Carta a Carlos Nascimento

jan 21

No dia 19 de Janeiro, na abertura do Jornal do SBT o jornalista Carlos Nascimento deu a seguinte declaração:

Caro Carlos Nascimento,
os problemas dos brasileiros não estão todos resolvidos. Não só dos brasileiros como de nenhum outro povo. Problemas sempre existirão, para qualquer pessoa, e nunca achei que eu, uma menina de 20 e poucos anos, precisasse explicar isso para um renomado jornalista, mas essa é a vida, meu caro. Ela é cheia de problemas e quando você resolve um, ela te brinda com outro recém saído do forno.

Mas sabe o que há de mais incrível nos problemas da vida? É que o ser humano é tão fantástico que mesmo com eles, ainda consegue ser feliz. Imagina se dependessemos da falta de problemas para sabermos rir. Imagina que povo triste e vazio seríamos, vagando pelas ruas com caras deprimidas, esbarrando em outros corpos igualmente vazios.

Se “idiota” é a pessoa que sabe viver independente dos seus problemas, triste é a vida de um não idiota.

Não me choca a referência ao programa de maior audiência da televisão brasileira como alvo de crítica de um jornalista da emissora concorrente.

Brasileiro gosta de falar da vida alheia, tanto gosta que novela é tão popular por aqui. São vidas que nem existem, inventadas com o único propósito de entreter. Novelas essas, que a sua emissora tanto investe. E por falar em emissora, não se esqueça que a sua emissora também investe em Reality Show. Mas essa declaração infeliz nunca teria sido dada em época de A casa dos artistas, né?

Assuntos fúteis, como o senhor-inteligência mesmo ressalta, são o que tornam interessantes as conversas na mesa do bar, ou os papos descompromissados pelo telefone, ou até mesmo o intervalo do cafézinho na hora do trabalho.
Futilidade é o que não deixa a cabecinha já lotada de problemas e obrigações de qualquer pessoa, dar tela azul.
Futilidade é a corda que te puxa do poço das tristezas do dia-a-dia. É o riso descompromissado, é o cigarrinho no meio de um dia estressante.

Futilidade e inteligência não são antônimos. Um pingo de futilidade num balde de inteligência é o equilíbrio perfeito para uma mente sempre sã.


Brasileiro tem carência de humor. Não só de rir, como de fazer rir também, e a maravilha da internet é que não precisamos mais que veículos de comunicação como o que você trabalha nos diga do que devemos rir. Podemos nós mesmos fazer o nosso próprio humor, sem roteiros, sem maquiagem, sem câmeras. O humor pelo humor, sem se preocupar com os lucros que pode gerar, porque o único lucro é a risada que daremos disso.

E se quer saber, fazer humor não é só privilégio de nós brasileiros não. Seja aqui no Brasil com a Luiza, ou no mundo inteiro com o Antoine Dodson.

Quer culpar alguém pela exagerada atenção que inofensivas piadas virtuais ganham? Ok, culpe. Mas não culpe os brasileiros, culpe seus próprios colegas de trabalho, culpe a mídia que aceita qualquer coisa pelo ibope. Culpe noticiários que deveriam ser sérios mas que entrevistam Luizas, Geyses e Antoines. Culpe eles, culpe você mesmo que não só faz parte disso, como aceita fazer. Mas não venha duvidar da inteligência dos brasileiros e não se esqueça que você também é um.

Dar ou não dar no primeiro encontro?

jan 18

A mulher passa a vida inteira ouvindo de todos como deve se comportar, falar, pensar, se vestir e ser. Sempre tem alguém louco para cagar regra na vida alheia. É difícil ser o que os outros esperam ao mesmo tempo em que você não trai quem realmente é.

A mulher é criada para ser uma princesa a espera do príncipe encantado no cavalo branco, mas na vida real se a mulher resolve ficar de pernas pro ar na torre do castelo à espera do príncipe, acaba morrendo velha, amargurada e sem príncipe nenhum.

Sexo não tem a ver com valorização, uma pessoa não é uma ação isolada, mas sim um conjunto de atitudes. E nenhuma delas tem relação com sexo, seja na primeira ou na décima sexta vez.

