Corra Mary

24 jul 2014

O Fantasma Do Natal Passado

fantasmanatal
Desde o último Dezembro eu fiz um novo amigo. Eu o chamo de O Fantasma Do Natal Passado, mas ele também atende por Sua Ausência, O Buraco Que Você Deixou ou simplesmente Dor. Ele tem ocupado cada espaço vazio desde que você foi embora. Confesso que no começo a convivência foi difícil. Não nos entendíamos muito bem. Ele é extremamente realista e você sabe como isso às vezes dói, né? Todas as vezes em que eu delirava que você poderia voltar, ele me batia forte bem no meio da cara. A dor percorria o corpo inteiro e ele não sentia remorso algum por isso. Pensando agora, vocês tem muito em comum.

Mas sabe, nos últimos tempos estamos nos dando melhor. Você ficaria orgulhoso. Esses dias conseguimos dividir o mesmo sofá e eu já nem reclamo mais de dormir com ele todas as noites. Ontem mesmo fizemos pipoca e a minha única preocupação era em não molhar a tigela. No começo, quando dormíamos juntos, ele ocupava toda a cama. Morria de raiva disso. Depois ele começou a ocupar o quarto inteiro, e a casa, e antes que ocupasse a cidade também, eu fui embora. Eu disse para ele ficar, você sabe que eu disse, mas ele veio junto e disse que nunca me abandonaria. Eu queria que ele me abandonasse.

Ele é um tanto quanto grudento e você sabe muito bem o quanto isso me irrita. Para onde eu vou, lá está ele grudado nas minhas costas. Eu o tenho alimentado bastante e o peso está ficando cada dia mais insuportável de carregar. Admito que algumas pessoas tentaram me ajudar a tirar ele de cima de mim, mas por algum motivo, eu ladrava feito um cão raivoso e não deixava que ninguém se aproximasse muito. Você já está mentalmente me chamando de idiota, né? Eu sei que está, você sempre faz isso, mas sabe, é que talvez eu ainda não estivesse pronta para deixá-lo partir. Eu queria. Sempre quis, mas sabia que se ele fosse, você também iria e aí um dia eu iria acordar e não lembrar mais como é o som da sua voz arrastada, ou em qual lado da testa fica a sua cicatriz, e nem mais o seu cheiro e muito menos o seu abraço. E por mais que eu tentasse com todas as forças segurar só uma memória, só uma lembrança, mesmo que pequena, eu nunca teria esse poder. Se eu for devolver o Sr. Fantasma Do Natal Passado, ele irá embora com o pacote inteiro.

Ontem tivemos uma conversa séria. Já se passou bastante tempo e Agosto já está batendo na porta. Ele não pode mais se hospedar aqui em mim. Estou precisando abrir espaço. Foi difícil dizer isso. Eu o vi botando todos os seus beijos, os seus sorrisos de canto de boca e as suas cores dentro da mala e eu não fiz nada para impedi-lo. Apenas disse frases prontas como “não é você, sou eu”, “não posso te dar o que você quer”, e esse tipo de coisa. Você sabe, né? Eu sei muito bem que sabe.

Não posso dizer que foi bom o tempo que passamos juntos, mas ele me ensinou muito. Em cada palavra e ação daqui pra frente, terá um pouco dele. Ele é o tipo de amigo que não se esquece. Não sei se felizmente ou infelizmente, mas já não me perco mais pensando nisso.

Então estou te escrevendo para dizer que não existe mais areia para cair na minha ampulheta da esperança e eu sei, você sabe – nós sabemos – que no próximo Dezembro, O Fantasma do Natal Passado não poderá mais se sentar à mesa. E eu o estou te devolvendo junto com tudo mais que tiver que ir embora. Eu o estou te devolvendo com o que ficou de você quando você não ficou mais. Façam boa viagem.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Marina
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14 jul 2014

Pessoas que deixam marcas

cicatriz

Tudo o que temos para oferecer é sempre o que nós somos. Não podemos mais e não devemos menos. Só o que somos, com tudo de lindo, com tudo de horrível. Às vezes agrada. Outras vezes não.
E é chato, né? É chato quando você escava lá no fundo tudo o que tem e oferece numa bandeja de prata com o seu melhor sorriso e mesmo assim não é suficiente. Não se martirize. Não seria o suficiente de qualquer forma. Não é o que você fez ou deixou de fazer, é o que você é. E quanto a isso, não há nada a se fazer.

Pense nas pessoas que você conquistou sendo exatamente do jeito que você é. Precisou de esforço? Precisou de perfeição? Não, né? Elas simplesmente te amaram pelo seu sorriso, pela sua risada, pelas suas ideias, pelas suas loucuras, por tudo o que faz você ser você. Não foi preciso mais nada, porque você já era o bastante.

