por Pedro.

Sejam bem-vindos à peça A.B.Surdos 2. Por gentileza, desliguem seus celulares, seus Tamagoshis e genéricos como Raku Raku Dinokun e desliguem principalmente seus pagers. Aliás, quem aqui tiver Pager ainda, favor desconsiderar o pedido e ir embora imediatamente. Não dá para levar a sério alguém que ainda use Teletrim, pelo amor de Deus. Teletrim nada mais foi do que uma invenção da polícia secreta do Brasil para esmiuçar as mensagens dos cidadãos. Afinal, não sei se você lembra, tinha uma moça, sempre com a mesma voz, que anotava as suas mensagens e enviava para quem você quisesse… Uma loucura. Além disso, o número era gigantesco! Impossível decorar… E tem mais. Falar sacanagem por bip era impossível, a menos que o remetente fosse alguém muito sem vergonha.

-Teletrim, boa tarde.
-Boa tarde, eu queria mandar a mensagem para o número 566732889001232887
- 566 o que?
- 5667235…Merda, esqueci.
- Tô brincando, eu sei que é 566732889001232887
-Ufa!
-Pode falar. Qual a mensagem?
-Meu amor, estou estourando de tesão…
- Tensão?
- Não não, tesão. T-E-Z-A-O- Til
- Ah ta, tesão é com s, senhor.
- Ah, é com s? A gente está falando do mesmo “tesão”, certo?
- Sexual, né?
- Isso!
- Tá ótimo, pode continuar.
- Hoje é dia de fazer um amor gostoso. Ainda mais porque a patroa saiu, risos risos
- Risos risos?
- É! Bota aquele RS, é bacana, a galera ta usando.
- Tá, RS, RS.
. Te espero peladinho, todo besuntado de creme. Com amor, Nestor.
- O Teletrim agradece sua ligação, Nestor, boa tarde.

Agora que os malucos do Teletrim foram embora, continuemos. Já desligaram o celular? Tudo bem, a peça não começou ainda… Mas é pra desligar, hein? Aquele rapaz não te liga há seis meses… Ele não vai ligar na próxima hora… Se toca! Bem, a peça foi patrocinada por Coca-Cola, Nike, Mac Donald’s. Mentira, gente. A peça foi patrocinada por NINGUÉM. Proibida para menores de 12 anos, mas se você tem menos do que isso e pagou inteira, não tem problema, o Ciro Darlan não vai assistir à peça. Nem nenhuma autoridade… Nem a Barbara Heliodora… Acho que nem a minha mãe vai assistir… Eu espero que tenha alguém na platéia. Bem, se tiver, tenha um bom espetáculo. Agora você pode desligar o celular…

Pedro

por Fulana.
  • Uma vez estava meu ex, eu e o melhor amigo dele na casa dele. E eram 5 horas da manhã e o amigo não ia embora… olhei pra ele e disse: Tu não acha que está sobrando, não?
    O ex ficou sério e disse: Não fala assim com ele.
    Respondi: Tudo bem, então sou eu que estou sobrando, vou embora e tu come ele.
  • Bah, mas nem para quem te dá bola tu dá bola. Mas eu te entendo. Tu sente raiva das pessoas, né? Eu já passei por isso. A gente tem raiva dos amigos que dão bola porque eles enchem o saco e dos que não dão, por não estarem nem aí. Tem raiva dos bem humorados e dos mal humorados também. A gente não sabe nem porque, só sabe que tem raiva. De tudo e de todos. Te entendo.
  • Eu não entendo, meu namorado vem com uns papos de que quer ter seu espaço, não sei porque quer tanto ter um espaço. Os namorados das minhas amigas não tem espaço, o meu então também não tem que ter. Quer tanto ter espaço vira astronauta duma vez.
  • Agora as pessoas resolveram se invocar comigo porque eu estou gorda. Me param na rua pra dizer que eu estou gorda. Acho que não tô agradando, tô poluindo a cidade visualmente.
  • O amigo do meu namorado mostrou um vídeo pornô no celular pra ele e eu disse: Tu gosta de ver uma mulher dar pra outro? Vou dar pra outro então.
  • Eu não sabia que curso fazer quando sai do colégio mas minha mãe me pressionava a entrar na faculdade, daí eu pensei vou fazer letras então. Afinal sempre fui mal em português, nunca sabia quando as coisas eram com ‘z’ ou com ’s’.
  • Uma vez eu tava falando no msn com um guri que eu ficava e ele perguntou o que eu tava fazendo, disse que estava comendo pão com leite condensado e ele disse que também queria, eu falei: Vou dar pra ti - em uma mensagem e em outra: O pão.
    Ele disse: Tá bem
    Perguntei: Tu vai querer só o pão?
    Cheia de expectativa. E ele me responde: Não né? O leite condensado também, afinal não vou comer pão puro.
  • Falei uma coisa pra uma amiga e um guri olhou e disse: É né?
    Fiquei olhando séria pra ele como quem diz: Falei contigo?
    Ele: Tu é muito bonita, mas só vem falar comigo depois que tu emagrecer uns 7kgs.
    Respondi: Nem se eu engordar 15kgs vou querer falar contigo.

