provas após o fim da melhor forma que conseguir.

1- “Se cuida!” A gente se fala!”

Não tem nada que machuque mais do que ser tratada da forma mais fria possível pela pessoa que dentro de você ainda é quente, muito quente, pelando, quase queimando. Enquanto você se controla para não chorar, gritar, babar, cair no chão, rastejar e implorar por uma reconciliação, o outro lado é puro desdém. Um “se cuida” nada mais é do que um “olha, eu não desejo o seu mal, mas não farei nada pelo seu bem. Se cuida, porque eu não cuidarei mais de você”. Dói, né?

2- Os amigos que ainda não sabem

Fim não vem com aviso no jornal. Vocês acabaram, mas até que todos os amigos, familiares e conhecidos saibam, leva um tempo. E as pessoas perguntarão a todo instante por ele. A cada festa, a cada encontro, a cada esbarrão na rua, enfiarão involuntariamente o braço inteiro na sua ferida ainda escancarada e latente. E haja sanidade para mais uma vez sorrir e dizer educadamente que vocês não estão mais juntos e torcer para que o assunto termine aí para que você possa se retirar e ir chorar rios no banheiro.

3- Tudo lembra ele

Todas as pessoas na rua te lembrarão de quem você quer esquecer. Uma roupa, um calçado, uma tatuagem, uma barba, uma voz, um cheiro. Em cada detalhe de pessoas que não são ele, lá está ele.
Todos os objetos te lembrarão dele. A cama em que vocês dormiam juntos, a cadeira em que naquele dia X ele disse uma frase marcante, a cômoda em que ele num outro dia Y se encostou e te olhou tão fixamente que você achou que seu coração explodiria, a caneca que ele costumava usar e tudo mais que passou a ser um pedaço perdido que restou do que não existe mais. A sua própria casa virou um campo minado de emoções. Não tem escapatória. Você quer fugir, você quer se mudar pro Alaska, você quer ir para onde não há mais ele. Mas aqui vai uma notícia ruim: ele não está nos objetos e nem nas outras pessoas, ele está dentro de você. E não há fuga que consiga apagá-lo. Você vai ter que enfrentar.

4- Está tocando a música de vocês

Todo amor tem trilha sonora. O de vocês também teve e por mais que você tenha deletado a música de vocês do seu computador, do celular e tenha jogado o CD fora, essa música não te deixará em paz. Quando você entrar no carro e ligar o som, será essa a primeira música a tocar. Quando você entrar num taxi, numa loja, num elevador, na sala do seu chefe, a tal música estará te esperando para esfregar na sua cara que acabou. E você terá que inventar forças para não quebrar o rádio, o carro do taxista e nem a cara do seu chefe. Mantenha-se sã. Por favor, não metralhe um shopping inteiro.

5- Os objetos que simbolizam ele

Você não pode obrigá-lo a permanecer ao seu lado. Ele é um ser humano e possui livre arbítrio, mas os objetos não. Então você repassa a sua vontade de prendê-lo a você, aos objetos. Pode ser uma carta, um presente que ele te deu, um elástico que ele usou, a rolha do vinho que vocês beberam no último encontro, uma peça de roupa que ele esqueceu ou qualquer outra coisa em que você depositará um significado gigantesco porque para você, aquele objeto é um pedaço dele. E você se pegará olhando a todo momento para esses objetos e revivendo todos os momentos maravilhosos que passaram. Quer um conselho? Jogue fora! Não mais tarde, não outro dia. Agora! Levante da cadeira e jogue tudo fora.

6- Saber que a fila andou

Uma hora a fila vai andar. Você está preparada para isso? Por mais que você se prepare, por mais que você imagine que já possa ter andado, ter a certeza é sempre uma queda. Ver uma foto, ouvir um comentário, ter alguma prova irrefutável de que você foi substituída é como ter uma faca enfiada no coração. E você o imaginará beijando ela como te beijava, abraçando ela no meio da madrugada como te abraçava, falando pra ela o que falava pra você, rindo com ela como ria com você, apresentando para amigos e família como fez com você. Ele arrumou uma nova pessoa para calçar os seus velhos sapatos enquanto você continua descalça sentindo o chão frio do seu apartamento vazio. E não há absolutamente nada que você possa fazer em relação a isso. Seguir em frente é doloroso, mas seguir em frente por último é insuportável.