Pense nas pessoas que você amou por serem quem elas são. Elas precisaram de muito? Aposto que não. Elas já eram o muito. Talvez elas tenham errado, tenham vacilado. Muito ou pouco. Mas nunca o suficiente para apagarem suas marcas. Elas te marcaram. Goste você ou não. Não é escolha, não é opção. As pessoas nos marcam sem que precisemos permitir que o façam.

Agora pense nas pessoas que apenas passaram na sua vida. Pense nas pessoas que não marcaram, que não significaram muito. Acontece, né? Você sabe que acontece. Se todo mundo fosse especial, ninguém seria especial. Foi erro seu? Foi erro da outra pessoa? Não. Apenas o seu eu e o eu dela não eram compatíveis. Não se encaixavam. Não batiam. E não há nada de errado nisso. Aquela pessoa já marcou vidas e vai marcar outras. Apenas a sua que não.

Assim como já existiram pessoas que passaram na sua vida sem deixar e sem levar nada, você também já passou por vidas sem causar nenhuma comoção em especial. Às vezes nós estamos no papel da pessoa que não marca. E não há mágica que mude isso. Não há esforço, luta, remédio, reza, mandinga ou simpatia. Simplesmente não foi. Não se culpe. Ser incrível é apenas um ponto de vista. Hoje você escorrega entre dedos de alface, amanhã você é a vida de alguém.

Apenas continue a passar por vidas, e deixe que passem pela sua também. Uma hora você diminui o passo, atrasa o relógio, tem tempo para mais um café, mais um cigarro. Quem sabe dois? Ou o maço inteiro? Quem se importa? Se uma vida te atravanca e você atravanca a dela, você fica, ela fica. Simples assim.

Seja você e deixe que os outros sejam eles. O resto é consequência.

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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14 jul 2014

O amor e a merda

cutepoo

Recentemente me peguei pensando sobre o que é o amor enquanto eu e um ex-casinhos nos indagávamos sobre o que um faria pelo outro. Até que chegamos na pergunta decisiva: Se eu estivesse impossibilitada de me limpar depois de ir ao banheiro, você me limparia?

Não que ele fosse a minha primeira opção e nem que isso um dia vá acontecer (por favor, vida, NÃO!), mas amor se prova mesmo é na merda. Amar o lindo, o limpo, o cheiroso, o agradável, só as qualidades é muito fácil. Qualquer um ama. Quero ver amar no perrengue, no difícil, na bosta, nos defeitos.
Chegar na merda de uma pessoa, é chegar no pior que existe dentro dela. Literalmente!

Sua mãe, por exemplo, te ama mais do que qualquer outra pessoa, e não por acaso ela foi a pessoa que mais limpou a sua bunda na vida. Sempre com um sorriso na cara, um coração explodindo de amor e toda a felicidade do mundo. Porra, sua mãe te ama pra caralho! Na próxima vez em que for discutir com ela, lembre-se disso e agradeça por ela nunca ter te deixado cagado. Sério, você realmente deveria agradecer por isso.

Somos feitos de qualidades e defeitos. Não dá para querer se desfazer dos defeitos e ficar só com as qualidades. Se você bota um produto no carrinho, tem que aceitar absolutamente todos os ingredientes. E não só aceitar ou suportar, como também ainda amar cada particularidade podre e fétida daquele ser humano. Se você não ama por inteiro, é porque então não ama. Amor não se faz de metade. Ele é inteiro, é completo e absoluto.

Sabe aquela menina linda que você conheceu na festinha do seu amigo? Aquela de cabelos bem cuidados, pele impecável, corpo escultural, cheirosa, que ama os animais, que beija como um anjo, transa como a Sylvia Saint e de quebra ainda é obstinada, inteligente e geniosa? Pois é, ela acordando tem mal hálito, parece a Linda Blair no papel de Regan e o bom humor só vem depois do meio dia. Ela também é possessiva, teimosa, barraqueira, tem tendências suicidas e depois de correr na esteira vai estar fedendo mais que roupa molhada esquecida na máquina de lavar. E aí, meu jovem, você ainda a ama ou o seu amor parou nas qualidades da mocinha?

Sabe aquele rapaz que você conheceu através da sua amiga e que parece bom demais pra ser verdade? Ele é realmente bom demais pra ser verdade. Ele tem sim todas as qualidades que você procura, mas elas são suficientes para que os defeitos se tornem irrelevantes diante de todo o conjunto que ele é? Ok, você o amaria na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê; mas também o amaria na pobreza, na feiura, na mentira, no problema de ereção e na diarreia depois de comer camarão estragado na praia?

O que quero dizer não é que precisamos aceitar todo e qualquer defeito de uma pessoa; mas sim que ao invés de procurarmos alguém com as qualidades X que julgamos fundamentais, talvez seja mais inteligente procurarmos alguém com os defeitos Y que podemos conviver e aprender a amar. Afinal, todo o bom que vier, será agradável e bem vindo. Sendo assim, talvez o amor não esteja no bom, mas sim no pior das pessoas.