Obrigada.

Fulana

por Corra Mary.

“O Brasil é o único pais onde puta goza, cafetão tem ciúmes, traficante é viciado e pobre é de direita.”

Era época de eleição e Geraldo se levantava da cama com o suspiro de quem certamente não gostava da situação atual. Não digo situação do país, do estado, da cidade. Situação de ter que levantar cedo para escolher o próximo safado a se dar bem, enquanto ele continuaria a lutar e sofrer feito um cão para não chegar a lugar nenhum.

“Que bosta de lugar é esse onde eu sou obrigado a escolher entre o ruim e o pior ainda?” e Geraldo lavava o rosto para não assustar os mesários que de certo, não tinham culpa alguma e estavam numa situação pior do que a dele.
Ele não agüentava mais sua tia avô falando do filho da irmã da empregada que seria ótimo para o cargo. A verdade é que Geraldo estava cagando para isso, e não importava quem conseguisse, de qualquer maneira sua situação continuaria a mesma merda.

Geraldo não era do tipo revolucionário, não participava de passeata, não chorava pela vitória de um, ou derrota de outro, e procurava não pensar muito em tudo isso. Lotar sua cabeça de pensamentos estúpidos que iriam totalmente contra a natureza da ambição humana era burrice demais para uma pessoa como ele.

Geraldo era classe-média, e não era preciso muito realismo ou entendimento para saber que nada mudaria em sua vida. Político nenhum se preocuparia com a classe-média. Enquanto Geraldo pagasse suas contas, limpasse o cocô do seu cachorro, e não matasse a vizinha, estaria tudo certo.

Corra Mary

por Corra Mary.

“Somos criminosos, mas não completamente imorais.”

Minha vó casou com meu avô aos 16 anos. Foram morar numa casa com 5 quartos, mesmo sendo apenas dois. Com 20 anos de casados, vovô conheceu a moça da loteria. Ela não era melhor que vovó, mas mesmo assim ele a quis. Ele a quis tanto, que transpareceu para os filhos, os amigos e até para vovó. E mesmo depois de os encontrar juntos, vovó voltou para a casa e fez o jantar com o mesmo número de pratos de sempre.
Eles sentaram, comeram e sorriram como se tivessem acabado de se conhecer.
Passaram mais 38 anos juntos, e então ele morreu.
Depois de 16 anos sozinha, suas memórias de vovô já eram fracas, seu cheiro se perdeu pela casa, e ela já não sabia mais sem olhar para as fotos se a pinta dele era do lado direito ou esquerdo do rosto. Mas por 54 anos, não houvera um dia se quer, que vovó não lembrasse da moça da loteria e seus olhos castanhos, com a perfeita exatidão que só uma mulher traída poderia conseguir.

Posso até jurar que sua última imagem não tivesse sido vovô, e sim os enormes olhos castanhos. Isso é amor.

Corra Mary

por Corra Mary.

“Pain is temporary, quitting lasts forever

Por trás do que você não entende, há sempre o que você não consegue entender.
As atitudes de alguém não são malucas. Elas tem um propósito, um objetivo, e isso é sempre o que as move em direção à alguma coisa.
Achar que alguém fez algo incompreensível e dizer “eu o conheço, não sei porque fez isso”, é querer fingir que conhece o que não conhece. Você pode não saber, mas o outro com certeza sabe.
Às vezes as pessoas nos surpreendem. E esse às vezes, pode se tornar mais constante do que o agradável.

É tudo minimamente calculado, como num jogo de tabuleiro, cada movimento, cada (re)aproximação, não importando de quem forem as pecinhas que ficarão pra trás.

E sabe aquele lance de nunca dizer o objetivo para não estragar com as chances de consegui-lo?
Durante todo o jogo, as pessoas vão achando que o objetivo é o que não é, vão achando então que tem certeza do que nem imaginam que seja, e aquele peão colorido continua a ganhar casinhas, vai subindo, vai derrubando outros, e seu objetivo não é nem de longe, o que todos juravam que fosse.

Mas quem está aparentemente ganhando, lá na frente, num azar de dados, pode cair justamente na casinha que todos fogem, e se ver novamente de onde começou.
E se aquela casa existe, alguém uma hora cai nela.

E  correr o risco de cair um milhão de vezes de novo e de novo é desgastante até mesmo para o jogador mais experiente, e tudo isso dependendo apenas da sorte de um dado.
Nem sempre o 6 é a melhor opção. As vezes só o 1 já te salva.


Corra Mary