7- Conhecendo outras bocas

A fila andou para ele e uma hora ela também tem que andar para você. Você empurrará o seu corpo fora da cama para ir ao trabalho, a faculdade, a casa da sua mãe, aos encontros com os amigos. Você virará um zumbi que continua falando, andando e fazendo tudo o que fazia antes, mas completamente vazia por dentro, porque o mundo não para esperando que você se reconstrua. Ele continua a girar e você tem que girar com ele. Queira você ou não. E isso também inclui encontros. Você sabe que não pode simplesmente se fechar eternamente para o resto do mundo. Então mesmo não estando tão assim de acordo, começa a sair com outras pessoas. Você conhece novas bocas, novos papos, novas manias, novos corpos, novos lugares, novas qualidade e novos defeitos. Você vai comparar, você vai procurar ele nos outros, e ninguém te será bom o suficiente, simplesmente porque ninguém é ele. Você descobrirá qual é o gosto das bocas que não são a dele. E é amargo.

8- As lembranças 

Você tem que ocupar a sua mente. Qualquer pessoa poderá te falar isso. Você vai trabalhar muito, vai sair muito, vai se viciar em algum novo jogo, hobby, esporte ou em qualquer outra coisa que não te faça pensar nele por um dia, por uma hora, ou nem que seja por um segundo. Mas o que ninguém te fala é que todas as noites, quando você deitar a cabeça no travesseiro, naqueles agoniantes minutos antes de pegar no sono, as lembranças te atropelarão e por mais que você as tenha evitado durante todo o dia, você não pode fugir pra sempre. Uma hora vai ter que aprender a lidar com elas.

Você sabe que vai passar. Uma hora sempre passa. Mas e enquanto não passa? O problema não é ter que superar, é o caminho a percorrer enquanto se segue em frente.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Crônicas, Marina
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24 mar 2014

Eu desejo a você

trem

Ouvi dizer que só se liberta quem se perdoa e estou te escrevendo para te contar que eu me perdoei. Finalmente eu me perdoei pelo tanto que eu te quis. Querer alguém com a intensidade e a velocidade que eu te quis não poderia mesmo ter tido um final diferente. E eu me perdoo por isso. Eu me perdoo por ter sido esse trem desgovernado indo em direção a uma boiada inteira ignorando todos os avisos, os sinais e os gritos. Eu me perdoo e prometo te enviar um cartão bem bonito de onde tanta liberdade me levar. Um cartão como aquela carta que eu nunca te dei. Contendo todas aquelas palavras que por tantas vezes você abafou de mim mas que eu ainda tenho guardadas em algum lugar aqui dentro. Eu guardei muito, mas por isso eu perdoo não a mim, e sim a você.

Eu te esperei até quando disse que não esperaria mais. Eu te quis até quando tive todos os motivos para não querer. E a esperança e o luto deixaram espaço na casa para o perdão entrar. E agora o que eu mais desejo a você é que algum dia você possa perdoar a si mesmo também.

Eu desejo a você algo bem bonito, como tudo aquilo que te entreguei e você me devolveu ainda com o laço em cima. Eu desejo que você finalmente tenha forças para limpar a casa e jogar fora o lixo que você insiste em acumular. Desejo que você dê beijos, como os que eu te dei. E que a sua boca não consiga se controlar e no segundo seguinte você sorria sem que você perceba, sem que você consiga controlar, sem que você ao menos consiga notar, como os sorrisos que eu te dava, sem saber que te dava. Desejo a você noites de sono ao lado da pele mais macia, da voz mais doce, do cheiro mais gostoso, como as noites que eu tinha com você e te observava e suspirava e te queria cada vez mais e os meus braços eram pequenos demais para abraçar cada centímetro de tudo o que você era. Eu desejo a você um pouco de mim na mesma intensidade em que desejei tudo de você.

E no dia em que a gente se esbarrar por aí e vou te convidar para sentar e você vai me contar do seu trabalho, dos seus planos, me mostrar o seu novo vício musical, o desenho que você não mostrou a ninguém, e um rirá das piadas do outro. As minhas são terríveis, eu sei, mas você sempre ria delas, tirava o cabelo do meu rosto e me chamava de boba e o mundo podia explodir naquele momento, porque nada mais me importava. E então você vai olhar para o relógio e se assustar com as horas e me falar que adoraria ficar mais, mas que precisa ir. E eu vou aceitar essa sua última mentira como se fosse a primeira e enquanto você me der um beijo na testa de despedida eu vou dizer bem baixinho amor-que-nunca-foi-meu-eu-te-desejei-tanto.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Crônicas, Marina
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04 fev 2014

Como é triste o fim


(Esse texto é para ser lido ao som dessa música)

Como é triste o fim de um amor. Num dia eu-só-quero-você, no outro eu-não-quero-mais-te-ver. Como é triste trocar as palavras amorosas e gentis pelas palavras ríspidas e frias. Como é triste o fim.

