
Nunca achei que fosse viver para ver o brasileiro se cansar de tomar na bunda e ir às ruas protestar. Nunca achei, principalmente, que faria parte disso. Quem disse mesmo que brasileiro é preguiçoso e acomodado? Talvez o que estivesse faltando fosse mesmo a gota d’água. Uma hora ia explodir. E ia explodir na cara de alguém. Poderia ser na cara do Lula, poderia ser na cara do próximo, mas calhou de ser na cara da Dilma. E explodiu. Explodiu e agora, segura a batata assando, Dilma! Segura essa, porque é só o começo.
O dia de ontem será estudado pelos nossos filhos na escola. 17 de Junho de 2013, o dia em que o país saiu do “deitado eternamente em berço esplêndido” para “verás que um filho teu não foge à luta”. O dia em que o Rio de Janeiro reuniu 100 mil pessoas e não era carnaval. O dia em que São Paulo reuniu 65 mil e não era futebol. O dia em que os 10 mil de Brasília invadiram o congresso. O dia em que deixamos bem claro que o Brasil é dos brasileiros. Ao todo foram mais de 250 mil pessoas em todo o país. Uma marca histórica. Hoje, pela primeira vez, posso encher a boca e dizer com orgulho que sou brasileira.
Cheguei na manifestação às 17 horas. O número já era muito grande, mas quando se está ali no meio, é difícil dar uma estimativa minimamente precisa. Você não faz ideia do quanto de gente tem na sua frente e nem atrás de você. Você apenas leva a multidão ao mesmo tempo que é levado, e é uma sensação maravilhosa. Gritar até fazer eco. Bater palma até as mãos doerem. Não sentir mais os pés depois de 5 horas de caminhada.
Chegando na Cinelândia o grupo se dividiu. Alguns foram para a Alerj enquanto a maioria permaneceu ali. Eu e meu grupo ficamos por bastante tempo na Cinelândia. Estávamos bastante cansados e sentamos numa esquina para descansar os pés por alguns minutos. Alguns amigos e minha mãe me atualizavam através de SMS o que estava acontecendo não só no RJ como no país inteiro. Chorei por diversas vezes de emoção. Aquilo parecia um sonho. Se você caísse, todos te levantavam. Se você estivesse com sede, todos te ofereceriam água. O estranho ao lado era seu irmão e você poderia contar com ele. Um por todos e todos por um!
Certa hora decidimos ir para a Alerj. Chegamos lá e vimos de longe um fogo e soubemos na hora que era o carro que haviam botado fogo. Lamentei. Não tenho nenhuma pena de banco com vidro quebrado, pq o banco não tem pena de você na hora de enfiar na sua bunda no seco e com areia. Ficar puto com o governo, mas com dó de banco não faz o menor sentido. Mas lamentei pelo carro queimado de algum cidadão provavelmente tão indignado quanto todos os outros que ali estavam. Ok, respirei fundo e engoli. Ouvi tiros (alguns de bala de borracha, outros de fuzil) e bombas de gás sendo disparadas incessantemente. Podia ser Faixa de Gaza, mas era centro do Rio de Janeiro.
Ensaios de correria aconteceram algumas vezes. Sem dúvida nenhuma, foram os momentos mais tensos da manifestação. Tanto na Cinelândia, quanto na Alerj. Depois do primeiro ensaio de correria enquanto estávamos no olho da manifestação, bem no meio mesmo, percebemos que se algum tumulto ocorresse, nós estaríamos completamente fudidos. Passamos então a ficar em lugares estrategicamente posicionados para em casos de emergência, não corrermos risco de cair ou de sermos encurralado seja lá por quem fosse.
Voltei para casa com o coração na boca pensando em tudo que havia visto, escutado e sentido. Ninguém me contou, eu estava lá. Não li no jornal, eu vi. Não ouvi na rádio, ouvi da boca do povo. Na volta passei por bancos quebrados, por fogo na rua, por bombas de gás lacrimogênio, por policiais tensos e outros até mais calmos.