Tesão é tesão e tanto nos homens quanto nas mulheres ele bate da mesma forma. Não caia na lorota de que homem sente mais tesão do que mulher, que homem gosta mais de putaria do que mulher. É só participar de uma conversa entre amigas numa mesa de bar para mudar de ideia rapidinho. Mulher adora sexo, adora putaria, adora falar, fazer, ver e imaginar, tanto quanto qualquer homem.

Sexo com amor é muito mais gostoso, sim, é. O que não muda o fato de que sexo por sexo também é uma delícia. Sexo é igual pizza, até quando é ruim, é bom. Pra que se privar se há vontade? Cada um sabe o que transmite e seja fazendo amor ou trepando, opiniões não mudam assim. O que os outros acham de você, é problema dos outros.

Não há nada mais sexy e mais admirável do que uma mulher confiante e segura de si mesma. Somos todas santas, somos todas putas, num dia a namoradinha, no outro a vagabunda. Muher pra casar também geme, também goza e também dá no primeiro encontro.

Há sim homens que tratam as mulheres como produtos no mercado, categorizando-as em prateleiras morais, julgando-as não pelo que elas são, mas pelo número de vezes que demorou para levá-las pra cama, fazendo com que essa condição seja apenas unilateral, já que para esses caras a regra nunca se aplica a eles também. E mulheres, é esse tipo de homem que vocês se preocupam com o que pensam ou deixam de pensar?

Sexo não é moeda de troca. “Se me ligar três vezes e me apresentar aos seus amigos, eu me deito com você”. Não funciona assim. Tão pouco é um presente de bom comportamente masculino. Homens não são cachorrinhos adestrados e a sua vagina não é um biscoito Scooby, então não ache que fazer sexo com você é um presente seu para ele. Se não for um presente seu para você mesma, você acaba se tornando exatamente aquilo que menos quer.

O que eles acham?

 

“Tenho amigos que acham que garotas assim não são para namorar, pra mim isso é uma insegurança do próprio homem, ou um complexo de édipo escondido do homem achar que sua mãe foi uma virgem que só casou com o pai, engravidou dele num ato de amor e depois nunca mais praticou nada.  Sou a favor das pessoas fazerem o que tem vontade, seja uma loucura em uma noite, seja uma ficada que tava gostosa e levou a algo mais, seja marcar para uma diversão com um amigo incluindo um sexo casual. Não acho que a mulher se torne qualquer coisa a menos por gostar disso.”

 

“Acho isso um tabu mega babaca. Isso pra mim não muda em nada minha visão da mulher. As mulheres lutaram a vida toda por direitos iguais, tem mais que exercer esse direito. Homem é fodão se come a mulher no primeiro encontro e a mulher é puta? A mulher não é uma puta porque deu no primeiro encontro mas sim na forma de se portar. Puta é estado de espírito. Mulher que dá no primeiro encontro pra mim é decidida. Não se priva em ter prazer por pensar o que os outros vão achar.”

“Não devemos fazer juízo de valor de mulher alguma pelo fato dela fazer sexo no primeiro ou no oitavo encontro, eu ao menos não faço. Entretanto não creio que isso seja uma regra geral. Passam as décadas e ainda persistem certos pensamentos conservadores na mente masculina. Homens tem medo de mulheres sexualmente ativas e ainda valorizam aquelas que fazem certo jogo, como se o sexo fosse uma concessão da mulher ao homem, que recebe esse presente como recompensa pelos seus esforços. Homens tem pavor de serem encarados como objetos sexuais e gostam de imaginar que são 100% responsáveis pelo orgasmo de suas parceiras. Então posso te dizer que um número mínimo de caras bem resolvidos e vividos encaram numa boa o sexo no primeiro encontro. geralmente eles tem mais de 30 anos e razoavelmente conhecem a subjetividade feminina, Os mais novos, por sua insegurança, podem ser assustadoramente caretas nesse sentido, tendendo a valorizar aquelas que fazem jogo duro, como se isso fosse prova de virtude.”