A crueldade do fim está nos detalhes. Fingir amadurecimento quando o que mais se quer é sentar no chão e chorar, chorar e chorar até pegar no sono e alguém te carregar para a cama. Aquela mesma cama que no passado foi o palco perfeito para transbordar todo esse sentimento gigantesco que hoje te mata a cada segundo de sobrevivência. Como é triste sobreviver ao fim.

Como é triste engolir a angustia, o ciúme e o desespero tudo numa garfada só. Aquela boca hoje já não beija mais a sua boca. Aquele corpo se enrosca em outro corpo. Aquele cheiro, que você encostava nariz com nariz e pedia apenas mais uma respirada para nunca se esquecer, hoje respira em outro pescoço. E você sabe, só você sabe, como esse pescoço novo não é merecedor pois nunca será grato da forma devida por essas respiradas tão sublimes. Só você. Só você e o seu pescoço já vazio podem saber. Como é triste o ciúme do fim.

E você tem que reagir. Tem que levantar, caminhar e fazer novos planos. Como é triste deixar o passado passar. E você tem que conhecer pessoas novas, cheiros novos, camas novas. Como é triste provar outras bocas. E você tem que sorrir para a sua família, para os seus amigos, para o seu porteiro. Como é triste a falsa felicidade do fim. E a sua família, os seus amigos e até o seu porteiro sabem que não está tudo bem. Como é triste não conseguir nem fingir.

Como é triste desejar felicidades enquanto compromete a sua própria. Como poderiam essas palavras serem sinceras quando, no fundo, o que você mais deseja é machucar quem tanto te machuca? Como é triste o frio na barriga ao esbarrar com aquele olhar já tão distante e trocar o beijo na boca apaixonado por dois beijos na bochecha que nada significam. Estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Como é triste mendigar qualquer segundo ao lado por mais pobre que seja enquanto sabe, lá no fundo, que é preciso dizimar qualquer esperança que só vive nas suas fantasias.

A cada dia, uma nova tentativa fracassada. Você busca nos livros, na televisão, nas saídas, nos amigos uma explicação, uma frase que console, uma palavra que amenize, um olhar que entenda. Quanto tempo demora para o amor ir embora quando o amado já se foi? Alguém por favor te responda!

Você se esforça para lembrar de esquecer. Vigia-se a todo instante para não voltar a viver nas lembranças que só existem em você. E a realidade te bate como cocaína. Cobrando com dor hoje, a felicidade de ontem.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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17 dez 2013

Depois dos 20

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É na adolescência onde tudo parece maior do que de fato é. As alegrias são elevadas aos extremos, as tristezas são exageradas e limite é uma palavra que não existe. É difícil controlar os próprios sentimentos quando são eles que estão no controle. A notícia boa é que passa. A notícia ruim é que passa. Ao mesmo tempo que é prazeroso vivenciar situações emocionais demasiadamente fortes, é também extremamente desgastante.

A maturidade uma hora chega. Ela tem que chegar. E então aquilo que há anos atrás você poderia jurar que não suportaria, depois dos 20 já não é mais capaz de te matar. Você sempre sabe que vai sobreviver. Aprendeu que o tempo não deixa ninguém na mão e que cedo ou tarde fará o seu trabalho em levar tudo embora, então você apenas espera. A paciência que você desenvolveu em esperar é baseada na certeza de que os momentos de tristeza são apenas intervalos de uma alegria maior, inerente a você, e que não acaba, apenas adormece para acordar ainda mais forte.

É depois dos 20 que você aprende a desistir. Porque para desistir é preciso racionalidade e é ela, e só ela, a condutora da saída quando tudo parecer um enorme labirinto sem escapatória. Você aprende a usar a balança da vida e fazer escolhas determinando suas possibilidades e chances. Não há motivos plausíveis para insistir no fracasso. E é essa a hora em que você se dá conta de que desistir também é uma atitude corajosa e se orgulha dela.