E claro, devemos também procurar alguém que limpe nossas bundas, caso algum dia precisemos. Afinal, nunca se sabe quando podemos quebrar os dois braços ao mesmo tempo.

E você aí que nunca achou que leria um texto sobre amor e merda juntos, hein?

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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22 jun 2014

Menino, como você é lindo

marlonbb

Menino, como você é lindo
Em cima de mim, descendo e subindo
Menino, como você é lindo
Até quando faz merda e volta sorrindo

Mesmo você só querendo dar uma trepada
Devo admitir: sinto-me lisonjeada
Quando te vejo fico tão emocionada
Que quase volto pra casa toda cagada

Menino, como você é lindo
Por você até mando o meu ex para o limbo
Menino como você é lindo
Minha calcinha vai embora sorrindo

Posso algum dia te dar meu coração
Mas já aviso que o cu não
De você eu espero um montão
Mesmo que termine largada, chorando no chão

Menino, como você é lindo
Não quero nunca te ver indo
Menino, como você é lindo
Nosso primeiro filho vai se chamar Arlindo

Fica comigo que te prometo amor eterno
Com você eu vou até pro inferno
Mesmo que no meio do caminho eu te chame de palermo
Te juro, meu sentimento é sincero

Menino, como você é lindo
Com quem mais você está saindo?
Menino, como você é lindo
Se amanhã ela aparecer morta, do país eu estarei partindo

Postado por Marina | Categorias: Crônicas, Marina
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05 jun 2014

A teoria da pessoa Uau

maças

Tenho desenvolvido uma teoria que chamo de “A teoria da pessoa Uau”. Não acredito em amor a primeira vista, mas acredito piamente que nossa sensibilidade para com os outros é tão aguçada, que no primeiro contato, no primeiro “olá”, é fácil se encantar, tremer nas bases e saber que aquela pessoa, mesmo ainda sendo apenas mais uma pessoa igual a qualquer outra, tem potencial para algum dia ocupar todo o seu coração, ou na pior das hipóteses, quebrá-lo em 27 pedacinhos.

Uma pessoa Uau é aquela que depois do primeiro contato, da primeira conversa, do primeiro beijo, te faz chegar em casa, se jogar no sofá da sala e emitir um sonoro “UAU!”. E aí não importa se a linda deixou derramar toda a cerveja na sua jaqueta nova ou se o lindo te queimou sem querer com o cigarro, porque ela/ele é uma pessoa Uau, e todo o resto pouco importa agora. Na verdade, os defeitos de uma pessoa Uau são o que a tornam ainda mais Uau. Quanto mais humana ela se mostrar e mais suscetível a falhas e defeitos, mais você sabe que aquela pessoa além de Uau, é possível, é atingível.

Você pode perder de vista a sua pessoa Uau na próxima esquina, sim, isso pode acontecer, mas você também pode começar uma caminhada junto com ela, e essa chance, essa possibilidade completamente real, te fazem querer ser Uau para ela também. E então você começa a academia na segunda, se inscreve naquele curso que sempre quis mas tinha preguiça, começa a se alimentar melhor, larga o cigarro, muda de emprego, doa pra caridade. A característica básica de uma pessoa Uau é que só o fato dela existir já é o suficiente para te fazer querer ser alguém melhor.

Uma pessoa Uau é o que chamamos de química, feeling, é aquela pessoa que parece ter um ímã que atrai suas mãos, seus olhares, seus pensamentos. Tudo lembra ela, tudo cheira como ela, tudo é ela. Depois que você encontra uma pessoa Uau, todo o resto do mundo parece irremediavelmente desinteressante.

Encontrar uma pessoa Uau é não se importar com mais nada, é esquecer dores passadas, é não ter medo, é voltar a ter 15 anos, é levantar do chão, sacudir a poeira da roupa já encardida e não ver a hora de poder recomeçar, porque como você poderia deixar uma pessoa Uau, talvez a mais Uau de todas, tão Ualíssima, escapar? Você não pode. Você não consegue. Você não quer. E se você deixar escapar, é sinal de que aquela pessoa não era Uau. Uma pessoa Uau nunca deixa dúvidas. Só certezas. Muitas delas.

E não importa o que o amanhã reserve. Não importa se você vai ficar ou não com a sua pessoa Uau, porque ela é como um remédio. Ela te cura, ela te dá forças, ela te faz enxergar melhor, ela te faz acreditar que tudo é possível. E isso já será o suficiente para fazer ter valido a pena. Mas se a vida te sorrir e você ficar com a sua pessoa Uau, aqui vai um conselho: Seja o mais Uau de volta que conseguir.
Um dia você vai me agradecer por esse conselho.

Se a montanha foi até Maomé, eu não tenho dúvidas de que era porque Maomé era a pessoa Uau da montanha.

Postado por Marina | Categorias: Contos, Crônicas, Marina
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