 

“Resumindo e sendo sincero: Pra mim, o fato de rolar sexo no primeiro encontro não rotula a mulher de fácil, da mesma forma que se segurar pra um próximo encontro não vai fazer a ansiedade e expectativa tornar tudo mais mágico e nem vai estragar nada se os dois estiverem curtindo. Acho que se o encontro ta rolando bem, rolou o clima, e a oportunidade é boa, maravilha. Já namorei mulheres que transamos de primeira e outras que não. Não vejo diferença nisso.”

 

“De todas as namoradas que tive, apenas duas não foram no primeiro encontro. Logo, minha opinião em relação a sexo no primeiro encontro é: WHY THE BIG DEAL?!
Tanto homens quanto mulheres sofrem uma pressão social absurda. A mulher por exemplo, é ensinada a pensar em uma coisa quando na verdade quer outra. É ensinadas por Walt Disney a desejar o Príncipe Encantado. A sociedade a induz a pensar em sexo como algo que requer intimidade exacerbada. Mas e beijar na boca não é tão invasivo quanto? Pra que raios uma pessoa vai suprimir um desejo porque acha errado dar no primeiro encontro?
Basicamente tenho um pensamento hedonista, desejos são feitos para serem saciados. Não é que uma mulher me dá no primeiro encontro que vou achar ela piranha. Ela pode até ser, mas ao menos já penso que é relativamente bem resolvida consigo mesma.”

Dar mole

jan 13

Momento exato em que as mulheres consagram a sua homossexualidade por não ter notado o mole que elas deram

Se todas as pessoas do mundo passassem a pensar como homens, a Terra comportaria uns 50 bilhões de habitantes em 10 anos. Multiplicaria o número de pais dos próprios sobrinhos (porque os primos todos iam se comer loucamente); possivelmente a literatura médica teria uns 2/5 a mais de DSTs em seus compêndios; a indústria pornô seria maior do que qualquer igreja, fundação, empresa, e só encontraria rivais nos videogames (bem, isso é quase realidade); o mundo ia ser tomado por um senso de praticidade tão grande que, se bobear, até o amor acabaria. Mas ele seria muito bem fingido por algumas gerações.

Se todas as pessoas do mundo passassem a pensar como mulheres, o planeta teria a densidade demográfica da Groenlândia. O mundo seria absurdamente mais gentil, cortês e simpático (o que mascararia muito mal a falsidade e a falta de cumplicidade pelas quais o sexo feminino é conhecido). De qualquer forma, os habitantes (todos de mente feminina) esbarrariam em algo que as mulheres afirmam saber fazer, mas fazem de um jeito tão controverso que parece que não sabem: dar mole. É a partir daí que a raça humana poderia estar em risco.

Partindo de uma ordem mais ou menos comum, sem dar mole, não tem beijo, sem beijo não tem caso, sem caso não tem namoro, sem namoro não tem casamento (união, morar junto, pacto de sangue, sei lá), sem casamento não tem rebento. Sem rebento não tem população e sem população, a densidade demográfica se joga no poço. Ou seja, num mundo em que as pessoas não sabem dar mole, os sucessos reprodutivos despencam, porque a chave da ignição de tudo é se embrenhar no approach.

Se pelo assassinato de um arquiduque bunda acontece uma guerra mundial de quatro anos, um mole no começo da relação gera um bebê. O início da concepção da criança não é quando ela nasce, ou quando o espermatozoide invade o óvulo: ele acontece na night, no boteco, na festa, em qualquer lugar onde se dê mole (Jesus Cristo, hoje estou conceitual demais).

 

O outro lado – o paradoxo do mole feminino, a população tem salvação

 

Já antevejo no horizonte mulheres com archotes dizendo “Hey, senhor Pedro Staite, deixe de ser um desqualificado, você não entende picas do mundo feminino. Espero que o senhor broxe cinco vezes a cada seis tentativas”. Obviamente vou concordar pedindo desculpas, mas elas vão me interromper: “Ahhh, senhor Pedro Staite, espero que seu pênis fique como um vídeo cassete: empoeirado, com duas cabeças e sem funcionar. Nós sabemos dar mole, sim, vocês é que não têm sensibilidade para entender.”.