É depois dos 20 que você percebe que o mundo não para esperando que você se reconstrua. Ele continua girando, a vida continua acontecendo, os dias continuam passando e mesmo que cair seja inevitável, a recusa em se levantar não é. Você então continua. Aos trancos e barrancos, meio errado, meio torto, meio molhado, mas sempre em frente.

É depois dos 20 que você não se importa com o que pensarão sobre o que foi preciso para que você catasse seus próprios pedaços. Porque se levantar acarreta na missão de se resolver consigo e um ciclo não se abre sem que você feche por inteiro o anterior. E tudo o que for feito para que você siga em frente é justificável, é perdoável, é necessário. Pensar em você é o combustível para a superação. Seja ela qual for. Você faz o que tem que ser feito e não há nada de errado nisso.

Depois dos 20 você já não tem mais idade, cabeça e nem paciência para sofrer além do necessário, mas também não tem idade suficiente para se deixar tomar pelo rancor e medo. Por mais que você caia, você se levanta para cair de novo quantas vezes for necessário. Conforme você amadurece ainda mais, as quedas doem menos, as cicatrizes se fecham mais rapidamente e o tempo das tristezas se encurta cada vez mais. Porque o passado sempre passa.

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02 dez 2013

Karma

karma

Sabe aquele lance de que aqui se faz, aqui se paga? De que tudo volta pra você? Manja Karma? Então, estava aqui pensando e acho que você é o meu.

Não vai pensando que é papo de vidas passadas nem qualquer outra baboseira dessas não, por que você sabe muito bem que eu não sou o tipo que acredita nessas loucuras de gente desesperada. Karma é outro lance, meu amigo. Karma é Newton. É ação e reação. Física purinha. O que a gente faz, uma hora, de algum jeito volta. E só nos resta aceitar, né? Pois é, estou conformadíssima.

Não tem como fugir. Estou recebendo agora o troco da vida em moedas de um centavo. Admito que o bolso já está cheio, mas enquanto você continuar dando esses sorrisinhos de canto de boca e olhando para o chão, eu vou continuar arrumando espaço.

Você é o que eu fiz ontem. Você é as vezes em que gritei com a minha mãe. Você é os caras com quem fui leviana. Você é o mendigo que eu passei reto na rua. Você é aquela menina gordinha do ensino fundamental que eu apelidei. Você é a mentira que eu contei. Você é a bala que eu escondi dos amigos. Você é o segredo que eu não guardei. Você é a traição que eu cometi. Você é a amizade que eu não preservei. Você é a planta que eu deixei morrer. Você é todos os pecados que eu cometi e ainda estou cometendo. Você é o meu Karma e eu mereço você.

Eu mereço cada pedra de gelo dentro de você. Lembra daquela vez em que eu tive que sair do quarto para não explodir e voltei ainda mais fora de mim? Eu mereci isso. Ou então todas as vezes em que você nem por um segundo cogitou a possibilidade de pensar em mim antes de agir e falar? Eu mereci. Se torna desnecessário dizer que eu também mereci aquele soco que pegou bem no meio da auto estima e me tirou o ar por um dia inteiro. E sabe agora quando mesmo depois de tudo você não se arrepende de nada? Pois é, eu continuo merecendo.

Eu tenho uma dívida à pagar. Talvez mais de uma. Realmente não sei. O caderninho de cobranças da Senhora Vida chegou na minha página e ela mandou avisar que não parcela. É no débito mesmo que é pra sentir indo embora tudo de uma só vez. Uma facada só. Profunda e dolorosa, mas dose única. Minhas economias de paciência e equilíbrio estão indo embora, e pelo visto acabarei no negativo. Sinto que os dias vieram intermináveis. Posso apostar que só nesse mês já passaram uns três Outubros.

Não sei a quem devo me reportar, mas já deixo avisado que me esforçarei para ser uma boa menina daqui pra frente.

E quer saber como tudo isso terminará? Como nós dois terminaremos? Da exata forma como começamos: como estranhos.
O que vai acontecer é que em um dia, igual a qualquer outro, a vida decidirá que a minha dívida estará sanada e então quando você for apenas você mesmo, a minha cota já estará preenchida até o limite e você voltará a ser apenas mais um entre sete bilhões. E sabe o que acontecerá depois? Você tropeçará na sua própria dívida.

Hoje você é o meu Karma, mas amanhã, enquanto você me observar andando na rua e se perguntar como poderia ter sido, eu serei o seu.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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