Cheguei em casa e muito li sobre Porto Alegre e Rio de Janeiro. Muita gente que não saiu de casa dando pitaco se achava certo ou não invadir Alerj ou botar fogo em ônibus. Tem que tomar muito cuidado ao chamar alguém de vândalo, baderneiro ou terrorista. A partir do momento em que você compra o discurso do jornal e classifica alguém assim, você imediatamente escolhe um lado. Não estou querendo defender ninguém, apenas mostrar um ponto de vista extremamente difícil e complicado de enxergar, mas necessário.
Quem eram aquelas pessoas com molotov nas mãos e rostos cobertos e contra quem eles lutavam? Sou uma pessoa muito calma e pacífica, mas assim foi a minha vida inteira. Sempre tive plano de saúde, a melhor educação, sempre andei de carro e não só tive como terei oportunidades que a maioria daquelas pessoas nunca terão. Sou contra a violência, mas principalmente contra a violência que aquela gente passou e passa todos os dias de suas vidas. Vandalismo é o que aquela gente sofre desde que nasceu. Vandalismo é idoso morrendo em fila de hospital. É grávida parindo na porta de maternidade. É criança não tendo escola. É trabalhador não tendo trabalho. Como pedir educação à quem nunca teve oportunidade de se educar? Se toda ação tem uma reação, essa foi a reação de quem cansou de uma vida tão injusta e cruel.
É preciso também lembrar que revoluções só acontecem com guerras, com lutas. Seria muito lindo se a Dilma do conforto de seu lar, pensasse “A galera tá levantando cartazes e cantando musiquinhas. Vou fazer algo por eles.” Se fosse assim, os 1,600 milhões de assinaturas contra Renan Calheiros teriam dado em alguma coisa. E deu no que? Em nada. E sabe porque? Porque assinaturas em papéis não incomodam ninguém. Se você não incomodar quem te incomoda, permanecerão cagando e andando para você. Algo só muda se ao invés de estarem cagando, estejam se cagando.
Como então poderia eu julgar a fúria de alguém se não vivi àquela vida? Quer dizer que não pode depredar patrimônio público, mas ninguém pensa que talvez aquela pessoa tenha sido depredada a vida inteira? Não estou dizendo para entrarmos numa guerra e amanhã levarmos nossas tochas à rua. Que cada um esteja guerreando da sua forma nessa luta de todos, mas tentar enxergar pelos olhos do outro faz parte da empatia que tanto pedimos ao mundo, mas que precisa começar de dentro pra fora. Se colocar no lugar do outro é o primeiro passo para poder entendê-lo e amá-lo.

De uma forma geral, pude sentir muito orgulho do meu país ontem. De gente que largou tudo por algumas horas e foi à rua protestar e mostrar toda a sua indignação contra um governo que governa para empresários e ricos e não para o brasileiro. O Brasil é sim um país rico, mas não é um país de ricos.
Nosso país está entre os 30 países com os impostos mais altos e dessa lista é o que tem as piores qualidades em absolutamente todos os itens. Escola, educação, transporte, segurança, tudo está ruim. Ou seja, ter dinheiro, o Brasil tem. Mas o que acontece é que a maior parte desse dinheiro é usada para enriquecer ladrão engravatado que já é rico, e o que é usado para o povo é o mínimo do mínimo. As condições poderiam sim ser muito melhores, mas para isso a roubalheira precisaria acabar. Porque manter ambos, realmente é impossível. Então, o que tem que mudar não é apenas a passagem de ônibus, os políticos ou as leis absurdas (Pec impunidade, lei do nascituro, etc) o que tem que mudar é o sistema. E pode sim parecer utópico demais, mas até mês passado, tudo o que vivemos ontem também parecia utópico.
Termino esse post com um vídeo de uma brasileira explicando para o mundo o porque do Brasil não precisar de Copa.