Esse é o flat do problema: se as mulheres, que são sensíveis, sabem que nós não somos assim, por que o mole que elas dão requerem sensibilidade? Hoje em dia, quando a mulher dá mole, ela não está dando mole, e sim uma minúscula abertura para você implorar. Mulher é tão incoerente que é o único tipo de ser que nega o que quer só por esporte. E, claro, se você não entrar no jogo e desistir de implorar (com charme), sua farda ganha uma condecoração homossexual.

Pior ainda é quando você não nota a micro-brecha que elas dão. Às vezes, um olhar de 16 milissegundos condensará TODO o interesse que ela demonstra por você numa noite. Se você não perceber, for míope, achar que foi um olhar à toa ou estiver com ebola, pronto, além de ter perdido a chance pro resto da vida, volta pra casa com a alegria de ter despertado no grupo de amigas dela a conversa “humm, ele deve ser gay, só pode ser”. E sabe por que isso acontece? Responde-se em uma palavra: oferta.

Mas a controvérsia desemboca agora. Mulheres notam os moles que as mulheres dão.

1) É por isso que amigas mulheres são importantes: se as mulheres de quem você é a fim fossem jogos de videogame, as amigas seriam a revista de detonado, com todos os cheat codes para você zerar o jogo.

2) É por isso que talvez em um mundo onde todos tivessem pensamento feminino, as pessoas dariam moles mínimos, mas teriam sensibilidade para captá-los. Isso poderia ser uma salvação para a população.

Ao final do texto, elas voltam a reclamar comigo: “ahh, senhor Pedro Staite, você merece morrer com os epidídimos entupidos, aprende a dar mole, faça o seu papel direito antes de falar de mim”.

E eu vou concordar chorando.

Futilidade é bom

jan 04

BBB ainda nem começou e já está gerando polêmica. Não é de hoje que é só chegar Janeiro para os pseudo intelectuais vomitarem seu repúdio pela casa mais vigiada do Brasil.
Em qualquer esquina terá alguém para destilar todo o ódio do mundo por um simples programa de tv. E o discurso é sempre o mesmo: é fútil, não acrescenta em nada, não tem cultura, e por aí vai.

Eu adoro gente inteligente, adoro conversas inteligentes, adoro tudo o que me deixa um pouco mais inteligente, porque sem modéstia, eu já sou inteligente pra caralho e um pouquinho mais é sempre bem vindo. Mas sabe o que não suporto? Gente chata, gente clichê. E quer algo mais clichê e chato do que falar mal da futilidade?

Se para tudo na vida é preciso equilibrio, para a inteligência também. Ninguém precisa passar 24 horas do dia apenas alimentando o cérebro para provar que tem um. A diversão pela diversão faz bem para a saúde mental de qualquer pessoa, e não só faz bem, como é extremamente necessária. É a água que não deixa que o motor esquente demais.

Futilidade é perda de tempo. Sim, é. E a melhor coisa do mundo é ter tempo para perder. Infeliz da pessoa que não tem tempo para ela mesma, que não tem hora do dia dedicada às suas futilidades pessoais, ao seu riso descompromissado ou ao seu choro pré-adolescente. Seja assintindo BBB, novela, lendo o último livro da saga dos vampiros que brilham, do bruxo adolescente, ou cuidando da própria aparência.

Enriqueça-se culturalmente, leia livros bons, assista bons programas na tv (porque eles ainda existem), tenha amigos diferenciados e que te acrescentem em algo, estude, aprenda algo novo, ouça boas músicas, conheça novos lugares e novos povos, aprenda uma nova lingua, mas no fim do dia curta a sua futilidade pessoal, assista um enlatado americano, ouça uma música pobre, leia um bestseller e ria de uma piada suja.

Seja inteligente, seja fútil. Seja o equilibrio que seu corpo e sua mente precisam. Seja a pessoa que consegue conversar desde com o chefe da sua empresa até com a faxineira. Seja o que você é, sem medo, sem insegurança. Não prove sua inteligência para ninguém, use-a.

Eu não sei fazer finais

dez 30

Meus textos sempre são analisados com toda perícia por pessoas que infelizmente me querem bem, pois graças a isso, elas não me poupam na hora de mijar no que eu escrevi. Mas é um mijo construtivo, disso não duvido nem à porrada, é um mijo rico em nutrientes que proverão sempre o crescimento das plantinhas nos xaxins do meu cérebro.

E a crítica mais recorrente que eu recebo é a de que os fins dos meus textos são fracos. Ao invés de fazer que nem um maratonista, eu dou o sprint final no começo do texto e termino sem fôlego. Talvez por causa do Photoshop mental que a minha ignorância fundamentou com o tempo, eu acabo enxergando com bons olhos os arremates dos posts, mas pelo visto eles carecem de tchan!.

Há fortes especulações internas de que às vezes eu termino a parada, mas teimo em continuar por achar que acabou cedo demais. Aí continuo e fica sem liga. Seria muito mais fácil acabar na hora que Deus reservou, dar uma pausa e partir para outra um tempo depois (estou falando de produção textual, não de sexo).

Não posso ser traído pelos finais porque é a parte mais marcante do processo. Ele tem propriedades cabalísticas para destruir uma boa história ou legitimar uma merda líquida, só depende se for ruim ou bom. A lenda reza parcialmente certa: a primeira impressão até pode ficar, mas nenhum julgamento resiste à última.

E me parece que o usar o fim a meu favor é certamente uma das minhas maiores deficiências. Como fazer isso, Padim Pade Cisso? Quando saber a hora certa de terminar uma história e como não macular essa história a partir do momento em que ela precisa de um final?

 

Fins decentes. Isso é algo que eu busco para ajeitar meus textos.

E não é que faria sentido se eu aplicasse isso também nas coisas da vida?

A mentira

dez 28

Quando eu era pequena, minha mãe se orgulhava em dizer que eu não mentia. E não mentia mesmo, era tão ruim em mentir que o medo em ser descoberta me fazia preferir contar a verdade.

Eu era apenas uma criança, e como qualquer outra criança normal, ainda não sabia o poder que uma mentira contada da forma certa poderia ter.

Há crianças que descobrem isso cedo demais. Há também a possibilidade delas já terem nascido sabendo mentir e sabendo o poder dela. Crianças demoníacas, eu diria. A mentira vai contra tudo o que uma criança é ou deveria ser: inocente, ainda não corrompida e suave.
Porque uma mentira, por menor que seja, nunca pode ser suave.

Descobri a importância da mentira no dia em que atendi a ligação de uma professora do meu irmão. Ela queria saber como o meu irmão estava em relação a morte da minha vó. Minha vó ainda era viva. Meu irmão contou uma mentirinha para a professora por ter faltado na prova.
Matar parente não costuma ser a melhor desculpa nesses casos, mas para os profissionais da mentira, qualquer desculpa esfarrapada vira um lindo espetáculo.
Meu irmão foi reprovado sem dó e eu aprendi nesse dia que há mentiras que precisam existir e serem alimentadas.

Existem mentiras necessárias. Como quando você conta para o seu filho sobre Papai Noel em pról da magia que o Natal deve carregar para uma criança. É um mentira. Ok. Mas uma mentira sem má fé, e tudo nesse mundo pode ser perdoado e entendido, menos filha da putice. O problema não é a mentira, mas sim o seu combustível propulsor.

A mentira é a vilã de todos os relacionamentos. Seja na amizade, no amor, na família ou no trabalho, ninguém gosta de sentir aquela típica sensação de ter sido feito de idiota após a descoberta de uma mentira. E desculpá-la é uma luta contra o próprio ego.

Uma mentira só machuca quando contada por alguém com alguma relevância. A equação é simples: quanto mais você se importa com a pessoa, mais peso e dor uma mentira contada por ela trará.

O problema da mentira é a crueldade das possibilidades da verdade. Porque se foi preciso mentir, é porque a outra pessoa não aguentaria a verdade. E quando se é essa pessoa é enlouquecedor pensar nas possibilidades. A única certeza é a de que a verdade não é boa. Essa é sempre a premissa básica da mentira.

Para o mentiroso, uma mentira é apenas uma verdade que se esqueceu de acontecer, para a vítima, ela é um catálogo de terríveis verdades onde uma delas, de fato, aconteceu.

Festa da empresa

dez 26

Toda empresa que se preze oferece ao seu empregado uma oportunidade singular: destruir a reputação do ano inteiro em apenas um dia, na festa de fim de ano da firma. Isso acontece porque o álcool é a mãe de todas as possibilidades. Algumas pessoas, talvez na carência de amor maternal, enxergam isso somente pelo prisma positivo e mergulham numa piscina que começa na euforia e termina no desgosto. Pois é, se você puder escolher entre tipos de ressaca, escolha sempre aquela que te faz vomitar.

Minha festa da firma aconteceu na longínqua área de Xerém, conhecida por abrigar um CT das categorias de base do Fluminense e por sempre inspirar a impressão de “caralho, que lugar longe da porra” nos habitantes cariocas. Nada contra, o longe para mim pode ser o perto para você (essa regra só não se confirma para Santa Cruz, Islândia e Netuno).

Pegamos nossos abadás para a festa, entramos em um dos ônibus e fomos felizes da vida para lá. Quando chegamos a Xerém, o motorista começou a vacilar quanto às certezas inexoráveis que todo condutor possui quando segue um itinerário, ou seja, ele estava perdido. Uma curva para lá, uma consulta no mapa para cá, e o motorista se achou. Imbicou nosso busão para um sítio, e todos ficaram felizes.

Um bando de pessoas de camisa branca, tal qual uma nação umbandista, desceu do ônibus para a festa. Reparamos que as pessoas do evento não estavam de branco e tampouco nos olhavam com alguma receptividade. O clima não estava ameno. Ficamos uns 30 segundos numa espécie de duelo psicológico com eles até percebermos que nós havíamos entrado na festa errada. Aquele era um evento de fim de ano do Banco do Brasil, e nós éramos 45 penetras perdidos e um motorista com orgulho ferido (motorista de ônibus errar o caminho deve ser como um jogador de futebol perder um pênalti).

Será que o PIB de Xerém cresce no final do ano devido a festas de empresa? Se no único lugar errado onde nos enfiamos já tinha alguma coisa, podemos esperar que a cidade seja um polo regional de festanças de firma.

Voltamos todos para o ônibus, e o motorista, na mais cristalina vibe de “quando se é mau fodedor, até o saco atrapalha”, pôs a culpa no mapa do convite da festa. Se ele tinha razão, somente os deuses do transporte e da cartografia poderão dizer.

Na enorme tenda montada para a solenidade havia uma infinidade de mesas, cadeiras, empregados e animadores de festa. É desolador ver o trabalho de um animador no início de uma festa; as pessoas estão sóbrias, portanto ninguém dá confiança para os pobres coitados. Isso me leva a crer que quando é uma festa adulta, a empresa de animação de eventos só aceita fechar contrato se uma cláusula indicar que haverá um tonel de birita por convidado. O lema das empresas de animação é o mesmo do que o da indústria pornográfica: “nosso trabalho é muito mais difícil no seco”.

Mas em duas horas, as pessoas já vendiam a dignidade por valores que as moedas ainda não conseguiram se rebaixar para alcançar. O cúmulo nervoso da coisa foi quando o animador (já fazendo valer o seu know-how de animação) propôs um concurso de dança cujo vencedor ganharia uma máquina digital.

Dois caras disputaram utilizando toda a falta de categoria que puderam reunir. Quando a contenda se encaminhava para o mais justo dos empates, o animador, sempre em consonância com os desejos de Lúcifer, sugeriu que eles se despissem, porque sempre há como penetrar mais fundo rumo ao núcleo terrestre da vergonha.

Apenas um teve coragem de ficar de cueca (ou sunga) no palco. Nesse momento, enquanto ele dançava “Na boquinha da garrafa”, eu pensava “sniper justiceiro, cadê você?”. Ele ganhou a tão sonhada câmera digital, e eu me perguntei o que eles fariam se valesse uma TV de led. Um pirocóptero com o pinto em chamas? Enfiar um punhal pelo cabo na bunda e fingir ser um abelhão? Tatuar o cólon? Graças a Deus eu fui embora na metade do evento.

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